sábado, 12 de dezembro de 2009

Sugestões

Se o tempo continuar como está hoje, com um sol a valer, não muito quente, mas agradável, deixo aqui uma sugestão para um passeio familiar ou para um grupo de amigos: uma visita a Oliveira de Frades, ao seu Museu Municipal, porque vale a pena ser esmiuçado de alto a baixo.

Bem colocadas, as suas peças e obras entram pelos olhos dentro, constituindo uma saborosa viagem pela história e enografia locais.

Se vierem com tempo - e após um contacto com a Câmara Municipal, é quase obrigatório espreitar a Anta pintada de Antelas, provavelmente um dos maiores tesouros europeus de arte rupestre contínua e a resistir aos milénios, desde que o génio indecifrável dos nossos antepassados ali deixou aquele primor de uma dádiva que não tem preço: é simplesmente admirável.

Porque a cultura anda de mão dada com a gastronomia, se vier a uma sexta-feira, não parta sem degustar o mais regional dos pratos caseiros, um feijão com couves e carne de porco, no Restaurante Cantinho, na Feira, nesta vila, que faz voltar vezes sem conta para repetir a dose e levar para casa.

De ânimo cheio e estômago aconchegado, dê um salto ao Caramulo, passando pela Anta de Arca e pela aldeia da Bezzerreira, a beleza serrana, por excelência. Com essse vasto horizonte no seu olhar e armário de recordações duradouras, delicie-se com o magnífico Museu do Caramulo, convivendo com os automóveis de sempre, mas - importante e a não perder! - não pode ir embora sem se demorar na sua colecção de arte, desde a antiguidade ao presente-passado muito próximo, o de Picasso, por exemplo.

Um dia, ao regressar a estas paragens, vai descobrir mundos de encantar.

Tentaremos falar deles, sempre que a vontade de os desvendar nos invada o nosso canto das ideias a partilhar.

Quando vier, leva uma carrada de saudades.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Europa e Copenhaga

O meu Rio, o do Eirô, pertinho do A25, meio caminho entre Aveiro e Viseu - 40/40 Km - já mostrou que a tradição de haver cheias antes do Natal ainda anda a razar parte dos tempos de antigamente: dizia, no passado, que, para bem ser, tinha este de rebentar pelas costuras três vezes e trepar o Cortelho, galgar as duas pequenas pontes, fazendo-se ver e ouvir, como convém.
Este ano, já ameaçou uma só vez, mas, mesmo assim, muito longe dessas suas épocas douradas. Se assim é, anda mouro pela costa. É por este e outros motivos que estou a olhar para Copenhaga com esperança e sabida apreensão: se, por um lado, penso que dali, daquela Conferência, podem sair sinais que salvem, enquanto é tempo, o nosso planeta, por outro, receio bem que outros interesses mais imediatos, mais mesquinhos se sobreponham ao bom senso.
Dividido entre estes dois mundos antagónicos, o da crença no futuro e o da entrega ao abismo, por teimosia e descaramento, por desprezo para com os nossos vindouros, continuo vivamente expectante. Mas sinceramente céptico, tenho de o confessar.
Aqui, neste concelho de Oliveira de Frades, onde as energias alternativas têm campo largo e onde a Martifer diz como se devem escrever essas páginas, até já tive o imenso prazer de ver renascer, aí pela terceira vez, a Barragem de Ribeiradio, a que se acrescenta a da Ermida. Estes dois investimentos ficam a dever-se à acção da citada Martifer, de mãos dadas com a EDP.
Se assim acontecesse por todo o mundo, talvez este quadro negro de um ambiente desconjuntado e em farrapos nunca tivesse ido tão longe. É para travar este panorama que está a decorrer, em Copenhaga, este encontro mundial.
Com um novo Tratado de Lisboa já em vigor, com outras alavancas mais, bem pode ser que dali saia fum0 branco. Mas só se os homens assim o quiserem e, sem esse passo, nada feito.
Se ali persistir a cegueira, o meu Rio do Eirõ pode não encher pelo Natal.
Nem outros. Nem outros. Nem outros. Nem outros e muitos mais.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Uma nova Europa

Nem de propósito: depois de praticamente um mês de ausência deste recanto de reflexão e de exposição dos nossos sentimentos, o regresso dá-se no momento em que a União Europeia ganhou um novo fôlego, quando a República Checa, finalmente, acaba de assinar o Tratado de Lisboa!... Feliz coincidência, grande salto na vida de todos nós: esta é uma outra "Europa", aquela que se vai continuar a construir sob um manto diferente, talvez mais profundo, provavelmente mais a caminho de qualquer coisa de novo, novo, de certeza, mas desconhecido quanto baste!
Um baque no computador, que me era familiar, levou-me a esta fuga de contacto com o mundo. Como a minha mestria no manuseamento destas máquinas não é nada por aí além, aquela falta da caixa que tanto me tem acompanhado deu-me cabo da mioleira. Notícias, só aquelas que os outros me traziam, poucas descobertas por mim mesmo, a partir das teclas que agora tenho de novo à minha frente: ao ver que há Tratado de Lisboa, da nossa Lisboa, sinto-me um cidadão com sorte.
Nascido sete anos antes do Tratado de Roma e cerca de 365 dias a antecederem o Tratado CECA, nestas décadas, muitas, as mudanças apareceram aos trambolhões: vi juntarem-se países atrás de países neste imenso projecto comum, assisti aos tempos áureos da adesão de Portugal e da Espanha, vi cair o Muro de Berlim, senti a emoção de ver caminhar para aqui, para a UE, aquelas nações saídas do Império Soviético, admirei Jacques Delors, aprecio a força de Durão Barroso e, agora, vejo o nome da minha capital no edifício legislativo desta nossa Casa. Sou, na realidade, um europeu com sorte, porque vou ter a oportunidade de acompanhar uma ideia-obra que agora tem mais pernas para andar.
Que se vá em frente, assim o desejo!

sábado, 10 de outubro de 2009

Obama, Machado e as eleições

Com a atribuição do Prémio Nobel da Paz a Barack Obama, em sinal de reconhecimento e, mais do que isso, como um grito de esperança urgente e necessária, cumpriu-se um dever de cidadania: ao distinguir as convicções, mais do que a prática que ainda não teve tempo de fazer germinar uma nova ordem mundial, foi do futuro que se falou e foi do amanhã que se tratou. Se ontem vieram dos EUA sinais de desencanto, agora os sinos parecem entoar um cântico novo e foi esta esperada melodia que o Nobel da Paz quis significar.
Pesa sobre Obama uma outra responsabilidade, a acrescentar à luz que tem feito irradiar: este Prémio diz-lhe que o Mundo espera uma política nova, uma outra postura e um outro olhar. É isso que todos desejamos. Entretanto, meu caro Obama, os meus parabéns, idos de uma pessoa que tanto te estima e admira...
Mas, enquanto festejas este galardão, o meu amigo António Machado, que vive num recanto do mundo que os EUA nem sonham, à beira do Vau, limites de Oliveira de Frades, vive envolto no desgosto enorme de se ver acorrentado a uma pulseira electrónica, que lhe tolhe os passos e o entusiasmo, porque teve a pouca sorte de, há anos, quando o IP5 tinha alguns problemas, colidir com uma viatura de que resultou a morte de vítimas indefesas, que me merecem todo o respeito e consideração. Nesse dia fatídico, o azar, o terrível infortúnio bateu à porta de todos, nesse momento de dor.
Se a morte ceifou vidas, ninguém mais apaga a pressão que isso exerce sobre quem, ido na estrada, talvez tenha provocado - ou tenha sido interveniente nesse acidente -, o que muito o martiriza, sei-o eu de fonte limpa. Mas a justiça dos homens, ao condená-lo assim, mais agrava esse seu sofrimento, essa mágoa que, eternamente, lhe bate à porta.
Para o amigo Machado, vai o meu abraço de solidariedade e de muita amizade, sem pôr em causa a tristeza que, também imortal, se abate sobre os familiares das vítimas dessa dupla tragédia.
Ontem, quando nos cruzámos, nuns minutos de abertura das tão dolorosas restrições, bem me veio à memória o valor supremo da liberdade e da paz, que Obama tanto defende.
Por assim ser, falei hoje de Obama e do Machado, por mais estranho que pareça! Mas, na minha visão, uma e outra destas perspectivas se cruzam e se interligam.
Tal como a realização, amanhã, das eleições autárquicas que são um ponto alto na história democrática do meu querido país. Merecem, por isso, esta referência à parte e um desejo de que os meus compatriotas expressem, de viva voz, o que lhe vai na alma, votando.
Só assim se cumpre a cidadania e se constrói uma terra adulta.
E a minha já atingiu a maioridade, que quero, amanhã, ver fortalecida.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Luto por um amigo

Conheci o Eng. Falcão e Cunha em caminhadas jornalísticas e autárquicas. Habituei-me a estimá-lo e a admirá-lo, até por ser natural do meu distrito, ele de Mangualde, eu de Oliveira de Frades, duas terras unidas por outro traço comum: a industrialização a tempo e horas, ou quando tal foi possível e desejável.
Percorremos vários trajectos na companhia de outro amigo, infelizmente também já desaparecido: João Maia. Juntos, orgulhamo-nos daquilo que fizemos. Mas, no meu caso especial, em relação ao Eng. Falcão e Cunha, que agora nos deixou - o que lastimo e muito me dói - tenho de confessar que lhe devo um nó do então IP 5, hoje A25. Passo a relatar: essa via, em Reigoso, teimosamente, não previa qualquer ligação directa. Face ao descontentamento geral, estes três e muitos outros juntaram-se e o nó nasceu e cá está, forte, sólido, útil e importante, a servir duas zonas industriais e um montão de gente que muito agradece este melhoramento.
Mas, agora, depois de a notícia ter corrido mundo, via comunicação social, é a tristeza que me invade: o Eng. Falcão e Cunha morreu. Paz à sua alma e sentidos pêsames a toda a sua família.
Portugal está mais pobre. Mas a minha sede do concelho já o perpetuou para sempre, em rotunda que ostenta o seu nome, porque aqui a gratidão tem raízes e sabe honrar quem desta terra se não esquece.
Por estar de luto, eis aqui este desabafo. Dedico-o ao Eng. Falcão e Cunha, um amigo que perdi, um exemplo de homem que recordarei eternamente.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Belém: fumo houve, fogo não sei...

De vez em quando, nisto de eleições, saem umas pedradas, a meio do caminho, que podem ferir muitas e boas cabeças. Foi assim no passado, aconteceu agora e tal não deixará de suceder no futuro, citando La Palisse. A edição deste ano teve o seu epicentro em Belém e os estragos recaíram sobre um assessor (o fumo), não se sabendo a dimensão do fogo que por ali anda a corroer a mobília e a, talvez, abeirar-se, perigosamente, das pessoas.
Dissemos há dias que os tempos não iam bons. Descobre-se, com esta demissão, que o nosso medo tinha(tem) toda a razão de ser. Afinal, esse fogo, de que se não conhecem os contornos, nem está circunscrito, existe mesmo. Só que o Comandante-Mor das operações - por quem nutrimos uma enorme simpatia e nos inspira toda a confiança - não há maneira de desfiar a meada em que tudo sito se tornou. Diz querer fazê-lo depois das eleições, quando os cacos e os destroços já andarem por aí a carpir mágoas de todo o tamanho. Nessa altura, para uns será tarde demais, para outros, a saber a doce mel, teremos o tempo das palmas talvez não merecidas. Isto é, para sermos assim-assim, nem claros, nem obscuros: nesta contenda toda, há forças políticas que já esfregam as mãos e outras que começam de torcer as orelhas, mas é pouco o sangue vital que por ali corre...
Tal como outrora, por força de destinos que se escrevem sempre com vítimas e vitoriosos, desta feita também do agora Inquilino de Belém nasceu a sina já conhecida - a influência, quer queiramos, quer não, nos resultados eleitorais, prevendo-se, salvo algum forte vento contrariador, as mesmas tendências...
Esperando ainda algum esclarecimento adicional e tranquilizador, a minha esperança ainda não morreu, apesar de estar agonizante, entre a vida e a morte.
Mas, em tempo de vindimas, até ao lavar dos cestos temos safra.
A ver vamos...

sábado, 19 de setembro de 2009

Razões do meu descontentamento

Há trinta e cinco anos, em Moçambique, mais propriamente no M'Cito, acordei um dia, já depois de tal acontecimento, com um novo ar: ouvi falar de um país novo, senti-o pela Rádio, contactei com ele nos abraços de meus amigos. Adivinhava-o, desejava-o, mas ele teimava em não aparecer. Por isso, nesse já longínquo mês de Abril outras ondas me molharam os pés. Acima de tudo, passei a sentir-me um homem, um rapaz, até um militar, mais livre, mais cidadão. Descobri que a vida começava a valer a pena.
Sucederam-se os tempos, aos trambolhões, das escolhas, da caminhada até ao cimo das opções a tomar. Tudo aconteceu como que em catadupa, vindos de todos os lados os mais diversos contributos. Aceites uns, rejeitados outros, mais cedo ou mais tarde, tudo começou a encaixar-se.
Então, acreditei que o meu Portugal entrara definitivamente na modernidade política, que as disputas eleitorais eram razão de ser, que a luta pelo poder era necessária e séria, que a democracia, sim, a democracia chegara total, inteira, serena, exigente, indestrutível, participada de corpo e alma.
Ingenuidade minha: os contornos que hoje vejo a nascer de todos os lados estão a levar-me para o descontentamento, para o descrédito, inclusivamente. Isto de se falar em devassar poderes alheios, em minar os alicerces das instituições é mau demais para ser verdade.
Quero acreditar que nada do que se diz e se escreve tem correspondência com a realidade.
Quero. Mas tenho medo, muito medo que de que o meu querer de nada nos possa valer.
E, se assim for, não se calem as vozes, não. FALEM, FALEM, enquanto se está a tempo, porque daqui ao abismo, às vezes, bem pode ser curto o percurso a percorrer.
É mau demais o quadro que nos pintam.
Pede-se um esclarecimento calmo, mas seguro.
Pede-se, não, exige-se.