terça-feira, 9 de março de 2010

Adeus, Leandro

Escrevo-te esta carta, Leandro, talvez já um pouco atrasada, porque muito tenho sentido a tua falta, mas tive dificuldades em me dirigir a ti, assim na primeira pessoa, até por desconhecer a tua morada terrena, pois andas perdido nas águas do frio Tua. Sei apenas que estás em Bom sítio, que os miúdos, como tu, que tanto sofreram até chegar a este triste destino, bem merecem ir para o melhor dos lugares. É Aí que estás, de certeza.
Olha, fala-te quem vive no meio do sector do ensino. E, nesta hora, sinto-me muito mal, profundamento abatido: o meu sistema de educação falhou, porque morreu um de seus alunos, vítima duma crueldade pegada, que muito custa aceitar que ninguém tenha travado tais comportamentos absolutamente condenáveis.
Há responsáveis, de carne e osso. Nenhum deles pode descansar enquanto lhe pesar a dor de terem contribuído para que tu, caro Leandro, te tenhas atirado ao Rio.
Partiste. Deixaste-nos. Fizeste-lo, por estares abafado pela dor surda que te matou aos poucos.
A Escola toda, enquanto sistema, não pode estar também quieta e calada, como se nada tivesse acontecido. Ninguém pode atirar para canto. Ninguém, de Lisboa ao Porto, sem esquecer Mirandela.
Leandro, desculpa esta nossa falha colectiva. O teu e nosso país tem carradas de falhas e esta é uma das maiores: permitir que perdesses a alegria de viver aos doze anos é um horror que nos deve envergonhar a todos.
Perdoa-nos! Um abraço para a tua família e amigos.

sexta-feira, 5 de março de 2010

O "Público" e eu próprio

Estou velho. O cabelo, parte dele, já me tinha caído em barda. O bigode tinha flores de neve, menos que as actuais. O gosto por jornais, com tanta idade quase como a que hoje tenho, talvez fruto do saudoso "Século" que tantas vezes li na loja do Ti' Manel da Ponte, era já um soboroso vício, uma incorrigível mania. Lê-los tem muito de imperioso, de repentino e não há lugar que resista a um dessas boas leituras.
Algo exigente na sua escolha, passeio-me gostosamente pelo "Expresso", sinto-me em casa com o meu "Notícias de Vouzela", recordo o "Notícias de Viseu", o "Diário" da mesma terra, na sua fase inicial, versão Fernando Abreu, não esqueço ainda o "JN", do Porto, todos estes porque bastante de mim mesmo lhe dei ou continuo, com imenso prazer, a fazê-lo, ora como corespondente, ora como colaborador, ou, muito especialmente, como elemento de equipas que lhes deram ou dão vida...
O "Público" apareceu-me, no meu dia a dia, logo na sua primeira edição. Anos a fio, devorei-o, diariamente, sobretudo de 1994 a 2005, altura em que a Papelaria Albuquerque, desde a sua sede-mãe até à nova, aquela que escondia o "Avante" para o entregar aos seus sabidos leitores e, por entre dois dedos de conversa e uma sandes de bolos de bacalhau, algum tempo antes, o amigo Zé desfiava tudo quanto sabia em termos de novidades da terra - Oliveira de Frades. Com funções profissionais ali por perto, repito, obrigatório era levar sempre, debaixo do braço, o amigo "Público".
Hoje, comemora os seus vinte anos. Parece que foi ontem que o comecei a ler. Pela ajuda que me deu, bem haja. Pelo aniversário, parabéns!
É perfeito? Nunca. Também essa qualidade não é possivel, porque esse estado de vida nunca se consegue em qualquer obra humana - por isso mesmo. Mas tem sido um jornal do seu tempo, que agora povoa menos a minha sede de páginas com tinta que suja quase os dedos, porque o "I" veio, em parte, tirar-lhe essa primazia.
Mas, por ter vivido com ele intramuros, anos e anos, tenho pelo "Público" uma estima especial.
Longa vida lhe desejo. Muito longa, aliás.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Passos para Mudar

Não sei porquê, mas dou comigo a questionar-me sobre o actual momento político. Olho para o Governo e vejo, com tristeza e inquietação, que são mais as quezílias de meia tigela que as grandes linhas de rumo de que tanto precisamos, mais até para o futuro do que para o presente.
Viro-me para as oposições e também me não agrada aquilo que (não) oferecem em desejada alternativa. Pessoalmente, dentro do espaço político em que me revejo, pedem-me uma opinião e uma decisão: há dois anos, fui pela esperada segurança e conhecimento, pela maturidade e também pela novidade de ver uma mulher na liderança partidária.
Mas, pouco tempo depois, muito pouco, aliás, descobri que, de certa forma, me tinha equivocado. Como não podia voltar atrás, fui-me entretendo com o desenrolar dos acontecimentos, sem ver que se pudesse ir muito longe... A hora era de aguardar e fi-lo, serenamente.
Agora, na hora de se avançar para a busca de novos caminhos, apetece-me dizer que me inclino para ver ao leme deste projecto aqueles Passos que querem Mudar, porque temo, neste momento, as rupturas e também um certo ar de continuidade que, por outro lado, se vem anunciando. Na dúvida, sim, na dúvida, esta é a opção possivel, enquanto Cristo não descer à terra...
Sem essa miragem à mão, estes Passos parecem-me a melhor das três hipóteses.
A ideal? Não. Longe disso.
Mas é a realidade que tenho à minha frente... E por ela me deixo embalar.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Um abraço, amigos madeirenses

Estão-me no coração todos os amigos madeirenses que, comigo e com muitos outros então rapazes de pouco mais de vinte anos, partiram do GAAC e do BI 19 para o M'Cito, zona de Tete, para constituir a CCaç.4941. Antes, tínhamos vivido meses de formação naquela terra, um paraíso mesmo para um militar que ali fora colocado, transitoriamente.
Ao assistir ao drama que ali desabou, no passado dia vinte, vêm-me à memória tantas recordações, tantas emoções e, nesta hora negra, o turbilhão de dúvidas e incertezas, angústias e medos mais me atormenta. De toda essa gente e de seus familiares, nada sei. Espero que estejam todos bem e que saibam ultrapassar estas dificuldades.
Daqui do Continente, recebam um abraço solidário, tão forte quanto aqueles que sempre trocámos, lá longe, onde a chuva, que tamanha dor lhes causou, era, por ironia do destino, naquela altura, um dos bens mais escassos.
Ali, na via férrea da Beira para Tete, imperava o calor: o real e o outro.
É este, o outro, que aqui evoco. Com muita emoção, com enorme esperança.
Que estes dias de tristeza sejam, em breve, a outra parte do futuro risonho que a todos desejo.
Aos meus particulares amigos madeirenses, que tudo de bom lhes aconteça!
Àqueles que não conheço, mas que sinto como irmãos de sempre, os mesmos desejos e votos aqui expresso também, como é meu dever solidário.
Coragem, irmãos! Força! Muita força!

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Voar para a Madeira

Conheci a Madeira, enquanto ali prestei serviço militar em 1972. Foi terra que logo me encantou. Depois disso, por razões profissionais e outras, várias foram as vezes que me desloquei a esta Ilha. Do seu encanto, quase tudo está dito e nunca se conseguiu retratar, de corpo inteiro, tanta maravilha, tanta graça e tanta beleza e trabalho feito.
Mas o que muito nos dói, no dia de hoje, é a terrível tragédia de que está a sofrer. Muitos são os escombros e os destroços. Infinitamente pior - e sem qualquer remédio - é a onda de morte que acompanhou este temporal, ceifando dezenas de vidas e deixando muitas pessoas a caminho dos hospitais, segundo as últimas informações. As imagens que nos chegam mostram a dimensão de tão assustadora realidade e ainda se não descobriu tudo.
A Madeira está de profundo luto. A Madeira precisa da nossa generosidade. Voemos para ali, depressa, que aquela gente bem merece a nossa solidariedade.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

De um banquito para um cadeirão

Dizem que somos terra pequena, que não passamos de um qualquer torrão à beira-mar, mas daqui sai gente da alta, como se vê agora com a ida de Víctor Constâncio para a vice-presidência do Banco Central Europeu, o conhecido BCE.
Deixa assim de dirigir o nosso Banco de Portugal, mas não perde importância nem, talvez, proveitos. Se esses pormenores não nos importam, por cheirarem a buraco de fechadura, como alguém dizia há dias, o relevo vai todo inteirinho para esta escolha, que não pode passar despercebida a quem gosta de ser quem é: gente que se sente com aquilo que acontece a cada um dos seus compatriotas. E este caso de sucesso sabe bem reconhecê-lo, verdade seja dita.
Agora, daqui a meses, vai haver mudanças na grande casa do dinheiro português. O senhor que se segue é, para já, uma enorme incógnita. Eu não sou, de certeza absoluta.
Mas que vou estar atento, isso posso garantir. Fica, no entanto, uma sugestão: aproveite-se esta oportunidade para trabalhar com razão de estado aquilo que com o estado tanto mexe. Por qualquer prisma que o vejamos, mais social, menos liberal, mais regulador, menos controlador, o estado, o nosso, não pode ser deixado ao acaso nem ao capricho de ocasião. Pede-se uma outra postura: elevação, eis o termo que me ocorre, de momento.
A mesma palavra gostaria de a ver aplicada à adivinhada contenda que começa a estalar no PSD e já não é sem tempo.
Com três candidatos, pelo menos por agora, dirimam-se argumentos, mas preserve-se o essencial: eleve-se então o discurso, para se poder ver ao fundo do túnel uma qualquer alternativa, credível e apetecida.
É isso que se aguarda, tanto aqui na Vagueira, como lá em cima, na encosta da Serra do Ladário, terras de Oliveira de Frades, que ontem tiveram mais encanto com o manto de neve que as ornamentou.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Em plano inclinado

Até me tenho desviado de pegar nesta página da Net, a minha amiga de muitas horas, porque são pesados os tempos que estamos a viver. Aqui, no ponto em que a Serra do Ladário deve rondar os 400 metros de altitude, chegam dados de todo o mundo. O tempo de saber pouco, de acreditar em que a chuva e o sol eram universais em cada segundo, iguaizinhos nos seus efeitos em todas as partes deste mundo, já passou. O meu concelho, o de Oliveira de Frades, anda de ouvido atento e nada lhe foge. Nem este desconchavo de ver um país, o seu, a quase afundar-se nos leva a tapar os ouvidos e a cegar os olhos.
É triste o panorama que vivemos: ninguém acredita em ninguém, todos falam, não há razão alguma em qualquer das partes, advogados atiram-se a juízes e magistrados, estes dizem mal daqueles, e aqueles destes, os jornais divertem-se em minar tudo o que seja ponto de pólvora, a rádio e a televisão seguem o mesmo caminho, a voz pública anda desconfiada e, pior, muito pior do que isso, as carteiras estão cada vez mais vazias.
Na minha terra, vive-se com o credo na boca. Na estranja, os grandalhões teimam em querer deitar a nossa credibilidade abaixo, os ricalhões bancos falam já em encontrar meios de continuar a encher os bolsos, o governo local acena com um outro forte apertar do cinto - o do congelamento dos salários até 2013 - e, no meio de tanta gritaria, já se sabe quem vai pagar o maior quinhão da crise: o mexilhão, a arraia miúda do meu amigo Dr. Jaime Gralheiro.
Vem aí o Carnaval.
Máscaras?
Tenho que chegue. Esta, a da crise e dos desvarios que por aí abundam.
Mais?
Porra!... Nunca.