terça-feira, 16 de julho de 2013
Um Passos com passada difícil, escrito há tempos atrás...
Um Passos com passada difícil
Por mais que descortinemos, por mais que queiramos ser benevolentes com a realidade, esta apresenta-se-nos muito turba, muito trôpega, muito sem jeito nenhum.
Por mais que queiramos ver isto andar para a frente, há sempre uma pedra no caminho.
Por mais que nos esforcemos em encontrar um TGV, deparamos sempre com um pachorrento e velho Chelas do Vouga, que nem corria, nem estava parado: fazia de conta que comia quilómetros e Aveiro e Viseu estavam a horas de distância.
Por mais que atiremos as dificuldades pela borda fora, logo nos apoquentam, de novo, em força de ricochete, para nos dar cabo da cabeça.
Por mais que tentemos acordar sem novos cortes, temos a ingrata notícia de que algo de mal aconteceu, ou está prestes a rebentar. Ainda, há dias, ao aguardarmos uma grande poda nas despesas do Estado, anunciadas e prometidas, saiu-nos na rifa uma dose de impostos que nos deixaram de espinha partida.
Por mais que ouçamos as trombetas a indicar tempos difíceis e queiramos dourar essas mensagens, não somos capazes de o fazer.
Por mais que nos digam que há manhãs melhores, estas nunca mais vêm.
Por mais que, na Universidade de Verão de Castelo de Vide, essa educação sazonal e um local de estudo estratégico a nível político, uns mostrem, mesmo de dentro, (in)fundadas críticas e outros se sintam tentados a referir a proximidade de um sol mais quentinho, sempre nos surgem empecilhos que nos fazem recear o futuro.
Por mais que Passos Coelho se esforce – e tem-no feito – e por mais que vá a Espanha e Alemanha, cá, na sua terra, os passos são, cada vez mais, apertados, porque há a esperança de ver novas políticas e estas tardam a nascer.
Por mais que o Documento de Estratégia Orçamental e outros estejam bem elaborados e muito cuidadosos em prever o que irá acontecer até 2015, mesmo que aí se leia que se vai decrescer até 2012/2013 e reanimar, um pouco, nos anos seguintes (mas com o desemprego sempre a ameaçar-nos e a economia a não descolar), a grande parte das linhas apenas fala em feridas que, vindas de práticas tortas de muitas décadas, têm cura retardada, ou mesmo impossível.
Por mais que saibamos que uma banca sem poder financiar as empresas e os particulares é estorvo incontornável, por mais que os livros de economia acrescentem que o aumento exagerado de impostos mata essa galinha de ovos de ouro, potenciando a evasão fiscal, ao darmos esses passos a vida de Passos é cada vez mais difícil.
Por mais que se peça uma boa comunicação das mediadas tomadas e a aplicar, há sempre bocas a mais e estratégia concertada a menos.
Por mais que queiramos sãs políticas, logo vêm essas maldades das “escutas” a fazer-nos cair do escadote em que tínhamos subido para agarrar uma qualquer estrela de esperança, que foge ao primeiro assopro.
Por mais que apostemos em melhor educação, é com dor de alma que vemos que as mudanças são mais do lado da “expulsão” de professores que de outras viagens bem mais duradouras e mais profundas.
Por mais que desejemos ver uma outra justiça, tudo continua praticamente na mesma.
Por mais que toda a gente sinta que importa reanimar o tecido produtivo, este teima em desfazer-se e a não ser capaz de encontrar a forma de cultivar os campos, pôr as nossa fábricas a produzir, as lojas a vender, as vacas, de novo, a dar leite, o mar a trazer-nos peixe e é, pelo contrário, de encerramentos que as notícias nos falam.
Por mais seguras reformas que esperemos, as meias medidas não resolvem quase nada e os passos de Passos são cada vez mais difíceis.
Por mais que temamos, por outro lado, temos fé e estamos em crer que os passos de Passos darão frutos, mais tarde do que queríamos, mas ainda a tempo de evitar a catástrofe que todos repudiamos, mesmo aqueles que, ameaçando com a rua (e outros com “tumultos”, em linguagem de condenar), aguardam a oportunidade de, aí, mostrar a força que lhes falta no xadrez da Assembleia.
Por mais que nos queiram dizer o contrário, temos fé. Essa é que é a verdade que nos dá algum alento.
Carlos Rodrigues
quinta-feira, 11 de julho de 2013
Cavacada
Puxando de um cacete, Cavaco Silva nem precisou de o usar: deixando-o ficar a seu lado, as suas palavras foram mais do que pauladas em Passos e Portas, foram autênticos punhais. Ignorando as suas últimas propostas e juras de amor, disse calado a esse respeito, afinal, que deixou de lhe passar cavaco. E leu-lhe a sua própria cartilha: ou esta gente dos partidos se entende a sério, ou, subentende-se, dele mesmo pode sair um outro coelho de sua cartola, que este seu Coelho, pensou e não o disse, já deu o que tinha a dar. Com prazo marcado até Junho de 2014, só faltou esfolá-lo de vez. Mas está perto disso...
quarta-feira, 10 de julho de 2013
Grande festa, a da Nossa Senhora Dolorosa, em Ribeiradio
Nossa Senhora Dolorosa em Ribeiradio, 330 anos de festas
Para a grande romaria de Lafões, que é a festa de Nossa Senhora Dolorosa, em Ribeiradio, um evento religioso e profano que assenta numa longa tradição, muito contam as razões que, no entendimento daquele seu laborioso povo, são o suporte e origem destas comemorações: estamos a lembrar-nos dos «milagres» que levaram à extinção duma perigosa praga de gafanhotos e lagartos, em 1681 e à ultrapassagem das dificuldades de um duro inverno de 1706.
A partir destas duas vitórias, a festa cresceu a olhos vistos, dizendo-se no Santuário Mariano, obra do século XVIII, que ali afluíam multidões das redondezas e de muitos lugares distantes, incluindo o Porto. Eram enchentes atrás de enchentes, tal como acontece na actualidade.
Nesta terra, que serve de fronteira entre Aveiro e Viseu, entre Oliveira de Frades e Sever do Vouga, que teve vias de inegável sucesso, a ER 41/EN16 e a via férrea, e que hoje são uma saudade e uma dor, por terem desaparecido, ou perdido valor e importância, contam-se cerca de seis dezenas de povoados e nenhum se conhece pelo nome de Ribeiradio, pois que é aquele «todo» que assim se chama, em homenagem a um velho ídolo que por ali se fez notar. Dizem.
Mas, mais do que estas lendas, esse documento religioso, o aludido Santuário Mariano, reza assim: “… Aquele grande distrito da ribeira (no meio do qual) se vê o Santuário de Nossa Senhora de Lourosa (era deste modo que se designava)… foi antigamente a matriz de todas as freguesias vizinhas – Igreja de Santo Estêvão na vila de Couto de Esteves, de S. João Baptista de Cedrim e da de S. Miguel, aonde hoje pertence e é matriz…”
Mais adiante, acrescenta-se: “… As ofertas da casa da Senhora são do pároco, que é vigário porque os dízimos pertencem a uma Comenda… (Por ser) a melhor do bispado, a provêm os senhores bispos em pessoas nobres … Parece ao longe uma cidade, ou fortaleza inexpugnável… Na fábrica da Igreja se reconhece a sua muita antiguidade … (com) reparações em 1685/1688… “
Recua-se ainda bem mais no tempo quando se afirma que a Quinta de Lourosa foi doada a Pedro Forjás, em 1154, o que pode fazer supor um templo a remontar a esse período da Idade Média. Sem provas, para já, ficam estas referências como pistas ou suposições, mas não nos custa aceitar que assim tenha acontecido. Como quer que seja, 330 anos são passados sobre a tal praga de gafanhotos, talvez este um facto histórico e a raiz da imponente Festa de nossa Senhora Dolorosa, a maior de todas nestas redondezas.
No início do século anterior, em 1903, constitui-se a Associação de Piedade e Beneficência com o nome de Confraria de Nossa Senhora Dolorosa, aprovada pelo Governo Civil e Governo Eclesiástico nesse mesmo ano. Até o Sumo Pontífice, o papa Pio X, em 15 de Dezembro a vem consagrar.
No campo de tudo quanto representa para Ribeiradio a sua Festa, por excelência, que mobiliza todos os anos, dedicadas Comissões, entronca ainda a lenda da Pia Baptismal que, retirada dali, ali teve de voltar, sossegando-se depois. Lá em baixo, na Igreja de S. Miguel, não se dava bem. Dizem.
Com um Santuário, que foi objecto de grandes obras de ampliação e restauro há curtos anos, de inegável imponência, não podem esquecer-se a beleza da imagem de NS Dolorosa, em pedra de Ançã, os riquíssimos quadros, que, segundo consta, estão relacionados com o próprio Vasco Fernandes, o espaço e adro envolventes, o cemitério, a feira dos oito, hoje, um pouco mais longe e nos segundos domingos, o coreto, a Casa dos Arcos, etc. Nem a Banda Marcial Ribeiradiense nascida em 1890/1891.
Sendo esta freguesia conhecida pela sua dinâmica social e associativa (ver NV de há tempos), no plano religioso, temos a destacar estas capelas: S. Domingos, Cancela; Santa Ana, Souto Maior; Santo Afonso, Paredes; Santo António, Galegas; Santa Susana, Alagoa; S. Brás, Espindelo; Gruta do Anjo, Campanário. Como é lógico, não podem esquecer-se a Igreja Paroquial de S. Miguel e ainda um significativo Calvário, no lugar do mesmo nome, o Monte Cadafaz, as alminhas e tantas outras formas de religiosidade popular.
Com tantos motivos de interesse, o maior de todos está na Festa. Ir é preciso. E regalar-se com tamanho encanto de um vasto programa que a Salete Costa vai explanar.
Carlos Rodrigues
terça-feira, 9 de julho de 2013
O meu país está a ferver...
Em Belém, Portugal, ali para os lados da Praça do Império, que Deus haja, o sol aquece e a política ferve: de um lado, quarenta graus; do outro, a tormenta de quentes argumentos com cada participante a puxar a brasa a sua sardinha, querendo queimar tudo em seu redor. Num País assim a arder, não há Bombeiro que nos salve. A aparente acalmia que está, dizem, para aparecer, mas o Borda d'Água falha que se farta, fazendo eventualmente baixar as temperaturas, não as molda a nosso bom jeito. Nem nada que se pareça.Só que do lado de quem defende escaldões maiores também não vislumbramos melhor temperatura.
Olhem, do mal o menos.
Uma qualquer sombrinha sabe sempre bem. Nem que seja provisória e artificial. Como esta que nos está a calhar em sorte!...
terça-feira, 2 de julho de 2013
Um projecto na Vagueira com mensagem universal
Escreveu-se história ambiental na areia da Praia da Vagueira, no passado domingo, dia 30, entre o meio dia e as cerca das 17 horas. Mais de 2200 pessoas, com suas toalhas e vivo entusiasmo, participaram num projecto dinamizado pela Perlimpimpim e suas Fadas, que consistiu na elaboração de uma frase, com gente de carne e osso, que assim foi vista do céu e do solo e também do mar. Eis o que ali ficou registado e gravado para sempre: " AS FERIDAS DA TERRA NÃO CICATRIZAM COM INDIFERENÇA".
Estive lá. Com a família e amigos. Com pessoas que não conhecia de lado nenhum e que, comigo, viveram a festa, bateram palmas, fizeram as ondas à futebol, pularam, apanharam com um sol escaldante, provaram o bolo final, também ele à escala gigante, e, sobretudo, partilharam momentos de intensa cidadania, levando esta frase a correr mundo e a caminhar para o livro do Guinness, ao que sabemos.
Mobilizando vontades, esforços e dedicações, esta Casa de Chá, a PIM, foi tudo o que dela costumo esperar: um poço de cultura e de acção cívica, com todas as letras, até estas feitas na areia quente daquela imensa Praia que precisa da atenção de todos, porque o seu cordão dunar grita por "vida" e é esta que lhe queremos dar. Na biodiversidade, é a nós que cabe a grande tarefa de olhar por estas belezas da natureza. E a Vagueira, na hora da despedida daqueles milhares de pessoas, teve mesmo mais encanto.
Agora, que quem de direito olhe para esta acção e dela retire a lição que ela quis transmitir.
Nota 20, diz quem tantas notas já deu...
terça-feira, 25 de junho de 2013
Um hospital em S. Pedro do Sul
Um hospital que nasceu da oferta de António José de Almeida
Vimos, na crónica anterior ( 2011/12/29), que o velho Hospital da Misericórdia de Santo António de S. Pedro do Sul partiu da generosidade de um sampedrense, um dia – e por vários anos - emigrante no Brasil, que quis deixar uma marca relevante na sua terra. Se hoje há quem parta para poder realizar o sonho de poder ter uma casa sua, nessa época chegava a pensar-se mais alto, cumprindo até uma função que caberia a outras entidades, o Estado, em primeiro lugar. Mas temos de aceitar que há práticas que decorrem de uma evolução dos tempos e das ideias e esta da saúde e segurança social, para todos, tem apenas algumas décadas de existência e de acção no quotidiano da nossa civilização.
Com mãos de benemérito e uma razoável capacidade económica, conseguida num labor desenvolvido aquém e além- mar, no ofício de dentista e na gestão de um património imobiliário sempre a crescer, jamais voltou costas à sua terra: pensou nela, logo quando teve de regressar do Brasil, em virtude de uma grave doença, tal como então demos nota, continuou esse objectivo mesmo no momento em que, por força de seu casamento, montou casa e vida em Vilar, S. Miguel do Mato. Nesses tempos, poderia ter inflectido a direcção de seus investimentos sociais, mas não foi isso que aconteceu, mantendo-se fiel a S. Pedro do Sul.
Haveria de ser a sua nova Quinta da Negrosa a tecer as malhas de um destino feliz para os cidadãos da Sintra da Beira. Com esta propriedade como património, com os bolsos recheados, com uma vasta área e equipamentos, o Hospital não lhe saía da memória.
Na carteira de seus bens, temos terras em S. Pedro do Sul, Várzea, Baiões, Fataunços, Queirã, S. Miguel do Mato, Bodiosa e Sul, podendo ainda contarem-se foros remidos da Comenda de Ansemil e uma espécie de actividade bancária, que lhe rende chorudos proveitos.
Para aquisição da citada Quinta da Negrosa, pegou em 4 contos de réis, tendo de desta quantia pagar ao Seminário de Viseu 993000 réis e à Santa Casa da Misericórdia de Vouzela um valor de 1200000, por dívidas do anterior dono, o Conselheiro e Marechal da Campo Henrique de Melo Lemos e Alvim, a fazer fé no testemunho e sábia recolha de Manuel Barros Mouro.
Sobraram-lhe 1807000 réis, porque 4 contos equivalem a 4000000. Foi essa a verba com que partiu para esta generosa dádiva, acrescendo-se-lhe tudo quanto amealhara ao longo de sua vida e que era muito, segundo se deduz dos documentos compulsados e dos vazios que estes acabam por deixar. Se as linhas desses papéis são elucidativas, as entrelinhas “falam” também.
Fruto deste acumular de riqueza, por testamento, um outro de 19 de Novembro de 1873, cria uma Fundação (esta para viver por si mesma e não como aquelas que hoje por aí proliferam às custas do erário público!) que tem como incumbência a manutenção de um Hospital, sob a invocação de Nossa Senhora do Amparo, a instalar na sua nova Quinta. Como responsável por esta Instituição e valências, delega na Câmara Municipal, numa primeira fase, esse mesmo quinhão, sendo testamenteiros sua mulher, o irmão Joaquim, o parente António Oliveira Queirós e a referida Câmara Municipal, por esta ordem, respectivamente, a quem eram dados proveitos de cerca de 9000000 de réis, um colosso do fortuna.
Não satisfeito com estes destinatários, em 20 de Outubro de 1885, passa aquilo que pertenceria â Câmara para a Misericórdia de Santo António de S. Pedro do Sul, “única e universal herdeira com direitos e obrigações”.
Entra aqui uma ideia: a de que António José de Almeida só deu este passo quando sentiu que a Misericórdia estava legalmente constituída e sólida, o que se verificou em 17 de de Janeiro de 1875, quando o projecto de reforma dos seus Estatutos veio a ser aprovado, fruto, porém, do contributo de uma Comissão, vinda do ano de 1866, de que faziam parte os Drs. Manuel Correia de Oliveira e José Rodrigues de Figueiredo.
Dando-se o salto de Irmandade para Confraria, o Governo Civil dá o seu aval em 20 de Maio de 1876 e uma Breve canónica de 27 de Janeiro de 1880 acaba por considerar definitiva esta Misericórdia. A partir destas garantias, não havia razão alguma para ter a Câmara como intermediária. Aliás, é tal o seu desejo de vir a contemplar uma Misericórdia, que faz inscrever, a dada altura, uma cláusula em que se consagra a disposição de, no caso de S. Pedro do Sul não aceitar, tal herança reverter a favor das suas congéneres de Vouzela ou Viseu.
António José de Almeida pede muito pouco como compensação por esta sua benévola dádiva, porque se contenta com uma Missa perpétua, ao romper da aurora, na Igreja Matriz da vila, ou Capela do futuro Hospital. Porém, por força de diligências diversas, nem este seu desejo veio a ser concretizado: de 7 de Março de 1896, essa Missa transferiu-se para a Capela de Santo António, mas, em 7 de Fevereiro de 1905, o Bispo de Viseu, comutou-a apenas para os domingos e dias santos de guarda. Como já tinha falecido em 4 de Abril de 1889, não assistiu, como é lógico e óbvio, a esta alteração, mas a sua alma deve ter dado pulos de dor e revolta, pensamos nós, claro.
Em virtude de uma norma legal, após a sua morte, os bens foram arrolados para a Fazenda Nacional no dia 23 de Julho de 1889, três meses apenas depois de ter falecido. Mas este facto não retira uma vírgula à sua intenção e respectiva concretização. Também, no ano de 1890, morreria sua esposa, Maria Antónia de Jesus, que nascera em Vilar, S. Miguel do Mato, pelo que nem um nem outro puderam assistir ao momento em que se viu florescer tão significativa oferta.
Com as obras a decorrerem, em termos de terraplanagem, desde 27 de Outubro de 1885, mediante uma decisão do Provedor José Correia de Oliveira, não no local que lhe estava destinado, por falta de área da Quinta da Negrosa, mas numa outra, entretanto adquirida, mediante autorizações que permitiram esta mesma permuta, em boa verdade o Hospital só começou a ter vida, como edifício, em 10 de Março de 1892.
Assim, nesta mesma data, é posto a circular o projecto e planta desse edifício, sendo seu autor José Luís de Almeida, o que faz deduzir que as obras em força só nessa altura se iniciaram, mas o certo é que o Hospital nasceu e cresceu, mercê deste acto generoso de António José de Almeida.
Contrariando esta informação acerca da autoria do projecto, ou ampliando-a, uma outra fonte, lida em “Lafões, terra e gente, Avis, 2008”, onde muito colaborou o saudoso amigo Júlio Cruz, vem dizer-nos que, afinal, tal documento se deve ao Eng. Francisco de Figueiredo e Silva, de 31 de Dezembro de 1891. Seja. Um novo dado aí nos é relatado: o Hospital, de invocação de Nossa Senhora do Amparo, foi aberto ao público no ano de 1900, dizem uns, alegam outros que tal aconteceu em 1902.
Ficando esta dúvida, uma certeza é incontornável: S. Pedro do Sul teve um Hospital que foi pensado e oferecido por um grande benemérito – António José de Almeida.
Desse gesto, nada resta, que o Centro de Saúde veio apagar tais vestígios. Mas reza a história que a sua memória não pode ser esquecida. Agora, que lá mais além, desponta uma nova Unidade de Saúde, feita com dinheiros públicos, saber que, há mais de cem anos, houve homens desta dimensão, que muito deram de si para um investimento a oferecer à sua terra, é algo que importa ter sempre presente.
Perpetuar este legado é um dever de consciência e de gratidão. Divulgá-lo também. Foi isso que acabámos de fazer.
Carlos Rodrigues
segunda-feira, 17 de junho de 2013
Homenagem aos pastores da Serra da Arada
Ainda há pastores como antigamente, na Serra da Arada
No sábado à tarde, pus-me a escalar as Serras de S. Pedro do Sul e de Lafões, com um propósito claro: rever maravilhas de encher o olho, de deixar a alma satisfeita e em delírio, sorver pedaços de uma terra – a nossa – que tem sempre mais e mais a dar-nos.
Partindo de Oliveira de Frades, dei de caras com o Rio Vouga, lá em baixo, naquele recanto de beleza, Sejães, que se passa devagar, para melhor saborear o que nos entra pelos olhos e ouvidos dentro, como sejam a riqueza verde dos montes e o sussurrar do Rio, que ali até parece falar. Trepada a encosta de Valadares, já em pleno concelho de S. Pedro do Sul, mas sempre de olhos postos em Oliveira, vale a pena parar, que aquela varanda de casario e canteiros trabalhados, quase ajardinados, virados a sul, bem merecem uma atenção especial.
Cruzada a estrada do Porto, via Serra, como antes se lia no centro da agora cidade sampedrense, quando se sobe em direcção à mágica e mítica Manhouce, que vozes de ouro têm vindo a globalizar e a divulgar, sem muros e sem constrangimentos, porque há ali cultura, um grito de dor começa de nos invadir: o monte depenado, ressequido, empobrecido e enegrecido por incêndios de anos e anos, uns atrás dos outros, sendo que o mais recente, o de 2010, deixou rastos de destruição e de morte, como, aliás, já acontecera, aqui há uns tempos, no Preguinho de triste memória, tudo isto pede uma reflexão profunda.
Durante quilómetros, o que ressalta é esse infortúnio de áreas e áreas destruídas, sem cor, sem a força verde da sua pujança de outros tempos, convidando-nos sempre para a lembrança de um mundo e de uma época em que estes valores, ao perderem-se, são tesouros que não voltam, ou demoram décadas e séculos a serem, de novo, aquilo que têm por missão e grandeza vir a constituir no diálogo homem-natureza.
Paradigmática deste quadro de entristecer é, por exemplo, a aldeia de Vilarinho do Monte, a da Casa dos Caçadores, onde as labaredas não deixaram de se encostarem às casas e às propriedades agrícolas, num cenário desolador.
Apesar de assim ser, uma manada de pachorrentas e educadas vacas, daquelas civilizadas, que, devagar, se encostam para permitir que os carros sigam o seu destino, que ali vinham sem “doeiro”, vieram dizer que o milagre da vida não se desfaz assim do pé para a mão: vontade e resiliência é o que por ali se vê, desta forma emblemática – gado a descer a Serra é sinal de uma teimosa e salutar dedicação à causa de salvar aldeias e enriquecer Portugal.
Mas o melhor ainda estaria para vir, lá mais para diante, depois daquele vetusto, mas pequeno planalto, que tem vida, turismo organizado, Parque de Campismo, uma outra terra que tem nome de espaço de caça, a Coelheira e que, acima de tudo, levou a que, à nossa frente, um imponentíssimo rebanho de cabras, 830 (oitocentos e trinta, mais coisa, menos coisa ) animais, nos tolhesse o passo, que o reino era delas, que não nosso.
Lá no alto da Arada, um dia e outro, têm a sua ração mais que perfeita – aquilo que o monte, generosamente, dá e os homens aproveitam. De cinquenta anos de idade, naquela tarde de sábado soalheiro, por ali andava um pastor dos tempos modernos, mas à boa maneira de antigamente, de seu nome António Joaquim Tavares Coelho. A ele e a seus pares se deve o certificado Cabrito da Gralheira, aqui da Arada, mas isso pouco importa. Mochila às costas, já não o velho bornal, boné e bom agasalho, pau na mão, cão ao lado e outros ao longe, não vá o diabo tecê-las, eis o pastor-empresário.
É assim mesmo: com origem em Ponte de Telhe, Moldes, do vizinho concelho de Arouca, adquiriu, em 2001, este rebanho e com ele faz vida económica e familiar. É a sua empresa e o seu gostoso trabalho, que completa com as demais lides agrícolas, repartindo tudo isto com a esposa, Olívia de Jesus Duarte Coelho e que mostram, em cada fim de semana, aos babados filhos, genros, noras e netos que não se esquecem, em geral, de ali fazer a escapadela semanal, numa aldeia, Arada, onde já não há mais ninguém. Todos partiram. Vieram estes “colonos” em compensação.
Com o apoio comunitário, cerca de 25000 euros por ano, que tem de manter durante um lustro, com os cabritos que vende, que cabras tem, na ordem das três centenas em cada 365 dias, quando a “caipora” não estraga os planos, como aconteceu neste ano de neve, em que se perderam 90 dos 140 que nasceram, assim faz o seu pé de meia e paga as despesas, como homem de bem.
Se cabrito criado é sinal de dinheiro em caixa, que o escoamento está assegurado para talhos e restaurantes, ninguém avalia, a sério, a dureza das suas funções. A par do pastoreio quase diário, salvo quando é substituído, ainda tem de amamentar as crias, a biberão, nos primeiros tempos, limpar os pavilhões e “fazer” as terras. Não há, por isso, descanso e, pensamos até, que se daria mal com ele.
Sempre com um olho no rebanho e outro nos sonhos de uma vida que se escreve em plena Serra da Arada, dói-lhe a vinda dos lobos, em dias de cerrado nevoeiro, que já lhe levaram 13 princesas, a acrescentar àquelas que o fogo do último Verão lhe devorou, cerca de 25. Mas não tem no seu dicionário a palavra desânimo, nem preguiça, este António, de Moldes, que vive agora em Arada e mudou de vida há quase um década: fez-se pastor, o que permite dar ao cabrito da Gralheira um lugar de destaque.
A seu cargo, acolhe 830 cabras e afins, que o recato de linguagem assim nos obriga a falar. Com este encontro inesperado, até aquelas Serras, nuas e negras, parece que tiveram o seu mágico encanto. Parece. Mas falta-lhes qualquer coisa – o verde das árvores, o cheiro a rosmaninho, o pico dos tojos e o encanto da carqueja. Mas ainda há pastores como antigamente. E isso é que é importante, sem dúvida.
Carlos Rodrigues
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