sábado, 21 de junho de 2014

A minha homenagem a um Amigo que a morte levou - Dr. Jaime Gralheiro, em trabalho feito para o "Notícias de Lafões", 2010

Dr. Jaime Gralheiro com o teatro na vida Com este formato de crónicas, esta é a segunda vez que me encaminho para aqui com uma ideia: continuar a descrever a vida e a obra do Dr. Jaime Gralheiro, ficando já com pena de não me deixar ( en)levar por tudo aquilo que me apetece escrever. Sei que este nosso amigo tem no coração um seu forte aliado. Isso sei eu. Mas, em matéria de propósitos, como este que nos anima em “NL”, precisamos também de deixar espaço para a razão. Assim, vamos contentar-nos (?) com as migalhas que por aqui espalhamos, nestes dois números e deixar o sonho para outras alturas… Numa carreira, dito de uma forma mais poética, numa entrega às letras, este nosso conterrâneo, filho de gente que não soube conformar-se com aquilo que lhe calhou em sorte, quando viu a luz do dia na citada Serra de S. Macário, antes a agarrou com ambas as mãos, pelos tempos fora, fez do teatro uma arma e da advocacia uma forma de sustento. Aliás, Erwin Piscator defendeu, a certa altura, que esta arte “…não se pode limitar a produzir no espectador um efeito puramente artístico, ou seja, estético (…) tem por missão intervir de uma maneira activa no curso dos acontecimentos…” Não sei se esta voz se fez ouvir em S. Pedro do Sul, mas o certo é que aqui se encaixa às mil maravilhas. Se os pais, D. Maria da Piedade de Almeida e Agostinho Gaspar Gralheiro o dotaram dos meios que lhe permitiram ser quem é, sendo que seu pai soube passar por um armazém de vinho e pelos comboios, antes de enveredar pelo mundo do subsolo carregado de minério, desde que foi capataz na Companhia Portuguesa de Minas até se tornar um empreendedor de sucesso na mesma área, o filho, este, o Jaime, escavou outras partes do globo da vida: revolveu as leis, carrilou-as para os tribunais e, simultaneamente, pegou nas letras para as transformar em peças de ouro, que não apenas de volfrâmio. Ao aflorarmos pela rama o seu legado, que ainda virá a crescer, dissemos que se iniciou nos bancos do liceu. Mas a sua entrada em cena, de uma forma mais assertiva, deu-se em 1967, com três canteiros de rajada: Paredes Nuas, Belchior e Ramos Partidos, em edição de autor, o que mais vinca a sua fibra de lutador. Por serem sábias as linhas que se seguem, vindas de Deniz-Jacinto, no respectivo prefácio, oferecemo-las aos nossos leitores: “ As três peças do presente volume, diferentes embora na sua tessitura dramática, tratam, em última análise, de um mesmo problema – o problema da liberdade do indivíduo perante as inibições ou constrangimentos impostos pelo meio social (…) Não nos admiremos destes excessos. Jaime Gralheiro é um dramaturgo em carne viva, dotado de uma capacidade de indignação que o leva ( advogado de profissão e de gosto ) a pleitear, em plena acção dramática, a causa humana das suas criaturas…” Era o ano de 1967, antes mesmo da era Marcelo Caetano. Fica isto dito, sem mais nada. Ponto. Nessa espécie de começo, lia-se assim a sua obra em maré de um primeiro parto mais oficial e destemido. Em catadupa, as ruas e avenidas de S. Pedro encheram-se de seus escritos de intervenção, sobretudo. O Cénico foi o palco vivo, por excelência desde 1971, fruto duma parceria de quatro rijos costados, com destaque para este autor, que aqui retratamos humildemente, e para José e Manuela Barata. Casa bem estruturada e com alicerces de boa rocha, granítica, de certeza, ainda hoje se mantém de pé. Honra lhe seja. Como filha de uma revolução que lhe encheu a alma, “Arraia-Miúda” foi cálice dourado e a espalhar-se por este Portugal além. Amante da nossa cultura e história, dando-lhe um toque especial e um tanto a gosto, nela evocou a veia popular de Fernão Lopes e a Revolução de 1383/1385, reapreciada e represtinada à luz de 1974. É seu este desabafo: “… Ao escrevê-la, pensava na luta que o Povo (sic ) português tem vindo a desenvolver pela sua libertação, ao longo de quase novecentos anos de nacionalidade …“ Era o ano de 1975, está dito. Ponto. Se são riquíssimos e multifacetados os seus já oitenta anos de vida, mormente a nível político activo e empenhado, carregado de causas de que não abdica, não é bem essa a dimensão que em Jaime Gralheiro estamos a enfatizar. Dessas múltiplas passagens pelo conturbado mundo da política e da barra dos tribunais não há, por certo, lafonense que desconheça esses factos. Nem, talvez, aquele que, enquanto Presidente da Comissão Administrativa de S. Pedro do Sul, aliás o primeiro, o levou a fazer rasgar o estradão pela Serra abaixo, em direcção a Covas do Rio, para quebrar o isolamento e abrir novos horizontes àquelas gentes, o que motivou uma viagem festiva de helicóptero por aqueles céus, em que eram passageiros, entre outros, o Pároco e a Professora Primária que ali exerciam funções nesse ano de 1975. Seguramente não são estes os caminhos que pretendemos desbravar. O que nos fez pegar neste tema tem mais a ver com a galáxia da cultura e essa muito deve ao Dr. Jaime Gralheiro. Se nada fora dito, bastar-nos-ia afirmar, porque aqui só defendemos a verdade e só a verdade, que o seu labor literário já despoletou dissertações de Mestrado e, inclusive, uma tese de Doutoramento na Universidade de S. Paulo - Brasil. Marinheiro, capitão e arrais em “ Na barca com mestre Gil ”, eis outra de suas privilegiadas fontes, que casam, a preceito, com seu feitio e maneira de ser. Esta sua veia jocosa, matreira, eivada de sentidos vários, não passa despercebida. Bebida em Gil Vicente ou nas nossas terras, pouco importa. Não sabemos até onde foi buscar tanta criatividade, mas esse é que é o mistério - t’ arrenego, demónio, que isso de cousas d’além não é conversa que se tenha com este Jaime! – e mais me aguça o apetite para tentar aprofundar estes projectos… Quando, por exemplo, escreveu “ O grande circo ibérico “, que passou na Amadora, em encenação de Porfírio Lopes e produção de Cláudia Fernandes e Isabel Torres, parece-nos fácil o chave do enigma. Será essa, a óbvia, aquela que temos debaixo da língua, ou outra qualquer? Fica a incerteza. Em dúvida não ficamos, se olharmos para “Lafões é um jardim”. Tradição e actualidade ali deram as mãos. Mas o que pensar de tão vasta obra, a que se junta agora a prosa, com edição de 2009, do seu grande livro “ A caminho do nunca … “? Se aqui é a Coimbra das contestações, é o reviralho que se agiganta, é a luta política clandestina, é a voz das fábricas e dos sindicatos, fica sempre algo por desbravar. Ainda bem, porque abre caminho a muito mais pesquisas e isso só enriquece quem é estudado, neste caso e com muita alegria nossa, o Dr. Jaime Gralheiro. Com cerca de duas dezenas ou mais de peças escritas e, mais do que isso, apresentadas ao público, não se pode, neste curso espaço jornalístico, abordá-las todas. Longe disso, claro está. Mas este guião, mal alinhavado, aliás, talvez seja o meio que leve a uma busca mais detalhada e mais profunda. Sentir-nos-emos imensamente satisfeitos se isso acontecer. Antes de fecharmos este trabalho, evocamos “ Onde Vaz, Luís?”, “Auto da Compadecida”, “Sapateira prodigiosa” e tudo quanto a sua fértil imaginação e espírito criativo pôs ao nosso alcance. Este Dr. Jaime Gralheiro, dramaturgo, prosador, advogado, ex-autarca, ex-candidato a deputado, jornalista, amante da serra e do mar, de S. Pedro do Sul e da Barra, provou-nos esta verdade insofismável: em Lafões pode viver-se, fazer-se carreira profissional e cotar-se entre os homens grandes da literatura nacional. Eis mais uma de suas excelentes lições e uma brilhante alegação final. Finalizamos com o diálogo do Soares ( não aquele que, um dia, talvez o tenha feito votar de olhos vendados, mas um outro, uma das personagens de “ Paredes Nuas “). Deixava ele, a certa altura, este desabafo que serve, praticamente, de encerramento a esta crónica: “ … Olhe, a coisa é simples: lembra-se daquela conversa que tivemos sobre as suas manias literárias e de me ter emprestado, até, aquela peça de teatro que você escreveu, a «Cacilda», claro que lembra!... Pois eu levei-a, como sabe, e, nas horas vagas, fui-a lendo e botando cá as minhas contas. Quando cheguei ao fim, devo dizer-lhe que tinha gostado, mas a valer! Hem!... Também é verdade que eu, de teatro, não percebo nada. A gente mete-se nesta pasmaceira e cristaliza!... “ É óbvio que este Soares, personagem, falava de si, nunca de Jaime Gralheiro. Este Senhor sabe disto como ninguém. Obrigado por tudo quanto tem feito. E continue! Um abraço! Carlos Rodrigues

A morte levou-nos Jaime Gralheiro... Assim o retratei em 2010, no "Notícias de Lafões"

Dr. Jaime Gralheiro, um poço de energia I – O rapaz da Serra de S. Macário Lá no alto, o S. Macário, com réplica carinhosa e em diminutivo alguns metros abaixo, marca a cadência das vidas das gentes da Serra que neste Santo colheu o nome. Herói das brasas, deu o mote para projectos pessoais que se revestiram de um grande calor pessoal: o Dr. Jaime Gralheiro, por certo, pescou neste lume o seu próprio fado. Quente nos afectos, carregado de fogo nos pleitos judiciais – fujam adversários, que aí vem o Jaime! – e sempre em cima de tudo quanto seja assunto social e político, este advogado e autor teatral tem tudo para não mais ser esquecido. Lafões tem para com ele uma eterna dívida de gratidão cultural e a muitos outros níveis. É por estas e outras razões que o «Notícias de Lafões», por este meio e este interlocutor, aqui lhe consagra duas crónicas, esta e uma outra. Habituei-me, desde menino e moço, a ouvir falar neste Senhor. Vivi, inclusivamente, em casa de seus familiares, por afinidade, em Ribeiradio e tive em seu tio, o Dr. António Pessoa, que lia a “República” com devoção e convicção e ma cedia, diariamente, em grata recordação que aqui evoco, um grande amigo, o que mais fez vir à mesa o exemplo batalhador do causídico de S. Pedro do Sul, que fazia do escritório e das casas da justiça as suas espectaculares tribunas. Conhecia-lhe, ainda, a veia artística e, meio em surdina, também vinham ao de cima as suas opções políticas, estas contadas no canto da Farmácia, ou atrás do balcão onde eu vendia de tudo, desde um copo de tinto a um bocado de sabão, um quarto de litro de azeite ou petróleo, meio Kg de carboneto, um metro de fioco, um pacote de açúcar em cartucho fechado à mão, com um peso acrescido, no fundo, de uma massa-cola meio farinha, meio qualquer coisa que nunca percebi, ou mesmo dez réis de amendoins em pacote cónico que aprendi a produzir enquanto o diabo esfregava o olho. Foi desta maneira, desde 1962, mais ou menos, que o Dr. Jaime Gralheiro me começou a visitar, despertando sempre visível interesse. Encontrei-me, depois, muitas vezes com ele, chegando a partilhar projectos e ideias comuns, na oposição ou já depois do 25 de Abril, quando, regressado eu do serviço militar em Moçambique, me vi a dar os primeiros passos num jornal a que ambos estivemos, com muitos outros cidadãos de Lafões, amplamente ligados – o “Vouga Livre”. Como o sol não aquece todos da mesma maneira, chegou o momento em que enveredámos por caminhos diferentes. Mas houve um tronco comum que sempre me ficou: a amizade e a consideração por este grande Senhor. Nascido em Macieira, freguesia de Sul, por ali calcorreou os trilhos de uma Serra que a todos encanta. Creio que aprendeu de cor os seus penedos, os seus regatos, fontes, moinhos, currais de gado, casas e casebres de Sul à Santa Mafalda de Arouca, sem esquecer, como é previsível, a vila que ficava lá tão longe, onde o seu Rio Sul se fundia com o Vouga, dando nome à actual cidade – a de S. Pedro, que fugiu das montanhas e rebolou pelas águas abaixo… Conviveu com as minas, viu no volfrâmio o ganha-pão de seu pai, que, por isso, lhe permitiu voar para Lamego e Porto, onde aprendeu as letras do 1º ao 7.º ano do liceu, antes de entrar na Faculdade de Direito de Coimbra, aí concluindo o seu curso com a menção de bom. Amigo da boémia, quanto baste, foi rapaz das Repúblicas, mexeu com a malta e vivência académica, leu sebentas e livros, bisbilhotou as meadas da política, animou a agitação febril daqueles tempos e costumes, enfim, fez os alicerces do futuro cidadão e advogado que às causas da vida haveria – e continua a fazê-lo, entre a Barra e S. Pedro – de consagrar os seus dias. Se o escritório ( ali a dois passos dos Paços do Concelho, em boa vizinhança, crendo que entremeada de muita crítica, sobretudo antes do 25 de Abril e após essa data, sempre que lhe subiam os azeites), era o palco profissional, nada disso lhe tirava o gosto – que felicidade para todos nós! – pelas letras, pela bicada social, pela tirada política. Ao iniciar a carreira artística logo nos bancos liceais, é no Colégio João de Deus, no Porto, que faz desabrochar a sua primeira obra, assim começando a enorme sementeira de peças teatrais com “ Feia”, 1949. Contam-se às dezenas os trabalhos que o seu labor e a sua capacidade criativa foram dando à luz em partos sucessivos, normais talvez grande parte deles. Em cada uma dessas produções e não é difícil descobrir tais notas, de imediato ressalta a escrita agradável e o tom de crítica social, suportes desses nacos da nossa dramaturgia, muita dela de ridente e cáustica veia vicentina, em estilo e conteúdo. Alvo privilegiado das canetas azuis da antiga e nefasta censura, o Dr. Jaime Gralheiro era mestre em fintar esses cortes, mas nem sempre a habilidade demonstrada levava a água ao seu moinho. Quando assim sucedia e o caldo se entornava, aceitar era o remédio tomado a muito contragosto e com um sorriso sarcástico, dorido, mas mesmo assim de orelha a orelha. Cá para nós, em seu vigor e estirpe lutadora, não demorava muito a deixar fugir uma ideia muito sua, sinal de uma fortíssima personalidade: se assim mas fizeram, assim mas pagam!... Nesta carreira brilhante, que o levou às bancadas da Sociedade Portuguesa de Autores e aos vários prémios e distinções, é vasto o campo onde podemos fazer robustas colheitas. Com apetite especial por toda a sua obra, muito infelizmente ainda a não conheçamos ao pormenor, debruçar-nos-emos, prioritariamente e por motivos que têm a ver com a necessidade de seleccionar e escolher, sobre aqueles temas que mais estiveram na berra, ou mais tocam a nossa terra, como sejam as peças “ Arraia Miúda “, ou “ Lafões é um jardim”. Se o teatro tem sido a sua consagração maior, também a prosa lhe não escapou, como se pôde ver ainda muito recentemente. É disso tudo que vamos falar daqui a dias. Mas seria erro imperdoável se não disséssemos que esta figura pública da nossa cultura e da nossa vivência social também deu notáveis contributos à política em geral, ao poder local em particular, à comunicação social, à animação de eventos, até por ser um comunicador nato e por excelência, e, muito especialmente, a essa grande Instituição que é o Cénico – Grupo de Teatro Popular, de S. Pedro do Sul. Com tão apreciável “curriculum”, difícil é saber por onde continuar. Mas é isso que faremos, então, em próxima ocasião. // Carlos Rodrigues

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Campeonato do mundo e cá por casa

Nos EUA, a nossa equipa de futebol nacional prepara o Campeonato do Mundo, no Brasil. Saiu de Portugal mas encontrou-se, à mesma, com o país que somos. E Ferrystreet diz tudo. É um pedaço de nós a dois passos de Nova Iorque. Boa sorte! Mas, por aqui, o campeonato que chega a Oliveira de Frades, ao fundo da minha Serra do Ladário, é bem outro. Enfrentam-se duas aguerridas equipas, o Governo e o Tribunal Constitucional, que joga e arbitra ao mesmo tempo. Neste momento, há 0-1, com o TC a levar vantagem. Está aquela gente no intervalo. Entretanto, deu-se um salto ao Parlamento, com uma queixa de secretaria. È isto, é o "futebol" total. E a malta que espere nas bancadas, com uma lágrima ao canto do olho...

terça-feira, 3 de junho de 2014

Um passeio por Arca e Varzielas

Arca e Varzielas, enclave, lindo enclave Em plena Serra do Caramulo, as freguesias de Arca e Varzielas combinam o lado agridoce próprio destas paragens com o apetite pela arte que seus obreiros tiveram quase sempre em linha de conta, desde a pré-história aos dias de hoje. Partindo de baixas altitudes para os pontos mais altos e indo de Adside (Campia-Vouzela) para cima, logo nos aparece a aldeia do Covelo, aninhada em redor de um marcante machoco de casas, que se espraia um pouco pela estrada fora e pela encosta acima, rumo ao Areal. Notando-se uma forte vocação agropecuária, os seus solos mostram-se bem dignos do uso que ainda lhes dão. Ricos, estão agora cobertos de erva verde e vivificante, depois de terem permitido encher os canastros de espigas. Encostadas umas às outras, as diversas courelas e vessadas fazem ver que ali há muitos proprietários e um minifúndio que não deixa dúvidas. Com o granito ali a aliar-se ao xisto, as suas casas tradicionais são assim filhas desses mesmos materiais. Uma ou outra, mais “ atrevida”, lá se destaca pelas cores garridas, mas o seu núcleo forte não desapareceu. Com um destino curto demais para as perspectivas com que foram erguidas, há obras que contrariam esta tendência. Deste modo, a escola do primeiro ciclo está encerrada e o posto do leite teve igual e triste sorte. São assim dois marcos negativos numa terra que respira o ar da serra e dele não sofre um efeito tão “duro”, porque o facto de se situar no fundo de um vale isso lhe concede: uma amenidade maior relativamente ao clima caramulano que impera na freguesia de Arca. A vizinha povoação do Areal, lá mais no alto, caracteriza-se também por uma certa tradição, não tão vincada, mas viu, em vez de perder valências, os últimos anos trazerem-lhe uma nova capela e uma associação também recente. Uma e outra, são parte da envolvente Arca, que, com praticamente uma só casa, dá nome à freguesia. Nesta, a terra maior e com mais peso é, sem sombra de dúvida, Paranho, que se encontra muito ligado à Póvoa. Integrada numa via estruturante, a ligar o Caramulo a Águeda, possui um comércio já com alguma dimensão para o patamar destas aldeias, mas o seu selo matricial é a sua imponente Anta, a par de outras manifestações de um rico património. Com uma vida social e recreativa que já viu melhores dias, a sua Associação por lá continua, mas o Parque Desportivo, esse, não parece em estar em bons lençóis assim como o Quartel da Secção de Bombeiros, logo ali ao lado de uma outra de suas jóias: o Carvalhedo da Gândara. Caminhando na direcção da vila do Caramulo, logo nos aparece Varzielas, que, em conjunto com Arca, fazem parte do mesmo “enclave” do concelho de Oliveira de Frades, já que não têm qualquer contacto físico territorial com a grande mancha municipal. Para se lá chegar, há que pisar terras de Vouzela, ou Tondela ou Àgueda. Se geograficamente essa é a realidade, a nível afectivo, o caso muda de figura, que, a esse propósito, é firme a ligação umbilical com a velha Ulveira. Varzielas, que dá de caras com o citado Caramulo, dá-se a conhecer a quem circula nessa mesma estrada, mas o núcleo mor da freguesia está lá mais para dentro, a meio caminho entre a Sede e a Bezerreira. Ai se encontra a Igreja, a o Complexo Escolar, Desportivo e Social, fazendo deste recanto um lugar acolhedor e com uma mais valia digna de nota: a produção de água engarrafada – as Àguas do Caramulo -, que dali sai para correr mundo. Com tamanha riqueza dentro de suas portas, Varzielas só não conseguiu obter um direito que lhe tem andado fugido: as suas águas não possuem, no registo comercial visível nas garrafas, esta origem e isso não tem qualquer explicação plausível, que seu a seu dono é filosofia que deve imperar. Mas que saem dali, isso ninguém pode deixar de reconhecer. Falar desta freguesia e esquecer a Bezerreira seria erro imperdoável. Aldeia de uma beleza agreste e de uma ruralidade a toda a prova, aquelas suas paisagens são de sonho, tanto como as casas que, lá bem no centro, resistiram à força de novos materiais e outras modas. No conjunto, é ponto turístico com lugar marcado em todos os roteiros. Tendo visto morrer a velha escola, ganhou, todavia, um bom sinal de modernidade: o Parque Eólico, que ali produz electricidade sem fim. Voltando à estrada principal, esta leva-nos ao Monteteso e assim nos despedimos deste circuito serrano do enclave de Arca e Varzielas, que bem merecem uma visita especial, nem que seja de passagem para o Museu do Caramulo, lá bem no cimo da Serra do mesmo nome e muito nossa também. Carlos Rodrigues, in “Notícias de Vouzela”, há tempos…

quarta-feira, 21 de maio de 2014

A fome e a fartura em tempo de eleições para o PE

A fome e a fartura No dia 18, domingo, mesmo depois da Troika se ter ido embora, numa saída enganadora, que essa malta por cá vai andando uns pares de anos a fio, olhámos para o sol e não sentimos haver diferenças, sendo que a melhor luz só apareceu, para nós, quando ele ia a caminho do ocidente, ao tombar para lá das nossas serras, no momento em que o SLB venceu a Taça de Portugal, a juntar, em feito inédito, aos dois títulos já anteriormente conquistados. De resto, tudo na mesma. Respeitando todos os adversários, muito especialmente o digno Rio Ave, esta é a nossa opinião e assim se expressa. Dizemos mal, que houve outros sinais. É que, no rescaldo de um Conselho de Ministros Extraordinário, foi-nos oferecido, em documento com 65 páginas, um novo “ Caminho para o crescimento” e o PS brindou-nos com as suas oitenta medidas e outros tantos compromissos. Ou seja: da fome anterior ao dia 17, por influência de uma devastadora crise e de um Programa de Ajustamento que nos deixou a pão e água, passámos para a fartura das ideias, das propostas, das sugestões tendentes a proporcionarem-nos um futuro melhor. Pelo menos assim falam o Governo e a Oposição, em tempos, curiosamente, de plena campanha eleitoral para o Parlamento Europeu, que nos está a passar completamente ao lado. Neste início de semana, já estivemos a passar os olhos por essa papelada, como convém a quem queira estar informado, até para ter sustentabilidade aquilo que, aqui, se vai escrevendo. De um lado, no tal “ Caminho para o crescimento”, topámos uma espécie de fusão e síntese do Documento de Estratégia Orçamental (DEO) e do Guião da Reforma do Estado, intenção que, aliás, é descrita logo nas primeiras páginas, de forma a unir “ um conjunto disperso de medidas e reformas apresentadas noutros programas”, tais como infraestruturas, fomento industrial e estratégia nacional para o mar. No outro, temos uma série de promessas, oitenta ao todo, com maior destaque para quinze tidas como mais importantes, aclarando António José Seguro que “… Só prometo aquilo que posso cumprir”, adiantando que o “ Voto não é um cheque em branco. O voto vincula os governos ao cumprimento das suas promessas eleitorais… “ Sabendo que vivemos em clima de debate europeu, aproveitou-se este ensejo para nos serem oferecidas receitas nacionais, vivendo-se em Maio de 2014 com o pensamento já focado no acto eleitoral legislativo de 2015, sendo este momento a sala de visitas desse mesmo edifício já em acesa construção. A Europa que espere, que fique lá onde está, distante das nossas preocupações, mesmo sendo nessa União Europeia que se escreve o nosso destino todos os dias e o Parlamento Europeu a ser o único órgão da EU verdadeiramente democrático e representativo dos nossos povos. Mas essa é matéria que interessa pouco discutir. Lamentável e quase criminosamente, diga-se com frontalidade e clareza. As eleições europeias Por mais que nos apeteça pegar nestas duas peças políticas e delas falarmos, isso seria uma traição às nossas convicções, preferindo antes pôr em cima da mesa o que é determinante nestas alturas até ao dia 25 de Maio, porque, na próxima vez que aqui nos encontrarmos, já as eleições são parte do passado e o veredicto estará registado para sempre. Temos, à partida, um enorme e fundamentado receio: a abstenção será medonha, pelo menos assim projectamos o que irá acontecer. A história, aliás, mostra-nos uma clara tendência nesse sentido, desde 1989, ano das primeiras eleições universais, até 2009, o que se constata com estes números, expressos em votação: 1989 – 49.7% de votantes; 1994 – 35.7; 1999 – 40; 2004 – 38.6 e 2009 – 36.8%. Este ano, com o silêncio que se nota a esse respeito e com a descrença nos políticos e na nobre arte da política, em geral, com uma certa sensação de que não vale a pena ir às urnas depositar as nossas convicções, todo este panorama se pode vir a agravar, perigosamente. Está nas nossas mãos fazer inverter essa prática. Actuemos nesse sentido. É que temos pela frente um Parlamento que, sobretudo depois do Tratado de Lisboa, de 2009, tem a incumbência de escolher o Presidente da Comissão, vendo ainda os seus atributos alargados em matéria de Orçamento Comunitário, de mais poder na área da agricultura, da política comercial, liberdades cívicas, protecção do consumidor, transportes e investigação, não lhe passando ainda despercebida toda a vida da União Europeia e nos seus 28 membros. Num universo de cerca de 500 milhões de habitantes ( meia China menos um grande bocado), serão eleitos 751 deputados, sendo 21 portugueses. Colocados, actualmente, em sete grupos políticos-base, têm a sua origem em mais de 160 partidos políticos nacionais. Cabem-nos as seguintes forças políticas: BE, PCP-PEV, Aliança Portugal/PSD/CDS, Livre, MAS, PND, MPT, PS, PCTP/MRPP, PDA, PNR, POUS, PAN, PPM, PPV e PTP. Por onde escolher, não faltam hipóteses. Sendo essa uma tomada de posição que cabe a cada um de nós, a liberdade é total. Com o acto eleitoral a começar hoje mesmo, dia 22, em alguns países, a sua finalização só acontecerá no dia 25, data consagrada à divulgação oficial dos respectivos resultados, ainda que possam ter o seu início alguns dias antes, como vimos. Com o fito numa visão estratégica e política, num desígnio humano com vontade de construir um futuro melhor, com a esperança numa segura linha de rumo e em objectivos de base sólida e duradoura, serena e construtiva, declaramos solenemente que IREMOS VOTAR. Não queremos deixar a nossa vida de amanhã nas decisões de outros, por mais que confiemos na bondade humana, mas os direitos e deveres de cidadania não os alienamos, nunca … Carlos Rodrigues

terça-feira, 20 de maio de 2014

O meu manifesto para as eleições europeias de 2014

Sou um humilde cidadão do concelho de Oliveira de Frades, região de Lafões, que se interessa pela vida cívica e pelo desenvolvimento do país e da zona em que habita, por gosto e por convicção. Sinto que os poderes públicos, praticamente todos eles, têm falhado em termos de coesão social, territorial e de justiça em equilíbrio e redistribuição dos bens que a todos pertencem, mas que quase só caminham para os grandes Centros e para o litoral. Sinto-me injustiçado e tramado de todo. Sei que Portugal não atravessa um bom momento, apesar de se ter despedido (???) da Troika, mas o que mais me dói é o facto de saber que o Interior é sempre um parente pobre das decisões tomadas em Lisboa e em Bruxelas... Gosto de tomar parte nas decisões, por direito e por dever. Vou, por isso, VOTAR no próximo dia 25 para o Parlamento Europeu. Pensando pela minha cabeça e sendo algo avesso a cartilhas ( a de João de Deus é outra coisa!), quero, hoje, no entanto, subscrever, na íntegra, o MANIFESTO DOS GOVERNOS LOCAIS E REGIONAIS do Conselho de Municípios e Regiões da Europa, a propósito destas mesmas eleições de 2014, em que se defende uma Europa solidária, forte, unida, coesa, sustentável, pacífica, democrática, que não esqueça as realidades locais, sejam elas quais forem. É isso que espero. E tenho pena que pouco se fale do que será a Europa das regiões no futuro e muito de balofo para aí se ande a badalar. Conto com Fernando Ruas para ser o nosso porta-voz... Se o não fizer, vai ter de me ouvir, isso vai...

Um relatório com cerca de ano e meio, a malhar no FMI...

O meu Relatório Esta nossa vida anda a abarrotar de relatórios: são os da Protecção Civil, os da Segurança Rodoviária, estes com saborosos ganhos acrescidos, face a tempos de maior e mais pesada sinistralidade, são os da ERC – Entidade Reguladora para a Comunicação Social e da RTP, que têm relatado muito pouco e mal, são os da PSP, são estes e aqueles. Faltava-nos mais um: este, aquele que o Governo, sem jeitinho nenhum para estas andanças da concertação social, do diálogo e da conversa séria e pegada, que produza resultados concretos, fundamentados e com ponta por onde se lhe pegue, este que encomendou àquela malta do FMI deslavada de alma, munida apenas de botões e de folhas de cálculo, e que estes técnicos nos quiseram impingir. Antes de prosseguir, lavro aqui uma fortíssima declaração de interesses: aquela malta nada me que diz, não votei nela, não os escolhi, pouco ou nada fiz para os chamar a virem aqui, mas tudo isso fiz com quem lhe encomendou este sermão. Ai, isso fiz. Votei nessa gente, dei-lhe o meu mandato para, herdada uma enormíssima carga de dívidas, tentarem arranjar soluções para ultrapassar o difícil buraco em que nos encontrávamos. Antes, preparando-me, li um livro, o “Mudar”, onde vi muitas ideias com que me identificava e outras tantas que gostaria de não ter visto ali estampadas. Confesso-me: não sou tão liberal como ali se registou em certo pensamento. Mas estava cheio de ver o país a afundar-se. E desejava assistir a uma mudança clara, de rosto humano, certeira, voltada para um futuro melhor para Portugal e para cada um de nós, os Portugueses. Enganei-me, lamento-o. Feita esta viagem pelo meu subconsciente, que assim quis vir ao de cima, voltemos ao citado Relatório, o do FMI – Fundo Monetário Internacional, que até se esqueceu dos livros e dos discursos de sua Presidente, que tem vindo a defender outras receitas, que não a austeridade por si mesma. Num bem nutrido número de páginas, em tamanho, o que não quer dizer em ideias, aponta um razoável diagnóstico, aquele que chega a ser do consenso comum, mas, depois, em propostas concretas, é uma lástima. Pegando no que de mais fácil lhe vem à mão, de tesoura em riste, corta aqui, corta acolá, mas esquece que não devem ser esses os alvos a atingir, nem de longe, nem de perto. Vendo neles uma fonte de receita que não pode nem tem vocação para fugir, toca a mexer nessa manteiga quente. O resto, aquilo que é o cerne do nosso problema, as fraudes, os gastos nas tais gorduras do Estado, o desbaratar de verbas em empresas públicas e fundações, em PPP, a fuga aos impostos, os bancos que são uma esponja do nosso dinheiro nacional, aí, népia. Nem nos desmesurados juros e comissões que ele, FMI, nos cobra pelos serviços prestados em encontrar soluções para a pesada dívida que temos acumulado ao longo de anos. Com amigos destes, venham os inimigos que com eles bem pode (re)mos… Em gracioso contributo do blogue “Aventar.eu”, que promoveu uma intensa campanha pública de tradução deste volumoso documento, em regime de colaboração voluntária – e ainda só passei os olhos pelas primeiras páginas -, dá para perceber a gravidade do que ali está contido. Como que a lavrar em seara alheia, tudo lhes é permitido desenterrar: a saúde, as pensões, os vencimentos, a educação, os subsídios de desemprego, o tempo de trabalho, a segurança social, mas, digo-o, talvez por ainda não ter visto tudo, talvez haja muito mais para desvendar e pôr-nos e pensar. Lá chegaremos em próxima ocasião. Entretanto, o que muito nos incomoda é o facto de, sabendo que temos massa crítica à altura de estudarmos a fundo estes desafios de termos de refundar o País, andarmos a mendigar (?) pretensas soluções para uma nação que está verdadeiramente de tanga e desfigurada no seu modelo de desenvolvimento ( ver o blogue “ Freidogozo”, Um país desalinhado, que o “Pastel de Vouzela” acabou de citar) e que, em vez de procurar no seu seio as soluções para estes monumentais problemas, ter ido tão longe e tão distante, em sentido real e figurado, apanhar meia dúzia de “bitaitadas”, daquelas que, num qualquer gabinete de contabilidade ou balcão de merceeiro, num vulgar caderno de deve e haver, se conseguem colocar no papel. Não sabemos qual a pipa de massa que se vai pagar por mais este tremendo estudo. Ora, aí está mais um dado para o nosso Governo nos desvendar. Mais: isto, em termos de debate nacional, urgente, necessário e vital para os dias de amanhã, é mesmo contraproducente. Sendo acha para uma fogueira que já tem gasolina a mais, só vem complicar. Por isso, um pedido aqui deixamos: rasgue-se isto e parta-se para um diálogo com todas as letras e com todas estas questões em cima da mesa para uma discussão séria. Mas com tempo. Mande-se lixar Fevereiro e diga-se que só poderemos ter soluções depois de toda a nossa sociedade se ter pronunciado a sério sobre os caminhos que há a percorrer e quais os melhores meios para o fazer. Para cá da Europa e do mundo, mandamos nós. Nem que devamos um ror de dinheiro, Mas vamos pagá-lo e isso não pode ser uma submissão desta envergadura, Nem um garrote que não possamos desapertar: Carlos Rodrigues, in “ Notícias de Vouzela”, Janeiro de 2013. Há cerca de ano e meio, assim via a Troika por cá… Depois da sua ida para fora de nossas portas, para, infelizmente, ainda por cá voltar, mas sem a mesma prosápia de tudo querer controlar, sinto-me bem com a sua partida. Gosto muito de ser livre e independente…