terça-feira, 19 de agosto de 2014

Gosto da malta das Finanças mas pouco ou nada das Finanças em si...

Grandes amigos tenho eu nas Repartições de Finanças, sobretudo de Oliveira de Frades, S. Pedro do Sul (onde um seu funcionário e meu bom amigo, o Víctor, saiu para ocupar o lugar de Presidente de CM), de Vouzela e outros locais. Mas, para dizer a verdade, não é sítio que me apeteça frequentar. Cheira-me logo a esturricado quando por lá passo. Sei que é uma instituição que guarda os nºs das nossas propriedades - mas não faz prova de que são ou não nossas, isso só no "Registo" - e que, a esse propósito, é um bom arquivo. Só que, azar meu, dou sempre comigo e pensar em impostos quando se fala nestas casas. Por isso, não me são agradáveis. E como não tenho por hábito esquecer 14 milhões de ofertas (???), veja-se o castigo que passo... Escrevo agora estas linhas para me solidarizar com estes funcionários em termos de sobrecarga de trabalhos: já tinham de cobrar as portagens que não eram pagas e, neste momento, até as taxas moderadoras do SNS lá vão cair. Coitados! Qualquer dia, põem aquela boa gente a medir o ar que respiramos e a aplicar os devidos impostos. Vou já começar a inventar uma fábrica de fazer máscaras, antes que isso aconteça...

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Vagueira com cara e vida nova

Sem se poder fazer uma leitura directa de causa-efeito quanto aos resultados eleitorais, o certo é que na Vagueira/Vagos, com novo Presidente da CM, nova Vereação e, mais ainda, novos órgãos autárquicos gerais, a nossa ideia é a de que as mudanças, positivas, agradáveis (mas ainda não suficientes), nesta Praia são bem evidentes.O Largo Principal ganhou vida e dinâmica. Espectáculos, exposições, actividades diversas, como a presença (por estes dias do Champimóvel, essa Fundação do outro mundo a nível científico), as barracas de artesanato, os barzinhos, são ali uma presença muito agradável e de aplaudir. A cultura e o desporto aumentaram de intensidade e qualidade. A terra tem mais atractibilidade. Mas faltam-lhe toques de beneficiação e modernização que muito esperamos. O Paredão ainda é uma lástima. Os jardins e espaços verdes precisam de toques de arte que teimam em não surgir. A Perlimpimpim navega muito em mar alto, cheia de criatividade, em todos os campos: a presença de artistas, mesmo de nível internacional, é uma constante. Com uma inovação e genica a toda a prova, Aldina Ribeiro teima, teima, teima e vence. Parabéns. A gastronomia local, com as enguias e os carapaus à Vagueira, têm lugar marcado por aqui. O Kikito é, a esse propósito, um bom e recomendável exemplo A pesca em arte xávega continua, por enquanto. O sol põe-se com uma magia inacreditável. A praia está VIVA a terra MEXE. Mas têm de ir mais LONGE e de serem mais arrojadas. Dar tempo ao tempo é uma boa regra sociológica, mas não resiste a falhas por muito mais tempo. CM e Ministério do Ambiente têm de conjugar estratégias e darem as mãos em acções de fundo, para o futuro. Pôr pás de areia onde é preciso actuar a fundo é tapar o sol com uma peneira e não é isso que a Vagueira carece. Está na hora de dar o salto. Ponto final.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

A minha Feira de S. Mateus, Viseu, NV, 7 de Agosto

Feira de S. Mateus sob o signo da modernidade Apresentar um Cartão do Cidadão com 622 anos de idade não é para a Feira de S. Mateus, em Viseu, qualquer sinal de estagnação, muito pelo contrário: é antes um estímulo para, mantendo a tradição, ser capaz de inovar para, como acentua a página da Internet deste importante certame, fazer reconciliar a cidade dos viseenses com a sua festa, construir as memórias das novas gerações, atrair outros públicos e criar um verdadeiro pólo de turismo. Com estes objectivos, lançou mão de um vasto programa que se irá desenrolar entre os dias 8 de Agosto e 14 de Setembro. Sob o lema “Nós feirar”, haverá 7 grandes concertos, 50 eventos e exposições, diversão em 9000 m2, 30 tascas e restaurantes, 35 Dão Sabores de Portugal, entre uma enorme panóplia de actuações musicais e culturais, de modo a fazer promoção da cidade e da região, divulgando memórias, numa evidente projecção para o futuro. Anunciando-se um novo ciclo para esta Feira de S. Mateus, até a citada página WWW mostra isso mesmo: no momento em que a abrimos, na tarde de segunda-feira, dia 4, assim ali circulava: faltam 4 dias, 1 hora, 32 minutos e 57 segundos, um sinal de modernidade, mais um, que se regista. Com o Espelho de Água agora apetecível (longe vai o Rio Pavia de meter medo e fazer tapar o nariz, felizmente), este é mais um complemento a ajudar ao êxito desta iniciativa. Também o sistema mecânico de controle de entradas se insere neste espírito inovador, assim como o estudo de impacto económico e comunicacional da Feira, tarefa que cabe ao Instituto Politécnico de Viseu vir a apresentar, para apreciação futura e para vir a ser, provavelmente, mais um instrumento de trabalho. Na mira estão, para já, ainda os Dias do Emigrante (16 de Agosto) e de Viriato (31). Como grandes cartazes, citemos: Paulo Gonzo (9), João Pedro Pais (15), Tony Carreira (16), Blind Zero (17), Xutos e Pontapés (23), Ana Moura (28), Rita Guerra (30), Santamaria (31), Linda Martini ( 6 de Setembro), Quim Barreiros (7) e Emanuel (13). Num espaço que ronda os dois hectares, haverá cerca de três centenas de expositores nesta Feira/Festa de S, Mateus 2014, renovada mas sem se descaracterizar, sendo que ali poderemos encontrar as célebres enguias e farturas, assim como mais uma boa série de muitos motivos de interesse. Com um orçamento estimado em 500 mil euros em despesas de organização e funcionamento, o retorno está antecipadamente assegurado. Só o nome e a marca que encerra vale tudo isso e muito mais. Com alguns espectáculos a serem pagos, há, porém, uma modalidade que cobre todos eles: um bilhete geral no valor de 30 euros é ingresso comprado para qualquer das acções ali levadas a cabo. Tudo a postos, amanhã, dia 8, começando esta edição mais cedo que as anteriores, Viseu oferece-nos a Feira que todos esperamos e desejamos. Por aquilo que dela conhecemos e pelas mudanças agora em curso, vale a pena ir à Feira de S. Mateus, até como ponto de encontro para muitos amigos se reverem e matarem saudades, que é também um aspecto a considerar. Carlos Rodrigues, in "Notícias de Vouzela", Agosto 2914

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Reinventar o interior, NV, dia 31 de Julho de 2014

Reinventar o Interior Pela nossa percepção e por aquilo a que temos vindo a assistir, o interior português está em maus lençóis e pouca gente há que lhe queira valer. A sua recuperação já não se consegue com o voluntarismo de quem com ele sonha, nem com meias medidas, exigindo antes uma postura de estado, em acordo de regime, que leve a que se olhe para esta realidade de uma maneira totalmente nova e criativa. Não chega querermos vender capuchas e peças de artesanato, não basta ter-se uma ou outra empresa credível e a criar riqueza, é preciso reinventar tudo de novo. O Estado, por mais que se apregoe para aí que o mercado é que nos deve comandar, tem de entrar em acção e com força. Se isso não acontecer, este nosso País, a duas velocidades e a dois tempos, torna-se insuportável e injusto. Até estes dias, é o litoral (leia-se Lisboa, Porto e arredores) que concentra atenções, que absorve as fatias de leão de todo o investimento, que, usando a técnica da sanguessuga, nos fica com todo o sangue, nos vai comendo a carne e se prepara para nos roer os ossos. Se nada temos contra esses grandes Centros, a nossa mágoa, luta e frustração nascem desta evidência; para esses crescerem, mingou todo o restante território e isto é inaceitável. Sendo assim, agora e com uma visão de futuro, há que olhar para estas questões cruciais de uma outra maneira, porque as “… Políticas de desenvolvimento rural devem combinar estratégias globais com políticas territorialmente adaptadas e específicas…” – In” João Ferreira de Almeida - Debates, Presidência da República, Perspectivas de Desenvolvimento do Interior, INCM, 2ª edição, 1998, p.28”. Medir tudo pela mesma rasa não cria igualdade, faz disparar distúrbios regionais. É esta lição que os Governos têm de saber aprender. E aplicar. O nosso País está dinamitado de situações anómalas e nocivas da coesão social. O Acordo de Parceria 2014/2020 ou serve para combater estas chagas, ou será mais um embuste em termos de políticas públicas nacionais e europeias. Desta forma, ou se avança com medidas que façam despertar o Interior, ou teremos mais do mesmo, agravando velhas feridas e convertendo-as em doença crónica e mortífera. Precisamos de programas territoriais com gente dentro, temos de saber captar talentos, apoiando-nos nas nossas identidades, mas dando-lhes mais vida e mais VAB – Valor Acrescentado Bruto, ou melhor, mais poderosos Índices de Desenvolvimento Humano, que a estatística não pode ser a única balança a reger nossas vidas. De números estamos nós cheios. Queremos é outras visões, novos olhares e novos actores, em que sejam parceiros as pessoas, as entidades locais, a sociedade no seu todo, o Estado e quem vier por bem, com ideias de desenvolvimento endógeno, nascido de dentro para fora, que quem mande e imponha teses do diabo, vindas de cima, de corredores engalanados de plumas, já houve que chegue e não mais desejamos que nos atormentem. Com Expressos a demorarem, circulando por Viseu, sete horas e quinze minutos para ligar Bragança a Lisboa e cerca de nove horas perdidas e gastas para fazer o trajecto Miranda do Douro/Capital, estamos conversados e, numa linguagem fria, tramados de todo. Assim, isto não vai lá. Adoptando um conceito “IKEA”, passe a publicidade, ambicionando uma terra melhor todos os dias, importa conseguir-se uma estratégia de sustentabilidade 2020, com pessoas num planeta positivo. Actuamente, o que há contraria toda esta filosofia: foge-nos a gente, ficamos sem ninguém e o Interior teima em continuar a passar por caminhos de um negativismo quase total. Salva-se apenas a saudade, mas esta não nos sossega de todo, nem faz com que as nossas povoações regurgitem de vida, que é o que é mais urgente e mais necessário. Numa partilha de projectos e vontades, seremos capazes de fazer inverter estes tenebrosos quadros. Para se reinventar o Interior, como acentua o Presidente da República actual, são fundamentais os compromissos de longo prazo (Roteiros, 2014) e isso ultrapassa tudo aquilo a que, de momento, estamos a assistir. Com querelas partidárias e jogos floreados de poder, com a comunicação social toda virada para o BES e pouco mais, por mais grave que seja a sua situação, até nos esquecemos que está na hora de pensarmos em Portugal e, dentro de suas fronteiras, nas Regiões que tão abandonadas têm andado. Dito de outra forma: agarre-se no Acordo de Parceria e ponha-se este ao serviço da correcção das desigualdades que nos arrasam e nos matam de todo. Se assim não vier a acontecer, resta-nos o direito supremo à indignação. Mas é pouco, pouco demais. CR

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Três temas, um mau e dois bons

- PONTO UM, PÉSSIMO - Ontem, à noite, em minha casa, na encosta da Serra do Ladário, com festa em Reigoso, chegou-me uma triste e má notícia, que se adivinhava: O BES faliu e quem vai pagar esta trapalhda toda e estas fraudes somos nós, muito embora tenham querido dourar, na comunicação do Banco de Portugal,aquilo que nos parece óbvio, isto é, o Estado vai ter de se atirar para a frente, mais dia menos dia. Estamos lixados: vamos pagar isto com língua de palmo. - PONTO DOIS, BOM - Há dias, foi inaugurada, na Vagueira,na Perlimpimpim, uma exposição sobre a "EN 333, a estrada dos VV - Vagos a Vouzela", que tive o prazer de organizar. Presentes ali estiveram os Presidentes das CM em questão e isto já começou a dar bons resultados: em Vagos, os marcos foram arranjados e pintados e, em Vouzela, este trabalho está patente no átrio do Auditório 25 de Abril, avançando para outros locais dentro em breve... Valeu a pena... - PONTO TRÊS, também BOM - Vouzela tem uma nova Rota, a do Pastel de Vouzella (assim, com dois ll)e teve um Ministro, Poiares Maduro, a inaugurá-la, assim como o Espaço do Cidadão e o Albergue do Couto-Alcofra, em escola desactivada, esta há muitos anos, tendo passado ainda pela Constálica, um importante empresa desta Região de Lafões... Não fora aquela batata quente do "Novo Banco" e a semana tinha sido assim-assim. No domingo, à noite, estragou-se tudo...

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Pensada a Escola em 2012, mas com lições actuais

A escola de hoje Saímos para a rua com um trabalho, coordenado pela Salete Costa, em que se fala das classificações das escolas que os poderes públicos fazem publicar anualmente. Tendo nós, a nível pessoal, uma posição muito crítica a esse propósito, porque achamos que se parte de premissas completamente díspares, a realidade é o que é: as listas em causa estão cá fora e, agora, são objecto de análises e interpretações de todos os tamanhos e feitios. Não é desses aspectos, porém, que queremos tratar. Move-nos uma outra ideia: tentar caracterizar a escola actual, em comparação com a de outros tempos, não recuando sequer a séculos atrás, mas apenas a algumas décadas. Em primeiro lugar, temos, sociologicamente, uma sociedade completamente alterada, sobretudo no tecido ocupacional do mundo do trabalho. Felizmente há outras mudanças de vulto e a mulher conseguiu a dignidade de poder, por mérito, aceder a esse mesmo campo de funções, antes confinadas ao ramo masculino. Olhando para as nossas aldeias, a sua agricultura, que tinha a família em redor da casa-mãe, podendo as crianças ir à escola e, muitas vezes, vir almoçar com a sua gente, permitia essa mobilidade curta e sempre muito ligada às saias maternas e até às calças dos pais. Hoje, nada disso acontece: os locais de trabalho são outros, os horários mais rígidos e tudo isso complica o anterior sistema. Por outro lado, até os estabelecimentos escolares, referentes aos primeiros anos, desapareceram dos locais em que se encontravam, a dez metros do lar. Em segunda opinião, o que se passou na área das propostas de novos meios de conhecimento e informação, quer pelo aparecimento da televisão (1957), quer, muito mais recentemente, pelo fenómeno das novas tecnologias e, sobretudo, da Internet, pôs tudo em questão e a escola ganhou novos concorrentes, quiçá, muito mais atraentes e muito mais atirados para a frente… Resistir a esses apelos e querer pegar em livros é um verdadeiro acto heróico nos dias que correm. Quem assim procede – e muitos são os brilhantes e esforçados alunos que não dispensam esses materiais sempre eternos, ainda que parecendo cair em desuso – merece toda a nossa consideração e respeito. Mas há muitos mais pontos a considerar: entre eles está a lógica evolução do sistema que fez com que se fosse, passo a passo, aumentando os níveis de escolaridade obrigatória: ainda há décadas, às mulheres só se exigia a chamada 3ª classe e a 4ª para os homens. Veio depois, quase nos nossos dias, o 6º ano; há pouco tempo, o 9º e, neste momento, está em curso a generalização do 12ºano… A nível de respostas em estruturas destinadas a estas finalidades, então a diferença é abismal: este ano de 2012, por exemplo, assinalam-se os 50 anos de Colégios locais em Vouzela e Oliveira de Frades, após algumas experiências anteriores terem falhado. S. Pedro do Sul tinha, poucos anos antes, avançado com uma dessas apostas. Mas era em Viseu, no sólido Liceu, que se tinha de prestar provas, pois estas Casas de ensino não possuíam suficientes poderes para essa creditação final. No meio de tudo isto, em pouco mais de meia dúzia de jovens que iam para além da citada 4ª classe, muitos conseguiam esse objectivo através dos Seminários, que importa valorizar e não esquecer este seu determinante papel cultural. Hoje, com escolas cinco estrelas, como pode assim ser classificada a renovada Escola de Oliveira de Frades, com meios de toda a ordem ao alcance dos seus educandos e docentes, com apoios alimentares e sociais (muito embora haja, nestes tempos conturbados muitas nuvens negras a este respeito), com redes de transportes mais eficientes, com a proximidade de muitas decisões em sede de autarquias, quase parece estar tudo criado para um sucesso sem paralelo. Mas não está, nem de longe, nem de perto. E porquê? Temos para nós que as condições físicas de eleição, sendo um meio poderoso, não são o essencial. Se não houver motivação, se os horizontes da nossa juventude se encontrarem tolhidos por uma sociedade que atrofia seus sonhos e despreza seus conhecimentos, se os professores se vêem continuamente desvalorizados, se as famílias sentem que seus filhos, por mais que estudem, não encontram mercado de trabalho à altura, temos aí todos os condimentos negativos para o falhanço de todo o sistema. Por isso, a educação de hoje, tendo aparentemente tudo para ser feliz, precisa de uma “Escola Segura”, a cargo de forças policiais, para desempenhar a sua nobre e gratificante função, essencial e inalienável. Por isso, o sucesso não é aquele que corresponda a tantas “benesses”, nem os resultados reais são aquilo de que a sociedade precisa, muitas vezes. Há ainda um tópico muito mais decisivo: a Escola precisa de ir aos valores buscar a sua própria essência, que estes devem andar de mãos dadas com a ciência, ou seja, a educação e a instrução têm, obrigatoriamente, de caminhar juntas. Ou seja: é preciso reinventar a educação autêntica e fazer dela um íman que atraia pela positiva e não pela obrigação constitucional a ida dos nossos alunos para esses locais de formação, primeiro, informação, depois, aceitando nós que tudo isto apareça ao mesmo tempo. Desprezar uma ou outra destas componentes é matar este projecto lindo de termos a escola mais culta de todos os tempos… Carlos Rodrigues, ano de 2012, “Notícias de Vouzela”, mas com muitas semelhanças em finais de Julho de 2014

terça-feira, 15 de julho de 2014

A vida é o que é (e era), assim vista, há tempos, no Notícias de Vouzela

A vida é o que é Enquanto por aqui andamos, temos obrigação de fazer pela vida, isto é, dar o nosso melhor, que o futuro não se compadece com a apatia de quem ou não quer, ou não pode ir em frente. Se as forças nos vedam a possibilidade de lutar ( e, infelizmente, muita gente nossa amiga, e outra por esse mundo além não têm meios de fazer o que, talvez, quereriam), apenas resta que essa falha seja compensada com a generosidade da outra parte da sociedade, aquela que está na plena posse de suas faculdades. Mas o pior é quando se teima em nada levar por diante, podendo. Nesta última situação, isso é muito mais grave. Ao corrermos as nossas ruas, vemos o esforço e a coragem estampados no rosto de quem se esforça por lutar por si e pelos outros. Mas topamos também várias pessoas que, aparentando uma boa saúde, para ali estão, como se nada fosse. Das duas uma: ou vêem que não vale a pena essa viagem, por terem seus sonhos desfeitos e, então, há que apurar o que se passa, ou são mesmo assim, uns deixa-andar, esperando que tudo lhe venha ter a casa de mão beijada. Se formos mais longe e, após uma espreitadela pelas mesas dos cafés, por exemplo, descortinarmos sempre as mesmas caras, muitas delas com uma tez de fazer inveja, há outro raciocínio a fazer: há ali mandriice e com essa o País, que tanto precisa do nosso esforço empenhado, não pode nem deve contar. Mas há um dever que se impõe: fazer com que todos dêem corda aos sapatos e não se fiquem nas encolhas desse mesmo entediante deixar-correr. Não queremos fazer aqui a apologia da denúncia, longe de nós essa técnica, que corrói a confiança e é a pior forma de se conseguir dar a volta, com dignidade, a estas situações. Mas não fica nada mal que os agentes específicos, Serviços Sociais e afins, procurem actuar no sentido de debelar essas fissuras do nosso tecido social. Se este já é o que é, débil por natureza e por carências demográficas, se lhe acrescentarmos estas excrescências, tudo vai por água abaixo. Vêm estas considerações a propósito de quanto para aí se fala em termos de necessidade de respondermos aos novos desafios que a sustentabilidade social impõe às actuais sociedades, onde as pirâmides etárias se apresentam, sabemo-lo, demasiado invertidas no sentido inverso àquele que era desejável. A vida é o que é. Postos perante estes quadros que exigem medidas do lado da economia, mais do que pela via dos apoios estatais, cuja riqueza é demasiado escassa, para não dizermos inexistente, aquela gente que, de propósito, não tem qualquer ocupação, estando ainda em boa idade para dar o seu quinhão de trabalho, associada à terrível mancha negra dos desempregados, ajuda a destruir o pouco que resta do edifício da segurança social, ao tal de onde saem os meios financeiros para acudir a casos e situações de real necessidade. Aqui chegados, convém repetir-se uma tese que anda demasiado fugida dos discursos oficiais e, em cada dia que passa, recebe mais uma acha para a perigosa fogueira do descontentamento e da guerrilha entre grupos etários e entre gerações: a questão das reformas e pensões, cuja origem, na sua imensa e grande maioria, está nos descontos feitos na altura devida e com o peso que, então, foi pedido a cada trabalhador por conta de outrem. Teimar, em sede de discurso oficial, em atirar para cima desta gente, à laia de culpabilização, os defeitos de uma nação a viver o drama de uma profunda crise, é, para além de viva insensatez, uma falta de respeito por milhares e milhares de cidadãos, que merecem outra forma de tratamento e consideração. A vida é o que é. E para muitos já quase foi. Por razões que se prendem com a necessidade de os nossos políticos terem um outro discurso e uma outra abordagem a estas questões, dos novos Governantes o que se espera é que tenham força para, usando outros argumentos, fazerem ver que o que precisamos é de muito mais economia, de crescimento e desenvolvimento sustentado, que a receita dos cortes financeiros e fiscais já deu o que tinha a dar: um desastre completo. Houve mudanças, isso houve. Estamos, porém, do lado de quem afirma que soube a pouco, a quase nada. E somos daqueles que, gostando de ver o país a bulir, já nos incomoda ouvirmos todos os dias o mesmo género de cartilhas, a dos cortes, a da ida ao bolso de quem, ainda, tem meia dúzia de tostões. Mas por este andar, isso acontecerá por muito pouco tempo. E, depois, com tudo parado, é o abismo que nos espera. Apesar de todo este pessimismo, queremos dizer ao Dr. Mário Soares que também ele anda profundamente errado: falando em hipóteses de atentados ou na renúncia ao pagamento da dívida, em jeito da Argentina, comete um erro crasso e estraga muito do capital de importância que foi amealhando ao longo dos tempos. A falar assim, melhor será estar calado e sossegadinho no seu andar do Campo Grande, ou nas suas moradias de Nafarros e do Vau, ou no recanto de sua Fundação, ou de seu bom Colégio. O estatuto que tem não lhe permite, porém, dizer tudo o que lhe vem à cabeça, muito menos asneiras deste tamanho. Carlos Rodrigues, em contexto de então (mormente as intervenções do Dr. Mário Soares), publicado este trabalho no “Notícias de Vouzela”