quarta-feira, 18 de março de 2015
Imperfeitos somos todos
Vivemos o reino da imperfeição
Para quem anda por este mundo e, no mínimo, passou pelos bancos da Catequese, mesmo daquela que privilegiava as orações aprendidas como a tabuada, um mais um dois, rogai por nós, pecadores, livrais-nos do mal, ámen, tem a clara noção de que a perfeição, total e absoluta, só Deus a tem. Agora, em 2015, neste seu primeiro trimestre, reforçou-se esta ideia, com as palavras de Pedro Passos Coelho, que assumiu essa frágil condição humana de não ser um cidadão perfeitinho como se pressupunha. Temos de confessar que tem toda a razão.
Acompanhando-o nesta sincera e humilde confissão, mal de nós que assim somos também! Logo, vivemos todos essa tragédia de carregarmos o fardo pesado de quem não escapa a ser sempre assim, porque a divindade não está ao nosso alcance. Humanos, erramos e pecamos todos os dias e em toda a hora.
Há, porém, um pormenor que distingue umas das outras pessoas: umas sabem que têm compromissos fiscais e de segurança social a cumprir, outras nem por isso. Com mais ou menos esforço, muita gente faz por se lembrar, sempre, que não pode deixar de lado essa obrigação. E, se o não fizer, implacáveis, torcionários e cegos, lá vêm os Serviços respectivos para tudo fazerem pagar com língua de palmo, ameaçando com juros especulativos e desumanas penhoras, desde as belgas ao berço. Essa é que é a diferença.
Acrescenta-se ainda um novo pormenor: uns, 9999999 de pessoas, são cidadãos comuns. Pedro Passos Coelho é Primeiro-Ministro, o lugar dos lugares em termos de responsabilidade e visibilidade, mais até do que o do Presidente da República, que, às vezes, deveria era estar caladinho, do todo. Por esse facto e por todos os demais, não pode PPC invocar nem o esquecimento, nem a falta de dinheiro ( uma praga que nos esfola a todos), nem outras desculpas esfarrapadas de igual e má categoria. Sem sabermos o que vai dizer quarta-feira na Assembleia da República, estamos a escrever estas linhas com as fontes que temos e não essas que podem vir a surgir.
Lamentamos ter de dizer que nos sentimos num País onde a confiança anda pelas ruas da amargura, onde o futuro tem manchas negras demais e onde vislumbramos imperfeições a mais, sendo que precisamos é de GENTE com outra marca e imagem. Pecadinhos todos os têm, mas saibam assumir-se essas fraquezas e não nos ponhamos todos a atirar areia para os olhos do povo, que sabe muito bem distinguir água de azeite.
Vendo mais para o lado e para outras direcções, estes males são o pão nosso de cada dia e atingem muitas outras áreas, não sendo, sequer, necessário enumerá-las. Esse é que é o problema: está podre a nossa sociedade! Esse é o medo que nos assalta a cada momento. Se assim é e é, arrepiemos caminho, antes de perecermos no lodaçal em que estamos enterrados, apenas com o pescoço de fora, talvez por pouco tempo. Apre, isto é lepra a mais para corpos tão frágeis. Santo Deus!...
Carlos Rodrigues, in “Notícias de Vouzela”, Março, 2015
Varzielas lá no cimo da Serra do Caramulo
Pelas nossas terras
- Varzielas, água e vento a produzirem riqueza
Em enclave de terras pertencentes ao concelho de Oliveira de Frades, a União das Freguesias de Arca e Varzielas tem o condão de, estando longe, tudo terem feito os seus antepassados para não soltarem essas amarras institucionais desde meados do século XIX, quando se chegou a alvitrar outras possíveis ligações. Nada disso. Firmes como as rochas da imponente Serra do Caramulo, em cujo ponto cimeiro se encontram, não vacilaram nem na argumentação, nem na decisão. Igual atitude ostentam as actuais gerações, registe-se em seu favor.
Nesta rubrica, já aqui falámos de Arca. Como o prometido é devido, hoje é a vez de passearmos por Varzielas, o que sempre fazemos com gosto, muito prazer e bons ares. Nos seus 11, 4 quilómetros quadrados, descobrimos dois pontos de grande altitude, as Pinoucas, com 1062 metros e, ali pelas bandas da Bezerreira, sobe-se aos 992 metros, o que faz com que o Céu, por estas paragens, esteja sempre por muito perto. Com este enquadramento geográfico, é natural que os Invernos sejam de alguma dureza e os Verões tenham calor até mais não.
Com um tal envolvimento, são as pessoas, no entanto, a sua maior riqueza. Com coragem e perseverança, há muito quem tenha mantido o bom hábito de não desistir e ali viver, com dignidade, com vontade de continuar a história desta terra serrana. Numa análise demográfica, os números são, todavia, dramáticos: em 2011, com 359 habitantes, poderia fazer-se um paralelo com o ano de 1862, com 358. Acrescentemos outros dados: 1890 – 407; 1940 – 490; 1960 – 531; 1981 – 509; 1991 – 518, uma certa recuperação; 2011 – 359, como já vimos, o que revela uma queda abrupta e preocupante.
Devido ao enquadramento geográfico, Varzielas, a que se juntam os lugares da Bezerreira e Monteteso, alberga no seu seio duas componentes naturais que são poderosos trunfos para a sua sustentabilidade económica e social: as águas, com uma forte unidade industrial e as energias eólicas, como relatámos na nossa publicação do dia 26 de Fevereiro. A par da actividade avícola e agropecuária, algum comércio e uma fábrica de Serração, vivem-se ali factores que importa saber valorizar e ampliar, assim haja vontade e gente para levar por diante essas exigentes tarefas.
Possuindo ainda marcas da pré-História, há por ali vestígios de uma Anta, ao lado da estrada que liga a Paranho. Teve fortes ligações com o Mosteiro de Santa Cruz e com o Alcaide Cerveira, nos séculos XII e XIII, chegando, por essa altura, a estar dependente do Couto de S. João do Monte, vindo mais tarde a pertencer-lhe como concelho. Mas, em 1131, o Rei D. Afonso Henriques doara estas terras ao frade crúzio, Mestre Garino, estes mesmos espaços.
Com a antiga Igreja Paroquial a ser restaurada em finais da década de setenta, do século passado, podem ainda ver-se, por aqui, as Capelas da Bezerreira e de Monteteso, mas as suas escolas do 1º ciclo e as “telescolas” de Varzielas e da Bezerreira, essas, são hoje apenas memória e saudade, continuadas apenas pelo novo Jardim de Infância, nascido muitos anos depois.
Integrando actualmente a União de Freguesias com Arca, estas localidades, na actualidade, são servidas por muito razoáveis ligações rodoviárias, mormente com as estradas Águeda/Caramulo e Oliveira de Frades/ Varzielas, com pontos de partida também em Vouzela, isto a partir de anos e anos de aguerridas reivindicações que, por sinal, vieram a dar bons frutos.
Terra e montes de muito xisto, onde nasce o Rio Águeda, Varzielas, confiando na água, no vento e nas suas gentes, bem pode aguardar um futuro melhor, que bem merece, aliás.
Carlos Rodrigues, in “Notícias de Vouzela”, Março, 2015
quarta-feira, 4 de março de 2015
Sejães, terra de água e boas laranjas
- Sejães, tanta e tão boa água, meu Deus
A freguesia de Sejães é indissociável do Rio Vouga, que a corta ao meio, colocando-se as suas povoações de um e outro lado deste curso de água, meigo no Verão, atrevidote, quanto baste, no Inverno. A par desta riqueza e beleza naturais, os moinhos, em memória de tempos que lá vão e que a Barragem veio alterar, os laranjais, que se mantêm como marca muito própria, são outros dos emblemas imortais desta terra.
Mas impossível seria deixar de fora o que de melhor ali há: as suas gentes. Habituadas a terem a vila por perto, nunca deixaram, porém, de amar o chão onde nasceram. Aliás, há aqui uma relação biunívoca, com estas populações a terem esse apego pelo que é seu e com as gentes da vila e sede do concelho, Oliveira de Frades, a tirarem muito e bom partido de suas águas e clima, gozando os prazeres de uma Praia Fluvial que, durante anos e anos, foi uma espécie de Estoril cá do sítio. Hoje, com um mar de água, que a Barragem de Ribeiradio veio “construir”, cremos que, em novo e renovado espaço, esta mesma valência será ainda muito mais requisitada e estimada.
Ao falarmos de Sejães, logo deparamos com a sua importância na Idade Média, dizendo-se que, em 1258, se ligava também a S. João da Serra, que antes fora honra de cavaleiros fidalgos, com destaque para o Alcaide Cerveira (muito associado também a Reigoso e sua Albergaria), que ali existiam propriedades da Ordem do Hospital, do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra e de outras entidades e que, pelos tempos fora, se erguia a Igreja Paroquial, reparada e beneficiada com obras em 1809 e já nos primeiros anos deste milénio, a Ermida de S. Vicente, também agora com cara nova, a Capela de S. Mateus, no Casal, que em 1732 se encontrava concluída e que, em Sequeirô, no ano de 1794, aparecia a Capela de Santo António.
Tendo pertencido ao antigo concelho de Lafões, integra-se actualmente em Oliveira de Frades, sendo que, como freguesia, desde 28 de Janeiro de 2013, pela Lei 11-A, passa a unir-se a Oliveira de Frades e a Souto de Lafões, em União bem alargada. Nos seus lugares do Casal, Igreja, Sejães, Sequeirô, Ugeiras e Rio Frio, sob a protecção de seu Padroeiro, S. Martinho, se abrigam agora 200 habitantes (2011), quando ali viveram já em 1930 – 383, em 1940 – 358, começando depois uma descida abrupta que se veio a consolidar, infelizmente, nos nossos dias, para em 1981 andar pelas 229 pessoas residentes.
Com a água como bênção celestial, tanta e tão boa (fora aquela que a poluição vem estragando de vez em quando no seu Rio Vouga), os seus monumentos são também um aspecto a evidenciar: começando pelo Rasto dos Mouros, a caminho de Fornelo, temos ainda a Pedra do Jogo, uma inscultura localizada por cima do Casal, assim como é digno de boa nota o Solar, em Sequeirô, mas essencial e marcante é a Ponte Luís Bandeira, a secular rainha do betão armado, havendo também que referenciar uma outra no sítio do Buraquinho, muito mais antiga, mas com possível existência nesses tempos. E agora aí temos, imponente, na EN333-3, a Ponte Nova, nascida recentemente no contexto dos trabalhos a executar pela EDP, em função da citada Barragem.
Como convém, eis umas curtas linhas sobre a Ponte Luís Bandeira: pensada em finais do século XIX e construída nos inícios do século XX, entre 1907 e 1908, com uns contratempos pelo meio, como uma enchente que levou a cofragem, é um dos mais lídimos representantes das pontes em betão armado, no seguimento de Vale de Mões – Mirandela, 1904, Tavanasa- Suíça, de 1905, assim como a passagem inferior do caminho- de- ferro em Arraiolos.
Acontece, porém, é que estas suas “colegas” já desapareceram e a nossa, firme, ainda que agora temporariamente debaixo de água, por cá continua. Com muitos estudos feitos, referimos aqueles que agora nos vieram ter às mãos dos autores Rui Ferreira e outros, Universidade do Minho e Joel Cleto/Suzana Faro, “ A decana do betão”. Para o seu financiamento, a CM, em 24 de Abril de 1905, havia lançado uma operação de financiamento.
Numa terra que já teve escola e 35 alunos em 1904, hoje tudo isso é passado. Fica um certo espírito associativo e um Centro de Convívio e Exposições, um rinque polivalente, a dizer que ali ainda há vida. E, para alimentar os corpos, a boa restauração não falta.
Carlos Rodrigues, in “Notícias de Vouzela”, Fevereiro, 2015
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015
Voltas por S. Vicente de Lafões
Pelas nossas terras
- S. Vicente de Lafões, a dois passos da sede do concelho
Com cerca de 751 hectares, a freguesia de S. Vicente de Lafões ocupa uma zona planáltica de média altitude, situando-se em posição contígua à sede do concelho, Oliveira de Frades, tocando, curiosamente, no município de Vouzela nas freguesias de Paços de Vilharigues e Cambra. Com uma posição privilegiada e a rondar os setecentos e cinquenta habitantes, espraia-se pelos lugares de Água Levada, Bandonagens, Cajadães, Corredoura, Postasneiros, Santiaguinho, S. VICENTE, Sernada e Sernadinha. Tem na agricultura e na avicultura os seus principais polos de vivência económica, mas é nos sectores secundário e terciário que se emprega a maior parte de sua população.
Local escolhido por diversos povos para ali se instalarem, assistiu a importantes obras pré-históricas, de que há vestígios de uma anta, com pinturas, situada na coordenada Gauss W978145, bem perto da EN 333, que liga Caveirós a Vilharigues, e que já tive o prazer de visitar com meu Amigo e Colega António Nabais, sendo, porém, a marca romana aquela que mais se evidencia, na estrada que passa por Cajadães, Postasneiros, onde há um dos mais afamados troços de toda a região de Lafões, Santiaguinho, limites da Sernadinha, prosseguindo por esse mundo além. Também os árabes, por via de Aben Donages, aqui estiveram presentes, deixando-nos Bandonagens, como prova toponímica.
Com localização na Corredoura, a Igreja Paroquial pode ter existido noutros pontos, havendo algumas referências que indiciam essas mudanças, quer em “Terras de Santa Maria”, quer nas “Igrejas Velhas”, sítios que se podem ver nesta mesma freguesia e que a podem ter acolhido noutros tempos. Em nomes mais duros, o “Campo da Forca” e o “Homicidia” remetem-nos para tristes acontecimentos, que aqui, porventura, tiveram lugar.
Deixando de lado esses aspectos menos recomendáveis, voltando à História, são vários os documentos que atestam a longevidade destas paragens: 1086, 1092, 1100, 1258, 1527 e aí por diante, sempre S. Vicente de Lafões teve honras de registos imortais. Um deles fala-nos da Irmandade de Nossa Senhora da Assunção de Cajadães, fundada no ano de 1687, com aprovação em 1688 pelo Dr. Cristóvão de Quintanilha, provisor do Bispo de Viseu, de que era prelado o bispo inglês, D. Richard Russel, como se lê no Santuário Mariano, transcrito no livro “Oliveira de Frades”, da autoria de António Nabais, natural desta mesma paróquia, de mim próprio e de Manuel Martinho, um bom Homem desta Casa durante muitas décadas, com edição da CM de Oliveira de Frades, em 1991.
Em termos de dados notórios, em 1795, a Companhia Geral do Alto Douro explorava aqui um destilador de aguardente, enquanto que, em 1910, era constituída uma Comissão Paroquial Republicana pelos Padres António Dias D’Almeida, Joaquim Pereira dos Santos Aragão e ainda Bernardino Pereira, sendo substitutos Joaquim Pereira dos Santos e José Francisco Mariano.
Escolarmente, a Corredoura e Cajadães foram os locais fortes da freguesia, havendo também um Jardim de Infância no edifício da Junta de Freguesia, este imóvel inaugurado em 1993. Com uma antiga Estação do Caminho de Ferro do Vale do Vouga, ainda de pé, e um Apeadeiro no Fojo, em Ferreiros, eis outro bom testemunho da importância que sempre demonstraram estas localidades.
A zelar por estas terras, lá temos o S. Vicente, a Santa Eufêmia, o S. Tiago, a Nossa Senhora da Assunção, a Nossa Senhora do Rosário em festas anuais. Recorda-se ainda a extinta Filarmónica que deixou de actuar em 1883. Com várias unidades comerciais, sobretudo em Cajadães, na Corredoura e S. Vicente, é de destacar-se a sua componente de restauração. Rica é também a sua floresta, parte dela a explorar pela Portucel.
Passado há aqui e futuro também. E ainda bem que assim é.
Vamos até ao passado de Campia
Campia, a terra do ouro verde, com visto para o futuro
O título que encima esta notícia é uma espécie de montagem de dois tempos: há anos largos, em trabalho de reportagem sobre esta terra, Campia, em conversa com António Ferreira e um grupo de outros amigos, vendo tanta riqueza florestal, logo pensei em associar esse factor, ao ouro, verde, aqui; hoje, passado todo este tempo e por força da dedicação de muita gente, ao longo dos séculos, o futuro está a ser escrito, nesta freguesia, com bons e sólidos alicerces e muitos projectos com larga visão. Desta forma, venham os anos, que a vida está assegurada. E com saúde.
Muito embora assim seja, a sua principal matéria-prima, as pessoas, está a fugir, principalmente, desde os anos sessenta do século passado, em que se contavam cerca de dois mil habitantes, quando agora, no Censos 2011, apenas ali víamos a viver 1558 boas e laboriosas almas. Mal do interior, nem o arreganho de quem por aqui anda a sonhar com melhores dias de amanhã consegue fazer estancar essa terrível e mortífera doença. Mas, se não fosse essa vontade de aqui teimar em fazer a sua vida, seria muito, muito pior. Acontece que Campia, pela sua centralidade, pela sua importância, pela vinda de novos investimentos, tem tudo para dar a volta e, de novo, vir a atrair mais gente, que bem a sabe acarinhar e integrar.
Com pouco mais de 36 quilómetros quadrados, as povoações de Adside, Albitelhe, Cambarinho, que chegou a pertencer a Cambra, CAMPIA, Cercosa, Crasto, Fiais, Lousa, Malhadouro, Rebordinho, Seixa, Selores e Vales são os espaços onde apetece continuar. Banhadas pelos Rios Alfusqueiro e Lousa, com mais uma boa série de ribeiros e corgas, estas localidades fazem justiça ao seu topónimo especial, Campia, “terra lavradia”, no dizer de Mário João Pereira Loureiro ( in “Toponímia do concelho de Vouzela, CMV, 2008”).
Com estas qualidades, vários foram os povos que aqui tiveram interesse em se fixar, como atestam, por exemplo, o Castro do Cabeço do Couço ( Jorge Adolfo Marques – Vouzela, Património Arqueológico, CMV, 2005), as mós romanas de Rebordinho, os vestígios da via também romana da Seixa (Amorim Girão – Antiguidades Pré-Históricas de Lafões, Coimbra, 1921), entre outros pontos patrimoniais de relevo, como sejam também as Casas de Cambarinho e da Ti’ Bernarda, Campia de Cima, estas muito mais tardias, obviamente.
Entretanto, numa viagem por milénios de história, fica a saber-se que a sua área encolheu. Veja-se: em 1258, abrangia as “villas” de Alcofra, Campia, Carregal (Destriz), Cercosa, Covelo, Paranho (de Arca), Rebordinho, Reigoso, Selores, Varzielas, para apenas se citarem alguns dos povoados mais emblemáticos dessa época. Alguns séculos depois, em 1527, perdera-se Reigoso, Arca, Alcofra e Varzielas. Administrativamente, pertenceu aos concelhos de Lafões, S. João do Monte, Oliveira de Frades, para se fixar em Vouzela, após o ano de 1871.
Cioso da defesa de seus cidadãos, fregueses e paroquianos, o S. Miguel, vigiando, a partir da parte frontal da Igreja de Campia, não pára de zelar pelo interesse de quem também tanto estima este Santo, dedicando-lhe, em Setembro, uma Festa à altura dessa sua imensa devoção. Porém, com corações largos, também Nossa Senhora de Fátima, S. João, S. Tiago, Santa Ana, São Domingos, Nossa Senhora do Milagres e, de certa forma, Nossa Senhora das Neves, em Cambarinho, com uma lindíssima e riquíssima Capela, que ostenta, entre outras relíquias, uma bula papal, gravada em pedra, do ano de 1779 (como escreveu Maria do Carmo Correia, no seu livro “ Campia – História e alma de uma aldeia beirã, CMV, 2005”), são credores de igual entrega à componente religiosa, sinal e marca identitária que se reanima em cada dia que passa.
A correr fama localmente e nos arredores, são ainda as comemorações da Semana Santa com as “Endoenças”, uma tradição que se vai mantendo, ano após ano.
Sinais de modernidade
Com boas vias de comunicação e acesso, Campia foi pilar central da construção do IP5 e da A25, por aí se terem instalado o estaleiro, o escritório e serviços centrais da Empresa Mota e C.ia, responsável por essas monumentais obras. Entretanto, em 1802, falara-se na estrada de ligação da Seixa a Cambarinho, EM de 2ª classe (Maria do Carmo Correia), para, já nos inícios do século XX, se terem dado, neste sector, importantes saltos com a EN 333, 333-2 e outras vias rodoviárias de alcance e dimensão estruturantes.
Em todo o século XIX, escreviam-se, como forma de alicerçar o futuro e avançar para a modernidade, muitas e boas linhas quanto à educação, com o arranque das primeiras escolas, até se chegar aos tempos de hoje, em que é predominante o raio de acção da actual Escola Básica Integrada, uma obra nova, que não apaga, porém, uma outra triste evidência: o encerramento das saudosas “primárias”, agora em fase de despedida de suas tão nobres funções.
Com uma inegável capacidade para agarrar as pontes que se necessitam para se não parar no tempo, o serviço público de autocarros aparece em 1953, o telefone em 1939, os Correios em 1958, a electricidade em 1969, sendo esta fundamental para o sucesso empresarial, bem patente em cerca de uma centena de empresas, espalhadas por toda a freguesia, vindo, de seguida, o Parque de Leilão de Gado, como que sucessor da antiga Feira, a Casa do Povo, a Extensão de Saúde, a Segurança Social, os Bombeiros, o Centro Social com Lar e Creche, sem esquecer a Mini-Hídrica de Cercosa.
Forte sob o ponto de vista comercial, em Campia são muitos os locais onde esta actividade é exercida, tendo-se mantido, apesar de todas as vicissitudes, bem segura durante décadas e décadas, podendo mesmo dizer-se que a inovação é aqui palavra a ter muito em linha de conta: a nova Farmácia, a Agência da Caixa de Crédito Agrícola, os restaurantes, a Agência Funerária, as lojas de diversos produtos atestam esta nossa afirmação. Também os serviços se destacam, desde as cabeleireiras à óptica, passando por várias outras áreas de inegável interesse.
Lá bem no alto do pódio, temos a dinâmica e crescente Zona Industrial, que tem a acompanhá-la ainda outras unidades empresariais de relevo, em diversas localidades desta freguesia, algumas delas com um bom e longo historial. Na base destas iniciativas, há agentes empreendedores que merecem toda a nossa consideração e aplauso.
No plano de aproveitamento sustentável de recursos naturais, vemos esta terra dotada de um aprazível Parque Fluvial, que foi muito dinamizado em finais da década de setenta, em Porto Várzea, no Rio Alfusqueiro. Porém, o seu selo maior, em matéria de espécies muito apreciáveis, em biodiversidade, com projecção e destaque mundiais, temos a Reserva Botânica de Loendros, em Cambarinho, espaço de uma beleza ímpar sobretudo no mês de Maio.
Vida social e associativa
Desde criança, sempre temos ouvido dizer que Campia não deixa os seus créditos por mãos alheias, quanto ao gosto e dedicação a causas sociais. Comprovamo-lo ao longo dos tempos, por conhecimento próprio e por outros meios e testemunhos.
Recordamos a notória Associação Cultural, que se lançou em cheio na criação do citado Parque e Praia Fluvial, assistimos ao nascimento do primeiro Rancho Folclórico, hoje com a designação de Recordações de Campia, vemos e vimos como singrou o Grupo Desportivo, descobrimos os Bombos de Cercosa, os Escuteiros, o Clube de Caça e Pesca, o Grupo de Amigos de Cambarinho, o Grupo Carnavalesco e sua expansão e afirmação, para mostrarmos quanto aqui se valoriza o associativismo e suas dinâmicas.
Neste contexto, é impossível esquecer o esforço de todos os seus dirigentes e dinamizadores e os muitos apoios que têm vindo a mobilizar. A este propósito, há dois nomes que não podem deixar de aqui se registarem em nomes gravados a letras douradas: Amadeu Rodrigues Tavares e Salomão Dias. Activos empresários na Venezuela, a sua Campia está-lhes na alma e no sangue.
Ao falar destes beneméritos, saltam-nos aqui muitas de suas obras. Uma delas, do foro religioso, assume particular destaque: a imagem de Nossa Senhora Milagrosa, lá bem no alto com os seus 15 metros de altura, perto das Malfartas, que evoca a saúde recuperada de Teresa Rodrigues, em gratidão de seu Pai, Amadeu Rodrigues, que ali imortalizou a sua devoção.
Em terra deste quilate, com homens e alma a sério e a valer, como diriam Maria Glória Carvalho, Francisco Cunha Marques e Teresa Tavares, autora esta que é de Campia, que foram obreiros do livro “ Vouzela – A terra, os homens e alma, CMV, 2001”, é fácil esperar então por um futuro risonho. Assim o esperamos e desejamos.
Carlos Rodrigues, in “ Notícias de Vouzela”, Fevereiro de 2015
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015
Uma viagem por Alcofra
Alcofra: de refúgio cristão a terra de futuro
Esta terra, que fica encravada entre montes, que faz a ligação entre Lafões e o Caramulo, que conquistou, a pulso, uma estrada condigna nos anos sessenta, setenta do século e milénio anteriores, que tudo fez para ter escolas públicas a sério, que foi esconderijo de cristãos em zona de árabes, na caminhada de norte para sul, ainda antes da nossa nacionalidade, é hoje, mesmo que tenha perdido uma grande parte de sua população, uma freguesia com força para continuar o seu futuro.
Se, nos citados anos, a dura luta pela estrada mobilizou as suas populações, levando a discussão até à então Assembleia Nacional, na actualidade ganhou outras e novas vias, para além da EN 333-2, a da polémica, como aquela que, passando por Farves e Mogueirães, se converteu na melhor ligação à sede do concelho, Vouzela, numa outra que serve o Couto e Carvalhal de Vermilhas, a que se pode ainda juntar aquelas que, circulando pelas póvoas de Campia, também chegam a Alcofra. Em rodovias, muito se ganhou, sem sombra de dúvida. Talvez devido a esse bom e poderoso factor, estas localidades ( com a curiosidade de nenhuma se designar por Alcofra, que é a “soma” de todas) são bem servidas de comércio e uma certa vitalidade social que se saúda e aplaude.
Paróquia milenar, foi couto com autonomia desde os tempos do nosso primeiro Rei, D. Afonso Henriques, que lho concedeu em 1134, isto é, teve um estatuto praticamente equiparável a concelho, e sempre gozou, nessas épocas, desse estatuto. Isto prova a sua sustentabilidade e importância, reconhecida pelos sarracenos, que a viram como All-Kafre, ninho de infiéis, que não renegavam a sua cristandade e não foram na onda da moçarabização, que Coimbra, por exemplo, abraçou desde cedo. Diz-se também que o padroeiro municipal, S. Frei Gil, tinha uma de suas boas costelas dessa origem, atribuindo-se-lhe, por exemplo, a tradução de livros árabes sobre medicina. Mas, em Alcofra, a moda não pegou, pelo menos facilmente.
Como ninguém dava nada a ninguém sem ter havido uma forte razão para essa doação, Alcofra veio a atingir esta categoria, porque o seu D. Cid prestou, ao ainda Infante, D. Afonso Henriques, um bom “serviço que me tendes feito e fareis”.
Com esta carta de recomendação, com brasão próprio, que serviu de base ao “selo” da Casa de Lafões, do Rio de Janeiro, assim galgando mares, esta terra serrana foi sempre muito apetecível ao longo de todos os tempos. Abrigada entre os píncaros montanhosos, sulcada de rios e ribeiros com águas criadoras, com uma boa localização para uso de solos agrícolas, primeiro ali tinham arribado os povos pré-históricos, como se prova pelo Castro do Gralheiro. Numa caminhada provavelmente sempre contínua, atinge-se a fase de um forte domínio senhorial, de que a Torre, muito bem restaurada, é testemunho credível e duradouro, desde a Idade Média. Prova-se assim que ali se fixaram as gentes que registariam a sua obra no decurso das vivências em tais paragens.
Hoje, integrada no concelho de Vouzela, a freguesia de Lafões, pertenceu a S. João do Monte e a Oliveira de Frades, antes das grandes alterações dos anos trinta, século XIX, prolongados por 1855, fim da circunscrição concelhia de S. João do Monte, e de 1871, ano em que Vouzela fica sede municipal de uma forma clara e definitiva com jurisdição sobre estas áreas da Serra do Caramulo.
Personalidades de peso
Com tanta história, é fácil descobrir gente que se notabilizou nesta mesma freguesia, ou que aqui teve fortes raízes e ligações. D. Cid e seu filho, D. Cid Aires vêm logo na linha da frente, em antiguidade, mas o Dr. Egas Moniz, de seu nome competo, António Caetano de Abreu Freire Egas Moniz, com projecção mundial com o seu Prémio Nobel da Medicina, teve, na Quinta do Carril, o berço materno, na pessoa de sua mãe, D. Maria do Rosário de Almeida e Sousa Abreu, casada com Rafael de Almeida e Sousa, um apoiante dos quatro costados de Maria da Fonte e da Patuleia, que muito lutou por esta causa.
Também o Monsenhor António Marques de Figueiredo se destacou como Pároco e Professor em S. João do Monte, como Docente e Director do Colégio dos Órfãos, em Coimbra, como Vice-Reitor do Seminário de Viseu, como Vigário-Geral da Diocese ( de 1904 a 1927), passando a Vigário-Capitular com o Bispo Dom José da Cruz Moreira Pinto, de 1928 a 1943.
Entretanto, são ainda de destacar o Comendador Cid Loureiro, que, no Brasil, tudo fez pela valorização de sua terra, bem como os cantores Fernando Farinha e Paulo Alexandre, numa lista enorme de tantas personalidades, de que não podemos esquecer os Morgados de Alcofra, instituídos por Cid Aires: Martim Àlvares, Lourenço Vicente, N. Peres, Francisco Lopes, Tomé Machado, Miguel Machado de Andrade, Tomé Machado de Andrade e Arcângela Machado, seguindo nós a documentação referida no antigo jornal paroquial, “ O Alcofrense”. Por ser merecido, aqui incluímos o Dr. Telmo Antunes, pelo seu percurso autárquico, político e social de relevo, desde muito jovem, iniciando-se, convém que se diga, nas lides jornalísticas neste nosso “Notícias de Vouzela” aos catorze anos de idade.
Falar destas localidades e não trazer à liça a Casa do Povo/Centro Social, o Posto Médico, a Farmácia e outros equipamentos sociais, seria uma ingratidão face à importância que foram colhendo, pela obra feita, desde há várias e muitas décadas, sobretudo a partir dos anos setenta do século XX.
Carlos Rodrigues, in “Notícias de Vouzela”
terça-feira, 10 de fevereiro de 2015
Oliveira de Frades, a boa restauração
Esta minha terra, Oliveira de Frades, que tem na avicultura e no frango da campo produtos de excelência, sendo Capital deste último bom produto, possui unidades de restauração que são uma de suas boas imagens de marca, desde um fenomenal Solar ao bem situado e moderno Mirante do Olheirão, passsando por muitos outros, como os Lafonenses, o Forno do Rabino, o Cantinho, o Pelicano, a Estrela da Serra, sei lá, quanto de apetitoso por aqui há. E, à hora do almoço, isto começa de fazer crescer água na boca. Prometendo voltar a este tema, por agora é tudo...
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