terça-feira, 7 de abril de 2015
Antelas, a maravilha da pintura rupestre europeia
Pelas nossas terras
- Anta pintada de Antelas, uma referência muito especial
Nos últimos tempos, sob esta designação genérica de “Pelas nossas terras”, temos andado a tentar divulgar, com mais ou menos sucesso, alguns aspectos tidos como relevantes em cada freguesia, vistas estas de uma forma geral e genérica. Entendemos, porém, que, para falar deste sepulcro-templo, como o definiu o Professor Domingos Cruz, da Universidade de Coimbra, que tantos trabalhos de escavações e investigação tem desenvolvido acerca deste monumento, tínhamos de ser mais selectivos e mais incisivos, dedicando à Anta Pintada de Antelas este espaço, todo ele e é sempre pouco para retratar tamanha jóia da nossa pré-história.
Guardada a sete chaves, em cuidado extremo, que se deve à clara consciência que está ali um tesouro fenomenal ( e as palavras são para ser usadas sempre que tal se justifique, como acontece neste caso), o acesso a esta Anta depende de contactos prévios com a Câmara Municipal de Oliveira de Frades. Desenganem-se, porém, os predadores destes locais em busca de metais preciosos: ali não há nada que preste, a esse nível. Nada. Mas a arte existente, única, intransmissível, antiquíssima e de um valor sem preço, essa, merece ser estimada, preservada e valorizada em tudo quanto for meio de divulgação patrimonial e turístico. Anta de Antelas, temos uma e uma apenas.
Monumento nacional tardio, o que se justifica por só recentemente, em finais do século passado, depois de uma primeira abordagem, nos anos cinquenta, se ter confirmado a sua importância, está assim classificada desde o ano de 1990, através do Decreto 29/90, de 17 de Julho, com uma pequena correção em 1993, em que se alude à freguesia de Pinheiro de Lafões, onde se situa, ponto que ficara omisso e mal definido no documento inicial.
Referenciada, mas não muito profundamente, pelo nosso conterrâneo de Fataunços, Professor Aristides Amorim Girão, em 1921, foram seus grandes divulgadores, anos mais tarde, década de cinquenta, os arqueólogos Luís de Albuquerque e Castro, Octávio Reinaldo da Veiga Ferreira e Abel Viana, que procederam a escavações e à recolha de parte de seu espólio. Colocados perante a evidência de um tão imponente monumento com um enorme fulgor em pinturas e figuras e perante ameaças de a natureza estragar as tintas e os traços, passado algum tempo optaram por cobrir, de novo, toda a câmara, corredor e mamoa, componentes deste tido de construções megalíticas.
Nos anos noventa, voltam-se para este local as atenções do Município, pedindo a colaboração de entidades científicas credenciadas, em que, na altura, sobressaiu a Universidade de Coimbra, através do Professor Domingos Cruz. Com uma vasta publicação, até a servir para sua Tese de Doutoramento, pode referir-se, por exemplo, o Boletim Municipal de Oliveira de Frades, nº 86, de 1996, a par de muitos outros trabalhos. Nesse contributo, designou-a então como “ Um sepulcro-templo do Neolítico final”.
Conclui-se aquilo que se sabia: este é um monumento funerário, datado dos anos que vão entre 3625 e 3140 a.C, em modelo avançado quanto a este tipo de operações de contagem do tempo (feita a nível internacional em dois locais distintos), contando com oito esteios, todos decorados no interior da câmara, parte central, e alguns mais nos corredores, em que proliferam pinturas e gravuras de significado difuso, nas cores a ocre vermelho e preto. Dali saíram para o Museu dos Serviços Geológicos de Lisboa vários objectos do seu espólio, alguns deles representados, em réplica, no Museu Municipal de Oliveira de Frades.
Anta ou dólmen – esta, uma versão francesa, generalizada no século XIX – é para Marc Devignes a Lascaux do megalitismo e a catedral da pintura rupestre peninsular e europeia, pela riqueza, nitidez e extensão, com significado lógico e contínuo, de sua arte.
Com uma expansão artística e científica de nível mundial (e não é demais enfatizar esta sua importância, porque reconhecidamente real), a Anta Pintada de Antelas tem lugar primordial no nosso património. Só que, por vezes, não se dá por isso e é pena…
Carlos Rodrigues, in “Notícias de Vouzela”, 2 Abril, 2015
segunda-feira, 6 de abril de 2015
Vamos até S. Miguel do Mato
S. Miguel do Mato, dos imperadores de Leão a Angola
Hoje, vamos falar de uma terra de que recordamos um dos pinheiros mais exóticos do mundo, aquele que escolheu para sua morada a torre de um velha Igreja, a de S. Miguel do Mato, visto da antiga linha do caminho de ferro do Vale do Vouga, nas muitas viagens feitas entre Pinheiro de Lafões e Viseu e vice-versa, em anos que se vão perdendo na nossa memória. Impávido e sereno, resistente e teimoso, por lá continuou anos a fio, uma boa cepa, assim o cremos.
Nesse recuado tempo, jamais pensaríamos que, um dia, haveríamos de estar a escrever, aqui, num dos mais destacados e prestigiados jornais regionais, facto que já vamos registando desde 1973, estas ou outras linhas. Longe de nós tal ideia! Quis a vida que assim acontecesse e ainda bem, por todos os motivos e mais alguns.
Por destino, aproveitamos esta boa oportunidade para falarmos de uma das freguesias do concelho de Vouzela, que muito o tem engrandecido, esta, a de S. Miguel do Mato. Prenhe de história, de barriga grande a esse nível, nela viveu, por exemplo, um dos mais ilustres nobres da Idade Medieval peninsular, D. Ramiro, Rei (?) de Viseu, Imperador de Leão, que residiu na Quinta do Paço nos primeiros anos de 900, ao mesmo tempo que vagueava pela citada nossa capital de distrito e pela Galiza, onde haveria de afirmar sua crescente importância. Séculos depois, na história deste território, haveria de nascer D. Isabel Almeida Ferreira (cerca de 1659), que viria a estar na origem de uma das mais notáveis casas e famílias da nossa região – os Malafaias de Serrazes e Santa Cruz da Trapa. Consta que os célebres Pastéis de Vouzela tiveram a sua doce origem em religiosas de Moçâmedes, que passaram pelos Conventos no Porto, antes de virem fixar-se na vila que tem a fama e o muito proveito de ser o berço desses mesmos Pastéis.
Mas esta terra não se ficou por aqui. No século XVIII, um nosso conterrâneo, José de Almeida e Vasconcelos do Soveral de Carvalho da Maia Soares de Albergaria, um nome grande para um Homem, de Portugal, de Angola e do Brasil, o Barão de Moçâmedes e Visconde da Lapa, Coronel de Cavalaria, Governador de Goiás/Brasil e Capitão-General de Angola, fez surgir a cidade de MOÇÂMEDES, lá em baixo, na África, hoje designada por NAMIBE, o que é uma enorme carta de recomendação para estas povoações de S. Miguel do Mato. Senhor de alma enorme, com saudades de sua aldeia, replicou seu nome nas paisagens africanas para que nunca mais viesse a ser esquecida. Boa ideia, melhor concretização!
- Mas o passado de S. Miguel do Mato é muito mais antigo
Se estes são dados, por assim dizer, quase contemporâneos, S. Miguel do Mato vai buscar os seus pergaminhos a outros tempos muito anteriores a estes. Perde-se na longínqua viagem pelos nossos tempos como comunidades a imagem destas terras. Por aqui andaram povos ancestrais, da nossa pré-história e de épocas mais recentes, ainda que com milénios de vivências. Uma delas faz-nos recuar aos Romanos, que aqui estamparam a sua força empreendedora, vincada nos vestígios de suas estradas, duas ao todo, sempre a ligarem a Viseu.
De acordo com “Vias romanas em Portugal – Itinerários”, esta freguesia era bafejada por duas estradas, ainda que uma delas lhe passasse de raspão, aquela que ligava o Porto a S. Pedro do Sul e Viseu, tocando estes territórios na sua passagem por Lufinha, Quinta da Comenda a caminho de Gumiei.
A outra, vinda do Cabeço do Vouga/Marnel também para Viseu, saía de Vouzela por Fataunços, Figueiredo das Donas, Carregal, Queirã, Vale Susão, Quinta do Paço, Sabugueiro, Carvalhal do Estanho, Caria, Silgueiros, Bodiosa, havendo, a certa altura, uma variante de Queirã a Viseu, via Igarei e Couto de Cima. Pelo que se constata, a freguesia de S. Miguel do Mato inscreve o seu nome, para sempre, no capítulo das Estradas Romanas.
Com base numa série de fontes e nas páginas da Internet do Rancho Folclórico de Vilar que, para além do bom trabalho de pesquisa etnográfica, cultural e musical, ainda nos oferece boas informações de História, sabe-se que D. Afonso Henriques, em 1133, doara a “villa” de Moçâmedes a Fernão Peres. Avançando-se pelos tempos fora, entramos no período agitado das guerras com Castela, em 1383/1385, e esta terra nelas aparece em força, curiosamente ao lado dos castelhanos, através do Senhor de Moçâmedes e de Lafões, Dom Henrique Manuel de Vilhena, que acabará por ficar sem esses poderes, a passarem para as mãos de Martim Vasques da Cunha e Gonçalo Pires de Almeida. Com o Reis D. Duarte e D. Afonso V, aqui se notabilizaram João de Almeida, Luís de Almeida, Fernão de Almeida, Duarte de Almeida, o Decepado de Toro.
Distribuídos os seus actuais habitantes pelos lugares de Moçâmedes, Cruzeiro, Adsinjo, Burgetas, Roda, Malurdo, Casal, Lourosa, Outeiro, Vila Pouca, Caria e Vilar, hoje rondam as 924 pessoas (2011), mas já foram bem mais, como se vê por estas tabelas: ano de 1950 – 1497; 1960 – 1779; 1970 – 1315; 1981 – 1331; 1991 – 1251; 2001 – 1128, descendo a fasquia do milhar, como vimos, precisamente, em 2011 – 924. Seguindo a temível regra do despovoamento do nosso interior, isto começa de ser preocupante.
Para se compreender o efeito devastador destas conclusões, por exemplo, actualmente há apenas um Centro Escolar para toda a freguesia, por sinal, bem moderno e atraente, com trinta e sete crianças, desde o Jardim de Infância ao 4º ano de escolaridade. Ainda há anos, em 2003/2004, tínhamos as escolas de Caria, também com JI, e 21 alunos, Lourosa, 10 e Moçâmedes, 15. Recuando um pouco mais, descobriremos as Telescolas de Moçâmedes e Caria, o que há não passa de uma boa memória.
Religiosamente, nestas terras que já pertenceram aos concelhos de Lafões e de S. Pedro do Sul, para estarem agora, firmes, em Vouzela, podemos assistir às Festas de S. Sebastião, Nossa Senhora das Dores, Corpo de Deus, Espírito Santo, S. Miguel Arcanjo (Padroeiro), Santo António, nas Burgetas, Senhor da Agonia, Ermida da Frádega, apinhada de lendas, Nossa Senhora do Milagres, Caria, Sagrado Coração de Maria, Vilar. A propósito da Capela do Espírito Santo, há quem afirme que foi tal a sua importância que daí saíram as paróquias, todas de S. Miguel, incluindo Queirã e Bodiosa, sendo muito falada a Ladainha das três freguesias que convergia para aquele lugar sagrado.
Com uma Igreja nova, ainda meio recente, a antiga por lá se mantém, dizem-nos que com algumas obras de beneficiação e conservação, o que é muito bom sinal.
- Sinais de modernidade
Numa breve panorâmica pela actualidade, são evidentes algumas boas marcas de renovação de espaços, como o da velha Estação, agora a albergar a Sede de Freguesia, o novo Centro Escolar, a o Centro Social, nas antigas instalações da Casa do Povo, o Parque Desportivo, onde, outrora, houve ligação a uma Feira, sendo que as antigas salas da Escola Primária são ocupadas pela Banda e pela Catequese, pois aqui é bem evidente uma certa força associativa, destacando-se, de imediato, a sua Banda, nascida em 1875, e o ACR/Rancho Folclórico de Vilar, com páginas brilhantes na área em que desenvolve a sua actividade, a Associação Social Cultural e Desportiva, podendo ainda citarem-se a Associação dos Amigos do Senhor da Agonia, a Fundação Padre António de Almeida Oliveira e o Grupo Desportivo.
Também as vias de acesso rodoviárias, perdido que foi o comboio, têm ares de alguma boa qualidade, o que facilita os contactos com as terras em redor.
Em matéria de dinamismo empresarial, se outrora as Minas de Volfrâmio e Estanho marcaram estas paisagens, hoje detectam-se boas experiências noutros sectores, alguns deles de ponta, como aqueles em que se fala de uma nova agricultura, sem esquecer outros planos.
Importando atrair a juventude, esse é o desafio que nos deve mobilizar a todos. Neste âmbito, por feliz acaso, tivemos o grato prazer de, no passado dia 29 de Março, assistirmos a um sinal de vitalidade de seus jovens, quando o Dr. Ricardo Lopes, um natural destas povoações, fez a apresentação de seu livro “ Uma marioneta na cruz”.
E com esta mensagem de esperança para o futuro, nos ficamos por aqui, sendo que S. Miguel do Mato tem muito por onde andar e um vasto caminho a percorrer. Boa viagem!
Carlos Rodrigues, texto parcialmente publicado no “Notícias de Vouzela”, 2 de Abril de 2015
quinta-feira, 2 de abril de 2015
Ria e mar pelos lados da Vagueira
Em jeito de poesia de algibeira, aqui vão duas notas: " Entre o mar e a ria/com as ondas a barulhar/passadiço, qual rua esguia/dá fôlego, sol e ar//... Vagueira e Praia do Labrego/agora unidas a pé/são praias com sossego/pontos de encontro e fé//...A ria, mansinha/liga a Mira, lá além/a água marítima, arisquinha/diz-nos: não saia daqui ninguém//... Olhei o céu escuro/fogo em Albergaria/senti que o mundo não é seguro/e nele se não confia//... Perdido neste horizonte/ com as ondas a ocidente/vi, de fronte/afinal, esta é terra de boa gente//... 2015, Abril, 2
quarta-feira, 1 de abril de 2015
Descentralização na ordem do dia...
Descentralização com carta verde, mas por pontos
Não é nova esta ideia de descentralizar competências, transferindo-as da administração central para as autarquias, que é o tema que aqui hoje nos motiva a escrevermos umas curtas linhas. Por esse mundo e Europa fora, há muitas experiências e práticas a este nível com assegurado sucesso. Só que Portugal, com uma tradição acentuada em fazer das capitais a sede todos os poderes, tem resistido a apanhar esse comboio. Por experiência pessoal, por trabalhos efectuados com base académica, sempre nos temos movimentado nesta área. Mas pouco temos conseguido em termos de resultados aparecidos e palpáveis.
Por felicidade e por ironia do destino, que nos leva a que possamos tomar contacto com estas matérias, vemos agora que estes pontos estão, de novo, a tentar entrar na ordem do dia e ainda bem. Depois dos arremedos de uma Constituição que consagra estes princípios, de acordo com o seu Art. 267, e de outras investidas, como as da Lei 159/99, de 14 de Setembro, que levou a que tivéssemos feito parte de um Grupo de Trabalho, na ANMP, sector da Educação, aí temos agora o Decreto-Lei 30/2015, de 12 de Fevereiro, oriundo da Presidência do Conselho de Ministros, que, apoiando-se nos tais passos dados, vem tentar avançar para uma real descentralização em Educação, Saúde, Segurança Social e Cultura. Numa comparação com a carta de condução por pontos, estamos perante uma caminhada, para já, algo provisória, experimental, em projectos-piloto, a que se associam operações de avaliação no sentido de, aferindo resultados, poder ou não vir a solidificar-se.
Por formação, por vontade e por convicção, somos totalmente a favor da descentralização quanto mais não seja por reconhecermos que o actual modelo de governação, muito fechado e centralizado, deu no que deu: um desastre completo em sede de coesão territorial e social. Mas também não somos capazes de ver nestas novas fórmulas a mezinha para todos os nossos males. Se não houver dinheiro disponível, se não formos audazes nas políticas públicas, não criando falsas igualdades com receitas iguais para todas as situações, será mais uma iniciativa condenada ao fracasso.
Compreendamo-nos: se pusermos em cima da mesa valores absolutos para as câmaras do litoral desenvolvido e para as suas congéneres empobrecidas do interior martirizado por fuga das suas populações, em virtude de falta de oportunidades de desenvolvimento, esta descentralização será trabalho perdido e de nada valerá para corrigir os problemas com que o país se defronta.
Em terras que perderam tribunais, que têm correios de meia tigela, que nem certificados de aforro foram capazes de fazer por falta de meios técnicos, que vêem escapulirem-se os seus jovens porque têm os horizontes tapados, que obrigam a que se tenha de sair para fazer um penso, porque os serviços de saúde são um fraco remedeio, não é com uma descentralização a martelo, igual para todo o lado, que saímos da cepa torta.
Acreditando que, responsabilizando os eleitos locais com desafios novos e instrumentos adequados, possibilitando que dêem corda a seus projectos e anseios, indo no bom caminho, vemos nesta descentralização um meio para o desejado desenvolvimento que tanto tarda por aqui. Mas, quando Vouzela tanto tem perdido, Oliveira de Frades ainda não solidificou o seu futuro e S. Pedro do Sul também tem muito a fazer, porque viu fugir mais de dois mil habitantes, sem demora, importa ter-se arrojo e trilhar as duras apostas que temos de pôr em prática.
Será esta descentralização esse meio? Não o sabemos, até porque desconhecemos o que vai nascer dos projectos-piloto que, dizem, vão ser colocados em diversos terrenos. Dando primazia à gestão, estabelecimento de programas e estratégias concertadas, construção e conservação, dinamização de quadros de pessoal (excepto professores e médicos, que não saem da contratação estatal, salvo em aspectos pontuais), criação de redes e outras valências e, fazendo fé no Art.4º, que fala em transferência de recursos financeiros, temos alguma fé em que isto venha fazer mudar a tristeza em que estamos metidos. Que assim seja!!! Mas continuamos carregadinhos de dúvidas e medos.
Carlos Rodrigues, in ”Notícias de Vouzela”, 5 Março2015
quarta-feira, 18 de março de 2015
Imperfeitos somos todos
Vivemos o reino da imperfeição
Para quem anda por este mundo e, no mínimo, passou pelos bancos da Catequese, mesmo daquela que privilegiava as orações aprendidas como a tabuada, um mais um dois, rogai por nós, pecadores, livrais-nos do mal, ámen, tem a clara noção de que a perfeição, total e absoluta, só Deus a tem. Agora, em 2015, neste seu primeiro trimestre, reforçou-se esta ideia, com as palavras de Pedro Passos Coelho, que assumiu essa frágil condição humana de não ser um cidadão perfeitinho como se pressupunha. Temos de confessar que tem toda a razão.
Acompanhando-o nesta sincera e humilde confissão, mal de nós que assim somos também! Logo, vivemos todos essa tragédia de carregarmos o fardo pesado de quem não escapa a ser sempre assim, porque a divindade não está ao nosso alcance. Humanos, erramos e pecamos todos os dias e em toda a hora.
Há, porém, um pormenor que distingue umas das outras pessoas: umas sabem que têm compromissos fiscais e de segurança social a cumprir, outras nem por isso. Com mais ou menos esforço, muita gente faz por se lembrar, sempre, que não pode deixar de lado essa obrigação. E, se o não fizer, implacáveis, torcionários e cegos, lá vêm os Serviços respectivos para tudo fazerem pagar com língua de palmo, ameaçando com juros especulativos e desumanas penhoras, desde as belgas ao berço. Essa é que é a diferença.
Acrescenta-se ainda um novo pormenor: uns, 9999999 de pessoas, são cidadãos comuns. Pedro Passos Coelho é Primeiro-Ministro, o lugar dos lugares em termos de responsabilidade e visibilidade, mais até do que o do Presidente da República, que, às vezes, deveria era estar caladinho, do todo. Por esse facto e por todos os demais, não pode PPC invocar nem o esquecimento, nem a falta de dinheiro ( uma praga que nos esfola a todos), nem outras desculpas esfarrapadas de igual e má categoria. Sem sabermos o que vai dizer quarta-feira na Assembleia da República, estamos a escrever estas linhas com as fontes que temos e não essas que podem vir a surgir.
Lamentamos ter de dizer que nos sentimos num País onde a confiança anda pelas ruas da amargura, onde o futuro tem manchas negras demais e onde vislumbramos imperfeições a mais, sendo que precisamos é de GENTE com outra marca e imagem. Pecadinhos todos os têm, mas saibam assumir-se essas fraquezas e não nos ponhamos todos a atirar areia para os olhos do povo, que sabe muito bem distinguir água de azeite.
Vendo mais para o lado e para outras direcções, estes males são o pão nosso de cada dia e atingem muitas outras áreas, não sendo, sequer, necessário enumerá-las. Esse é que é o problema: está podre a nossa sociedade! Esse é o medo que nos assalta a cada momento. Se assim é e é, arrepiemos caminho, antes de perecermos no lodaçal em que estamos enterrados, apenas com o pescoço de fora, talvez por pouco tempo. Apre, isto é lepra a mais para corpos tão frágeis. Santo Deus!...
Carlos Rodrigues, in “Notícias de Vouzela”, Março, 2015
Varzielas lá no cimo da Serra do Caramulo
Pelas nossas terras
- Varzielas, água e vento a produzirem riqueza
Em enclave de terras pertencentes ao concelho de Oliveira de Frades, a União das Freguesias de Arca e Varzielas tem o condão de, estando longe, tudo terem feito os seus antepassados para não soltarem essas amarras institucionais desde meados do século XIX, quando se chegou a alvitrar outras possíveis ligações. Nada disso. Firmes como as rochas da imponente Serra do Caramulo, em cujo ponto cimeiro se encontram, não vacilaram nem na argumentação, nem na decisão. Igual atitude ostentam as actuais gerações, registe-se em seu favor.
Nesta rubrica, já aqui falámos de Arca. Como o prometido é devido, hoje é a vez de passearmos por Varzielas, o que sempre fazemos com gosto, muito prazer e bons ares. Nos seus 11, 4 quilómetros quadrados, descobrimos dois pontos de grande altitude, as Pinoucas, com 1062 metros e, ali pelas bandas da Bezerreira, sobe-se aos 992 metros, o que faz com que o Céu, por estas paragens, esteja sempre por muito perto. Com este enquadramento geográfico, é natural que os Invernos sejam de alguma dureza e os Verões tenham calor até mais não.
Com um tal envolvimento, são as pessoas, no entanto, a sua maior riqueza. Com coragem e perseverança, há muito quem tenha mantido o bom hábito de não desistir e ali viver, com dignidade, com vontade de continuar a história desta terra serrana. Numa análise demográfica, os números são, todavia, dramáticos: em 2011, com 359 habitantes, poderia fazer-se um paralelo com o ano de 1862, com 358. Acrescentemos outros dados: 1890 – 407; 1940 – 490; 1960 – 531; 1981 – 509; 1991 – 518, uma certa recuperação; 2011 – 359, como já vimos, o que revela uma queda abrupta e preocupante.
Devido ao enquadramento geográfico, Varzielas, a que se juntam os lugares da Bezerreira e Monteteso, alberga no seu seio duas componentes naturais que são poderosos trunfos para a sua sustentabilidade económica e social: as águas, com uma forte unidade industrial e as energias eólicas, como relatámos na nossa publicação do dia 26 de Fevereiro. A par da actividade avícola e agropecuária, algum comércio e uma fábrica de Serração, vivem-se ali factores que importa saber valorizar e ampliar, assim haja vontade e gente para levar por diante essas exigentes tarefas.
Possuindo ainda marcas da pré-História, há por ali vestígios de uma Anta, ao lado da estrada que liga a Paranho. Teve fortes ligações com o Mosteiro de Santa Cruz e com o Alcaide Cerveira, nos séculos XII e XIII, chegando, por essa altura, a estar dependente do Couto de S. João do Monte, vindo mais tarde a pertencer-lhe como concelho. Mas, em 1131, o Rei D. Afonso Henriques doara estas terras ao frade crúzio, Mestre Garino, estes mesmos espaços.
Com a antiga Igreja Paroquial a ser restaurada em finais da década de setenta, do século passado, podem ainda ver-se, por aqui, as Capelas da Bezerreira e de Monteteso, mas as suas escolas do 1º ciclo e as “telescolas” de Varzielas e da Bezerreira, essas, são hoje apenas memória e saudade, continuadas apenas pelo novo Jardim de Infância, nascido muitos anos depois.
Integrando actualmente a União de Freguesias com Arca, estas localidades, na actualidade, são servidas por muito razoáveis ligações rodoviárias, mormente com as estradas Águeda/Caramulo e Oliveira de Frades/ Varzielas, com pontos de partida também em Vouzela, isto a partir de anos e anos de aguerridas reivindicações que, por sinal, vieram a dar bons frutos.
Terra e montes de muito xisto, onde nasce o Rio Águeda, Varzielas, confiando na água, no vento e nas suas gentes, bem pode aguardar um futuro melhor, que bem merece, aliás.
Carlos Rodrigues, in “Notícias de Vouzela”, Março, 2015
quarta-feira, 4 de março de 2015
Sejães, terra de água e boas laranjas
- Sejães, tanta e tão boa água, meu Deus
A freguesia de Sejães é indissociável do Rio Vouga, que a corta ao meio, colocando-se as suas povoações de um e outro lado deste curso de água, meigo no Verão, atrevidote, quanto baste, no Inverno. A par desta riqueza e beleza naturais, os moinhos, em memória de tempos que lá vão e que a Barragem veio alterar, os laranjais, que se mantêm como marca muito própria, são outros dos emblemas imortais desta terra.
Mas impossível seria deixar de fora o que de melhor ali há: as suas gentes. Habituadas a terem a vila por perto, nunca deixaram, porém, de amar o chão onde nasceram. Aliás, há aqui uma relação biunívoca, com estas populações a terem esse apego pelo que é seu e com as gentes da vila e sede do concelho, Oliveira de Frades, a tirarem muito e bom partido de suas águas e clima, gozando os prazeres de uma Praia Fluvial que, durante anos e anos, foi uma espécie de Estoril cá do sítio. Hoje, com um mar de água, que a Barragem de Ribeiradio veio “construir”, cremos que, em novo e renovado espaço, esta mesma valência será ainda muito mais requisitada e estimada.
Ao falarmos de Sejães, logo deparamos com a sua importância na Idade Média, dizendo-se que, em 1258, se ligava também a S. João da Serra, que antes fora honra de cavaleiros fidalgos, com destaque para o Alcaide Cerveira (muito associado também a Reigoso e sua Albergaria), que ali existiam propriedades da Ordem do Hospital, do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra e de outras entidades e que, pelos tempos fora, se erguia a Igreja Paroquial, reparada e beneficiada com obras em 1809 e já nos primeiros anos deste milénio, a Ermida de S. Vicente, também agora com cara nova, a Capela de S. Mateus, no Casal, que em 1732 se encontrava concluída e que, em Sequeirô, no ano de 1794, aparecia a Capela de Santo António.
Tendo pertencido ao antigo concelho de Lafões, integra-se actualmente em Oliveira de Frades, sendo que, como freguesia, desde 28 de Janeiro de 2013, pela Lei 11-A, passa a unir-se a Oliveira de Frades e a Souto de Lafões, em União bem alargada. Nos seus lugares do Casal, Igreja, Sejães, Sequeirô, Ugeiras e Rio Frio, sob a protecção de seu Padroeiro, S. Martinho, se abrigam agora 200 habitantes (2011), quando ali viveram já em 1930 – 383, em 1940 – 358, começando depois uma descida abrupta que se veio a consolidar, infelizmente, nos nossos dias, para em 1981 andar pelas 229 pessoas residentes.
Com a água como bênção celestial, tanta e tão boa (fora aquela que a poluição vem estragando de vez em quando no seu Rio Vouga), os seus monumentos são também um aspecto a evidenciar: começando pelo Rasto dos Mouros, a caminho de Fornelo, temos ainda a Pedra do Jogo, uma inscultura localizada por cima do Casal, assim como é digno de boa nota o Solar, em Sequeirô, mas essencial e marcante é a Ponte Luís Bandeira, a secular rainha do betão armado, havendo também que referenciar uma outra no sítio do Buraquinho, muito mais antiga, mas com possível existência nesses tempos. E agora aí temos, imponente, na EN333-3, a Ponte Nova, nascida recentemente no contexto dos trabalhos a executar pela EDP, em função da citada Barragem.
Como convém, eis umas curtas linhas sobre a Ponte Luís Bandeira: pensada em finais do século XIX e construída nos inícios do século XX, entre 1907 e 1908, com uns contratempos pelo meio, como uma enchente que levou a cofragem, é um dos mais lídimos representantes das pontes em betão armado, no seguimento de Vale de Mões – Mirandela, 1904, Tavanasa- Suíça, de 1905, assim como a passagem inferior do caminho- de- ferro em Arraiolos.
Acontece, porém, é que estas suas “colegas” já desapareceram e a nossa, firme, ainda que agora temporariamente debaixo de água, por cá continua. Com muitos estudos feitos, referimos aqueles que agora nos vieram ter às mãos dos autores Rui Ferreira e outros, Universidade do Minho e Joel Cleto/Suzana Faro, “ A decana do betão”. Para o seu financiamento, a CM, em 24 de Abril de 1905, havia lançado uma operação de financiamento.
Numa terra que já teve escola e 35 alunos em 1904, hoje tudo isso é passado. Fica um certo espírito associativo e um Centro de Convívio e Exposições, um rinque polivalente, a dizer que ali ainda há vida. E, para alimentar os corpos, a boa restauração não falta.
Carlos Rodrigues, in “Notícias de Vouzela”, Fevereiro, 2015
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