quarta-feira, 23 de setembro de 2015

A propósito, "Um mundo para lá da dívida", um escrito de 2014...

Um mundo para lá da dívida Nestes últimos anos, pouco mais se tem falado para além da dívida. São os governantes, é a oposição, são os opinadores profissionais, são os sindicatos, são as polícias, são as escolas, são as instituições, é a União Europeia a massacrar-nos o juízo, é o FMI a dar o dito por não dito e a matar-nos, sempre, a esperança, são os jornais, nós mesmos, são as rádios e as televisões, isto é, anda meio mundo a pensar nesse monstro e outro meio cheio de medo dos tempos de hoje e a hipotecar o seu futuro, destruindo-o, por esses pavores, à nascença. Somos todos culpados quanto a estes temas. Com os olhos muito perto desta desgraça, caímos no abismo, ainda que haja hipóteses de dele se fugir. Criando um mundo em que o dinheiro impera, vivendo modelos que fazem do prazer e da riqueza imediata objectivos únicos, não descortinamos um palmo para lá desse denso nevoeiro. Com razões para que assim seja, porque a miséria e a fome são más conselheiras e já batem demasiado a nossas portas, estas são horas para sairmos destas tormentas. Num breve exercício de refrescamento da nossa memória, este País de 871 anos, mais uns tantos pozitos, que antes de o ser já o era, desde que D. Teresa começou a olhar demais para a Galiza e o gaiato do seu filho, o ainda Afonsinho, já olhava de lado para essa quebra de compromisso com a memória de seu Pai, o Conde D. Henrique, sempre foi capaz de vencer tempos difíceis. Resistiu a questões internas, D. Sancho II e D. Afonso III, D. Afonso IV e D, Pedro, D. Miguel e D. Pedro, tendo ainda, em circunstâncias adversas e muito penosas, sido capaz de se livrar da alçada dos actuais nossos amigos e vizinhos espanhóis, numa primeira fase, com Aljubarrota, posteriormente com a Guerra da Restauração, depois de seis décadas de perda da independência. Cheios das ambições de Napoleão, nem sequer o deixámos pôr, aqui, pés em ramo verde. Mesmo aquele grotesco episódio do Junot, a pensar que mandava, foi um equívoco: com o Rei no Brasil, continuámos de pé, ainda que curvadinhos quase até ao chão. Nesses tempos anteriores às invasões, só temos uma pedrota no sapato, que é Olivença, uma terra com duas mães e filhos de dupla identidade. Mas isso é mal que suportamos com uma perna às costas. Perdendo a Monarquia, que caiu de pôdre em 1910, tal como o Estado Novo, que tombou, andando a desfazer-se aos poucos, no 25 de Abril de 1974, soubemos encaixar a saída das ex-Colónias, assumindo a integração plena de centenas de milhar dos nossos compatriotas, que vieram, de novo, para suas terras e nelas teceram hinos de resistência e coragem, que ainda hoje são o nosso orgulho. Fizemos o percurso para adesão à Comunidade Económica Europeia, após dois outros resgates bem sucedidos. Ultrapassámos as dores do Terramoto de 1755 com milhares e milhares de mortos e um rasto de destruição que chegou de Lisboa ao Algarve, a Salamanca e a tantos outros locais. Corremos os mares todos e estivemos em Malaca, Luanda, Rio de Janeiro, Beira, Cabo Bojador, Cabo das Tormentas, Macau, Goa, Bissau, Timor, Terra Nova, talvez a Nova Zelândia e a Austrália, negociámos em Bruges, levámos elefantes ao Vaticano e hoje, meio anestesiados, quase vacilamos perante uma crise de austeridade que, sendo severa, dura, iníqua, injusta e nada solidária, não será, no entanto, o fim do mundo. Com a memória de nossos feitos, que são sempre pilares que não podemos desperdiçar, muito embora o actual sistema de ensino não lhes dê nenhuma importância ( um crime, esse, sim, que se pagará caro), somos gente para avançar, de peito feito e cara levantada, dentro de meses, assim o cremos. Com uma governação meio à deriva que, hoje, segunda-feira, dia 17 de Março, se senta à mesa com a oposição, quando dela nunca se deveria ter afastado mais do que as meras contingências a que a política obriga, estamos na altura de lhe reafirmar a verdade que sempre nos acompanha: esta é a hora de encarar os tempos que aí vêm com ânimo e determinação. Tendo umas eleições para o Parlamento Europeu já em Maio e a saída deste Programa também nesse mês, achamos que há que pôr toda a carne no assador das propostas, dos debates, das batalhas, das conquistas a empreender. Mas com jeito. Por esta última razão, ficamos de fora, por opção, do Manifesto dos 74. Não seremos o número 75. Mas somos, de certeza, férreos opositores do olhar vesgo com que o nosso Governo encara estas situações, atirando austeridade para cima dos problemas, quando era a economia que deveria a estar a puxar pela recuperação de que tanto precisamos. Ainda temos esperança. Quanto mais não seja, por sabermos um pouco daquilo que a História nos ensina… Carlos Rodrigues, in “Notícias de Vouzela, Março, 2014”

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Vivinhos, apesar de tudo

Depois de alguns tempos de ausência, este Frei do Gozo continua bem vivo, mas triste e apreensivo com o que se passa por esse mundo fora e por uma União Europeia que, nesta gritante questão dos REFUGIADOS de guerra, está, infelizmente, mais desunida que nunca. Uma lástima. A nossa vocação solidária está moribunda. É um esqueleto ambulante a cair para o lado mal venha uma lufadita de vento. Uma tristeza. Uma desgraça. Um monumental murro no estômago. Até quando? Assim não vamos a lado nenhum. E o sonho europeu cairá por terra, mais dia menos dia. Uma pena. Um pavor.

domingo, 23 de agosto de 2015

Os protestos contra o BES

Começo por dizer que a minha relação com o velho BES e o Novo Banco é quase de efeito zero. A meu favor, creio ter neste último cerca de 5 a dez euros, mais ou menos, como resultado positivo. Dito isto como registo de declaração de interesses, acho que já são horas de se ver resolvido o problema das contas que motivam a chuva de protestos a que temos assistido e que têm por base questões de natureza menos clara, quer no nosso País, quer nas nossas comunidades de emigrantes. Sem saber se houve algo nebuloso, parece-me que o dinheiro entrou no antigo BES e que muita gente dele precisa para viver. Há uma outra razão de peso para pôr tudo isto a limpo: com tanta movimentação de polícias, em cada saída à rua, sinto que cada vez somos mais nós, os contribuintes, que estamos a custear despesas privadas com dinheiros públicos, que têm como base os nossos impostos. Chega de desbaratar aquilo que tanta falta nos faz para criar riqueza, desenvolvimento e coesão social...

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Festas do Castelo, com cem anos, em Vouzela já no ar...

Festas do Castelo/Julho 15 Festas do Castelo com um século de vida na sua versão moderna Com as comemorações dos 100 anos das Festas do Castelo, que este ano decorrem de uma forma bem vincada e ampla, importa que procuremos na memória do passado as suas reais e fundamentais raízes. Numa primeira abordagem, a sua designação faz com que olhemos lá para o alto, para o Monte que lhe conferiu o próprio nome, porque é esse marco da natureza que está na sua base. Juntamos mais um argumento de peso, o das referências históriacas às festividades de Nossa Senhora da Esperança que ali se assinalavam desde há séculos, o que motivou uma boa referência na Revista “Baú de Recordações - 100 anos das Festas do Castelo, Relatos e Memórias”, da autoria de Ana Beatriz Gomes Ferreira, recentemente vinda a público. Para Geraldo J.A. Coelho Dias (Faculdade de Letras, Universidade do Porto), nestas devoções populares temos sempre de ver as dimensões da fé e da cultura de nossos povos e comunidades, ele que nos fala dos Santuários Marianos, sendo que o da Senhora do Castelo se inclui no registo que é padrão para o seu conhecimento e foi escrito há muito perto de trezentos anos. Ou seja: neste local privilegiado, onde a paisagem e a contemplação se unem para nos fazer observar a grandeza da região em que nos inserimos, a Nossa Senhora da Esperança, abrigo de um Santuário Mariano, jamais desapareceu da memória identitária das gentes vouzelenses, que a veneram a 15 de Agosto. Está neste culto o ADN das actuais Festas do Castelo, que praticamente só se emancipam, como manifestações laicas, precisamente há cem anos, em 1915, dizendo-se que esse seu avanço teve em Manuel Ferreira Coutinho um pilar essencial, o que esteve na base das homenagens que, posteriormente, lhe foram tributadas em em 1954 e já na década de sessenta. No entanto, em boa harmonia e mesmo concórdia, tentam sempre não esquecer a componente matricial e religiosa. Pensamos que este começo de“corte” mais desafiador tem algo do novo espírito republicano que por aqui se começou também a entranhar. Porém, para equilibrar as diversas sensibilidades, convivem as duas práticas, porque não seria de ânimo leve que se davam tão atrevidos passos, quando estavam presentes, em todas as iniciativas litúrgicas da vila, como o Corpo de Deus, S. Frei Gil, Senhora do Carmo, Senhora do Rosário, Sexta-Feira Santa, entre outras, os andores de Nossa Senhora da Esperança e Senhor da Agonia, de acordo com um documento datado de 1889. Com o andar dos anos, na realidade, estas vindas acabaram por se eclipsarem de todo, assim como os aspectos religiosos, que se mntêm muito tenuamente, até porque o Bispo de Viseu, um dia, lhes viria a dar, ainda que indirectamente, o golpe de misericórdia. Nesta medida, com uma programação cada vez mais virada para a vertente profana, que tinha sido despoletada em 1915, as Festas do Castelo começam a ganhar vida própria e a afirmarem-se como uma das mais acentuadas manifestações culturais da época de Verão na Região de Lafões. Para este sucesso, muito contribuíram dois factores de peso: a passagem do comboio do Vale do Vouga, que se converteu em seu poderoso aliado e parceiro, a provocar sadias mobilidades, e o avanço do Grémio Lafonense/Casa de Lafões, que aparecendo em 1911, tinha na colónia vouzelense um de seus grandes esteios. Sendo essa uma evidência, a vinda dos conterrâneos à sua Festa tornou-se como que uma obrigação anual. Iniciadas já num contexto em que o Largo da Feira fora dividido pela imponente nova Ponte ferroviária, entre o aglomerado central da vila e a Igreja Matriz, sucedem assim, talvez, a outros festejos que por ali se faziam mas sem o esplendor envolvente da actual Alameda D. Duarte de Almeida. Três fases na sua organização Por razões de classificação, dividimos o modelo de organização e responsabilidade pela realização das Festas do Castelo em três fases bem distintas: a primeira, com uma predominância essencialmente popular, desde 1915 a 1977, a mais longa de todas, teve nas sucessivas Comissões populares a sua bandeira marcante; a segunda, de 1977 a 2000, pertenceu ao reino das Associações, iniciando-se com a entrada em cena da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Vouzela, que aceitaram tal incumbência, seguindo-se-lhe outras Colectividades, ora em exclusivo, ora em parcerias entre si; por fim, a partir do ano 2000, a Câmara Municipal e a Associação Cultural e Recreativa dos Trabalhadores desta mesma autarquia. Quer pela longevidade da sua acção, quer pela solidez com que se empenharam nestas tarefas, as citadas Comissões (que tudo faziam, desde a programação à execução, passando pelas angariação de fundos, em complicadas e árduas caminhadas e contactos por todo o concelho e arredores, sem esquecer as campanhas lançadas nas comunidades vouzelenses, sobretudo em Lisboa, no Rio de Janeiro - Brasil, em Luanda – Angola e Beira – Moçambique, para só citarmos aquelas que consideramos mais relevantes), foram, assim, as grandes obreiras de todo o figurino que, este ano, em 2015, se está a tentar reliplicar, pormenor a pormenor. A tradição assenta nas criações dessa gente, com a cerimónia da “Erguidela do Mastro”, no alto do Monte do Castelo, no mês de Julho, a anunciar o tempo das Festas, com a Capucha, um baile típico e característico que se iniciou em 1961, um de seus anos difíceis, devido ao despoletar da Guerra do Ultramar, com as Exposições e actuações, em festivais, dos Ranchos Folclóricos e das Bandas Filarmónicas, sendo que estas, nos tempos iniciais, eram o seu prato mais forte, com as homenagens como a de 1954, em que se destacou a figura de João Ramalho, com os Concursos Pecuários e das Quadras Populares, com as Gincanas diversas, com os Torneios Desportivos. Em suma, descoberta a pólvora por estes grupos de dedicados vouzelenses, as posteriores inovações vieram a acontecer porque assim tinha de ser. Na essência, tudo se devia a estes mesmos antecessores. Estamos em crer que o surgimento das Associações na condução destes difíceis trabalhos teve a ver com a dificuldade que se começou a sentir em arranjar pessoal disponível, sendo que, se cotejarmos as várias listas anuais, há nomes que se repetem anos a fio, como, aliás, se pode comprovar no vídeo que este ano foi gravado e que vai para o ar, numa primeira apresentação ao público, no próximo dia 3 de Agosto. Este aspecto, ligado ao facto de as Colectividades em causa necessitarem de obter fundos, fizeram com que esta mudança se tivesse verificado. Mas esta modalidade também se esgotou em pouco mais de dez anos, de 1977 a 2000, como vimos, já que, neste último ano, passou a Autarquia a assumir tais funções. Entrava-se, deste modo, na municipalização das Festas do Castelo, sem apelo, nem agravo, fruto de tempos novos e também dos novos conteúdos em competências e meios que as Câmaras vieram a receber e a adoptar. Entretanto, para esta edição dos “100 anos das Festas do Castelo, 100 dias em Festa”, entendeu-se por bem chamar de novo a sociedade civil com a acção da Comissão Executiva que, para esse efeito, foi constituída, a partir destes nomes: Carla Maia e Paula Figueiredo Carreira, da Câmara Municipal, Alexandra Carvalho, Celeste Carvalho, Vera Milheiro, Luís Paiva, Carlos Rodrigues e Raquel Ferreira. Outros destaques Numa poderosa máquina organizativa que fez tudo isto rodar durante cem anos, há factores que não podem ser esquecidos, a começar pelo mais importante que é o da componente humana e a acabar em muitos outros. Pelos sucessivos anos em que aqui prestaram serviço, é devida uma palavra especial a Guilhermino Almeida, primeiro iluminador e ornamentador, como prata da casa, sucedendo-lhe J.C. Pinho, de Pindelo – Oliveira de Azeméis, cabendo o monumental fogo de artifício a Manuel Figueiredo, de Nespereira Alta – S. Pedro do Sul, que deixou uma marca indelével, a do fogo preso e da cachoeira na Ponte do Caminho de Ferro. Em transportes com carreiras dedicadas e este evento, temos os comboios da Linha do Vale do Vouga e os autocarros da União do Sátão e Aguiar da Beira, das Empresas Claras e Guedes e Filhos. Associada às Festas como seu pontapé de saída, a Feira de Agosto, primeira quarta-feira do mês, é ponto fulclral, porque significa o arranque dos espectáculos e outras actividades. De relevo tem sido também a constante participação das Freguesias e Colectividades do concelho nestas mesmas Festas, sob a mais diversas formas e graus, em desfiles, em exposições e muitas outras iniciativas. Como que a afirmarem o seu peso internacional, o ano de 1969, com a vinda de Ranchos Folclóricos espanhóis, trazidos por António Liz Dias, então a desempenhar funções em Madrid, foi determinante, uma vez que, a partir daí, por aqui passaram muitos outros países dos quatro cantos do mundo. Neste ano de 2015, para além de um rico programa que se vai desenrolar nos próximos dias, há que registar-se que tivemos a aprovação do respectivo logótipo, da autoria da jovem Joana Simões, de Mogueirães, o lançamento da marca “100 anos” em toda a correspondência oficial do Muncípio desde e1 de Janeiro, as Exposições da Comunicação Social e do Baú das Memórias, a gravação de um vídeo do passado para memória futura, o Concurso de Quadras Populares, intgrando ainda toda uma vasta panóplia de outros acontecimentos e eventos que por todo o concelho se foram efectuando. Em recuperação de tradições, muito se fez. Aos duzentos anos, assim o esperamos, os nossos sucessores bem podem servir-se destes testemunhos, tal como se andaram a recolher aqueles que nos legaram os nossos antepassados e que, no “Notícias de Vouzela”, como reconheceu Ana Beatriz Ferreira, na obra citada, tiveram um poderoso e duradouro instrumento de divulgação. Firma-se assim, vincadamente, o nosso estatuto de pilar de desenvolvimento que nos orgulhamos de ser e que as Festas do Castelo tanto contaram connosco, assim como poderão indiscutivelmente vir a contar no futuro, como parceiros de uma boa caminhada conjunta. Carlos Rodrigues, in “Notícias de Vouzela”, Julho 2015

terça-feira, 14 de julho de 2015

A boa música de Lafões na RTP

Nlafões6jul15 Lafões a dar sempre boa música Há poucos dias, a RTP 2 passou um excelente programa sobre a música polifónica em Lafões, tendo abrangido vários espaços geográficos e mostrado um formidável número de grupos a cantar, quase de uma ponta a outra desta nossa Região. Disse quem sabe que este património cultural é de uma valia incalculável, a merecer ser divulgado, preservado e classificado. Leigos nesta matéria, sabemos, no entanto, avaliar a qualidade do que temos de bom nos nossos territórios. E não é difícil descobrir que esta arte popular tem muito que se lhe diga, em saber construído ao longo dos tempos, passando de geração em geração. A recolha feita, obra de muita gente boa e ineressada, teve em Paulo Pereira a sua grande alma e uma enorme capacidade de sistematização e boa explicação. Gostámos também de ver malta nova a abraçar esta causa, cantando com seus “avós”, assim pegando naquilo que se não pode deixar morrer. Com esta acção, a RTP cometeu, todavia, um pecado mortal: ao atirar para a RTP 2 esta jóia musical, retirou-lhe amplitude em audiência, reduzindo-a em grande medida. Essa é a pena maior que temos. Aproveitando esta oportunidade e sem tirar uma ponta de brilho a este programa, que foi altíssimo o seu valor, rebuscámos os nossos arquivos pessoais e fomos pescar uma obra monumental, o “Cancioneiro Regional de Lafões”, com recolha e coordenação de José Fernando Monteiro de Oliveira, editado no ano 2000, pelo Alafum – Grupo de Cantares de Lafões. Ao revermos esta aturadíssimo trabalho, ali encontramos canções populares de toda a natureza e com diversas proveniências geográficas, também à escala de Lafões. Para além das pautas musicais, houve o particular cuidado em passar para o papel os dizeres, tal como são ouvidos, deste nosso povo, o que acrescenta valor e rigor a esta investigação. Em mais de 600 paginas, a que se junta um CD, a nossa arte está ali bem estampada. Dividindo-se por várias temáticas, temos os “Cantares de carácter religioso e profano”. As recolhas foram feitas em Cambra, Candal, Fataunços, Fermontelos, Ferreiros (Serrazes), Figueiredo de Alva, Figueiredo da Donas, Moçâmedes, Nespereira Alta, Pindelo dos Milagres, Ribas, Ribeiradio, S. Félix, S. Martinho das Moitas, S. João da Serra, S. Pedro do Sul, S. Vicente de Lafões, Sobral-Pinho, Adopisco-Sul, Valadares e Vila Maior, a partir de uma boa série de informantes. Com o citado programa televisivo e este livro, sabe-se o que existe, assim como já muito se conhecia através das pesquisas de Michel Giacometti, há umas décadas. Agora, há que procurar outros altos voos e o da abertura de um processo com vista a uma classificação como património imaterial da humanidade pode ser , e é, um bom passo a dar. Haja quem dê o pontapé de saída. Carlos Rodrigues, in “Notícias de Lafões”, Julho 2015

quarta-feira, 8 de julho de 2015

A felicidade não mora aqui...

A felicidade não mora aqui Com verdades que se separam da água como o azeite, uma delas tem a ver com o conceito de felicidade. Só que nos aparece com um manto negro, com uma carga negativa, o que se traduz no seu total oposto, a infelicidade. Tendo esta por companhia, a sua boa rival não mora aqui, talvez mesmo em lado nenhum. Acresce a isto que a política também não ajuda nada a que se inverta esta situação de descrença, de desânimo, de dor e de aflição em muitos casos. Portugal e o mundo trilham caminhos complicados e isso é uma determinante do nosso actual destino que se encontra demasiado enraizada nas nossas percepções e vivências. Se há indicadores preocupantes, aqueles que acabaram de ser revelados no “ Roteiro do Futuro 2015”, promovido, em jeito de Conferências, pela Presidência da República, falam por si e gritam alto que se farta. Ouçamo-los, que é uma pressa! Com cerca de 65% dos portugueses insatisfeitos com a democracia (valores de 2011, mas que não são hoje melhores), sendo que o nosso País é aquele que, no seio da União Europeia esta tendência é das maiores e das mais preocupantes, não podemos concluir que se possa sorrir. Nem por sombras. Cruzar os braços? Bem pior seria se tal acontecesse. Em cima desta tristeza, os jovens situam-se ainda, a este propósito, em patamares mais elevados de descrença total. Em 2015, apenas 17.3% da nossa juventude é de opinião que a democracia funciona bem em Portugal e a média geral ainda é mais baixa: 16.6%. Será que estas lambadas não doem na cara de todos os políticos? Não têm estes de mudar de rumo e de atitude se não quiserem perder o maior dos nossos capitais, que são as pessoas e, nestas, os mais jovens? Com o País a afundar-se em confiança e credibilidade, o cepticismo campeia por aqui. Associando-se a este sentimento, temos, a disparar em flecha, a fuga para o lado de tudo quanto seja participação em cidadania, como demonstram as votações nos vários actos eleitorais, a muitas milhas dos quase 92% de ida às urnas em 1975. Enquanto assim se resvala para o abismo, e pré-campanha não augura nada de substancialmente melhor. Talvez até esteja a acontecer o contrário. Logo, é preciso buscar outras práticas, antes que seja tarde demais. Em Portugal, na Europa e no Mundo. NOTA: Acrescentando algumas linhas a este texto, escrito e publicado há uns tempos, cada vez mais a felicidade está longe de nós. Com a Europa e fazer contas demais e a ter gente a menos na sua cabeça, jogando sempre para cima da mesa as tabelas e as estatísticas, as dívidas e os poços em que todos estamos metidos, não se pode ser feliz. Tememos que a desgraça, um dia, nos bata à porta e escaqueire as nossas casas e as nossas vidas. Querendo a Grécia connosco, não a podemos escorraçar, ainda que lhe façamos ver que todos temos esforços a fazer. Deixá-la cair é erro que se vai pagar caro, muito caro. Sabemos que a Dra. Maria Barroso, que tanto lutou pela liberdade, deve ter partido muito triste com tudo quanto estamos a viver. Saudades e sentidos pêsames. Carlos Rodrigues, in “Notícias de Vouzela”

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Barragem de Ribeiradio, Jornal Público, Junho 2004, com um pingo de vaidade pessoal

O conturbado processo da Barragem de Ribeiradio, a construir entre Sever do Vouga e Oliveira de Frades, deverá conhecer novos desenvolvimentos no próximo dia 29. Isto porque os presidentes das câmaras de ambos os concelhos se deslocam a Lisboa para um encontro com o secretário adjunto do ministro da Economia. Um dos objectivos dos autarcas é tomar conhecimento do estudo financeiro encomendado pelo ex-ministro do Ambiente, Amílcar Theias, à Caixa Geral de Depósitos. Um estudo que visava apurar a viabilidade de um modelo de construção e exploração da obra assente na iniciativa privada, em substituição do investimento público inicialmente previsto. Todavia, a entrada de Arlindo Cunha para o Ministério do Ambiente reacende a esperança do financiamento governamental.Da reunião agendada para o próximo dia 29 deverão sair, pelo menos, esclarecimentos sobre o futuro do equipamento reclamado há mais de meio século pelas populações dos distritos de Aveiro e Viseu. Contudo, as expectativas dos autarcas de Sever do Vouga e Oliveira de Frades, respectivamente Manuel Soares e Carlos Tavares Rodrigues, vão mais longe e os responsáveis mantêm acesa a vontade de ver o Governo realizar a obra que visa regularizar o caudal do rio Vouga. "O novo ministro ainda não deve ter tido tempo de analisar o problema, mas acho que ele não vai ficar parado e deixar de aproveitar a Barragem de Ribeiradio", augura o social-democrata Tavares Rodrigues.No entanto, em cima da mesa mantém-se a hipótese da estrutura vir a ser construída pelo sector privado. Um modelo que implicaria, porém, uma alteração legislativa, uma vez que a actual legislação apenas permite o aproveitamento de 10 megawatts como limite máximo (uma mini-hídrica), o que ficará aquém das expectativas privadas. "Isso não dá para nenhum privado ir buscar o que investiu", confirma o socialista Manuel Soares, revelando que a barragem tem capacidade para produzir mais de 40 megawatts. "A alteração da lei para que a EDP fosse obrigada a comprar mais de 10 megawatts não me parece viável. Seria como os touros em Barrancos", argumenta o autarca de Sever do Vouga, alegando que "o processo será moroso". "Cheira a esturro", comenta.Opinião diferente tem o presidente da câmara de Oliveira de Frades. "É fácil alterar a lei, ainda mais quando é uma lei lacunar e cega como esta", defende Tavares Rodrigues, reclamando: "Estou-me marimbando para o chapéu jurídico que arranjem para a barragem. Eu quero é a obra feita". "Seja por financiamento misto, por parceria público-privada, pela alteração da lei ou pelo desdobramento em duas mini-hídricas, a obra tem que ser feita", insiste o autarca, lembrando que "a barragem é para toda a região e o país é que está a perder com isto".Igualmente determinados na defesa do projecto estão os deputados Miguel Ginestal e Afonso Candal, duas das figuras do Partido Socialista que mais se têm batido pela construção da barragem. "Uma coisa é corrigir o que está mal, mas o que este Governo fez foi abandonar uma prioridade, que era a construção da barragem. Se é por falta de verba, então que explique por que se propõe avançar com barragens novas em outros pontos do país. Não há justificação que explique esta decisão", protesta Miguel Ginestal. "A barragem de Ribeiradio é uma prioridade para os distritos de Aveiro e Viseu. Mas a verdade é que já vamos no terceiro ministro e a barragem foi esquecida", continua Ginestal, reclamando "uma posição clara dos autarcas, designadamente do de Oliveira de Frades". "Fizemos propostas para a inscrição do investimento em PIDDAC, nos orçamentos de 2003 e 2004, mas o Governo fez ouvidos de mercador e avança com outras barragens. Vamos continuar a pressionar o Governo", garante o deputado."É uma obra de grande relevância para Sever do Vouga e até para a regularização das águas da zona de Águeda", recorda, por sua vez, Afonso Candal, lamentando que "o Governo tenha abandonado a obra ao fim de dois anos, a fingir problemas". "Dois anos de atraso mostram falta de vontade política", critica Candal, considerando que uma eventual alteração legislativa "não demora dois anos". "Esta não é uma batalha perdida, a barragem não está feita, mas vamos ver. Não há passos sem retorno", conclui."A alteração da lei para que a EDP fosse obrigada a comprar mais de 10 megawatts não me parece viável. Seria como os touros em Barrancos"Manuel Soares, presidente da Câmara Municipal de Sever do Vouga"Estou-me marimbando para o chapéu jurídico que arranjem para a barragem. Eu quero é a obra feita"Carlos Tavares Rodrigues, presidente da Câmara Municipal de Oliveira de Frades