quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Arouca e S. Pedro do Sul sempre lutaram por boas comunicações

Ligação S. Pedro do Sul e Arouca, sempre vizinhos mas bastante separados Entre os municípios de S. Pedro do Sul e Arouca há uma vizinhança natural. Está no sangue de cada um destes concelhos esta atracção mútua. Do lado de Covas do Rio, espreitam-se estas paisagens de um lado e de outro. De Manhouce, idem. Do Candal, nem se fala. Santa Mafalda, tentacular, estende a sua influência pelos dois lados das montanhas, desde os primeiros tempos da nossa monarquia. A natureza, a cultura e a história assim falam. A incapacidade e a teimosia dos homens, ao longo dos tempos, teimaram em impedir boas ligações. Se os nossos antepassados foram capazes de avançar com caminhos e veredas por essas distâncias além, os tempos modernos, quanto a estradas, têm sido uma lástima. A Nossa Senhora da Lage, algo perto de Manhouce e a pouca distância de Albergaria da Serra (outrora, das Cabras), o pulo a dar entre os limites de Covas do Rio e o vizinho concelho de Arouca, os passos que ficam entre as minas dos dois concelhos e tantos outros aspectos e factores são pontos de encontro e desencontro que têm demorado milénios a unirem-se. Em termos de ligações pedestres, aceitam-se as propostas feitas e colocadas em prática ao longo dos séculos. Mas, ao falarmos de vias modernas, isto tem muito que se lhe diga e não passa de uma lástima. Ano após ano, palavreado tem havido, mas obras, nem por isso. Rebuscando fontes diversas, como o saudoso “Tribuna de Lafôes”, quase nunca faltaram ideias e muitas hiópteses de estradas passaram pela cabeça dos dirigentes de um lado e outro destas serras. Definiram-se, inclusivamente, traçados, mas pouco se avançou. Há mapas que nos dizem que, em linha recta, apenas 24, 49 Km separam as duas sedes de municípios, S. Pedro do Sul e Arouca, esta uma terra predilecta de Santa Mafalda, que todos os anos, no mês de Maio, faz encher esta vila de peregrinos e devotos, idos de todos os lados e, muito especialmente, das paróquias dos concelhos de S. Pedro do Sul, Castro Daire e de outros em redor. E o seu Mosteiro é lugar de todos e muitos encontros religiosos e culturais, desde há séculos. Mas nem Santa Mafalda fez o grande milagre de pôr em contacto digno estes territórios. Aliás, o mesmo se diga quanto às ligações com Castro Daire, que se viu contemplado com obras na via que uniria Alvarenga a esta vila a partir do ano de 1917, mas que cedo perderam gás e deixaram de ser concluídas, para serem apenas retomadas em 1946, após a passagem e a destruição de duas grandes guerras mundiais. Com Arouca a construir, há poucos anos, a EM desde Portela-Moldes a Cabreiros, foi a vez de a Câmara Municipal de S. Pedro do Sul de, nos últimos anos, pôr em prática a variante ao Candal que, finalmente, estabeleceu uma rede de vias com tendências de modernidade e alguma eficiência para os tempos que correm. Em territórios de montanhas mágicas, os laços constroem-se com boas vias de comunicação. Se, num rio, as pontes unem o que a natureza separou, nos montes são as estradas e os caminhos a desempenharem esse bom papel. O norte e o sul podem e devem aqui ser ligados por infraestrutras rodoviárias de vistas largas e com horizontes de futuro. Os tempos dizem-nos que isso já deveria ter acontecido há séculos. Se assim não aconteceu, deixemos de lado as discussões e vamos às obras. Carlos Rodrigues, in “Notícias de Lafões”, 8 Nov18

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Debate sobre os nossos territórios em Oliveira de Frades

PSD promoveu debate sobre o território Num tempo em que as assimetrias regionais atingem o Interior e o levam ao definhamento, a Comissão Política dp PSD de Oliveira de Frades promoveu, no passado dia 26, no Auditório da Biblioteca Municipal, uma conferência subordinada ao tema “ Gestão territorial – desafios para o futuro”. Perante uma sala cheia, com mais de oito dezenas de participantes, abriu os trabalhos o Presidente da Comissão, José Baptista, que aproveitou esta oportunidade para se referir às recentes tomadas de posição, em comunicado, contra o anunciado encerrramento da estação dos CTT e sua substituição por um posto. Saudando os presentes, nomeadamente o Presidente da Câmara Municipal, Paulo Ferreira e sua vereação, vários Presidentes de Juntas de Freguesia e as Concelhias de Vouzela, S. Pedro do Sul e Vouzela, passou a palavra a Rui Ladeira, na sua qualidade de moderador. Deram o seu contributo a esta acção Miguel Poiares Maduro, professor universitário e Ex-Ministro do Desenvolvimento Regional, António Louro, Vice-Presidente da Câmara de Mação e Presidente do Forum Florestal e Fernando Farreca, Comandante dos Bombeiros Voluntários locais. Não compareceu Pedro Alves, Presidente da Distrital, por afazeres entretanto surgidos. A seu modo, cada um destes oradores pegou nas deixas sugeridas, que tinham como pano de fundo a necessidade de identificar os problemas com que se debatem as nossas comunidades, tentando ali apontar uma série de sugestões a esse nível, sobretudo ligando as condições actuais à tragédia dos incêndios de Outubro de 2017, que fez aumentar as dificuldades que já vêm, no entanto, de longe. Procurou-se definir um quadro e um projecto de desenvolvimento que tenha em conta as necessidades de cada espaço e suas condições específicas, partindo de modelos de gestão mais eficientes e mais modernos. Em suma, ali foi dito bem alto que urge encontrar soluções para o abandono destes nossos territórios de baixa densidade, a causa e o efeito do êxodo rural que se tem notado nas últimas décadas e que tem de ser encarado de frente e em força por parte de todos os poderes com capacidade de intervenção nestas matérias de uma gravidade que, a não ser travada depressa, pode dar cabo da vida no mundo rural. Com a consciência de que há muito a fazer, ficar-se parado é a pior das soluções. Foi contra essa apatia que esta Conferência se realizou e que contou ainda com uma fase de debate e um Porto de Honra, a finalizar. Carlos Rodrigues, in “Notícias de Vouzela”, 31 Out 18

Vouzela perdeu um de seus mais notáveis cidadãos - O Dr. Simões

Vouzela perdeu um dos seus maiores vultos Partiu o Dr. Simões mas fica para sempre connosco No domingo passado, dia 21, Vouzela e Lafões acordaram com uma das mais tristes notícias, a da morte do Dr. António Simões. Cidadão exemplar, médico sempre pronto para acudir todos aqueles que dele se abeiravam em busca da cura, o que fazia com o seu enorme saber e dedicação, juntando-lhe uma palavra amiga, durante cerca de setenta anos doou-se por inteiro a essa nobre causa da medicina e a uma intensa vida social. Nas colectividades, na Câmara Municipal, neste seu e nosso jornal, nunca deixou de arranjar tempo para todas as múltiplas tarefas em que se empenhava. Franzino de corpo, mas de uma alma do tamanho do mundo, nele tivemos, todos, o ombro amigo, o clínico cheio de ciência e de vontade de ajudar. Nascido no ano de 1925 na freguesia de Paços de Vilharigues, onde fez a instrução primária, era ainda criança quando continuou os estudos no antigo Colégio Lafonense, em Oliveira de Frades, antes de ir para o Liceu de Viseu. A Faculdade de Medicina, no Porto, foi o seu próximo destino, de onde sai, em 1951, como novo médico. De imediato, tomou a decisão de optar por exeercer as suas funções, numa autêntica missão sacerdotal, nas terras que o viram nascer e crescer. Instalou-se num pequeno consultório na vila de Vouzela. Num tempo de imensas dificuldades, praticamente sem estradas e sem luz, com poucos telefones, jamais regateou as idas aos locais mais remotos, desde Manhouce ao Caramulo, dia ou noite, fizesse sol ou chovesse aos trambolhões. A certa altura, exerceu clínica na Santa Casa da Misericórdia, instituição que tanto acarinhou ao longo de toda a sua vida, até há bem poucos anos, antes de enveredar na função pública para onde entrou pela via de serviços prestados na Caixa de Previdência. Foi ainda Sub-Delegado de Saúde. Ao Hospital da Misericórdia dedicou grande parte do seu tempo. Notável e impressionante é o número de partos, cerca de 5000, e assistência às mães que desempenhou na sua longa carreira médica. A sua casa, um verdadeiro porto de abrigo para quem, alguma vez, sofreu de um qualquer mal, foi outro dos locais onde salvou tantas vidas. Com a porta a abrir-se a qualquer hora, tarefa de que, muitas vezes, se incumbía sua dedicada esposa, a Dra. Clara, tanto atendia gente destas bandas como de tantos outros locais. Conhecido de uma ponta a outra desta nossa zona de Lafões, espalhava a sua simpatia e ciência clínica por tudo quanto era sítio. Um seu velho amigo e conterrâneo, João de Almeida Costa, em 1992, dizia, neste mesmo Notícias de Vouzela, que “... Todos estaremos de acordo que estas virtudes são atributos do nosso querido médico e amigo, Dr. António Simões, para quem a parte humana, no seu convívio com o doente, não terá menos valimento do que os seus vastos conhecimentos clínicos”, palavras que subscrevemos por inteiro. Um outro de seus amigos, que nos deixou em princípios de 2017, e grande companheiro de tantas de suas lides, o Dr. Telmo Teixeira de Figueiredo, assim falou na altura em que lhe foi prestada uma gigantesca homenagem, das maiores algumas vezes vistas nesta vila: “ ... E tudo isto com uma correcção, uma solicitude, um cuidado inegualáveis. Jamais uma recusa, um momento de enfado, uma mostra de cansaço. Sempre pronto e sempre presente... E ainda encontrou tempo para outras actividades, colaborando nas realizações locais e dando o seu contributo às várias colectividades existentes... “ Para além da medicina O concelho de Vouzela, muito em especial, tem, indo para lá do excelente e dedicadíssimo médico que foi, uma enorme dívida de gratidão para com o Dr. António Simões, um cidadão de causas e com elas nas suas preocupações. Se a Santa Casa da Misericórdia teve no seu enorme coração um bom cantinho, a Associação de Bombeiros, de que foi Presidente da Direcção, também muito beneficiou dos seus contributos, assim como a Associação “Os Vouzelenses” e a sua Banda da SMCR de Paços de Vilharigues e o jovem Centro Social de Cambra, entre outras instituições. Passou ainda por funções autárquicas como Vice-Presidente da Câmara Municipal de Vouzela. Por ter para nós um significado de altíssimo nível, deixamos um parágrafo à parte para falarmos na sua ligação ao jornal “Notícias de Vouzela” de que fez parte desde os anos cinquenta, enquanto elemento do grupo que procedeu à sua reestruturação e nova vida. Sendo então indigitado para seu Director, viu o seu nome vetado nas altas esferas. Um dia, porém, anos mais tarde, veio a ocupar o lugar de Director Adjunto. Aguardando cada uma de suas edições, delas fez uma espécie de tesouro de que nunca se quis desfazer. Conselheiro a amigo, olhou sempre para o nosso jornal como algo que via com muito entusiasmo e alegria. No meio de tantas alegrias, uma tristeza lhe abalou a vida: o fim do SAP – Serviço de Atendimento Permanente, há uns anos. Para compensar, em 1973, tinha vibrado com a restauração da Comarca. A sua vida confunde-se com muitas décadas da existência destas nossas terras e sua evolução. A confirmar este facto, eis que uma Rotunda, bem perto da Misericórdia, ostenta o seu nome, com uma escultura de Luís Queimadela Nascido no dia 16 de Maio de 1925, faleceu a 21 de Outubro de 2018. Deixa viúva a Dra. Maria Clara Fontes Pereira de Melo Simões. Era pai das doutoras Maria Inês Fontes Pereira de Melo Simões e de Maria da Piedade Fontes Pereira de Melo Simões Rosa e avô de Maria Teresa e Maria do Rosário Fontes Simões Ribeiro Rosa. O seu corpo foi velado na Capela de S. Frei Gil, bem perto de sua casa, e o seu funeral, no dia 22, com missa de corpo presente na Igreja Matriz, foi um enorme cortejo de pesar. Está sepultado no Cemitério Municipal. Profundamente consternados com a perda do Dr. Simões, enviamos sentidas condolências a seus familiares e amigos e à comunidade vouzelense que viveu dois dias de luto municipal. Em três anos, esta nossa Casa viu desaparecer três das suas mais notáveis referências: Fernando Lopes Pereira, Dr. Telmo Teixeira de Figueiredo e, agora, o Dr. António Simões. Homenageando-os, vamos continuar a obra que nos legaram. Até um dia, Amigos! Carlos Rodrigues, in “Notícias de Vouzela”, 25 Out18

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Lafões precisa de novos transportes públicos

Transportes públicos em Lafões precisam de um bom abanão Está na ordem do dia a magna questão da alteração do preço dos passes sociais nas redes de transportes públicos, uma iniciativa que teve a sua origem nas Áreas Metropolitanas de Lisboa e Porto, mas que tem tendência a espalhar-se pelo país todo e só assim se fará justiça e coesão social. Ao ficar-se apenas por aquelas duas zonas, que já são altamente beneficiadas e privilegiadas, o nosso Interior ficaria ainda pior. Com o Governo a declarar que a medida vai ter alcance nacional, esta é já uma boa ideia, mas, por aquilo que sabemos, ainda não contempla as vertentes necessárias, por falar somente em deslocações inter-concelhias, deixando de fora o cerne da questão: as viagens dentro dos próprios municípios e que são as mais relevantes. Na evolução das redes de transportes, começamos logo por um lamento, o do fim da linha do Vale do Vouga e dos serviços que prestava em toda a extensão de Lafões, desde Ribeiradio a Bodiosa, passando pelos três concelhos, suas sedes e muitas outras localidades. Iniciando as viagens nos anos de 1913 e 1914, no que a estas nossa zonas diz respeito, foi perdendo vapor e, em 1990, fechou as portas, de vez. Hoje, funciona, com regularidade, sobretudo entre Águeda e Aveiro. Numa curta resenha, em 1970, existiam 6 ligações entre Espinho/Aveiro e Viseu, em cada sentido, tendo diminuído para 2 circulações em 1985, um perigoso sinal de que algo já por ali corria muito mal. Em fases, foram-se os comboios a vapor (1972), ficaram as automotoras e até estas vieram a desaparecer, tendo sido subsituídas por autocarros, com grande descontentamento das populações residentes no eixo da velha linha. Registe-se que, nos anos gloriosos da via-férrea, uma alternativa, esta em autocarros, ligava S. Pedro do Sul ao Porto, por Carvalhais, Santa Cruz da Trapa, S. João da Serra e aí por diante, com a pomposa designação do “comboio da serra”. Diminnuindo em intensidade, esta corda ainda subsiste, mas já não é o que era, sem dúvida. Falando nas ligações actuais e nas condições em que os transportes públicos por aqui se processam, há que dizer-se que a CIM Viseu Dão Lafões tem uma importante palavra a dizer, porque tem incumbências e responsabilidades neste sector. De acordo com as informações prestadas pelo Presidente da Câmara de Vouzela, Rui Ladeira, essa questão não está esquecida, adiantando que está para breve o lançamento de um concurso para serviços públicos de transportes a nível intermunicipal e mesmo municipal, concelho a conecelho. Ora aqui está um bom princípio para a aplicação dos passes sociais, à imagem e semelhança do que se pretende para as duas cidades sanguessugas, Lisboa e Porto. Esperamos é que não arrefeçam os ânimos e tudo se faça para que assim aconteça. Transportes em Lafões Numa análise ao quadro de carreiras existentes, os três municípios de Lafões continuam com um eixo horizontal, em parte e um tanto parecido com o saudoso comboio, unindo Viseu a Ribeiradio, por Real das Donas, e vice-versa, e estes mesmos pontos pela EN16. Em geral, há quatro circuitos diários e mais dois em tempo de aulas. Falta aqui um aspecto essencial e fulcral que se perdeu: a não ligação a Aveiro, de uma forma directa, nesta linha, e à sua Estação da CP. Em matéria de autocarros internos, das sedes diversas, saem ligações para a maior parte de cada uma das freguesias de cada concelho, no sentido vertical, em princípio. Casos há em que são ainda mobilizados redes de táxi para completarem estas funções públicas. O problema maior é que os horários nem sempre condizem com as necessidades, como por exemplo em Oliveira de Frades: se se pensa nos acessos à Zona Industrial, as oito horas da manhã são determinantes. Se se privilegia o sector escolar (não obstante haver meios municipais específicos), essa hora não se enquadra nos costumes e determinações actuais. Por outro lado, o interface com outros destinos também não é, em geral, bem acautelado. Vejam-se as ligações para Lisboa, Porto e outras, e os desfasamentos e inconvenientes que se notam. A este nível, da região de Lafões partem autocarros diários, estilo rede de expressos, mormente entre S. Pedro do Sul e Aveiro e Porto, Lisboa-Coimbra-Viseu-Oliveira de Frades, pelo Dão, Lisboa-Coimbra-Aveiro-Oliveira de Frades-S. Pedro do Sul, via Albergaria-a-Velha, entre outros, sempre a passarem estas carreiras por Vouzela. Curiosa é a existência de uma carreira que liga mesmo os três concelhos em parte das suas localidades, entre o Vouga e a Serra do Caramulo, partindo de S. Pedro do Sul: passa por Oliveira de Frades, Vilarinho, Cajadães, Cambra (ramificando para Carvalhal de Vermilhas), retomando-se Cambra de Baixo, Pés de Pontes, Paredes Velhas, Campia, Rebordinho, Adside, Covelo, Areal, Arca, Varzielas e, por fim, Caramulo e vice-versa. Curiosamente, entre 1 de Julho e 9 de Setembro, há uma Linha da Praia, que une Castro Daire à Barra, com paragens nos nossos três municípios. Em termos de passes, tomando como bitola valores anteriores a qualquer alteração que se venha a fazer no avanço das negociações decorrentes das tomadas de posição das AM de Lisboa e Porto, temos as seguintes modalidades: passe social, 4-18 A, 4-18 B, Sub-23, Sub 23 – 25%, isto no que se reporta ao ano de 2018. Muito mais haveria a dizer, em pormenores e em linhas de passagens diversas. Sendo uma lista extensa, deixámos apenas estas notas e uma ideia básica, a da exigência do sentido de justiça, equidade e respeito pela coesão social e territorial do país visto como um todo e não apenas como imagens reflectidas nas águas dos Rios Tejo e Douro. Há muitos mais rios por Portugal além, de norte para sul, de leste para oeste. Reclamem-se direitos que são nossos e muito nossos. Carlos Rodrigues, in “Notícias de Vouzela”, Set 2018

É sempre a mesma coisa: o interior perde sempre...

O litoral come-nos tudo Em matéria de grandes projectos lançados em Portugal na útima década, seguindo uma perigosa tendência de há centenas e dezenas de anos, a sua grande maioria foi, uma vez mais, para as regiões do litoral, as mesmas, as do costume. Em 443 dessas iniciativas, apenas 26, 4% se fixaram em todo o Interior. Mais de setenta por cento, praticamente três quartos encaminharam-se para a beira-mar. É quase sempre assim. Por cada queijo que recebamos, 80% do território recebe uma pequena fatia e a grande dose vai para os pontos que todos nós conhecemos, sobretudo as áreas de Lisboa e Porto. Por isso, não nos podemos admirar quanto ao estado em que o país se encontra: despovoado nas nossas zonas, atafulhado de gente, a acotovelar-se por todo o lado, nas citadas cidades. Ainda há dias, o JN trazia uma listagem que bem ilustra a argumentação que aqui estamos a registar, desde 2008 a 2018, em investimentos tidos como grandes projectos e são abismais as diferenças. Vejamo-las: 2008 – Litoral, 25; Interior, 5; 2009 – 45/17; 2010 – 38/20; 2011 – 28/9; 2012 – 20/10; 2013 – 41/13; 2014 – 21/11; 2015 – 18/6; 2016 – 51/19; 2017 – 22/2 e 2018 – 17/5. Não é preciso fazer grandes contas para logo percebermos o alcance desastrado destas medidas. Quando Pedrógão, em Junho de 2017, e o Centro do País, em Outubro, foram dizimados pelos mais dramáticos incêndios de sempre, apregoou-se por todo o lado que as discriminações positivas não deixariam de aparecer. E o que vemos? Um ano de 2018 com um acentuadíssimo desnível de 17 para 5. Isto é política que se possa aceitar? Por nós, não, de maneira nenhuma. Vem agora uma certa consolação, de acordo com a mesma fonte: mais de 70% do novo alojamento turístico local localizou-se fora dessas metrópoles e os resultados estão à vista, com a este sector a mostar, na região Centro, uma vitalidade assinalável. Só que esta vertente á muito pequena para equilibrar a balança que pende a toda a hora para o mesmo lado, o litoral. Diz-nos Suzanne Daveau (Portugal geográfico, Livraria Figueirinha, Porto, 1995) que” O profundo desequilíbrio e a instabilidade espacial que caracterizam hoje Portugal tornam muito problemática qualquer tentativa séria de ordenamento do território, ainda que a necessidade de repensar a organização administrativa do país seja fortemente sentida... “ (p. 131). E as consequências estão à vista, acrescentando que “ A gente pobre amontoa-se à volta das grandes cidades”. Em 2018, teima-se em seguir os perigosos figurinos de há anos. O que nos trará o Orçamento para 2019? Ficamos à espera, mas pouco animados, infelizmente... Carlos Rodrigues, in “Notícias de Vouzela”, 3 out 2018

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Oliveira de Frades cantou e bailou em Festival de Folclore

No passado doimngo Festival folclórico trouxe vida e animação a Oliveira de Frades Na tarde quente do dia 26, domingo, o centro da vila de Oliveira de Frades encheu-se de gente em virtude da realização do Festival Folclórico que a Câmara Municipal pôs em marcha e com bastante sucesso, acrescente-se. Além dos três grupos concelhios, as atenções voltaram-se também para os visitantes com as suas vistosas danças minhotas e do litoral centro. Numa organização que privilegiou as actuações descentralizadas, em três palcos, por onde passaram, em cada um deles, todos os ranchos participantes, foi assim possível assistir a diversos espectáculos em locais e ambientes diferentes, na “Praça das Finanças”, no Jardim Sá Carneiro, em palco montado no canto próximo dos Paços do Concelho e junto ao Museu Municipal. Entretanto, tudo começou com a recepção oficial no Salão Nobre da Câmara Municipal, em cerimónia presidida pelo Presidente, Paulo Ferreira, tendo comparecido ainda a representante da Assembleia Municipal, &&&, os vereadores Carlos Pereira e Clara Vieira e o Presidente da União de Freguesias, José Cerveira. Seguiu-se um desfile, em conjunto, até ao primeiro dos palcos acima citado, local escolhido para a saudação geral, ao ar livre, feita por Paulo Ferreira, antes de por aí desfilarem todos os ranchos convidados. Esta parte do programa permitiu, desde logo, fazer-se uma espécie de apreciação global e abrir o apetite para as danças e cantares que se iriam espalhar pelos outros sítios. Se o concelho se fez representar pela totalidade do seu folclore, saudaram-se assim o Rancho Floclórico da ACRENE – Nespereira, o de S. João da Serra e as Danças e Vozes da Aldeia, de Santa Cruz. De fora, vieram as Cantarinhas de Buarcos – Figueira da Foz e o Grupo Folclórico de Viana do Castelo. Sendo esta uma primeira experiência a este nível e nestes moldes, prova-se que o êxito dos espectáculos apresentados e a metodologia seguida têm pernas para andar no futuro. Uma garantia fica já no ar: se se verificar a tendência desta edição de 2018, público não faltará em próximas ocasiões. Carlos Rodrigues, in “Notícias de Vouzela”, Agosto, 2018

81 anos em cima de um tractor por parte de João da Silva Reis, Vilharigues...

Em Vilharigues João do Tractor não mais perdeu o nome Com 81 anos de idade, João da Silva Reis nasceu em Vilharigues, Vouzela, e nesta aldeia tem passado quase todos os seus dias. A certa altura, a aquisição de uma máquina agrícola conseguiu mesmo mudar-lhe o nome, passando a ser conhecido por João do Tractor. Do rapaz que serviu à mesa mais de uma dezena de anos na hotelaria das Termas de S. Pedro do Sul, haveria de renascer o homem que, ao volante da sua viatura, revolveria a terra dos campos agrícolas da sua aldeia e das redondezas e faria milhares de viagens em transportes diversos, desde a madeira aos materiais de construção. Com oitenta e sete contos amealhados, comprou, aí pelos anos de 1972/73, um Fergusson 135. O pior é que, sem dinheiro para mais, aquela peça não lhe servia para quase nada. A salvação veio da sogra que lhe ofereceu uma centena de pinheiros para adquirir dois carroços. Este era, vê-se, um tempo em que a floresta era um bom mealheiro, a tábua de salvação para fazer frente a bolsos vazios. Sem ser o primeiro tractor da freguesia, que José Bica, em meados dos anos sessenta, já se lhe tinha antecipado (talvez a ser pioneiro destas andanças mesmo no concelho de Vouzela) com a compra de um também Fergusson 30, mas para seu uso exclusivo, apenas ao João da Silva Reis estava destinado que assim começasse a ser conhecido até aos nossos dias. Ao fazer do seu novo e útil brinquedo um instrumento de trabalho, cedo o pôs ao serviço da sua economia pessoal: desde então começou a lavrar os campos seus e de quem requisitava as suas funções, passando para o transporte de madeiras, pedras, aterros, materiais de construção e tudo quanto um tractor pudesse executar. Correndo montes e vales, andou por Ventosa, Covas, Fornelo do Monte, Póvoa dos Codeçais, Vila Chã do Monte, Queirã, Moçâmedes, Lourosa da Comenda, Serra da Arada, Carvalhais e por tantos outros lados. Noite e dia fundiam-se num só tempo, porque queria muito angariar umas massas para a casa em construção e para a sua vida em todas as suas vertentes. Uma longa carreira Fiel à marca com que se celebrizou nas suas novas actividades, há 26 anos trocou de tractor por um outro Fergusson, este 245, que é seu companheiro de praticamente todas as viagens, salvo as idas a Viseu ou outras cidades, pelas redondezas. Com charrua, grade, fresa, malhadeira de milho, arrancador de batatas, charrueco de abrir regos, ceifeira e outros equipamentos mecânicos, agora vai-se entretendo que os trabalhos para fora começaram a escassear há uns anos. Os subsídios europeus e a invasão de novas máquinas em quase todas as casas ditaram a sua nova sorte, uma espécie de chave para o descanso forçado. Do alto dos seus 81 anos e de uma vasta experiência sem um único acidente, ao falar daqueles que por agora vão acontecendo, atribui-os à velocidade e ao descontrolo, à falta de treino e cuidado. E disse-nos que os travões destas máquinas também não são muito de confiar. A caminhar para os cinquenta anos da sua nova profissão, depois da passagem pelas Termas e pela loja de Vilharigues, onde foi empregado comercial, ainda está para a curvas. Este nosso amigo João do Tractor é assim mesmo: unha e carne com o seu veículo de quatro rodas, é pau para toda a colher nestes serviços, mas, nestes dias, mais para seu uso próprio. Os anos de trabalho louco já lá vão. Carlos Rodrigues, in “Notícias de Vouzela”, Agosto, 2018