quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Descentralização nem toda ela nos serve

Descentralização boa, descentralização má É isto mesmo: sempre que se fala em descentralização, que é passar competências e funções do poder central para o local, ou regional ( se e quando o houver em Portugal continental), não a podemos ver apenas num prisma positivo e é este que, na nossa modesta opinião, mais valorizamos. Primeiro, é preciso saber-se o que vai passar de um lado para o outro, em matéria de decisão; segundo, nada disto pode ir em frente se a vertente financeira não acompanhar a matéria a transferir. Há ainda que ver o seguinte: não se pode entregar a outros apenas aquilo que dá trabalho, é incómodo, traz chatices e pouco se faz notar. Em diálogo, importa dar-se relevo a tudo aquilo que as partes acordarem. Ou seja: este é um processo em que as negociações têm de estar na base de tudo. Não é possível a unilateralidade, que é sempre prejudicial, venha ela de onde vier. Em sectores que nos tocam de perto, vemos, de imediato, que é possível e desejável agir nas áreas da saúde, da educação, da justiça, passando para a esfera das autarquias, com os meios financeiros adequados e justos, as medidas que impliquem obras e construções de edifícios e equipamentos, contratação e gestão de pessoal administrativo, acompanhamento, em sede de discussão destes temas, com uma voz activa por parte dos autarcas, nos campos em que o Estado fica em seu poder. Ou seja, mesmo nesses casos que mexem com as nossas pessoas e territórios, é preciso fazer as discussões necessárias. É urgente ainda que a autonomia dos respetivos serviços seja uma outra valência a implantar. Descendo patamares, não se pode falar em descentralização se as Juntas de Freguesia ficarem de fora destas equações. Advogando a vinda de novas competências para as Câmaras Municipais, saindo destas, é preciso ir-se, na mesma filosofia, para os níveis abaixo, mas de uma importância maior no campo da democracia de base. No que se reporta à agricultura e pecuária, importa que se dinamizem as boas práticas, já anteriormente existentes, por exemplo nos Agrupamentos de Defesa Sanitária (ADS), que têm vindo a perder relevância e mesmo espaço de actuação. Também não é aceitável que, por tudo e por nada, se tenha de recorrer, para avançar com qualquer projecto, a Coimbra ou outras instâncias distantes. Muito menos se aceita que, para vender duas cebolas, três cascas de alho, ou meia dúzia de ovos, se tenha de ir às Finanças fazer um qualquer registo de actividade. Incompreensível é ainda o facto de, nalguns concelhos do distrito de Viseu, nesta esfera de actuação, haver mesmo dois ou três locais diferentes para cada tema a tratar. Vendo o que se passa no nosso reino local, notam-se também algumas incongruências, que levam a que Lafões se divida, por exemplo, nos projectos LEADER entre duas entidades, a ADDLAP e a ADRIMAG. Estávamos a falar de descentralização: venha ela, mas da boa. Tapar buracos ou fazer remendos não nos agrada, nem é esse o caminho que deve ser seguido. Carlos Rodrigues, in “Notícias de Vouzela”, Jan19

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

A génese e a morte da Linha do Vale do Vouga

Vale do Vouga Muita luta para o seu nascimento para agora nada termos Em finais do século XIX e início do seguinte, quando Portugal já era entrecortado por várias linhas férreas, depois da agitação em investimentos públicos que se sentiu com Fontes Pereira de Melo, esta nossa zona do Vouga, no seu sentido lato, começou a mexer em grande, sobretudo a partir da comunidade lafonense residente em Lisboa. Foi árdua e bem conseguida a luta encetada por esses nossos antepassados. Mas, antes do seu sucesso, outras pistas estiveram em cima da mesa através de várias hipóteses. A certa altura, chegou a pensar-se numa linha que, partindo do Porto, iria até Viseu pelo Vale do Paiva, via S. Pedro do Sul. Um outra ideia inclinava-se para a ligação de Torredeita para Viseu, passando depois por Vouzela, Oliveira de Frades, Couto de Esteves, terminando em Espinho. Segundo estas discussões, os concelhos de Lafões não deixavam de unir esforços para levarem a água ao seu moinho, isto é, serem estas nossas terras beneficiadas por inteiro, de um lado a outro, tal como veio a ser conseguido. É que qualquer daquelas vias não satisfazia os interesses gerais desta região, como se pode deduzir pelos traçados apresentados. Entretanto, logo em 1881, se pede a criação da Linha do Vale do Vouga, mas sem sucesso no plano imediato, porque só apenas em 1889 é que se vem a obter o respectivo alvará. Concluíram-se os trabalhos de campo em 1894 e um projecto veio a lume em 1895, numa concessão a durar 99 anos. A anteceder a via ferroviária, falemos antes um pouco dos transportes aqui existentes. Para o Professor Amorim Girão, a grande pista, durante séculos, foi aquela que tinha marca do povo romano, ligando Águeda a Viseu, pois essa era a “única via de comunicação entre a Beira Central e a Beira Litoral, entre a serra e a marinha, sendo conhecida pela Estrada do Peixe”. Veio a ser ultrapassada pela ER 41( EN 16), a macadam, unindo Viseu a Vilar Formoso. Falando nas suas viagens, alguns tempos antes, Ramalho Ortigão, como se regista em “Memórias do Vouga – Manuel Castro Pereira, Porto, 2000”, assim descrevia um dos percursos que percorreu. Com a sua veia literária, assim o descreveu: “ Quem vinha do Porto a Viseu, ou deixava a estrada real de Lisboa em Albergaria e atravessava a Serra das Talhadas ou cortava em Oliveira de Azeméis, pouco mais ou menos pelo Rego de Chave ... ( Vindo dos lados de Manhouce, narra).... “ Ao cair da tarde cheguei a S. Pedro do Sul. Que refrigério! Que grande amenidade! Que brandura! Um vale recolhido e abrigado pelo Monte Lafão, de uma temperatura tépida, refrigerada pela corrente do Vouga, que corre em várias quedas, ouvindo-se por toda a parte o marujar doce das águas jogadas nos açudes... “. Este era o velho tempo das diligências puxadas por cavalos. Quando se quer dar o salto para os comboios que viessem servir estes nossos territórios, que aquela situação deixava muito a desejar, um grupo de nossos antepassados em Lisboa, vendo o que se ia cogitando a esse respeito, lança a Comissão Dinamizadora da Linha do Vale do Vouga (atitude que viria a desembocar no Grémio Lafonense), em que se integram António Pinto de Azevedo, Daniel Gonçalves de Almeida, António Rodrigues Portinha, Estêvão de Vasconcelos e Manuel Rodrigues de Abreu. Para sede deste movimento, Daniel Almeida cede o seu estabelecimento na Calçada do Garcia, números 44 a 46. A esta gente, junta-se ainda Alfredo Augusto Ferreira, José Bento Gonçalves de Almeida e Benjamim Rodrigues Costa. A sua força e entusiasmo deram os devidos frutos. Em 1907, Companhia Francesa de Construção e Exploração inicia os trabalhos. Um ano depois, o Rei D. Carlos I inaugura o troço entre Espinho e Oliveira de Azeméis. Em 1911, está-se na Sernada do Vouga. Em 1913, liga-se Sernada a Vouzela e Bodiosa a Viseu. No ano de 1914, estabelece-se a linha Vouzela-Bodiosa, assim se fechando a respectiva malha. Até 25 de Agosto de 1972, circularam os comboios a vapor. Posteriormente, até 1989, são as automotoras ALLAN que prestam o seu serviço. A 1 de Janeiro de 1990, a morte anunciada vem a consumar-se, irremediavelmente. Para registo e memória futura, vejam-se as localidades que viam passar os comboios e os utilizavam: 1 - Espinho, Silvalde, Paramos, Sampaio/Oleiros, Paços de Brandão, Rio Meão, S. João de Ver, Sanfins, Feira, Escapães, Arrifana, S. João da Madeira, Couto de Cucujães, Santiado de Riba-Ul, Oliveira de Azeméis, Ul, Travanca, Pinheiro da Bemposta, Branca, Albergaria-a-Nova, Albergaria-a-Velha, Sernada; 2 - Sernada, Macinhata, Valongo, Aguieira, Mourisca, Águeda, Oronhe, Casal de Álvaro, Travassô, Eirol, S. João de Loure, Eixo, Azurva, Esgueira, Aveiro; 3 - Sernada, Carvoeiro, Foz do Rio Mau, Poço de Santiago, Paradela, Cedrim, Ribeiradio, Arcozelo das Maias, Quintela, Santa Cruz, Nespereira, Pinheiro de Lafões, Oliveira de Frades, S. Vicente de Lafões, Fojo, Vouzela, Termas, S. Pedro do Sul, Fataunços, Real, Moçâmedes, S. Miguel do Mato, Bodiosa, Travanca de Bodiosa, Mozelos, Campo, Abraveses e Viseu. Hoje, algumas décadas passadas sobre a o assassínio do nosso Vale do Vouga, a velha linha, cortada aquém a além, tende a ser uma enorme ecopista. Não é a finalidade que mais nos agrada. Ainda mantemos o sonho de, um dia, voltarmos a ter os comboios, talvez aí até 2030. A esperança é última a morrer. Carlos Rodrigues, in “Notícias de Lafões”, Jan19

Varzielas perto de perder a sua fábrica das Águas do Caramulo

Águas do Caramulo à beira da queda Grupo detentor desta marca quer encerrar a fábrica Em 20 de Dezembro de 1983, foi concedida a licença para a exploração industrial das Águas do Caramulo, em Varzielas, neste concelho de Oliveira de Frades. Dados os passos iniciais, esta marca não tardou a impôr-se pela mão de cada um de seus responsáveis, que se foram sucedendo ao longo dos tempos. Das entranhas daquela Serra saiu este precioso líquido que correu Portugal de lés-a-lés e se espalhou por esse mundo fora. Em Israel, por exemplo, chegou a ter nome próprio, com indicação, claro está, da sua origem. Esta foi uma história de sucesso e um meio de desenvolvimento para aquelas nossas terras. Porém, agora, anuncia-se o seu fim, ingloriamente. Nos últimos dias, em comunicado, a Super Bock Group, liderada por Rui Lopes Ferreira, seu Presidente Executivo, que detém esta unidade industrial, veio anunciar o seu encerramento a partir do próximo mês de Fevereiro. Com esta lamentável medida, põe-se fim a uma marca de indiscutível valor, colocam-se na rua 26 trabalhadores, ou dá-se-lhes a hipótese de poderem ir para cascos de rolha, fechando-se uma empresa que se não tem cansado de investir no seu progresso e desenvolvimento. Agora, de um momento para outro, troca-se por Envendos e Castelo de Vide. Varzielas, que fica situada em plena Serra do Caramulo, que dá nome à água, encontra-se abrangida pelos programas de valorização do interior e dos territórios de baixa densidade, muito fustigada, nos últimos anos, pelos incêndios. Infelizmente, nada destes programas e condições parece salvar esta jóia da coroa oliveirense. Indiferentes às especiais circunstâncias e necessidades destas povoações, os responsáveis da Unicer/Super Bock seguem apenas um duro raciocínio empresarial. Alegando que se trata de “ajustar o modelo industrial nas águas lisas” e que dispõem de um “Programa Social de Apoio” para as pessoas despedidas, com “condições acima do quadro legal”, a deslocalização destes serviços para outros locais é para eles fácil. Mas para nós é uma machadada sem quartel, que custa a aceitar. Com certificação de qualidade, uma delas válida para o período entre 2013 a 2016, em meados da primeira década deste século, estas Águas do Caramulo – Sotarvil apresentavam um nível de notoriedade total de 99% e um conhecimento espontâneo de 51%, associando-se a sua imagem à “originária fonte segura”. Não crendo que estas condições tenham desaparecido, antes pelo contrário, até porque houve investimentos de vulto ano após ano, estranha-se que, nestes momentos, se pense em desbaratar este valioso património, lesando a região e suas legítimas aspirações. Voltando aos anos oitenta, entre 1 de Janeiro e 23 de Outubro de 1987, atingiu-se um movimento de um milhão de caixas e, em 1989, chegou-se aos dois milhões. Alega o grupo empresarial que, na última década, perdeu cerca de 50% do volume de facturação, tendo desaparecido alguns mercados como o de Angola. Especulando, será que, no meio de tanta marca, tudo foi feito em favor destas nossas Águas? Duvidamos. Ao ouvirmos o Presidente da União de Freguesias, Jorge Bandeira, disse-nos ter sido informado pelos engenheiros da fábrica, à última hora, e que apresentaram a decisão como sendo definitiva, pelo que o “remédio é aceitar-se este facto consumado”. Acrescentando que sua Junta pouco pode fazer, não vai, de maneira nenhuma, cruzar os braços, pelo que vai reunir com o Presidente da Câmara, Paulo Ferreira, a fim de acertarem agulhas quanto aos próximos passos a dar. Por sua vez, Paulo Ferreira, alegou que foi apanhado de surpresa na sexta-feira, dia 11. De imediato, “contactei os seus responsáveis, que se mostraram inamovíveis”. Contra a tese da Super Bock que diz ter perdido 50% nos últimos dez anos, como referimos, o Presidente da Câmara de Oliveira de Frades entende que a “fábrica até andava bem”. Agora, vai pôr os pés a caminho, na companhia de seu colega de Tondela, para, em reunião com a administração, tentarem travar esta intenção. Também o PCP nos fez chegar um comunicado em que fala na “ desvalorização e falta de promoção da marca”, sendo que isto “é para deitar fora insensível à grande importância económica e social da laboração desta unidade para aquele território”. Nesta medida, este Partido vai encetar uma série de contactos no sentido de vir a defender a fábrica e o interesse de seus trabalhadores. Em conclusão, a notícia do encerramento das Àguas do Caramulo é mais um duro golpe para a nossa região. Importa agora, por todos os meios, tentar travar esta decisão ou, no mínimo, minimizar os seus efeitos. Carlos Rodrigues, in “Notícias de Vouzela”, 17 Jan19

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Termas de S. Pedro do Sul vai ter nova represa

Represa nas Termas de S. Pedro do Sul Há um bom princípio ambiental, cada vez mais premente, que é o de pouparmos hoje para não sofrermos amanhã. Ou para não tirarmos ao nosso próximo aquilo que para essa gente é fundamental e que nós usamos como se fôssemos donos e senhores de um mundo que, sendo de todos nós, deve ser gerido em termos de coesão e sustentabilidade social, abrangente e solidária. Neste contexto, é com agrado que vemos ser anunciada a perspectiva de vir a ser construído nas Termas de S. Pedro do Sul um açude que faça guardar água e que permita, ao mesmo tempo, ser fonte de lazer e prazer social. Numa terra que tem na água, mais na quente que na fria, a sua imagem de marca, tudo quanto se faça para valorizar a sua importância tem todo o sentido e deve merecer os nossos vivos elogios. Por aquilo que temos vindo a ler, com este projecto tem-se em vista matar com uma só cajadada dois coelhos: armazenar água para os tempos em que ela costuma escassear e coordenar os caudais invernosos quando cai o Carmo e a Trindade nos nossos rios e neste Vouga em particular. É com vistas largas que se devem gerir os nossos territórios e estas iniciativas, aproveitando até ao tutano fundos comunitários e outros, que, ou se usam hoje, ou morrem para sempre (?), são sempre bem vindos. Fala-se em cerca de um milhão e meio de euros de investimento. Seja. Se com esse montante se vierem a conseguir os tais dois objectivos, tudo é aproveitado, nada se perde e tudo se transforma. Um espelho de água, para além dos efeitos que tem no controle dos caudais, traz sempre benefícios acrescentados: amplia ângulos de boas paisagens e atrai mais visitantes. Boa aposta. Numa visão global e Lafões tem de pensar assim, olhamos para montante e vemos o açude de produção eléctrica, ali para os lados de Drizes. Descemos para jusante e damos de caras com esse imenso lençol de água, o da Barragem de Ribeiradio. Numa estratégia de vendas turísticas, este pacote integrado ( mais o da possível e sonhada Barragem do Pisão) tem sempre um melhor preço e é disso que temos de saber falar em economia moderna e de escala. Sempre temos defendido, em várias intervenções e fóruns, que Lafões, quanto a turismo, jamais pode ou deve fugir-se das Termas como seu centro estrutural. O açude que aí vem não deve desviar-se destas premissas, pensamos nós... Carlos Rodrigues, in “Notícias de Lafões”, 2018

Ver os números para compreender o nosso futuro

Falar de números para melhor nos entendermos As análises qualitativas e quantitativas são fundamentais para sabermos de onde viemos e para onde vamos. É assim (ou pelo menos essa é a regra da boa prática) que as políticas públicas devem ser planeadas e colocadas nos diversos terrenos que as motivaram. Com dados na mão, é mais seguro decidir e mais sério agir. Por isso mesmo, deixem que vos diga que, por mais respeito que tenhamos pelos nossos ilustres deputados – e, às vezes, nem sempre isso acontece, sendo que os culpados são eles próprios – entendemos que às suas opiniões, em muitos casos, falta o respaldo científico. O que se passou, recentemente, com o probema das vacinas brada aos céus. Deixemos isso, mas a preocupação fica connosco... Andando sempre às voltas com documentos e outros instrumentos de conhecimento da nossa sociedade, nem recuámos muito no tempo, tendo feito apenas uma viagem até aos anos noventa. Visitámos as informações da Comissão de Coordenação Regional do Centro, onde não se brinca com as estatísticas, antes se levam muito a sério, e logo deparámos com notas preocupantes e outras nem por isso. Por razões de pertinência territorial, pegámos apenas nos três concelhos de Lafões: Oliveira de Frades, S. Pedro do Sul e Vouzela, por ordem alfabética. Em linhas muito gerais, o campo da população, desde 1864 a 1991, deixa muito a desejar nos três casos, nuns mais que noutros. Asssim, a evolução do número de habitantes processou-se desta maneira: Oliveira de Frades – ano de 1864 – 8657 residentes; 1960 – 10858; 1981 – 10391; 1991 – 10854; S. Pedro do Sul – ano de 1864 – 20372 hab; 1960 – 24273; 1981 – 21220; 1991 – 19985; Vouzela – ano de 1864 – 13407 res; 1960 – 15641; 1981 – 13407; 1991 – 12477. Olhando para estas tabelas, S. Pedro do Sul e Vouzela apresentam-se com maiores preocupações, tão grandes são as tendências para o despovoamento. Num e noutro destes concelhos, o ano de 1960 é aquele que regista um maior número de residentes, mas depois o descalabro não pára de se acentuar. Quanto a Oliveira de Frades, as oscilações mais serenas mostram uma certa estabilidade. No que toca às referências sobre a estrutura do trabalho e sectores da sua distribuição, quanto ao ano de 1991, eis os resultados apurados: - Oliveira de Frades – Sector primário – 1854 pessoas ocupadas; secundário – 1158; terciário – 1341; total – 4353. - S. Pedro do Sul – Primário – 3577; secundário – 1690; terciário – 2581; total – 7848. - Vouzela – Primário – 1850; secundário – 1695; terciário – 1459; total – 5004. Indo agora para a ocupação do solo, desde logo nos surge uma fragmentação da propriedade que nunca deixou de ser um problema, mal os morgadios foram extintos por razões de ordem de equilíbrio e justiça social nas heranças. Resolvida essa equação, outras questões se levantaram, como se está a ver. Em agicultura e floresta, a propriedade apresenta estes números: - Oliveira de Frades – Explorações agrícolas (1989) – 1564; nº de blocos – 9336. - S. Pedro do Sul – 2716; 14929; Vouzela – 1878; 13466. Sendo imensos os quadros de análise, desta feita não vamos além destas reflexões. Ficam aqui motivos para umas tantas preocupações e a maior delas tem a ver com o facto de constactarmos que a nossa região tem vindo sempre a perder população, facto que se não atenuou neste século XXI, antes até se agravou. Queixamo-nos sempre de que, entre outros males, a floresta arde e as árvores não chegam a crescer para darem quaisquer resultados palpáveis. Sem força humana não é possível defendê-las nem cuidá-las desde à nascença à sua morte prematura e cruel, porque as chamas não perdoam. Em circuito vicioso, vão-se as pessoas, morre com esse êxodo o trabalho dos campos e tudo o resto foge em marcha acelerada. O nosso mundo é deveras padrasto para as nossas zonas de baixa densidade. Quem nelas viu a luz do dia, a certa altura daqui sai à espera de melhor futuro. Lá em cima, ninguém olha por nós. Somos gente, mas somos poucos em dias de eleições e esse é que é o nó górdio deste nosso dilema. E cada vez estaremos pior. Infelizmente. Carlos Rodrigues, in “Notícias de Lafões”, Dez 2018

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Tragédias atrás de tragédias...

Ainda o desastre de Borba estava bem presente nas nossas memórias e logo nos surgiu a queda de um helicóptero do INEM, na zona de Valongo (Porto), após o socorro prestado a um doente transportado para o Hospital de Santo António. Na fatídica viagem de regresso, com destino marcado para Macedo de Cavaleiros, mas que terminou, infelizmente, muito antes, perderam a sua vida, salvando a de outros na sua nobre missão, a enfermeira Daniela Silva, o médico Luís Vega, o piloto João Lima, com fortes ligações a Viseu, e o co-piloto Luís Rosindo. Decorrem por esta altura as necessárias investigações, envoltas em mistério, contradições e outras dúvidas. Que a verdade se esclareça a bem da justiça e da dignidade de quem tudo deu em favor da humanidade, incluindo o seu próprio sangue. Obrigado. Que descansem em paz!...

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Arouca e S. Pedro do Sul sempre lutaram por boas comunicações

Ligação S. Pedro do Sul e Arouca, sempre vizinhos mas bastante separados Entre os municípios de S. Pedro do Sul e Arouca há uma vizinhança natural. Está no sangue de cada um destes concelhos esta atracção mútua. Do lado de Covas do Rio, espreitam-se estas paisagens de um lado e de outro. De Manhouce, idem. Do Candal, nem se fala. Santa Mafalda, tentacular, estende a sua influência pelos dois lados das montanhas, desde os primeiros tempos da nossa monarquia. A natureza, a cultura e a história assim falam. A incapacidade e a teimosia dos homens, ao longo dos tempos, teimaram em impedir boas ligações. Se os nossos antepassados foram capazes de avançar com caminhos e veredas por essas distâncias além, os tempos modernos, quanto a estradas, têm sido uma lástima. A Nossa Senhora da Lage, algo perto de Manhouce e a pouca distância de Albergaria da Serra (outrora, das Cabras), o pulo a dar entre os limites de Covas do Rio e o vizinho concelho de Arouca, os passos que ficam entre as minas dos dois concelhos e tantos outros aspectos e factores são pontos de encontro e desencontro que têm demorado milénios a unirem-se. Em termos de ligações pedestres, aceitam-se as propostas feitas e colocadas em prática ao longo dos séculos. Mas, ao falarmos de vias modernas, isto tem muito que se lhe diga e não passa de uma lástima. Ano após ano, palavreado tem havido, mas obras, nem por isso. Rebuscando fontes diversas, como o saudoso “Tribuna de Lafôes”, quase nunca faltaram ideias e muitas hiópteses de estradas passaram pela cabeça dos dirigentes de um lado e outro destas serras. Definiram-se, inclusivamente, traçados, mas pouco se avançou. Há mapas que nos dizem que, em linha recta, apenas 24, 49 Km separam as duas sedes de municípios, S. Pedro do Sul e Arouca, esta uma terra predilecta de Santa Mafalda, que todos os anos, no mês de Maio, faz encher esta vila de peregrinos e devotos, idos de todos os lados e, muito especialmente, das paróquias dos concelhos de S. Pedro do Sul, Castro Daire e de outros em redor. E o seu Mosteiro é lugar de todos e muitos encontros religiosos e culturais, desde há séculos. Mas nem Santa Mafalda fez o grande milagre de pôr em contacto digno estes territórios. Aliás, o mesmo se diga quanto às ligações com Castro Daire, que se viu contemplado com obras na via que uniria Alvarenga a esta vila a partir do ano de 1917, mas que cedo perderam gás e deixaram de ser concluídas, para serem apenas retomadas em 1946, após a passagem e a destruição de duas grandes guerras mundiais. Com Arouca a construir, há poucos anos, a EM desde Portela-Moldes a Cabreiros, foi a vez de a Câmara Municipal de S. Pedro do Sul de, nos últimos anos, pôr em prática a variante ao Candal que, finalmente, estabeleceu uma rede de vias com tendências de modernidade e alguma eficiência para os tempos que correm. Em territórios de montanhas mágicas, os laços constroem-se com boas vias de comunicação. Se, num rio, as pontes unem o que a natureza separou, nos montes são as estradas e os caminhos a desempenharem esse bom papel. O norte e o sul podem e devem aqui ser ligados por infraestrutras rodoviárias de vistas largas e com horizontes de futuro. Os tempos dizem-nos que isso já deveria ter acontecido há séculos. Se assim não aconteceu, deixemos de lado as discussões e vamos às obras. Carlos Rodrigues, in “Notícias de Lafões”, 8 Nov18