domingo, 3 de fevereiro de 2019
Lafões repartido por várias esferas de decisão...
Um território a necessitar de se repartir por vários locais
Incongruências com anos e séculos de existência
Nestas andanças em busca de decisões de carácter superior para o ramo da agricultura, das autarquias, da educação, da justiça e outras áreas, as diversas regiões do país dividem-se em redor de blocos, que, muitas vezes, as partem ao meio. Um dos exemplos claros e evidentes acontece no nosso próprio distrito: parte dele, inclui-se na Região Centro, com 14 dos seus concelhos, e dez juntam-se ao Norte. Desta forma, vivem sob regras e programas diferenciados e a unidade distrital desfaz-se cada vez mais.
Aqui há uns anos, no Congresso Viseu Século XXI, o Eng. Armínio Lemos Quintela, um nosso bom amigo, no que se refere ao Sector Agrário – Assimetrias e Desenvolvimento, acentuava a ideia perniciosa de que “ A divisão actual, ao fazer coincidir as áreas territoriais das Regiões Agrárias com as Delegações Florestais (anteriormente designadas Circunscrições Florestais), levou à repartição do distrito de Viseu por três Regiões Agrárias, com sedes no Porto, Vila Real e Coimbra, ficando no distrito só três Zonas Agrárias e outras tantas Florestais com base em Lamego, Viseu e Tondela, enquanto em outros distritos, em vários casos, as sedes das Zonas Agrárias e Florestais estão em concelhos diferentes, embora com área territorial comum”.
Em matéria de consequências, retira, de imediato, vários aspectos negativos, nesta frase lapidar “ Tal incongruência tem conduzido ao estrangulamento e à fragmentação de zonas de produção homogénea por diversas regiões, originando, por vezes, tratamentos diferenciados e contraditórios para os mesmos produtos regionais”
Em casos mais pormenorizados, só a Serra do Montemuro se divide pela Beira Litoral – Castro Daire, Cinfães e Resende – Entre Douro e Minho, Lamego – Trás-os-Montes e Alto Douro.
No ano de 1999, os programas de fomento florestal na região Dão-Lafões, além dos 14 municípios habituais, tínhamos ainda os de Aguiar da Beira (Guarda) e Tábua (Coimbra), que, aliás, são parte também da Associação de Municipios da Região do Planalto Beirão, para recolha e tratamentos de resíduos sólidos.
Recuando aos anos de 1992/94, com os Programas de Desenvolvimento Agrícola Regionais (PDAR) e outros, os concelhos de Oliveira de Frades e Vouzela foram postos num lado e S. Pedro do Sul, noutro. Esta metodologia seguiu-se no LEADER, em que parte de S. Pedro do Sul se associa à ADRIMAG e os outros dois encaixam-se totalmente na ADDLAP.
Também na educação estas disparidades são a regra, com a anexação às zonas centro e norte do tecido educativo distrital. E o mesmo se pode dizer de vários outros sectores. Em turismo, são três os polos pelos quais se foi espalhando o nosso distrito, com Mortágua a unir-se a Coimbra, grande parte ao Dão-Lafões e o norte ao Porto.
Cabe, nesta análise, uma palavra especial para a nossa própria sub-região de Lafões, que junta aos três concelhos de base algumas outras freguesias retiradas de Castro Daire, parte de Alva e Gafanhão; Ribafeita e Bodiosa (Viseu) e Cedrim e Couto de Esteves (Sever do Vouga).
Naquilo que à justiça se refere, cada concelho pode muito bem ter de se dividir por várias instâncias, nomeadamente com os menores, trabalho, administrativo e fiscais, juízos vários, etc.
Nada disto seria prejudicial se, com estas divisões, os cidadãos não perdessem algo com todas estas separações. Vejamos um exemplo mesquinho: se precisar de algo de maior sobre educação lá vai para Coimbra, se, no mesmo dia, necessitar de matérias de índole jurídica pode muito bem ter de avançar para Viseu. E assim por aí adiante. Logo, estas questões não são apenas banalidades para encher papel. Não. São uma realidade que pesa sobre os ombros de cada um de nós em cada dia de nossas vidas. Por isso mesmo, merece estas e outras considerações e, sobretudo, a acção e o cuidaddo de quem tem a missão de planear e decidir. Pensamos mesmo que urge fazer-se um estudo a sério que olhe para estes temas, de uma forma integrada.
Carlos Rodrigues, Notícias de Lafões, Jan19
Património de Lafões a morrer aos bocadinhos...
Casas senhoriais e património ao abandono
É uma tristeza vermos, pelas nossas terras além, magníficos exemplares de arquitectura, carregados de história e património em estado lastimoso, em destruição quase completa uns, em degradação constante muitos outros e quase desfeitos tantos mais. Sendo chaga que não nos atinge só a nós, os que temos o privilégio de viver em Lafões, um jardim melhor que todos os outros, tal como escrevia Correia Severino “... E não há no mundo um lugar assim... “, não deixa de ser doloroso toparmos esta realidade.
Com um mapa à mão, citando praticamente de memória, começamos logo por Santa Cruz da Trapa, onde, à beira da estrada que liga S. Pedro do Sul ao Porto, pela serra, se encontra o Solar dos Malafaias a gritar, com toda a força, por salvação. Ao que se sabe, o seu proprietário fundador, cansando-se do barulho que lhe apareceu com esta nova via, decidiu desfazer-se dele para ir de abalada até Serrazes, localidade onde ergueu novo palácio, este ainda aceitavelmente conservado. No entanto, mantém um estigma e uma mancha, o do célebre crime de Serrazes dos inícios do século XX, que teima em não se apagar.
Partimos para o concelho de Vouzela e ali, a caminho de Carvalhal de Vermilhas, na Corujeira, há um outro edifício imponente que também olha para nós a pedir compaixão. Comparando-se com o Solar dos Saldanhas, no centro de Cambra, que foi magnificamente restaurado, quase se sente cada vez mais só e abandonado.
Avançamos para o município de Oliveira de Frades, onde, por exemplo, na freguesia de Arcozelo das Maias, em Quintela, o Solar do Ribeiro se mostra praticamente em ruínas. Nos últimos dias, soubemos uma boa notícia: é que já houve alguém que adquiriu parte daquele magnífico imóvel com vista ao seu restauro e uso compatível com o seu passado.
Em seu redor, menos vistosas, há todo um conjunto de casas de grande marca que se encontram, em triste sinal dos tempos, ou praticamente destruídas ou quase a cair. Dentro delas, nalgumas, espreitando pelo canto do olho, notam-se peças de inegável valor, como um lagar de varas, ainda em bom estado e outros pormenores.
Mais à beira da Barragem de Ribeiradio, uma boa casa solarenga, em Virela, ameaçava seguir o mesmo destino fatal, mas a salvação parece estar a caminho, por ter sido adquirida para fins turísticos. Boa ideia é esta!
Em Pereiras e em Antelas, imóveis de grande valor caem como tordos.
Num imenso rol de património em decomposição, seria longa a lista a colocar aqui. Estes são alguns lamentáveis exemplos. Mas queremos terminar este trabalho com uma boa notícia: em Fornelo, Arcozelo das Maias, o seu velho solar, embora com muitos erros e falhas, está de pé e com vida. Assim acontecesse com todos os demais.
Carlos Rodrigues, Notícias de Vouzela, Jan31
Uma tradição popular, a da matança do porco, que se mantém...
Na Sobreira
Matança de porco com laivos de tradição
A meio da tarde, um tanto a contrariar tempos antigos, que essa operação era feita de manhã bem cedo, descobrimos, recentemente, a matança de um porco na povoação da Sobreira, Oliveira de Frades. Como já vai sendo raro ver uma operação destas a mobilizar uma família, sendo que, por estes tempos, estes animais são mortos de um modo algo profissional, tal facto despertou a nossa curiosidade. Feita a paragem obrigatória, ali estivemos uns minutos em observação e diálogo.
Tal como acontecia outrora, o carro de vacas serviu de ponto de apoio para a respectiva matança. Retirado o cevado de seu curral, que comera petiscos caseiros em grande parte da sua vida e isso é que lhe confere aquele sabor sem igual, foi agarrado e levado para o sítio da sua morte. Estrategicamente colocados, os membros da felizarda família distribuíram-se pela segurança das patas, da frente e de detrás, do focinho e lá se avançou para a operação final.
À falta da carqueja, que era usada como material combustível para chamuscar o porco e lhe fazer desaparecer os pelos, foi o maçarico a gás que foi utilizado. Concluído esse trabalho, um outro se lhe seguiu: a lavagem a sério com as telhas e as pedras, as facas velhas a esfregarem todo o seu corpo. Branquinho, bem asseado, uma outra modernidade veio ao de cima: há anos, a força dos braços fazia com que se dependurasse, direitinho, de cabeça para baixo, o que, por estas alturas, se faz com a ajuda de um garibalde (guindaste), uma máquina elevatória. De imediato, porque de um porco nada se perde, se tratou de aparar o sangue, matéria-prima de excelência para o celebérrimo sarrabulho.
Para arrefecer, antes de vir a ser desmanchado, ali se manterá por umas horas, em zona fresca e arejada.
Tradição, economia e sociabilidade
A matança de um porco, nas nossas aldeias, é muito mais do que esse acto em si. Fruto de um aturado trabalho para o engordar, o dia em que ele desaparece converte-se numa tradição secular que anima a vida das famílias e da comunidade local. Se agora já não há propriamente uma época própria (fruto da modernidade e das arcas frigoríficas) que era, antigamente, quase sempre por alturas do Natal, neste caso ainda se olhou para o tempo fresco. Mas é certo que a salgadeira e as panelas do lombo e dos rojões já não são tão usadas.
Sendo um contributo essencial para a economia de cada casa, tem, além da função alimentar, uma função social de relevo: ter uma certa quantidade de bons porcos mostra, de certa forma, o estatuto da família que os detém. Ou seja, pelo número destes animais se avalia, um pouco, a sua abastança ou não e ainda o número de elementos que vivem sob um mesmo tecto.
Com um ritual próprio, na véspera o porco já não tem direito a ser alimentado, em regra. Depois de morto, as suas iguarias são mais do que muitas: logo no dia da desmancha, as féveras na brasa são um pitéu de se lhe tirar o chapéu. Vem depois a rojoada, ou sarrabulhada, a grande festa, em que o sarrabulho, que nada tem a ver com o de Braga e arredores, o arroz de míúdos, o farto cozido, a chouriça, a morcela, os rojões, o lombo e o fígado, os bolos, as castanhas cozidas, os vinhos caseiros, fazem parte da farta mesa, com muita conversa e convívio à mistura.
Tal como Virgílio Ferreira, também nós sentimos uma certa nostalgia, própria das nossas vivências da criancice e juventue, pelos“... Episódios como o vinho novo, a matança do porco (que) assinalam regressos/presentificações de um passado que marcaram o narrador e que ele recorda com profunda intensidade (em) viagens temporais”...
Carlos Rodrigues, Notícias de Vouzela, Jan19
Lafões perdeu um homem da música nacional
Com a morte de José Lopes da Silva
Lafões perdeu um vulto da sua cultura
Nascido em 1937, na desaparecida Quinta do Calvel, ali entre Antelas e Santa Cruz, concelho de Oliveira de Frades, José Lopes e Silva cedo compreendeu, como dizia, pelo som da água a correr pelas serranias, pelo chilrear da passarada, que a música seria o seu destino. Deixou-nos neste mês de Janeiro de 2019 e com ele Lafões e o país perderam um grande artista, que espalhou a sua criatividade e obra por esse mundo fora. Nesta casa, neste “Notícias de Vouzela”, esteve inúmeras vezes para falar dos projectos e das realizações que ia conseguindo. Dessas suas vivências, aqui fomos dando eco. Sendo um nosso bom amigo, recordamo-lo para sempre com uma grande saudade.
Tendo crescido até à idade escolar na citada Quinta, dela apenas saía para ir à escola ou à missa. Um dia, decidiu dar um passo em frente e lá foi para Lisboa, onde encontrou abrigo e trabalho, como marçano, em casa de seus familiares. Mas o seu sonho da música falou sempre mais alto. De início, ainda conciliou essas tarefas com os estudos musicais. Porém, quis dedicar-se de corpo inteiro à arte que lhe invadia toda a sua vontade. Meio dito, meio feito.
Sem preocupações cronológicas, fez os estudos de guitarra clássica, no Conservatório Nacional de Lisboa, com Emílio Pujol. Com bolsas do Instituto Cultural de Madrid e da Fundação Calouste Gulbenkian, fez mais cursos em Santiago de Compostela. Em 1962, dá aulas no Conservatório de S. Paulo, Brasil. A partir de 1970, dedica-se ao estudo de música contemporânea, sendo um dos fundadores do Grupo de Música Contemporânea de Lisboa e do Grupo Quadrifonia.
No ano de 1972, exerce funções docentes no Conservatório Nacional de Lisboa, onde permanece durante um largo período. Participou, entretanto, em festivais internacionais diversos, tais como em Israel, Brasil, Espanha, França, Alemanha, Polónia, Finlândia e tantas outras paragens, sem esquecer, como é óbvio, o seu Portugal.
Em 2012, assinala 50 anos de carreira e lança mais uma das suas inúmeras iniciativas: as Guitarríades XXI, levando-as a Lisboa, Cascais, Estoril, Santarém e outras localidades, em parcerias que foi estabelecendo com os amigos de sempre.
Personalidade relevante na música portuguesa, nunca esqueceu as suas origens. Se estas foram o seu ponto de partida, a elas regressou, nos seus últimos anos de vida, para continuar a sua obra de criação de uma dimensão e nível incomparáveis. Mesmo na vazia Quinta do Calvel quis perpetuá-la para sempre em gravações que deixou para a eternidade.
Com uma obra enorme, José Lopes da Silva, despedindo-se de nós, não nos deixou órfãos, que o seu legado é eterno.
Carlos Rodrigues, Notícias de Vouzela, Jan19
quarta-feira, 30 de janeiro de 2019
Descentralização nem toda ela nos serve
Descentralização boa, descentralização má
É isto mesmo: sempre que se fala em descentralização, que é passar competências e funções do poder central para o local, ou regional ( se e quando o houver em Portugal continental), não a podemos ver apenas num prisma positivo e é este que, na nossa modesta opinião, mais valorizamos. Primeiro, é preciso saber-se o que vai passar de um lado para o outro, em matéria de decisão; segundo, nada disto pode ir em frente se a vertente financeira não acompanhar a matéria a transferir.
Há ainda que ver o seguinte: não se pode entregar a outros apenas aquilo que dá trabalho, é incómodo, traz chatices e pouco se faz notar. Em diálogo, importa dar-se relevo a tudo aquilo que as partes acordarem. Ou seja: este é um processo em que as negociações têm de estar na base de tudo. Não é possível a unilateralidade, que é sempre prejudicial, venha ela de onde vier.
Em sectores que nos tocam de perto, vemos, de imediato, que é possível e desejável agir nas áreas da saúde, da educação, da justiça, passando para a esfera das autarquias, com os meios financeiros adequados e justos, as medidas que impliquem obras e construções de edifícios e equipamentos, contratação e gestão de pessoal administrativo, acompanhamento, em sede de discussão destes temas, com uma voz activa por parte dos autarcas, nos campos em que o Estado fica em seu poder. Ou seja, mesmo nesses casos que mexem com as nossas pessoas e territórios, é preciso fazer as discussões necessárias. É urgente ainda que a autonomia dos respetivos serviços seja uma outra valência a implantar.
Descendo patamares, não se pode falar em descentralização se as Juntas de Freguesia ficarem de fora destas equações. Advogando a vinda de novas competências para as Câmaras Municipais, saindo destas, é preciso ir-se, na mesma filosofia, para os níveis abaixo, mas de uma importância maior no campo da democracia de base.
No que se reporta à agricultura e pecuária, importa que se dinamizem as boas práticas, já anteriormente existentes, por exemplo nos Agrupamentos de Defesa Sanitária (ADS), que têm vindo a perder relevância e mesmo espaço de actuação. Também não é aceitável que, por tudo e por nada, se tenha de recorrer, para avançar com qualquer projecto, a Coimbra ou outras instâncias distantes. Muito menos se aceita que, para vender duas cebolas, três cascas de alho, ou meia dúzia de ovos, se tenha de ir às Finanças fazer um qualquer registo de actividade.
Incompreensível é ainda o facto de, nalguns concelhos do distrito de Viseu, nesta esfera de actuação, haver mesmo dois ou três locais diferentes para cada tema a tratar.
Vendo o que se passa no nosso reino local, notam-se também algumas incongruências, que levam a que Lafões se divida, por exemplo, nos projectos LEADER entre duas entidades, a ADDLAP e a ADRIMAG.
Estávamos a falar de descentralização: venha ela, mas da boa. Tapar buracos ou fazer remendos não nos agrada, nem é esse o caminho que deve ser seguido.
Carlos Rodrigues, in “Notícias de Vouzela”, Jan19
terça-feira, 22 de janeiro de 2019
A génese e a morte da Linha do Vale do Vouga
Vale do Vouga
Muita luta para o seu nascimento para agora nada termos
Em finais do século XIX e início do seguinte, quando Portugal já era entrecortado por várias linhas férreas, depois da agitação em investimentos públicos que se sentiu com Fontes Pereira de Melo, esta nossa zona do Vouga, no seu sentido lato, começou a mexer em grande, sobretudo a partir da comunidade lafonense residente em Lisboa. Foi árdua e bem conseguida a luta encetada por esses nossos antepassados. Mas, antes do seu sucesso, outras pistas estiveram em cima da mesa através de várias hipóteses.
A certa altura, chegou a pensar-se numa linha que, partindo do Porto, iria até Viseu pelo Vale do Paiva, via S. Pedro do Sul. Um outra ideia inclinava-se para a ligação de Torredeita para Viseu, passando depois por Vouzela, Oliveira de Frades, Couto de Esteves, terminando em Espinho. Segundo estas discussões, os concelhos de Lafões não deixavam de unir esforços para levarem a água ao seu moinho, isto é, serem estas nossas terras beneficiadas por inteiro, de um lado a outro, tal como veio a ser conseguido. É que qualquer daquelas vias não satisfazia os interesses gerais desta região, como se pode deduzir pelos traçados apresentados.
Entretanto, logo em 1881, se pede a criação da Linha do Vale do Vouga, mas sem sucesso no plano imediato, porque só apenas em 1889 é que se vem a obter o respectivo alvará. Concluíram-se os trabalhos de campo em 1894 e um projecto veio a lume em 1895, numa concessão a durar 99 anos.
A anteceder a via ferroviária, falemos antes um pouco dos transportes aqui existentes. Para o Professor Amorim Girão, a grande pista, durante séculos, foi aquela que tinha marca do povo romano, ligando Águeda a Viseu, pois essa era a “única via de comunicação entre a Beira Central e a Beira Litoral, entre a serra e a marinha, sendo conhecida pela Estrada do Peixe”. Veio a ser ultrapassada pela ER 41( EN 16), a macadam, unindo Viseu a Vilar Formoso.
Falando nas suas viagens, alguns tempos antes, Ramalho Ortigão, como se regista em “Memórias do Vouga – Manuel Castro Pereira, Porto, 2000”, assim descrevia um dos percursos que percorreu. Com a sua veia literária, assim o descreveu: “ Quem vinha do Porto a Viseu, ou deixava a estrada real de Lisboa em Albergaria e atravessava a Serra das Talhadas ou cortava em Oliveira de Azeméis, pouco mais ou menos pelo Rego de Chave ... ( Vindo dos lados de Manhouce, narra).... “ Ao cair da tarde cheguei a S. Pedro do Sul. Que refrigério! Que grande amenidade! Que brandura! Um vale recolhido e abrigado pelo Monte Lafão, de uma temperatura tépida, refrigerada pela corrente do Vouga, que corre em várias quedas, ouvindo-se por toda a parte o marujar doce das águas jogadas nos açudes... “. Este era o velho tempo das diligências puxadas por cavalos.
Quando se quer dar o salto para os comboios que viessem servir estes nossos territórios, que aquela situação deixava muito a desejar, um grupo de nossos antepassados em Lisboa, vendo o que se ia cogitando a esse respeito, lança a Comissão Dinamizadora da Linha do Vale do Vouga (atitude que viria a desembocar no Grémio Lafonense), em que se integram António Pinto de Azevedo, Daniel Gonçalves de Almeida, António Rodrigues Portinha, Estêvão de Vasconcelos e Manuel Rodrigues de Abreu. Para sede deste movimento, Daniel Almeida cede o seu estabelecimento na Calçada do Garcia, números 44 a 46. A esta gente, junta-se ainda Alfredo Augusto Ferreira, José Bento Gonçalves de Almeida e Benjamim Rodrigues Costa.
A sua força e entusiasmo deram os devidos frutos. Em 1907, Companhia Francesa de Construção e Exploração inicia os trabalhos. Um ano depois, o Rei D. Carlos I inaugura o troço entre Espinho e Oliveira de Azeméis. Em 1911, está-se na Sernada do Vouga. Em 1913, liga-se Sernada a Vouzela e Bodiosa a Viseu. No ano de 1914, estabelece-se a linha Vouzela-Bodiosa, assim se fechando a respectiva malha.
Até 25 de Agosto de 1972, circularam os comboios a vapor. Posteriormente, até 1989, são as automotoras ALLAN que prestam o seu serviço. A 1 de Janeiro de 1990, a morte anunciada vem a consumar-se, irremediavelmente.
Para registo e memória futura, vejam-se as localidades que viam passar os comboios e os utilizavam: 1 - Espinho, Silvalde, Paramos, Sampaio/Oleiros, Paços de Brandão, Rio Meão, S. João de Ver, Sanfins, Feira, Escapães, Arrifana, S. João da Madeira, Couto de Cucujães, Santiado de Riba-Ul, Oliveira de Azeméis, Ul, Travanca, Pinheiro da Bemposta, Branca, Albergaria-a-Nova, Albergaria-a-Velha, Sernada; 2 - Sernada, Macinhata, Valongo, Aguieira, Mourisca, Águeda, Oronhe, Casal de Álvaro, Travassô, Eirol, S. João de Loure, Eixo, Azurva, Esgueira, Aveiro; 3 - Sernada, Carvoeiro, Foz do Rio Mau, Poço de Santiago, Paradela, Cedrim, Ribeiradio, Arcozelo das Maias, Quintela, Santa Cruz, Nespereira, Pinheiro de Lafões, Oliveira de Frades, S. Vicente de Lafões, Fojo, Vouzela, Termas, S. Pedro do Sul, Fataunços, Real, Moçâmedes, S. Miguel do Mato, Bodiosa, Travanca de Bodiosa, Mozelos, Campo, Abraveses e Viseu.
Hoje, algumas décadas passadas sobre a o assassínio do nosso Vale do Vouga, a velha linha, cortada aquém a além, tende a ser uma enorme ecopista. Não é a finalidade que mais nos agrada. Ainda mantemos o sonho de, um dia, voltarmos a ter os comboios, talvez aí até 2030. A esperança é última a morrer.
Carlos Rodrigues, in “Notícias de Lafões”, Jan19
Varzielas perto de perder a sua fábrica das Águas do Caramulo
Águas do Caramulo à beira da queda
Grupo detentor desta marca quer encerrar a fábrica
Em 20 de Dezembro de 1983, foi concedida a licença para a exploração industrial das Águas do Caramulo, em Varzielas, neste concelho de Oliveira de Frades. Dados os passos iniciais, esta marca não tardou a impôr-se pela mão de cada um de seus responsáveis, que se foram sucedendo ao longo dos tempos. Das entranhas daquela Serra saiu este precioso líquido que correu Portugal de lés-a-lés e se espalhou por esse mundo fora. Em Israel, por exemplo, chegou a ter nome próprio, com indicação, claro está, da sua origem. Esta foi uma história de sucesso e um meio de desenvolvimento para aquelas nossas terras. Porém, agora, anuncia-se o seu fim, ingloriamente.
Nos últimos dias, em comunicado, a Super Bock Group, liderada por Rui Lopes Ferreira, seu Presidente Executivo, que detém esta unidade industrial, veio anunciar o seu encerramento a partir do próximo mês de Fevereiro. Com esta lamentável medida, põe-se fim a uma marca de indiscutível valor, colocam-se na rua 26 trabalhadores, ou dá-se-lhes a hipótese de poderem ir para cascos de rolha, fechando-se uma empresa que se não tem cansado de investir no seu progresso e desenvolvimento. Agora, de um momento para outro, troca-se por Envendos e Castelo de Vide.
Varzielas, que fica situada em plena Serra do Caramulo, que dá nome à água, encontra-se abrangida pelos programas de valorização do interior e dos territórios de baixa densidade, muito fustigada, nos últimos anos, pelos incêndios. Infelizmente, nada destes programas e condições parece salvar esta jóia da coroa oliveirense. Indiferentes às especiais circunstâncias e necessidades destas povoações, os responsáveis da Unicer/Super Bock seguem apenas um duro raciocínio empresarial. Alegando que se trata de “ajustar o modelo industrial nas águas lisas” e que dispõem de um “Programa Social de Apoio” para as pessoas despedidas, com “condições acima do quadro legal”, a deslocalização destes serviços para outros locais é para eles fácil. Mas para nós é uma machadada sem quartel, que custa a aceitar.
Com certificação de qualidade, uma delas válida para o período entre 2013 a 2016, em meados da primeira década deste século, estas Águas do Caramulo – Sotarvil apresentavam um nível de notoriedade total de 99% e um conhecimento espontâneo de 51%, associando-se a sua imagem à “originária fonte segura”. Não crendo que estas condições tenham desaparecido, antes pelo contrário, até porque houve investimentos de vulto ano após ano, estranha-se que, nestes momentos, se pense em desbaratar este valioso património, lesando a região e suas legítimas aspirações.
Voltando aos anos oitenta, entre 1 de Janeiro e 23 de Outubro de 1987, atingiu-se um movimento de um milhão de caixas e, em 1989, chegou-se aos dois milhões. Alega o grupo empresarial que, na última década, perdeu cerca de 50% do volume de facturação, tendo desaparecido alguns mercados como o de Angola. Especulando, será que, no meio de tanta marca, tudo foi feito em favor destas nossas Águas? Duvidamos.
Ao ouvirmos o Presidente da União de Freguesias, Jorge Bandeira, disse-nos ter sido informado pelos engenheiros da fábrica, à última hora, e que apresentaram a decisão como sendo definitiva, pelo que o “remédio é aceitar-se este facto consumado”. Acrescentando que sua Junta pouco pode fazer, não vai, de maneira nenhuma, cruzar os braços, pelo que vai reunir com o Presidente da Câmara, Paulo Ferreira, a fim de acertarem agulhas quanto aos próximos passos a dar.
Por sua vez, Paulo Ferreira, alegou que foi apanhado de surpresa na sexta-feira, dia 11. De imediato, “contactei os seus responsáveis, que se mostraram inamovíveis”. Contra a tese da Super Bock que diz ter perdido 50% nos últimos dez anos, como referimos, o Presidente da Câmara de Oliveira de Frades entende que a “fábrica até andava bem”. Agora, vai pôr os pés a caminho, na companhia de seu colega de Tondela, para, em reunião com a administração, tentarem travar esta intenção.
Também o PCP nos fez chegar um comunicado em que fala na “ desvalorização e falta de promoção da marca”, sendo que isto “é para deitar fora insensível à grande importância económica e social da laboração desta unidade para aquele território”. Nesta medida, este Partido vai encetar uma série de contactos no sentido de vir a defender a fábrica e o interesse de seus trabalhadores.
Em conclusão, a notícia do encerramento das Àguas do Caramulo é mais um duro golpe para a nossa região. Importa agora, por todos os meios, tentar travar esta decisão ou, no mínimo, minimizar os seus efeitos.
Carlos Rodrigues, in “Notícias de Vouzela”, 17 Jan19
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