sexta-feira, 26 de abril de 2019
Egas Moniz e a sua ligação a Alcofra
EcosAbril2019
Alcofra não se esquece deste seu herói
Egas Moniz, 70 anos depois do Prémio Nobel
Médico e cientista, Egas Moniz, de seu nome completo António Caetano de Abreu Freire, que, em 1949, recebeu o Prémio Nobel da Medicina ex-aequo, tem profundas e maternais ligações a esta nossa região de Lafões. Educado por seu tio e padrinho, o Reverendo Caetano de Pina Rezende Abreu de Sá Freire, entendeu este juntar ao afilhado “Egas Moniz”, para vincar uma desejada costela mais nobre. Tendo nascido a 29 de Novembro de 1874, faleceu no dia 13 de Dezembro de 1955.
Sua mãe, Maria do Rosário de Almeida Sousa Abreu, tinha raízes em Alcofra, na Quinta do Carril, sendo filha de Rafael de Almeida e Sousa, um lutador notável pela causa liberal no século XIX. Num ano em que se assinala o 70º aniversário de tão alta distinção, por esta zona preparam-se comemorações à altura da dignidade desse acontecimento.
Figura multifacetada, Egas Moniz, dividiu a sua vida pela política, pela medicina e investigação, depois de ter andado de um lado para o outro em termos de formação académica. Entalado entre dois pólos sociais e políticos antagónicos, da parte da família de seu pai havia uma clara inclinação para posições absolutistas, enquanto que os ares de Alcofra levavam para direcções totalmente opostas. Consta que seu avô materno nunca se deu por rendido à ideologia vivida na mansão do Marinheiro, sempre que ali se encontrava o avô paterno. A certa altura, seu avô Rafael chegou a ter este desabafo: “Não pertenço a esta Casa, não respirei este ar de planície, menos agreste e menos excitante do que o da minha Alcofra”. Assim o confessou o próprio Egas Moniz na sua grande obra literária, páginas 383/384.
Se Alcofra lhe era terra querida, em Avanca passou a sua infância. Mas, desde cedo, foi viver para casa de seu tio, na altura Abade de Pardilhó. Aqui frequentou a escola do Padre José Ramos, tal como relata no seu livro “ A nossa casa”, do ano de 1950.
Tinha, porém, na citada Casa do Marinheiro, hoje Museu, o local preferido para suas brincadeiras e momentos de férias. Entretanto, passou pelo Lobão, por Avelar, pela Torreira em banhos. Estamos convictos que a Alcofra, na sua infância e juventude, não veio muitas vezes. Caso contrário, tê-lo-ia dito no seu livro. No entanto, esta terra nunca por si foi esquecida e a ela voltou já mais maduro, como, por exemplo, em 1953, ano em que ali foi recebido triunfalmente, acabando por ser designado seu “cidadão honorário”. Já debilitado de saúde, dizem que, quando ali ia ou passava, pedia que lhe trouxessem um copo de água da sua Quinta do Carril. Entretanto a sua primeira vinda data do ano de 1939...
Nestas suas andanças, a certa altura, vê-se confrontado com vários problemas financeiros no seu agregado familiar, que levaram à “hipoteca” da casa de Avanca e outros haveres, que o Tio veio a comprar e assim continuou nas suas mãos.
Foi tão forte esse abalo que seu Pai, alegando não poder pagar os estudos de seus filhos, decide mesmo emigrar para Moçambique, instalando-se na Beira. Para agravar todo este quadro, a morte apanhou-o nessa terra distante algum tempo depois. Por ironia do destino, também Miguel, um dia, segue o mesmo destino e ali acaba por falecer, assim se juntando, no Além, a seu Pai.
Na história de Egas Moniz em termos de carreira académica, citam-se os tremores antes do exame na Escola Conde de Ferreira, de Estarreja, onde concluiu a antiga quarta classe. Veio depois o Colégio de S. Fiel, no distrito de Castelo Branco (onde ficou com o número 66), da responsabilidade dos Jesuítas que”sabem ensinar”. E foi esta uma das razões que ali o levou. Outra, tinha a ver com o desejo de o verem seguir funções eclesiásticas.
A certa altura, juntou-se a seu irmão Miguel, em Viseu, para prosseguir os estudos, dizem que para evitar gastos duplos, quando, como dissemos, as agruras económicas bateram à porta de sua família. Foi nesta nossa cidade que soube da morte de seu Pai, pelo que este já não assistiu à sua ida para Coimbra, nem à sua fulgurante carreira académica e política.
A vida agitada de Egas Moniz
Antes de se instalar em Coimbra, onde concluiu o seu curso de Medicina, tendo ainda sonhado com uma carreira militar (talvez recordando seu avô paterno), passou por várias peripécias, andando, como vimos, de um lado para o outro, com o tio-padrinho a ter sempre uma mão protectora. Sendo uma espécie de seu banco e ainda de seu irmão Miguel, muitas das decisões que Egas Moniz tomou na sua vida passaram pela opinião do Reverendo Caetano.
Ao partir para a cidade dos estudantes no ano de 1891, este jovem, se leva a ideia de estudar, jamais deixou de se ligar às farras próprias desta academia, vivendo mesmo numa República com todo o ambiente que tal implica. Ele assim se confessa: “ Às quartas e sábados não se pegava num livro. Eram vésperas de feriado. Ia-se à Baixa ao Café do Marques Pinto, onde as arruaças aos caloiros eram insuportáveis, mas todos gostavam de ir... “. Para evitar males maiores, os “padrinhos” lá estavam para os ajudar sempre que a trupe os topava na rua.
Entra aqui uma faceta de Egas Moniz que nem sempre é conhecida: o seu amor pela canção coimbrã, sendo conhecido do Hilário, o grande estudante do fado e natural de Viseu, que, aliás, haveria de morrer muito cedo. No curriculum do nosso conterrâneo, inscreve-se ainda que foi Presidente da Tuna e com este Grupo viajou muito por Portugal e pela Galiza, em espectáculos diversos.
Concluído o curso (1899), sendo que, a meio, ainda pensou vir a ser Professor liceal, que só não avançou pelo facto de a sua família o ter disso desviado, iniciou-se uma notável carreira de cientista e de político. Tendo leccionado na sua Faculdade de Medicina, a certa altura saltou para Lisboa onde afirmou todo o seu valor. Em 1911, assume a Cátedra de Neurologia, já na capital, na recém Faculdade de Medicina.
Foi a invenção de um procedimento neurocirúrgico, a leucotomia pré-frontal, que o haveria de guindar ao estrelato como médico e investigador. Com várias nomeações para Prémio Nobel, desde 1928 em diante, atinge esse objectivo no ano de 1949. Nesta área da medicina e da cirurgia, passou ainda por Paris e Bordéus.
A propósito do seu Prémio Nobel, logo nesse ano, a Assembleia Nacional, pela voz dos deputados Lima Faleiro e Sousa da Câmara, presta-lhe uma grande homenagem. Em outros palcos, a sua figura recebeu as mais altas distinções, em condecorações, toponímia, centros de investigação em sua memória, tendo sido mesmo patrono de um Hospital com seu nome.
A par destes feitos médicos, teve ainda uma forte passagem pela política, tendo sido fundador do Partido Republicano Centrista, Embaixador de Portugal em Madrid, Ministro dos Negócios Estrangeiros, Presidente da Delegação Portuguesa na Conferência da Paz, após a 1ª GG, e um dos apoiantes de Sidónio Pais.
Entretanto, em 1901, casara com Elvira de Macedo Dias, em Canas de Sabugosa, mas não chegaram a ter filhos, alegando Egas Moniz que, consigo, se acabara a sua linha familiar. Sofrendo a dureza da “gota”, suas mãos vieram a ficar de tal maneira deformadas que o obrigou a deixar de operar.
A sua vida descreveu-a no referido livro “ A nossa casa” e mostra-se no Museu em Avanca, com muitas alusões à sua obra e ao seu amor pela arte ali exposta.
Com imensa bibliografia onde se fala de si, nem toda ela é abonatória. O seu grande feito, a lobotomia pré-frontal, tem sido bastante criticado em vários círculos da ciência médica e cirúrgica. Seja como for, no seu tempo, a sua inovação foi de um valor incalculável, tal como se justifica com o Prémio Nobel que lhe foi atribuído.
Por tudo isto, Alcofra está a mobilizar-se para assinalar os 70 anos deste feito, numa série de iniciativas que têm, inclusivamente, o Alto Patrocínio do Presidente da República, Professor Marcelo Rebelo de Sousa.
Carlos Rodrigues
Baldios em Campia
Campia com uma extensa área
Os baldios com força nas nossas aldeias
O regime de exploração de baldios, ou terrenos maninhos, tem séculos de história e muita controvérsia. Sem se saber bem quem os deve explorar, reconhecemos que há uma corrente de opinião que defende, com todas as suas forças, a gestão por cada lugar(es) que os detêm. Nesta linha, se inserem o saudoso Jaime Gralheiro e Manuel Rodrigues, dois ilustres lafonenses que a este tema têm dedicado uma grande atenção. Se JG, de S. Pedro do Sul, já se não encontra entre nós, a sua obra póstuma o atesta. Quanto a MR, de Fornelo/Arcozelo das Maias/Oliveira de Frades, continua com o vigor de sempre na luta por estas e outras causas. O mesmo se pode dizer de João Carlos Gralheiro, filho de peixe, que a este tema também vem consagrando parte de seu tempo e devoção.
Se bem que baldios e maninhos se confundam, em conceito, muitas vezes, começaram, porém, a balizar-se e a individualizar-se estas realidades, sobretudo a partir do século XVIII. A partir dessa época, consagraram-se as respectivas diferenças. Em linhas gerais, por baldio passaram a entender-se os terrenos no uso e posse das comunidades que os possuem, uma ou várias povoações, reservando-se para os maninhos os espaços tidos como incultos, públicos ou mesmo privados.
No meio de imensas e duras controvérsias, ora a prevalecer uma tese, ora outra, é certo e sabido que estas questões dos baldios têm feito correr muita tinta. Em Portugal, após 1974, os debates e as polémicas têm sido mais que muitas. Com a entrada em cena das Assembleias de Compartes e respectivos Conselhos Directivos, muitas povoações assumiram o seu controle. Mas casos há em que as Juntas de Freguesia, até por omissão, ou falta daquelas estruturas associativas, os mantêm na sua posse.
Um caso curioso que despertou a nossa atenção, ontem e hoje, está relacionado com a freguesia de Campia, do concelho de Vouzela, onde os baldios ocupam uma boa parte da sua área territorial, gerando, mais em tempos idos que agora, boas maquias para as respectivas entidades gestoras. Se, na actualidade, predominam os Conselhos Direectivos, houve uma época, não muito distante, que estavam sob a tutela da Junta de Freguesia, daí tirando imenso proveito. Anos houve em que o seu orçamento chegou a ser maior que o da própria Câmara Municipal, isto antes do 25 de Abril e das novas leis de financiamento das autarquias locais.
Na pesquisa que temos vindo a fazer, deparámo-nos com uma “Escritura de divisão e demarcação dos baldios da freguesia de Campia entre esta e a Câmara de Vouzela em 30 de Junho de 1921”. Vê-se, neste documento, que uma outra entidade, esta à escala municipal, também chamou a si a titularidade destes espaços. Para pôr preto no branco, sentaram-se à mesa, nesse dia, o primeiro outorgante, Custódio Ribeiro Pereira d’ Amorim Girão, na qualidade de presidente da Comissão Executiva da CM deste concelho, e Agostinho Lopes Santos, como presidente da Junta de Paróquia campiense.
Para a gestão municipal, passaram a ficar o baldio dos limites da povoação de Campia, com as respectivas confrontações bem definidas, regra que se aplicou a esta e todas as parcelas a citar: um trato de terreno nos mesmos limites; um outro nas Covas da Raposa; mais um na povoação da Igreja; uma parcela na Lomba das Queirozes; nos Passadouros; na Lousa; na Fonte Silbela; no Cabeço Grande; na Adside; na Lomba da Cruz; no Malhadouro; em Albitelhe; em Selores; em Cercosa; na Lomba da Rocha; na Lomba da Corga da Rocha; no Porto Souto; em Fiais; na Gândara; na Seixa; em Cambarinho; junto ao Rio Alfusqueiro; em Rebordinho; na Lomba do Açor; na Lomba Gorda; do Ramalhal à Quinta de José Bernarda; no Castro.
Para não deixar dúvidas, escreveu-se: “ Todos estes tratos de terrenos mencionados e descritos ficam pertencendo à Câmara Municipal deste concelho e os restantes baldios da referida freguesia de Campia não mencionados nesta escritura ficam pertencendo à Junta de Paróquia... “. Assim se registou em 1921, perante as testemunhas Virgílio da Silva Giestas e José Custódio Tavares Júnior e do notário e chefe de secretaria José Ribeiro de Sousa.
Como forma de melhor conhecermos estas problemáticas, aqui se deixa uma síntese deste importante documento, com duas notas: a propriedade dos baldios também em mãos municipais e o facto de as JF se designarem, ainda nos últimos anos da primeira República, Juntas de Paróquia.
Carlos Rodrigues, in “Notícias de Lafões”, Abril 2019
Números das Termas de S. Pedro do Sul
Viagem pelos números nas Termas
Falar da idade das Termas de S. Pedro do Sul é um exercício complicado, porque teríamos de recuar muitos, muitos anos, na ordem de milénios. No entanto, em época, não temos quaisquer dificuldades em as situar no período romano, tempos em que atingiram um notável fulgor. Dessa constatação é testemunho o Balneário agora em fase adiantada de reconstrução e recuperação, num empreendimento de vistas largas e que só pecou por tardio. A «villa» do Banho também, em toponímia, nos oferece uma boa prova da sua continuidade até aos tempos de D. Afonso Henriques, a iniciar a primiera dinastia, e da Rainha D. Amélia quase a finalizá-la.
Não é, propriamente, hoje de história que vamos falar. O nosso foco vai mais para as estatísticas e para a evolução da sua frequência em aquistas de termalismo clássico e de bem-estar, este a ser uma conquista bem mais dos nossos dias. Sendo o turismo de uma enorme importância na nossa economia, e, naquele, as estâncias termais têm uma certa palavra a dizer, em média nacional cada frequentador destes locais deixa neles, de acordo com Joaquim Antunes ( Turismo de saúde e bem estar, Escola Superior de Tecnologia/Instituto Politécnico de Viseu), 236, 1 euros, em valores de 2007. Indo mais ao pormenor, temos: Moledo – 522 euros; Felgueira – 380; Curia – 324; Monchique – 320; Luso – 305 (... ); TERMAS de S. PEDRO do SUL – 296; mais abaixo, Fadagosa de Nisa – 144; Eirigo – 143; Carvalhal (Castro Daire) – 137; Unhais da Serra – 101; Vale da Mó – 56.
Numa outra esfera de análise, em Portugal, 78.9% de quem procura estes sítios, para bem-estar, frequenta os hotéis, cerca de 9 dias, enquanto os aquistas em tratamento ficam na ordem dos 15 dias.
Seguindo a mesma fonte, é esta a dimensão dos utentes das várias estância termais nacionais, desde 1998, com 87054 pessoas; 1999 – 83548; 2000 – 85226; 2001 – 91186; 2002 – 95586; 2003 – 91757; 2004 – 89827; 2005 – 85841; 2006 – 80508 e 2007 – 80018. Ao verificar-se uma tendência descrescente, sobretudo nestes dois últimos anos, esta mesma trajectória acentua-se em anos posteriores, tal como podemos ver mais adiante, por exemplo, em concreto no que às nossas Termas se refere.
Antes, porém, anotemos alguns tópicos que nos ajudam, talvez, a compreender estas quedas. Sendo este sector, em tempos, apoiado pelo Estado em comparticipações aos tratamentos, mormente desde 1976 a 1982, era natural que essas ajudas contribuíssem para maiores frequências. Acontece que, neste último ano, apenas resistiu a ADSE aos cortes verificados e até este sistema veio também a desaparecer já nos últimos anos deste século XXI. Finalmente, neste mês de Abril de 2019, acabou por ser reposta essa prática até 90 euros por utente para um período mínimo de 12 dias.
Se as quebras se não podem explicar tão linearmente, estas achegas são parte dos suportes argumentativos que se podem encontrar. Ainda assim, temos 41 locais com termas, sendo 18 no norte, 19 no centro e 4 mais a sul, incluindo a Grande Lisboa, como nos relata Ália Joana Ferreira Grácio, in “ Turismo termal em S. Pedro do Sul, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 2016”. Indicando que a sua atracção advém, num prisma global, para além dos tratamentos terapêuticos, das diversões, vida social, conforto hoteleiro, clubes e casinos e ainda das belezas naturais e dos equipamentos, constituem-se estes pontos em pólos de desenvolvimento local e regional.
Falando das nossas Termas, eis a sua relevância hoteleira, a avaliar por estes números: ano de 2008 – 112 568 dormidas com 20707 hóspedes; 2009 – 124496/20663; 2010 – 117899/ 20414; 2011 – 135448/20832; 2012 – 123475/20206; 2013 – 120010/20323 e 2014 – 136630/20642.
Para testemunharmos a referida diminuição do número de frequentadores nestas mesmas Termas, repare-se nestas valores: ano de 2004 – 25237 procuras de termalismo clássico; 2005 – 23375; 2006 – 19281; 2007 – 18135; 2008 – 17017; 2009 – 16650; 2010 – 19182; 2011 – 16345; 2012 – 13117 e 2013 – 12395.
Entretanto, no Relatório de Gestão e Contas referente ao ano de 2014, apresentado pela Termalistur ( que foi constituída em 2004), alude-se a estes aquistas: ano de 2011 – 19078, com uma facturação média individual de 251, 88 euros, 2012 – 16567/256.26; 2013 – 14710/260.73; 2014 – 15541/243.66. As diferenças talvez se possam deduzir desta nossa leitura: acima, tínhamos em cima da mesa o “termalismo clássico” e aqui um nível mais geral.
Como quer que seja, há um outro factor que nos faz pensar: a diminuição nos gastos por pessoa, como se nota na comparação entre o ano de 2014 e os anteriores.
Dito isto tudo e muita mais matéria por aí se encontra onde vemos estampada a vida das Termas de S. Pedro do Sul, a quota de mercado nacional desta estância (Joaquim Antunes) situa-se nos 22.6% e, em número de inscrições, em 28.4%. Com as novas medidas que aí vêm, o futuro mostra um ar ainda mais risonho, mas não se pode dormir à sombra dos louros conquistados, por muito bons que eles sejam – e são-no, de certeza.
Carlos Rodrigues, in “Notícias de Lafões”, 1º trimestre, 2019
terça-feira, 9 de abril de 2019
S. Miguel do Mato com uma longa história
S. Miguel do Mato, dos imperadores de Leão a Angola
Hoje, vamos falar de uma terra de que recordamos um dos pinheiros mais exóticos do mundo, aquele que escolheu para sua morada a torre de um velha Igreja, a de S. Miguel do Mato, visto da antiga linha do caminho de ferro do Vale do Vouga, nas muitas viagens feitas entre Pinheiro de Lafões e Viseu e vice-versa, em anos que se vão perdendo na nossa memória. Impávido e sereno, resistente e teimoso, por lá continuou anos a fio, uma boa cepa, assim o cremos.
Com esta evocação arbórea, aproveitamos esta boa oportunidade para falarmos de uma das freguesias do concelho de Vouzela, que muito o tem engrandecido, S. Miguel do Mato. Prenhe de história, nela viveu, por exemplo, um dos mais ilustres nobres da Idade Medieval peninsular, D. Ramiro, Rei (?) de Viseu, Imperador de Leão, que residiu na Quinta do Paço nos primeiros anos de 900, ao mesmo tempo que vagueava pela citada nossa capital de distrito e pela Galiza, onde haveria de afirmar sua crescente importância. Séculos depois, na história deste território, haveria de nascer D. Isabel Almeida Ferreira (cerca de 1659), que viria a estar na origem de uma das mais notáveis casas e famílias da nossa região – os Malafaias de Serrazes e Santa Cruz da Trapa. Consta que os célebres Pastéis de Vouzela tiveram a sua doce origem em religiosas de Moçâmedes, que passaram pelos Conventos no Porto, antes de virem fixar-se na vila que tem a fama e o muito proveito de ser o berço desses mesmos Pastéis.
Mas esta terra não se ficou por aqui. No século XVIII, um nosso conterrâneo, José de Almeida e Vasconcelos do Soveral de Carvalho da Maia Soares de Albergaria, um nome grande de Portugal, de Angola e do Brasil, o Barão de Moçâmedes e Visconde da Lapa, Coronel de Cavalaria, Governador de Goiás/Brasil e Capitão-General de Angola, fez surgir a cidade de MOÇÂMEDES, lá em baixo, na África, hoje designada por NAMIBE, o que é uma enorme carta de recomendação para estas povoações de S. Miguel do Mato. Senhor de alma enorme, com saudades de sua aldeia, replicou seu nome nas paisagens africanas para que nunca mais viesse a ser esquecida. Boa ideia, melhor concretização!
- Mas o passado de S. Miguel do Mato é muito mais antigo
Se estes são dados, por assim dizer, quase contemporâneos, S. Miguel do Mato vai buscar os seus pergaminhos a outros tempos muito anteriores a estes. Por aqui andaram povos ancestrais com milénios de vivências. Um deles, os Romanos aqui estamparam a sua força empreendedora, vincada nos vestígios de duas estradas.
De acordo com “Vias romanas em Portugal – Itinerários”, esta freguesia era bafejada por duas vias, uma do Porto a Viseu, tocando estes territórios na sua passagem por Lufinha, Quinta da Comenda a caminho de Gumiei.
A outra, vinda do Cabeço do Vouga/Marnel também para Viseu, saía de Vouzela por Fataunços, Figueiredo das Donas, Quinta do Paço, Carvalhal do Estanho, Caria, Bodiosa, havendo, a certa altura, uma variante de Queirã a Viseu, via Igarei e Couto de Cima.
Com base numa série de fontes, incluindo o Rancho Folclórico de Vilar que, para além do bom trabalho de pesquisa etnográfica, cultural e musical, ainda nos oferece boas informações de História, sabe-se que D. Afonso Henriques, em 1133, doara a “villa” de Moçâmedes a Fernão Peres. Ao entrarmos no período agitado das guerras com Castela, em 1383/1385, esta terra surge ao lado dos castelhanos, através do Senhor de Moçâmedes e de Lafões, Dom Henrique Manuel de Vilhena. Despojado dos poderes, segue-se-lhe Martim Vasques da Cunha e Gonçalo Pires de Almeida. Com o Reis D. Duarte e D. Afonso V, aqui se notabilizaram João de Almeida, Luís de Almeida, Fernão de Almeida, Duarte de Almeida, o Decepado de Toro.
Actualmente, com 924 pessoas (2011), já foram bem mais, em 1950 – 1497; 1960 – 1779; 1970 – 1315; 1981 – 1331; 1991 – 1251; 2001 – 1128, descendo a fasquia do milhar, como vimos, precisamente, em 2011 – 924, números que muito nos preocupam.
Para se compreender este fenómeno, hoje há apenas um Centro Escolar para toda a freguesia, por sinal, bem moderno e atraente, com trinta e sete crianças, desde o Jardim de Infância ao 4º ano de escolaridade. Ainda há anos, em 2003/2004, tínhamos as escolas de Caria, também com JI, Lourosa e Moçâmedes. Recuando um pouco mais, descobriremos as Telescolas de Moçâmedes e Caria, o que há não passa de uma boa memória.
Religiosamente, nestas terras que já pertenceram aos concelhos de Lafões e de S. Pedro do Sul e agora de Vouzela, podemos assistir às Festas de S. Sebastião, Nossa Senhora das Dores, Corpo de Deus, Espírito Santo, S. Miguel Arcanjo (Padroeiro), Santo António, nas Burgetas, Senhor da Agonia, Ermida da Frádega, apinhada de lendas, Nossa Senhora do Milagres, Caria, Sagrado Coração de Maria, Vilar.
Com uma Igreja nova, ainda meio recente, a antiga por lá se mantém, dizem-nos que com algumas obras de beneficiação e conservação, o que é muito bom sinal.
- Sinais de modernidade
Numa breve panorâmica, são evidentes algumas boas marcas de renovação de espaços, como o da velha Estação, a albergar a Sede de Freguesia, o novo Centro Escolar, o Centro Social, nas antigas instalações da Casa do Povo, sendo que as antigas salas da Escola Primária são ocupadas pela Banda e pela Catequese. Destaca-se ainda a Banda, nascida em 1875, e o ACR/Rancho Folclórico de Vilar, com páginas brilhantes na área em que desenvolve a sua actividade, a Associação Social Cultural e Desportiva, a Associação dos Amigos do Senhor da Agonia, a Fundação Padre António de Almeida Oliveira e o Grupo Desportivo.
Em matéria de dinamismo empresarial, se outrora as Minas de Volfrâmio e Estanho marcaram estas paisagens, hoje detectam-se boas experiências noutros sectores, alguns deles de ponta, como aqueles em que se fala de uma nova agricultura, sem esquecer outros planos.
Importando atrair a juventude, esse é o desafio que nos deve mobilizar a todos. Neste âmbito, por feliz acaso, tivemos o grato prazer de, no passado dia 29 de Março, assistirmos a um sinal de vitalidade de seus jovens, quando o Dr. Ricardo Lopes, um natural destas povoações, fez a apresentação de seu livro “ Uma marioneta na cruz”.
E com esta mensagem de esperança para o futuro, nos ficamos por aqui, sendo que S. Miguel do Mato tem muito por onde andar e um vasto caminho a percorrer. Boa viagem!
Carlos Rodrigues, in “Notícias de Vouzela”, Abril, 2015
sexta-feira, 29 de março de 2019
Muita arte em Oliveira de Frades
Criativarte inundou o centro da vila
Pelo segundo ano consecutivo a vila de Oliveira de Frades encheu-se de cor e magia cultural e social, ao trazer para a rua, pelas mãos do Criativarte, a música, a pintura, o cinema, os artesãos da pedra e da madeira, a pesca, os grupos musiciais, a poesia, as oficinas de culinária, as exposições, a dança e os palhaços. Durante a tarde do passado domingo, o difícil foi fazer escolhas, tanto era o encanto que vinha de todo o lado, desde a zona do Museu à Câmara Municipal.
Numa espécie de correria, lá se foi conseguindo apanhar um bocadinho de cada uma das manifestações culturais que por ali iam acontecendo, acompanhando o bom tempo que se fez sentir. Por magia, tivemos mesmo um encontro com uma pescaria feita no lago do Jardim Dr. Sá Carneiro, que recebeu umas dezenas de trutas apanhadas pelos mestres da Associação de Caça e Pesca de Oliveira de Frades.
A seu lado, numa louvável, iniciativa, descobrimos legumes e chouriças, em produção absolutamente caseira, uma boa forma de dinamizar a economia local. Vimos ainda frutas frescas, cebolas, bebidas diversas, pintarolas, tendas de roupa e outros artigos, numa vasta mostra do que por aqui se faz ou pode fazer.
Com MimArte, descobrimos a criatividade dos nossos alunos, com a Binaural, percorremos um Arquivo Digital, topando ainda um carpinteiro em plenas funções, Nuno Nascimento, e um artista polifacetado, ali em modo de pintura, Carlos Almeida, com quem trocámos algumas palavras, assim como com João Marques, bastante empoeirado, por ali estar a esculpir a pedra ao vivo.
Numa série de acções inclusivas, a ASSOL também ali marcou a sua presença, desde a abertura à confecção de biscoitos.
Com a entrada na Primavera desta forma cultural, Oliveira de Frades, em mais um Criativarte, mostrou que tem pano para mangas, este e o que há-de vir noutras alturas, como se espera e se deseja.
Carlos Rodrigues, in “Notícias de Vouzela”, 28mar19
Novos passes, mais discriminações negativas para o Interior
Continuam as duras assimetrias
Transportes públicos com novos passes sociais
A partir de 1 de Abril, o território português vai viver uma nova fase na política de transportes com a entrada em cena de passes sociais muito mais baixos nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto. Tal como vem sendo hábito em políticas públicas, a parte restante dos nossos concelhos vai ter de esperar mais uns dia, falando-se em 1 de Maio, em decisões que vão sair das respectivas Comunidades Intermunicipais.
Para aquelas duas áreas vão 85% dos fundos afectos a este programa, na ordem dos 116 milhões de euros, cabendo à grande maioria dos nossos outros espaços a modesta verba de 12 milhões de euros.
Pretendendo-se, como se refere na Portaria 1234-A/2019, de 2 de Abril, atingir a neutralidade carbónica e alterar padrões de mobilidade, entre outros objectivos, a parte de leão vai direitinha aos grandes centros e as migalhas espalham-se pela maior parte da área do nosso país. Se já vimos alusões a uma desproporção de 11 para 1, com os passes de Lisboa e do Porto a andarem à volta de 30 e 40 euros por mês, o Presidente da CIM (Comunidade Intermunicipal Viseu Dão Lafões), Rogério Abrantes, diz-nos que, pelas suas contas, rondam-se as nove vezes mais para aquelas urbes e arredores.
Com 18 municípios na AM de Lisboa e doze zonas na do Porto a serem abrangidas por este programa, cabe às outras CIM em questão tratar dos territórios que lhes estão afectos e às Câmaras Municipais assumirem os compromissos com os seus moradores, mediante verbas a transferir no orçamento de estado.
A propósito destas matérias, o Presidente da CIM Viseu, Dão Lafões, Rogério Abrantes, confessou-nos que esta entidade vai ter também “ passes sociais, andando à volta de 25% de descontos nos bilhetes comprados e 20% nos passes em questão, o que se aplica em 13 dos 14 municípios e em parte de Viseu, que tem projectos à parte”.
Com a candidatura já aprovada em sede de fundos ambientais, acrescentou que “ é nossa intenção ter tudo isto no terreno ainda antes de 1 de Maio, se tudo correr bem”. Para esse efeito, decorrem negociações com as empresas transportadoras, que parecem levar a bom porto.
Colocado perante a situação de virmos a receber tão baixas capitações, Rogério Abrantes disse que “isto me dói um bocadão, mas o Interior sempre assim tem sido tratado...” Entretanto, garantiu, a CIM não se vai calar, nem deixar de lutar pelos seus interesses e direitos.
Quanto a transportes públicos, para já, são estes os quadros traçados. A ver vamos no que isto vai dar...
Carlos Rodrigues, in “Notícias de Vouzela”, 28mar19
Nasceu em S. Pedro do Sul o maior cozinheiro do século XX
Um cozinheiro que marcou o século XX
João Ribeiro, de Sul, singrou na alta gastronomia
Há quem assegure que João Ribeiro, nascido em Adopisco, freguesia de Sul, no ano de 1905, foi provavelmente o melhor cozinheiro português do século XX. Assim o afirmou José Quitério, acrescentando Maria de Lourdes Modesto que foi o único a poder ser considerado Mestre. No mesmo sentido, um recente programa televisivo afinou pelo mesmo diapasão.
Se estas notas são, em si, credoras da nossa admiração, o concelho de S. Pedro do Sul e a região de Lafões não podem deixar de incluir nas suas referências, em termos de personalidades, esta figura de âmbito nacional. É isso que aqui estamos a fazer: reavivar a sua memória no jornal da sua terra, o “Notícias de Lafões”.
A seu respeito, o blogue “panelasemdepressão”, com base em “ O livro do Mestre João Ribeiro”, fala nas contingências que o levaram a Lisboa, a cidade-esponja que faz despovoar o resto do país, ontem e hoje. Com 13 anos, “parte, empurrado pela casa pobre dos pais para a capital em busca de mais pão. Depois de curta passagem por casa de cruel parentela, foge e procura trabalho onde pode. Carregador de carvão, empregado de tanoaria, trabalhador numa quinta e empregado em armazém de vinhos, JR começou a odisseia em 1918, que, na década seguinte, torna rumo consistente, numa aventura culinária que nunca mais pára”.
Cheio de sonhos e com uma enorme vontade em trilhar outros caminhos na sua vida, à sua frente abriu-se um autêntico auto-estrada, que ele soube construir a usar. Foi na cozinha que encontrou as novas vias. Humilde e voluntarioso, absorveu todas as lições que foi recebendo, incluindo as influências francesas que encontrou durante o seu percurso de aprendizagem. Mas nunca esqueceu as iguarias portuguesas e suas delícias. Ao bacalhau, dedicou mesmo uma especial atenção.
Deste modo, reza a sua biografia, no ano de 1921, entra para o Suíço Atlântico Hotel, onde pontifica a gastronomia francesa, prosseguindo a sua carreira no Tavares Rico (lidando de perto com o Chefe Clement Parceau), no Palace de Vidago, no Universal de Pedras Salgadas, mas seria o Aviz Hotel, onde entrou em 1934, a guindá-lo para a a alta roda desta arte. De suas mãos, saiu ainda o Restaurante Aviz, também de enorme nomeada, onde trabalhou até 1975. Quanto a esta casa, Alexandra Prado Coelho escreveu, um dia, no “Público”, que “ foi o melhor restaurante de Lisboa. À (sua) frente estava o mestre João Ribeiro e, por detrás dele, a família Rugeroni...”. Uma curiosidade colhemo-la nesta fonte e é esta: os ovos, ia buscá-los ao Palácio de S. Bento, onde a governanta de Salazar tratava as respectivas galinhas...
Da sua lavra é ainda, na tal luta pela valorização das nossas ementas, o Bacalhau Lisbonense, um sucedâneo do “à Gomes de Sá”, com sucesso reconhecido. Na vastidão do seu legado, como alega José Quitério, um dos autores do livro atrás citado, constam 252 receitas manuscritas em dois cadernos, “Receitas práticas aprovadas” e “ Livro de receitas”. São imortais os seus seguintes pitéus: pasta de santola, o referido bacalhau, os crepes flameados e a perdiz à Convento de Alcântara e da Guarda, o salmão, o espadarte, o pato fumado, entre outros.
Até nos molhos, este nosso conterrâneo escreveu boas páginas, como refere o “tugagourmet”, quando declara que”... Chegados ao século XX, temos por referência António Maria de Oliveira e João Ribeiro, incontornável chefe de cozinha do Hotel Aviz durante 25 anos... “
Devido à sua real categoria de cozinheiro de eleição, Salazar, para os grandes momentos e convívios da história do Estado Novo, não dispensava os serviços de João Ribeiro. São desses tempos algumas peripécias por ele narradas, no sentido de remediar situações de aflição, como aquela em que os perús que tinha para uma refeição no Alentejo (pensamos que em homenagem a Franco), em tempo de calor, ganharam um cheirinho, o que se resolveu com um “banho” de perfume. Isto mesmo ouvimos nós, em entrevista que lhe fizemos na sua casa de Adopisco, há uns anos, para o colega Notícias de Vouzela, onde estavam também os saudosos Fernando Pereira e o Chefe António Silva, que nutria pelo Mestre uma enorme consideração.
Convivendo com as mais altas individualidades mundiais, teve em Calouste Gulbenkian um companheiro e um apreciador de sua culinária durante grande parte de sua vida. Eisenhower, Evita Péron, Maria Callas, Ava Gardner, Mastroiani, Humberto de Itália, os Windsons, a Rainha Isabel II e D. Amélia foram alguns de seus afamados clientes.
Com este percurso tão rico, João Ribeiro, que aqui morreu em 1988, tem de ser uma presença obrigatória na história desta nossa região de Lafões. Já o sabíamos e agora aprofundámos essa noção, que partilhamos com os leitores deste “NL”...
Carlos Rodrigues, in “Notícias de Lafões”, 28mar19
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