quinta-feira, 6 de agosto de 2026
Os incêndios não nos largam
A saga dos incêndios voltou a dar cabo de Lafões
Carlos Rodrigues
Eram 3 horas e quatro minutos de quinta-feira, dia 2 de Julho, quando em Tourelhe, na freguesia de Cambra, concelho de Vouzela, um rastilho de incêndio se iniciou para ter um percurso altamente devastador e longamente penalizador das nossas gentes e da natureza desta magnífica Serra do Caramulo. Lavrando por entre serras e vales, trepou até aos montes e foi por aí abaixo invadindo mesmo a cidade de Águeda. Para trás deixou ainda as suas marcas destruidoras nos concelhos de Oliveira de Frades, Tondela e Sever do Vouga. Durante mais de três dias levou tudo em frente. Valeu-nos o esforço dos Bombeiros, da Protecção Civil, das autarquias e das comunidades locais para que se tivesse evitado o pior. Ainda bem
Na nossa memória de anos passados - e não são assim muitos! – como 1986, 2013 e 2017, assaltam-nos a tragédia das perdas de paisagem, de casas, de instalações agrícolas e empresariais, mas sobretudo a partida de vidas humanas. Agora, em 2026, pelo menos até este momento, essas tragédias pessoais não aconteceram. Olhando pelos vidros dos carros, de nossas janelas e dos testemunhos que nos batem à porta vindos dos meios de comunicação social e das redes sociais, é uma imensa dor aquilo com que nos confrontamos. Um terror, como outros a que já assistimos.
Num balanço geral, depois de termos visto que, neste domingo, dia 5, pelas 13.30 horas, o fogo já estava dominado, mas ainda com risco de reacendimentos, percorramos o rasto que deixou para trás: cinco concelhos afectados, 40 quilómetros de extensão percorridos, mais de 10000 hectares devastados, uma Serra, a do Caramulo, mais uma vez desfeita, o Parque Natural Vouga-Caramulo seriamente danificado, cerca de 1500 operacionais em forte e duro combate às chamas, incluindo uma força espanhola, dezenas de meios aéreos em actuação diurna, centenas de veículos motorizados, milhares e milhares de populares em acção abnegada. Tudo isto se viu e o combate, muitas vezes, revelava-se infrutífero. Mas ninguém arredava pé.
Em ajuda aos Bombeiros locais e regionais, muitos outros se lhe juntaram, oriundos de Barcelos, zona de Lisboa e do Porto, Vila Franca das Naves, Cinfães e de tantas outras e solidárias zonas. A Força Aérea entrou também em acção, assim como a CME espanhola e os seus meios aéreos e ainda os que vieram de Itália, fruto da activação do Mecanismo Europeu de Protecção Civil, que em boa hora foi feito pelo Governo português.
No meio de todos os efeitos de mais este evento atmosférico, que talvez tenha tido a sua origem em mão criminosa, há que dizermos que tiveram de ser evacuadas diversas aldeias, sobretudo nos municípios de Tondela, Águeda e Oliveira de Frades, que foram cancelados várias iniciativas associativas, desportivas e culturais, como o Mercado Medieval de Cambra, o 10º Gym Festival internacional de Vouzela, e outras.
Há, no entanto, a destacar as ondas de solidariedade que se vieram a manifestar, como a de uma Padaria de Águeda, que forneceu pão com chouriço em quantidades industriais, e aquelas que se dirigiram aos corpos de Bombeiros.
Em resumo final, temos de confessar que nada, uma vez mais, pode ficar como antes. Isto de vermos as nossas terras ciclicamente a serem pasto de chamas destruidoras tem de acabar com novas e outras políticas de desenvolvimento e ordenamento florestal. O Secretário de Estado das Florestas, Rui Ladeira, que, por ironia do destino, viu este incêndio ter trágico início na sua terra, tem aqui mais um motivo de reflexão e uma pista para tomar difíceis e profundas decisões. Que assim venha a acontecer…
In “ Notícias de Lafões”, Julho 2026
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