quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Com a greve nos transportes de combustíveis, isto não anda bem....

Combustíveis na berlinda É costume andarmos a fazer contas quanto ao abastecimento de gasóleo e gasolina devido à pressão dos preços, mais a subir que a descer, semana a semana. Desta vez, as preocupações são de outra ordem: falando-se numa eventual greve por tempo indeterminado, relativamente ao abastecimento dos postos, agora isto chia mais fino. Já não é apenas o preço (que até vai descer) que motiva a nossa atenção, mas as torneiras que podem ficar secas. Depois de dias e dias em acesas discussões, com todo o país preso na teia dos argumentos de parte a parte, prevê-se que segunda-feira, dia 12, os camiões venham a parar. À hora que escrevemos estas linhas, apenas se sabe que o Sindicato Nacional de Motoristas de Matérias Perigosas e o Sindicato Independente de Motoristas de Mercadorias deliberaram, em plenário, “não dar nunca um passo atrás”, avançando mesmo com a greve. Do lado de lá da barricada, a ANTRAM – Associação Nacional de Transportes Públicos Rodoviários de Mercadorias – contesta esta posição, facto que tem vindo a acontecer desde que as partes (re)entraram em negociações, sem quaisquer resultados práticos. Recorde-se que, há meses, uma acção deste género quase colocou o país de tanga. Apoiando-se nesse duro evento, o Governo, desta vez, não quis entrar em cena apenas para apanhar os cacos, mas optou por intervir “a priori”, em termos de mediação. Sem ter obtido qualquer sucesso nessa sua estratégia, o último passo foi declarar o estado de emergência e determinar os serviços mínimos, em escalões que vão dos 50 aos 100 %. Também este desfecho não agradou aos motoristas, de maneira nenhuma. Cremos até que, pelo contrário, foi mais gasolina colocada em fogo que já lavrava com grande intensidade. Na dúvida e no receio, os portugueses agarraram-se ao velho costume do desenrasca e correram para os postos de combustíveis, atestando as viaturas e levando material de reserva em tudo o que aparecesse com cara de pote. Resultado: bem antes da greve, em muitos locais tudo desapareceu, no todo ou em parte. Deste modo, extrapolando, pensamos que, durante uns dias, a satisfação ditará a sua lei, porque barriga cheia raramente recebe mais comida. E agora: o que irá acontecer? Com tão drásticos serviços mínimos, praticamente totais em muitas situações, ninguém sabe como é que todo este imbróglio vai acabar. Também são muitas as incertezas nos chamados postos normais, aqueles que estão fora da Rede de Emergência, sendo que esta cobre pequenas partes do todo nacional. Com o facto de se estar perante um evento sem fim à vista, são mais que muitas as preocupações. Com a requisição civil em cima da mesa, com as forças policiais e militares a postos, com o Governo a mostrar uma forte posição musculada, isto não augura nada de bom. Sendo constitucional a greve, é voz corrente que nem todos os fins justificam os meios. É que há um país que pode parar ou entrar em colapso e isso tem de ser evitado a todo o custo. Carlos Rodrigues, in “Notícias de Lafões”, Ago19

Os preparativos para a República no distrito de Viseu

O distrito de Viseu em meados do século XIX e a implantação da República Num momento decisivo da nossa História em que se derrota um regime, a Monarquia, e se lança Portugal na aventura da República, que tem no dia 5 de Outubro de 1910 o seu marco importante, o distrito de Viseu, na sua sede, ostentava já sinais de descontentamento com a velha ordem e mostrava ansiar por outros rumos. Os pontos da discórdia apresentavam-se, entre outras iniciativas, na criação do Centro Liberal (1865), Sociedade Civlilizadora e Assembleia Viseense (1855), Associação de Classe dos Empregados do Comércio/Centro de Instrução e Recreio José Dionísio, nos jornais Idêa Nova (1882), Democracia da Beira (1882), na Nova Luta e Intransigente (1894), no A Mocidade Republicana (1904), em A Beira – a Voz do Centro Republicano (1906) e em vários outros movimentos e instituições. Inseriam-se ainda nestas ondas reformistas a criação da Escola do Magistério Primário (1897), a Escola Industrial e Comercial (1898), a Escola Prática de Agricultura (1887) e ainda o Asilo Visesense da Infância Desvalida (1874), a Sopa Económica (1881) e o Círculo Católico de Operários/Instituto Liberal de Instrução e Recreio. Num claro sinal de decadência monárquica, que haveria de sofrer um dos seus mais rudes golpes com o assassinato do Rei D. Carlos e seu filho, o Príncipe herdeiro, Luís Filipe, no ano de 1908, também por estas nossas zonas despontavam indícios de descontentamento, agitação e tomadas de posição de um lado e outro da barricada. A imprensa febril dessa época disso nos dá abundantes sinais e Norberto Gomes da Costa (Edições Nodar) bons contributos deu a esta causa do conhecimento. Com mais ou menos duração, vejamos as publicações que, entretanto, surgiram em Lafões: no concelho de OLIVEIRA DE FRADES – O Lafões, 1892/1910/1930; Mocidade de Lafões, 1914; O Azorrague, 1914; Ecos de Lafões, 1916; O Lafonense, 1935; em S. PEDRO DO SUL – também O Lafonense, 1891/1925/1928, isto para indicar as respectivas entradas em cena desse órgão de comunicação social; o Jornal de Lafões, 1904/1913; A Defesa, 1926; A Comarca, 1898; O Vouga, 1898/1912; O Progresso, 1903; Voz da Beira, 1911; Ecos do Vouga, 1913; O Innonimado, 1905; a Democracia de Lafões, 1925; em VOUZELA – Aurora do Vouga, 1887; a Democracia, a anteceder a sua edição em S. Pedro do Sul, 1895; O Beirão, 1915; a Revista de Lafões, 1896/1926; O Presente, 1898; O Echo de Lafões, 1898; Aurora de Lafões, 1904; O Vouzelense, 1907/1929; Correio de Lafões, 1915; Notícias de Vouzela, 1935. No meio destes fontes noticiosas e opinativas, outras foram aparecendo, algumas delas apenas em cópias distribuídas de uma forma menos profissional. Com objectivos claros e bem demarcados, sem esconder os seus reais propósitos, cada um destes jornais ou revistas logo diziam ao que vinham, sem disfarces e, por vezes, mesmo em linguagem duríssima. Nos vários arquivos municipais, com destaque, para esta edição do Notícia de Lafões, para o concelho de Oliveira de Frades, dá-se nota que, por Decreto de 15 de Fevereiro de 1908, a Comissão que “está gerindo os negócios deste município” continuará em funções, mas na qualidade de Comissão Administrativa, isto na sequência do regicídio desse mesmo mês, acabando por ser dissolvida em Março. Em 30 de Novembro de 1908, seriam eleitos para a vereação Serafim Luís Fernandes da Silvam Custódio Pereira de Carvalho, Manuel Ferreira Martins, Bernardino Homem da Rocha e Manuel Tavares da Costa Ribeiro. No ano de 1917, o orçamento municipal de Oliveira de Frades destinava verbas para apoios a desvalidos, a pobres, a internamentos, tratamentos e medicamentos, a escolas, incluindo-se, aqui, 10$00 para iluminação dos cursos nocturnos. Olhando agora para uma visão geral da nação, no plano educativo, em 1910, o país apresentava uma taxa de analfabetismo de 76.1%, com 702 freguesias em 3918 sem escolas, sendo que, em 1926, quando se dá uma nova revolução, que haveria de conduzir à formação do Estado Novo, sobretudo a partir de 1933, ainda se encontravam 345 dessas freguesias nas condições do início da República. Desta forma, em 1926, entram em acção 400 missões móveis para alfabetização de adultos, situação herdada já de 1901 e, muito em especial, das Escolas Móveis, 1913, com o Decreto nº 194, de 29 de Outubro. Quando, dentro de pouco tempo, se entra, mais uma vez, num período eleitoral, sem que quaisquer destes dados e conhecimentos relatados nos parágrafos anteriores devam servir de exemplo, não deixa de ser sintomático quanto, há perto de dois séculos, com o forte advento da imprensa, as causas diversas tenham sido palco de acesas discussões. Esta é uma das lições que se deve tirar, em vez de passarmos o tempo com questões laterais e pouco substantivas, como tantas vezes, na actualidade, vem acontecendo. Carlos Rodrigues, in “Notícias de Lafões”, Ago19

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Vinhos em Lafões a cantarem desde há séculos...

Vinhos em Lafões, altos e baixos Entre os produtos com fama existentes na região de Lafões, o vinho é um deles, mas já viveu dias e épocas de muito maior prosperidade. No século passado, quase em todo ele, era frequente ver a circular pelas nossas estradas carradas e carradas de “americano” ou “morangueiro” rumo a Lisboa, por exemplo. Liquido proibido, mas muito cobiçado, como se podia comprovar nas muitas tascas e tabernas que na capital existiam, como a do Largo do Mastro, era um dos pilares do sustento de muitas de nossas famílias, a par das vitelas, da resina e de alguns (poucos) cereais. Legalmente, outras castas faziam o seu caminho, ora em modo de produção pessoalizada, ora por via, depois de 1949, da Adega Cooperativa de Lafões (ACL), com sede em S. Pedro do Sul, mas a abranger uma vasta área territorial. Num trabalho do ano de 1986, “ Vinhos verdes de Lafões – Esquema de estudo (proposta), falava-se numa área de 1600 hectares de vinha, sendo 1440 em forma de enforcado, sendo bem notadas as castas brancas – arinto, cerceal, esgana-cão, fernão pires, rabo de ovelha, dona branca, tamares, alva e borrado de mosca; quanto a tintas, citavam-se – amaral, tourigo, jaen, tinta francesa, verdelho, loureiro e tinta espadeiro. Com uma mão de obra, por essa altura, no sector primário, na ordem dos 60% em perto de 11500 explorações agrícolas, já se tinha assistido ao aparecimento de várias organizações oficiais que operavam os vinhos lafonenses, desde os grémios da lavoura à citada ACL. No início dos anos 40, nasceram os Grémios da Lavoura de Oliveira de Frades, Vouzela e S. Pedro do Sul, terra esta que chegou a ser sede da Delegação da Junta Nacional do Vinho, sendo que, por escritura de 23 de Outubro de 1949 e com alvará de Novembro desse mesmo ano, acabaria por ali ser criada a ACL. No entanto, nem tudo foram rosas no campo da nossa viticultura, apesar de esta infraestrutura associativa ter logrado subir bem alto, para terminar as suas funções e carreira já em pleno século XXI. Um dos grandes entraves que viriam minar o entusiasmo por esta actividade foi a criação, em 1965, de uma taxa por litro de vinho de $40, ou de $20, conforme as situações. Colocados perante este peso, houve manifestações de agricultores, sobretudo em Vouzela e Oliveira de Frades, em forte e frontal oposição às legislações vigentes. Em Paços de Vilharigues, em 1971, foi posta a circular uma exposição em que era manifesto o descontentamento vivido. Com grande relevância económica, também o era em termos paisagísticos, como se pode ler no “Guia – Dicionários Regionais, da Companhia dos Caminhos de Ferro do Vale do Vouga, 1933”, em que se evidenciam as suas características ímpares, desta forma: “ No fundo do vale, são os milharais viçosos e a vinha abraçada às árvores...”. Reportando-se a Oliveira de Frades, acrescentava-se : “... Toda a sua paisagem se assemelha muito à do Minho – pelos relvedos e pelas videiras de enforcado, que nos produzem o apreciadíssimo vinho amaral, típico da região... “. Com o definhamento da agricultura e com o abandono dos campos em massa, também a vinha ficou a perder. Despontam agora, em boa e criativa modernidade, alguns (poucos) produtores que começam a afirmar o seu nome e a conquistar mercados. Que o êxito os acompanhe e a perseverança nunca desapareça, em favor de um bom vinho, claro está. Carlos Rodrigues, Notícias de Vouzela, 1ago19

Interior a perder habitantes e representatividade. Viseu com menos um deputado

Ao olharmos para a documentação que sustenta as novas eleições legislativas, logo nos saltou para cima das nossas preocupações o facto de, entre dois distritos que perderam um deputado em favor dos grandes centros, um deles ter sido o de Viseu. Com nove lugares em disputa desde há muitos anos, em Outubro de 2019, esta tabela, com tudo o que de mau representa, cai para oito. Em igual descida, temos também a Guarda, a tombar de 4 para 3 na respectiva lista de candidatos ao Parlamento. Ao invés, Lisboa e Porto aumentam mais um representante cada um, respectivamente. Poderemos ser levados a pensar que, mais voz, menos voz, tanto faz. Quem dita o rumo das votações são as elites dirigentes políticas, as célebres organizações partidárias (que, há que reafirmá-lo, são os pilares da democracia!...) e, se assim é, que fazem lá os 230 deputados eleitos nestes actos populares, pergunta-se. Sendo essa uma discussão que faz algum sentido, a tónica tem de ser outra: o povo - todos nós - tem de lutar pelos seus reais representantes, caso contrário isto é tudo uma espécie de farsa. Feitas estas considerações, dói-nos imenso ver os nossos territórios ao abandono e sem ninguém que os defenda. Um a um, vão saindo os seus habitantes e, por tabela, até o número de deputados demonstra uma desigualdade assustadora. Agora, Viseu e Guarda, irmãos na vizinhança e na desgraça, foram atingidos por este tsunami. Calam-nos as vozes, abafam-nos o futuro. Num exercício quase aritmético, vejamos o que está a acontecer: em 15791 km2, temos 141 representantes a eleger, em Setúbal (18), Aveiro (16), Lisboa(48), Braga(19) e Porto (40). Por outro lado, em 16290 km2, apenas preenchidos por Beja (3) e Portalegre (2) subirão as escadas da Assembleia da República apenas cinco eleitos. Isto é gritante. Isto é um desastre nacional. Com tantas dúvidas na cabeça, propomos mesmo: que se criem círculos eleitorais nas grandes áreas metropolitanas com os habitantes idos de todos os lados e de mais algum. Talvez assim a nossa voz se faça ouvir, ponto a ponto. Como assim não acontece, perde representatividade Portugal e o país esfarela-se cada vez mais: uns levam a farinha, outros ficam com os restos das espigas. Cristo, isto assim não vale!.... Carlos Rodrigues, in “Notícias de Vouzela”, 8 de Agosto de 2019

terça-feira, 23 de julho de 2019

Lafões a mexer, a força da sociedade civil

A força da sociedade civil Há semanas que têm tudo para jamais se esquecerem, por este ou aquele motivo. Culturalmente, os últimos dias, e primeiros deste mês de Julho, tiveram um forte impacto a esse propósito. Em Viseu, viveram-se com emoção os momentos em que se pretendeu valorizar e divulgar a doçaria lafonense com dois emblemáticos produtos em concurso: o fortíssimo e velhinho Pastel de Vouzela e o recém-criado Pão de Ló de Milho com sumo de limão, de Sul. Um e outro foram objecto da votação de quem assistiu a esse programa, nesse dia e mesmo noutras alturas. Dizem-nos que ambos ficaram pelo caminho, um deles, o rei dos reis da nossa doçaria, por uma pretensa unha negra. Sem pensarmos no resultado final, falou-se de Lafões e isso tem um forte sentido positivo, ao mostrar que existimos, que mantemos as tradições seculares e somos, ao mesmo tempo, capazes, de inovar. Num outro patamar, sem honras de televisão nacional, a escolha dos eventos em que participar tornou-se um difícil exercício de agenda: olhando para um lado e para outro, em qualquer sítio, a animação cultural, por força dos agentes locais da nossa sociedade civil, impunha a nossa presença. Cambra, cheia de experiência nessas lides, não quis perder pitada dessa fama, oferecendo uma Feira Medieval que já tem um lugar marcado em tudo quanto seja programação associativo das nossas terras, e que deliciou quantos participaram neste evento ou assistiram aos muitos espectáculos ali realizados. Num ambiente de sonho e fantasia, com a secular Torre, a Praia e o Parque Fluvial de Cambra de Baixo, e as muitas pessoas que tudo deram de si para mostrar tradição e recriação histórica, ali se viveram dias e momentos de alto interesse patrimonial e cultural. Na vila de Oliveira de Frades, essa notável instituição que se chama ASSOL, que estende a sua acção por um vasto território, pôs no terreno, por ocasião das comemorações dos seus trinta nos de vida, o arrojado ASSOLFEST e viu coroado de êxito todo esse seu esforço. Durante um fim de semana em cheio, trouxe a alta e boa música, as artes diversas, numa extensa mobilização que passou pelas gentes da Sede, de S. Pedro do Sul, Vouzela, Castro Daire, Vila Nova de Paiva, Viseu, Tondela e Mortágua, localidades onde desenvolve, em termos de delegações activas, a sua vasta actividade em prol das pessoas com deficiência, na ordem de um milhar de gente apoiada. Nesta mesma localidade, a sede do concelho, a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários, aos noventa anos, comemorou o seu padroeiro, S. Marçal, em festejos religiosos e oficiais, sendo esta parte vivida, em almoço convívio e sessão solene, em Chão de Vintém – Arcozelo das Maias. Vivendo agora já na sua casa recuperada, a (re)inaugurar dentro de algum tempo, estes soldados da paz tiveram, assim, mais uma de suas datas importantes. Na Sobreira, Ponte e Feira, pela mão da UMJA, a sua filarmónica, houve o desfile e concerto em termos de um encontro de Bandas com a anfitriã e a de Lobelhe de Mato, Mangualde, isto no sábado, para, no domingo, se desenrolar o programa das suas Festas Populares. Pela mão da Liga dos Amigos de Vilharigues, realizou-se ali a Caminhada dos Moinhos, a culminar num almoço convívio, que juntou três dezenas de participantes na Torre, tendo-se percorrido terras de Paços de Vilharigues, S. Vicente de Lafões e Vouzela. Andou-se, essencialmente, em redor do Rio Mezio e suas azenhas, muitas delas concentradas, em grande escala, entre a Sernadinha e Ameixas, infelizmente, com alguns destes imóveis em degradante estado de abandono. Esta foi uma semana de altos voos. Ainda bem que assim acontece. Carlos Rodrigues, NV, Jul2019

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Canta, canta, Lafões...

Lafões a cantar desde sempre Giacometti e José Fernando Oliveira em bons registos Com o Verão, vêm para a rua as energias populares em termos festivos, que se espalham pelos arraiais das diversas romarias, pelos templos e adros, pelas ruas onde passam as muitas procissões, pelos campos quando se sacham os milhos, se regam as propriedades e, lá para o Outono, se fazem as colheitas. Se, nos tempos chuvosos e frios do Inverno, a lareira e os serões são o palco privilegiado para esta manifestações ancestrais da cultura do nosso povo, nestes tempos de sol e longos dias, com as noites a serem um convite para se gozar, em entretenimento, a sua razoável e agradável frescura, é nos largos de nossas aldeias que se soltam todas as alegrias. Para as provar, a música é uma das grandes vias e um dos poderosos meios para mostrar ao mundo tudo aquilo que nos vai na alma. Em Lafões, sempre se cantou, cruzando influências, como em Manhouce, localidade que tem vindo a potenciar, ao máximo, este notável espólio, sobretudo para nos mostrar a passagem dos almocreves e suas paragens, em noitadas animadas, nas eiras daquela terra serrana, dançando-se e cantando-se em conjunto, povos do mar e da serra. Nasceu desta simbiose a pátria da música regional que temos como bom legado e que se espalhou por toda a parte, batendo também, muito em especial, à porta de Cambra (Vouzela), S. Félix (S. Pedro do Sul) e Santa Cruz (Arcozelo das Maias/Oliveira de Frades) Numa vertente diferente, as nossas Bandas Filarmónicas, algumas a passarem por três séculos de existência, desde os anos de 1800 até aos dias de hoje e com muito futuro pela frente, são a outra componente musical e cultural que nos caracteriza, assim como, em medida bem mais reduzida, os Grupos Folclóricos. Em prateleiras diferentes, encontramos ainda as canções religiosas, como as Janeiras, o amentar as almas, etc. Descobrindo as nossas riquezas, por aqui andou, de gravador e câmara em punho, Michel Giacometti (1929 – 1990), o corso, que se enamorou e apaixonou pela música tradicional portuguesa. Assinalando-se, este ano, os noventa anos do seu nascimento e os sessenta da sua chegada a Portugal, o nosso país e a região de Lafões têm para com ele uma dívida de gratidão Vindo para estas terras lusas em busca de cura para a sua tuberculose (1959), desde logo impôs o seu talento, a ponto de, na então Emissora Nacional e na RTP, os seus serviços e arte jamais serem desperdiçados. Entre as várias pessoas que com ele se cruzaram, uma delas, Fernando Lopes Graça, é inquestionável. Com este vulto da nossa música, surgiu a “ Antologia da Música Regional Portuguesa”, depois de Michel Giacometti ter fundado os Arquivos Sonoros. Duas de nossas terras, Manhouce e Cambra, receberam a sua preferência, quer, na RTP, 1972, com o “Povo que canta”, filmado precisamente em Cambra, quer noutros programas e ocasiões. Também Manhouce integrou o seu Cancioneiro Popular Português. A uma escala mais local, mas plena de importância e pertinência, trazemos ainda aqui o “Cancioneiro Regional de Lafões”, com recolha e coordenação de José Fernando Monteiro de Oliveira, 2000, com CD, uma notável e diversificada obra que muito engrandece e prestigia a nossa cultura e bibliotecas. Numa diversificada e muito abrangente pesquisa e registo, as 616 páginas de texto, letras e partituras fazem perdurar no tempo quem somos e o que cantamos, como memória de um rico passado e a ponte cultural segura para nos continuarmos a afirmar no mundo pelos tempos fora. Com os seus “cantares de carácter religioso e profano”, ali temos matéria de sobra para nos conhecermos melhor. E ir desfrutando vezes sem conta. Seria um erro grave e uma omissão imperdoável se, ao falarmos de música em Lafões, nos esquecêssemos de Isabel Silvestre e de tudo quanto ela faz e tem feito em favor da nossa cultura e região. Só o seu nome daria para encher as páginas de muitos jornais. De qualquer modo, esta singela nota apenas quer fazer registar o apreço e consideração que por ela temos. E que merecidas são estas curtíssimas referências. Aí temos o Verão. Vamos à música, a nossa, porque vale sempre a pena e a nossa alma não é pequena. Muito pelo contrário. Carlos Rodrigues, Notícias de Lafões, Jul 2019

1941, arborização da Serra do Ladário

Um projecto de arborização de 1941 para a Serra do Ladário Na Direcção-Geral dos Serviços Florestais, no ano de 2006, acedemos a um importante documento relacionado com o previsto aproveitamento da Serra do Ladário, em estudo que remontava a 1941, em termos da sua florestação. De notar que se estava, por essa altura, em plena época de ocupação de baldios e outros terrenos públicos com a vista à sua integração nos novos serviços então criados e que tanta celeuma vieram a originar. Numa área a ocupar que se estendia por 2150 hectares, eram nela incluídas as freguesias de Arcozelo das Maias, Ribeiradio, Reigoso, Destriz, Cedrim, Talhadas e Campia, em pleno contrafortes da Serra do Caramulo, com uma exposição francamente marítima e com abundante precipitação pluviométrica, como se pode ler no projecto em causa. Com uma vegetação natural à base de tojo arnal, carqueja, queiró e fetos ordinários, destavam-se, nessa altura, como espécies florestais o pinheiro bravo, o sobreiro e o carvalho. Apontavam-se os seguintes usos domésticos e vicinais: apascentação de gado, apanha de mato para lenha e estrume. Falava-se em 9330 cabeças de gado ovino e caprino, assim distribuídas: Arcozelo das Maias – 1401 ovinos e 377 caprinos; Destriz – 943/448; Reigoso – 844/172; Ribeiradio – 966/570; Cedrim – 676/171; Talhadas – 1512/1251. Entre diversos dados, incluindo as referências a vencimentos de trabalhadores para roça e sementeiras de penisco (25 quilos) e de acácias (9kg), indicam-se ainda as distâncias entre espécies e covas, o que mostra os cuidados que se tinham na organização de todo este processo. Numa clara diferenciação de ordenados entre homens e mulheres (8 e 5$00, respectivamente), aludia-se também à jorna dos rapazes (4) e dos capatazes (10$00). No capítulo das obras, enfatizava-se a construção das Casas dos Guardas Florestais de Lameiras, Souto Maior e Santa Maria, assim como as propostas de novos caminhos e beneficiação de outros. Entretanto, no livro “ A floresta, práticas e perspectivas – Raízes para o desenvolvimento da floresta – Henrique Machado e Nuno Amaral, Viseu, 2000” diz-se que, no que concerne à area florestal do Ladário, apenas no concelho de Oliveira de Frades, em 1620 hectares estavam arborizados 1560. Com as devastações havidas quanto a incêndios de grandes dimensões, sobretudo em 2006, 2013 e 2017, com mais episódios a registar, aquém e além, hoje o panorama, quanto a florestação é desolador. O Estado tem, nesse campo, imensas culpas no cartório e não é possível que fuja (mas escapa-se, e de que maneira, às suas responsabilidades até mais não...) às tarefas que deveria executar ou ter em mãos vir a fazê-lo e não é isso que está a acontecer, infelizmente. Carlos Rodrigues, NV, Julho 2019