segunda-feira, 16 de março de 2020
E já lamentamos uma morte nesta chaga que nos invadiu....
Nesta perigosa marcha do Coronavírus/Covid 19, o nosso país assinala a primeira vítima mortal acontecida em Lisboa. Infelizmente, o que todos temíamos acabou por acontecer. Que descanse em paz. Para sermos solidários com quem tanto sofre e para que a escalada da morte não apareça em força, sejamos todos cidadãos conscientes, aplicando as directrizes oficiais e aquelas que o bom senso cívico implica. Defender a nossa saúde e de todos depende muito de cada um de nós. Em registo pessoal, mais um dia por casa e uma útil leitura. A solidariedade é a regra que devemos seguir....
domingo, 15 de março de 2020
A tristeza do Covid 19....
Ninguém sabe praticamente nada acerca do Coronavírus/Covid 19. Só há uma certeza: o mundo virou-se do avesso e anda toda a gente transtornada. O medo e a insegurança estão a impor-se como regra. Quase ninguém arrisca sair à rua sem ser necessário. Tudo fecha em catadupa. Entretanto, em janela de esperança, a solidariedade começou a produzir os seus efeitos. Ontem, às 22 horas, foi bonito ver tanta gente a homenagear o pessoal da saúde que tanto tem feito por todos nós. Àquela hora, também nós fomos para a janela (no nosso caso, uma porta virada para a rua) bater palmas. No meio da tristeza, um momento a merecer não ser esquecido. E que excelentes destinatários teve nas suas intenções! Depois disso, por aqui se continua em meia quarentena com a preocupação como companheira...Ao verem-se as estatísticas a subirem a galope, teme-se o pior. Resta-nos a consolação de sabermos que há gente a curar-se e a sair desse flagelo, que está a ter repercussões mundiais. Que Deus nos ajude!....
Marquês de Reriz reconhecido em Portugal e no Vaticano com palácio em S. Pedro do Sul
de Lafões Marquês de Reriz distinguido pela coroa e pelo papado
Natural de S. Pedro do Sul e com bens na região
Com uma marca muito vincada na cidade de S. Pedro do Sul temos o Palácio do Marquês de Reriz. Foi seu detentor o D. António Maria de Almeida de Azevedo da Cunha Pereira Coutinho de Vilhena Vasconcelos de Menezes. Nasceu nesta terra em 28.4 . 1831. Para nos ajudar a compreender melhor a sua pessoa e importância (ainda que dela tenhamos feito já alguns outros trabalhos), servimo-nos da obra “Ascendência e descendência dos 1ºs viscondes, condes e marqueses de Reriz, de Paulo Duarte de Ameida, Universidade Lusófona do Porto, 2006”.
Percorrendo as suas folhas, nota-se que a região de Lafões aparece muito citada no seu historial, ora de uma forma directa, ora por ligações diversas.
Tendo com padrinho seu tio, o Dr. Francisco Maria de Almeida Azevedo e Vasconcelos, andou por Coimbra enquanto estudante no Colégio de S. Bento e no curso de direito. Entretanto, a 18 de Dezembro de 1857, casou-se na Igreja de Santa Eulália, de Águeda, com D. Maria Margarida de Cabedo Henriques e Lencastre.
Antes de o seu Palácio ter sido local escolhido pela Família Real de D. Carlos e de D. Amélia, já a corte para ele olhava com intenção de o distinguir como aconteceu com o Rei D. Pedro V que, por alvará de 22 de Novembro de 1858, o considerou Fidalgo da Casa Real, estabelecendo em seu favor uma moradia de 1$600 réis por mês mais um alqueire de cevada por dia.
Com a morte de seu pai em 14 de Abril de 1861, torna-se senhor de sua casa, representante dos Almeidas Azevedo, estes, por sua vez, descendentes do Dr. Sebastião Rodrigues Azevedo, irmão do Padre Simão Rodrigues Azevedo, um dos fundadores da Companhia de Jesus,com Santo Inácio de Loyola,e expoente máximo dessa notável instituição religiosa. É de realçar-se que o Dr. Sebastião foi médico da Rainha D. Catarina, físico-mor dos Reis D. Sebastião, Cardeal D. Henrique e Filipe I, assim como Provedor e Administrador das Caldas de Lafões.
Coube ainda em herança ao futuro Marquês de Reriz a administração da Quinta do Testamento em Reriz; o vìnculo de S. Pedro do Sul, como Senhor da Casa dos Cunha e Melo, ou das Paulas; também do vínculo de Santo António da Ponte de Vouzela, com bens nesta localidade e em Ventosa.
Deve notar-se que este vínculo fora instituído por Gil Rebelo Cardoso, falecido a 18 de Agosto de 1660, e por sua mulher, D. Helena de Figueiredo e Almeida.
Sempre a subir na escala social, o Marquês de Reriz, título que lhe foi concedido pelo Rei D. Carlos em 1894, por decreto de 12 de Julho e confirmado em 11 de Dezembro do mesmo ano, cedeu as instalações do seu Palácio para receber o Rei, a Rainha e os Príncipes nas visitas de 27 de Junho de 1894 e nas de 18 de Maio e 11 de Junho de 1895, aquando da sua vinda a S. Pedro do Sul, a Viseu e a toda a região de Lafões, incluindo Oliveira de Frades e Vouzela.
Ficou bem assinalado o jantar de 20 de Maio de 1895, com uma ementa muito especial, de pendor francês, e o acompanhamento musical da Banda do Regimento de Infantaria 9. Célebres foram também as suas deslocações e festas oficiais e as recepções havidas.
Com uma forte acção política e social, o Marquês de Reriz foi Conselheiro Municipal de S. Pedro do Sul nos anos 1862/63, 64/65, 66/67, 67/68 e 1874/75. Foi Presidente da Câmara Municipal entre 1871 e 1873. Foi Reitor da Irmandade do Santíssimo Sacramento de S. Pedro do Sul em 1888.
A nível nacional, como elemento do Partido Regenerador, foi deputado eleito pelo círculo uninominal de S. Pedro do Sul em 1901; em 1902 a 1904, pelo círculo plurinominal de Viseu. Nas Cortes, pertenceu ainda à Comissão de Estatística.
No ano de 1900, o Papa Leão XIII agracia-o com a Grã-Cruz da Ordem de S. Gregório Magno (21-08-1900).
Acabou por falecer no seu palácio em 6 de Julho de 1927, vítima de uma embolia cerebral.
Resistindo ao seu desaparecimento, o Palácio do Marquês de Reriz continua a impôr a sua traça, mas, por dentro, a doença do tempo mina-o a torto e a direito, o que pode ser fatal para tão importante património, se, entretanto, não lhe deitarem a mão, a sério e a valer...
Carlos Rodrigues, in “Notícias”, Março 2020
sexta-feira, 13 de março de 2020
Centro de Apoio Social no Luxemburgo com 40 anos e ao leme um cidadão lafonense
Centro de Apoio Social no Luxemburgo com 40 anos
Ao seu leme, desde o início, está o nosso conterrâneo José Ferreira Trindade
Em inícios dos anos setenta do século XX, um jovem de Levides, Cambra, José Ferreira Trindade, chegou ao Luxemburgo para iniciar mais uma etapa da sua vida, como consequência de um alto fenómeno migratório que esvaziou meio Portugal. Antes desses tempos, passara ainda por Águeda onde mostrou ser capaz de trilhar caminhos de futuro. Recordado positivamente por muitos amigos de então, jamais os desiludiu. Em 1980, no meio de uma intensa actividade profissional e de outras lides no seio da comunidade, fundou o C.A.S.A – Centro de Apoio Social e Associativo, na capital daquele país do centro da Europa. Começava assim uma Instituição que haveria de fazer história, muita e boa história.
Instalada no número 15 do Montée de Clausen, onde ainda hoje permanece, ali se concretizou um ponto de encontro e de auxílio a tantos nossos compatriotas que buscavam informação, acompanhamento, conforto, um ombro e uma palavra amiga. Oriundo do mundo do futebol associativo, quando as equipas portuguesas se tentavam afirmar e impôr, o actual Comendador José Ferreira Trindade entendeu que estava na hora de dar um novo salto, aquele que lhe permitisse ainda ser mais útil a quem tanto precisava desses novos serviços e missões.
Com o objectivo de encontrar traços de união e ligação entre as muitas colectividades emergentes, avançou ainda uns passos em frente: vir a conseguir a integração necessária dos nossos emigrantes que, chegados àquele Grão-Ducado, ficavam como que de olhos postos no vazio e à mercê de uma sorte que nem sempre lhes era favorável. Embora a terra oferecesse oportunidades de trabalho e emprego (que não são a mesma coisa), importava não deixar ninguém ao Deus-dará.
Subindo na vida profissional e social, José Ferreira Trindade, que subiu ao alto posto de Chefe do Centro de Segurança do Aeroporto, não quis ficar com esses louros só para si, mas antes decidiu colocar ao dispôr dos seus conterrâneos o seu saber e a sua imensa sensibilidade comunitária. Criando uma extraordinária rede de contactos com as gentes luxemburguesas e seus dirigentes, apostou tudo numa integração partilhada e activa de quem procurava o seu apoio, amalgamando a nossa cultura com a vida e o sentimento dos próprios habitantes naturais daquele pequeno território europeu, mas fortíssimo nos planos político e económico e nas altas esferas financeiras, qual praça forte do dinheiro mundial.
Deste modo, o C.A.S.A, a par de tentar encontrar respostas imediatas de natureza laboral, habitacional, foi capaz de gerar outros aspectos bem dignos de nota: levou ali as nossas tradições, mostrou-as à cidade e aos governantes desde o Grão-Duque ao Governo, passando pelos poderes locais e outras entidades. No entanto, nunca quis que as nossas gentes se fechassem no seu cantinho, nada disso. Ao mesmo tempo que davam, recebiam também, integrando-se nas actividades e eventos locais. Desta forma, vemos luxemburgueses a festejar o Dia de Portugal e compatriotas nossos a participarem no Dia do Luxemburgo.
Foi tal a evolução havida, muito por obra e graça da acção deste nosso Comendador, que hoje é normal depararmo-nos com cidadãos lusos em tudo quanto seja posto de trabalho classificado e mesmo na vida política.
No dia 27 de Março, festejam-se os 40 anos
Criada no âmbito deste Centro de Apoio uma Fundação, uma e outra destas entidades tudo fazem para que a comunidade portuguesa possa singrar na vida e na sociedade que a acolheu. Hoje, além da busca de emprego e de casa, passou-se também a ajudar quem mais necessita porque aquela zona do globo já não é o mundo dourado de outrora, havendo ali miséria, fome a até instabilidade social e a nossa gente constitui a maior das fatias dos migrantes ali instalados, sendo cerca de 1/5 da sua população total.
Assim sendo, oferece-se ainda formação, cursos diversos, desde as línguas às artes, a que se acrescenta apoio jurídico e psicológico e aos grupos mais vulneráveis, como idosos, doentes e reclusos.
Para dar relevo a tudo isto, no próximo dia 27 de Março o Luxemburgo vai estar em festa, porque 40 anos duma Instituição deste género são obra e bem merecem uma boa taça de champanhe e muita animação, onde não faltarão, por certo, os Cantares de Lafões.
Com cerca de dez mil pessoas apoiadas por ano, no C.A.S.A, a co-responsabilidade, a partilha, a cooperação, a proximidade, o humanismo, a participação cívica são valores nunca esquecidos. Em matéria de divulgação, também esta Instituição está particularmente activa, tendo editado, por exemplo, uma revista e fornecendo dados com grande frequência.
Com casa na Borralha, onde a família Trindade passa alguns tempos por ano, ali temos visto a esposa Rosa Maria, os filhos Lúcia e Paulo, genro, nora e netos. Sempre rodeado de amigos, lá e cá, na festa do aniversário espera-se uma enchente de gente em quantidade e qualidade, dentro e fora das instalações e entidades oficiais não faltarão, por certo.
Carlos Rodrigues, in “Notícias de Vouzela”, 12 Março 2020
João Ramalho, um dos fundadores de S. Paulo, nasceu em Vouzela
Vouzela ofereceu ao Brasil uma alta personalidade
I - João Ramalho, alguém com muita história e lenda, adorado em S. Paulo
CR
Aí pelos inicios dos anos de 1500, sem se saber quando, nem como, chegou ao Brasil João Ramalho, nascido e criado na vila de Vouzela, e nessas terras distantes deixou fama e obra, nem sempre por aqui conhecida, mas de extrema importância, por exemplo, para a história de S. Paulo e arredores. Personagem envolta em realidade e mistério, vamos tentar dar dele a imagem que merece, sendo de toda a justiça tributar-lhe a nossa admiração pelos seus feitos. À luz dos códigos sociais de hoje, muitos dos seus comportamentos não serão aceitáveis, mas o seu tempo era outro tempo e é assim que temos de analisar o seu percurso de vida.
Se os seus feitos já estão bastante estudados e divulgados, com destaque para os meios académicos paulistas, são ainda inúmeras as dúvidas sobre a sua vida em Portugal. Sabe-se, apenas, pelas confissões recolhidas e pelas deduções efectuadas, que nasceu, como vimos, em Vouzela, talvez em finais dos anos de 1400, que era filho de João Vieira Maldonado e de Catarina Afonso de Balbode e casado com Catarina Fernandes das Vacas. Da sua restante família em Lafões, pouco ou nada ficou como testemunho para agora poder ser analisado. Nem foi ainda descoberta qualquer pista que nos conduza a indicar as razões que o levaram a emigrar, nem quando e como. Fala-se em várias hipóteses, tais como teria sido colono, náufrago, degredado, fugido à justiça, mas apenas há relato de que, em 1532, andaria pelos lados de S. Vicente, onde Martim Afonso de Sousa o encontrou e com ele estabeleceu uma série de contactos e parcerias.
Acerca de sua estadia e funções, muito se tem escrito. Por exemplo, Rodrigo Garcia, em “ O «bárbaro» que salvou S. Paulo”, diz que “... A vida de João Ramalho é cercada de mistério”, enaltecendo, porém, o facto de ter sido “... Responsável pela aliança entre índios e portugueses (... ) e foi fundamental para a manutenção da vila de Sâo Paulo de Piratininga... “. Para este autor, os paulistas vêem-no como seu pai, patriarca local e dos mamelucos (filhos de brancos e índias) e o próprio fundador da paulistanidade.
Esta última dimensão foi particularmente notória quando esta cidade assinalou os seus quatrocentos anos em 1900. Nessa época, de certa forma para rivalizarem com o Rio de Janeiro e com a própria linha de pensamento histórico vivida e posta a circular de que Pedro Álvares Cabral fora o grande descobridor do Brasil, os homens do Planalto de Piratininga agarraram-e a João Ramalho, vendo nele o seu herói e o seu fundador. Para esta corrente de pensamento, foi determinante o Instituto Histórico e Geográfico de S. Paulo, fundado em 1894, e todo o trabalho desenvolvido por uma série de historiadores, antropólogos e outros cientistas, todos eles irmanados no objectivo de quase “endeusarem” João Ramalho como seu patrono ilimitado.
O que fez para chegar onde chegou
Em trabalho académico (2006) por nós apresentado numa universidade de Lisboa, descobrimos; em Gilberto Freyre, uma frase que resume parte daquilo que foi o universo vivencial de João Ramalho por aquelas paragens: “... No Sul, onde aliás já se enontravam, prosperando, à custa do próprio esforço, povoadores do tipo de Ramalho e do bacharel de Cananeia, com grande progenie mestiça e centenas de escravos ao seu serviço, a colónia de S. Vicente foi oficialmente fundada em 1532... “. Entretanto, para Cristóvão José Moreira de Figueiredo, entre variadíssimos argumentos, acrescenta que “... Bastaria a conservação do nome do povoado que fundou (Santo André da Borda do Campo) e cujo paço municipal e cujas despesas custeou do seu bolso quando foi elevada a vila, em 8 de Abril de 1553, para lhe perpetuar o nome, mas é verdade que a sua vida tem mais amplo e profundo significado. É que a personalidade de João Ramalho é como que inseparável da idiossincrasia paulista e, porventura, também da própria fundação de S. Paulo.... “
Antes de continuarmos com mais capítulos em que pretendemos abordar a vida e obra de João Ramalho, anotemos hoje que, em ironia do destino, dois cidadãos vouzelenses tornar-se-iam personalidades de alto relevo em terras e polos opostos. Na Europa, o Padre Simão Rodrigues de Azevedo, um dos fundadores da Companhia de Jesus com Santo Inácio de Loyola e seu Provincial em Portugal durante vários anos, e, do outro lado do Oceano Atlântico, João Ramalho, que haveria de motivar acesa troca de correspondência, sobretudo entre o jesuíta Padre Manuel da Nóbrega e o Mestre português.
O motivo para esses debates teve a ver com o estilo de vida de Ramalho no seio das comunidades índias, sendo como que um dos seus e dos maiores, convenhamos. Mas esse tema fica para daqui a uns dias...
Carlos Rodrigues, in “Notícias de Vouzela”, Março 2020
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020
Barragem de Ribeiradio a produzir electricidade
Uma fábrica de electricidade ao lado da Barragem de Ribeiradio
Tem uma potência de 82.3 MW e uma produção média anual de 134 GWh
CR
Localizado a jusante da Barragem de Ribeiradio e a ela ligada, o respectivo Aproveitamento Hidroeléctrico, que conta ainda com os serviços prestados pela Ermida, também por perto, ocupa um alto edifício onde, em cada piso, funcionam as mais variadas valências, todas elas preparadas, em uníssono, para gerarem energia limpa em grande quantidade. Com tecnlogia de ponta, nela operam cinco funcionários, sendo que, em cada 24 horas, alguém estará sempre em alerta, ainda que não esteja no seu posto de trabalho.
Numa explicação acertada e feita por Sérgio Teixeira, a propósito de uma visita relacionada com uma investigação em curso realizada por uma equipa de Oliveira de Frades, ali naquele espaço existem um enorme reservatório de água e uma unidade industrial, a central eléctrica do Grupo EDP. Com as obras a terem sido iniciadas em 2010 e concluídas em 2015, a albufeira de Ribeiradio retém 84.6 hm3 de água e a da Ermida, 3.7. Registe-se que, em Dezembro, com as tempestades Elsa e Fabien, se assistiu ao maior afluxo de água alguma vez ali visto, o que fez accionar todos os esquemas de alerta, prevenção e acção. Felizmente que se esteve ainda longe daquilo que são os considerados os caudais de uma chamada cheia milenar ( a maior, em previsão, de mil em mil anos), senão a situação seria bem mais séria e complicada. A precipitação daquelas horas daria, por exemplo, para encher toda a albufeira, partindo, em tese, no nível zero. Foi, assim, água a valer...
Num vasto esquema de segurança, todo o mecanismo dá o seu contributo nesse sentido, dentro e fora destes complexos, uma vez que, à beira rio e numa distância de quilómetros a caminho da foz do Vouga, estão colocadas, estrategicamente, várias sirenes com a finalidade de fazerem sentir o seu som, se houver necessidade de, por exemplo, evacuar populações. Esperemos que nunca entrem em acção.
Com a Barragem a ter sido projectada e edificada em arco, para que a sua curva sustenha a força das águas e a faça projectar para os apoios construídos e inseridos nas margens, neste caso, em reforço, foi ainda feita uma larga sapata de 65 metros de largura em todo o fundo da Barragem, o que lhe dá uma solidez a todos os títulos notável. Já agora, diga-se que estas infraestruturas são pensadas para uma esperança média de vida, vendo-se depois o que lhes irá suceder e o historial em Portugal, neste capítulo, é ainda inexistente. Crê-se a primeira Barragem a ser avaliada, nesse campo, será a do Castelo do Bode, devido à sua idade.
Avaliação de segurança feita a todo o momento
De qualquer maneira, dia a dia, quase segundo a segundo, os testes são contínuos, vendo-se no interior fios de prumo para mostrarem as variações e outras formas de controle, entre outras, aquelas que avaliam riscos sísmicos, dilatações diversas e quaisquer sinais que importa serem analisados.
Perante um enorme emaranhado de fios, máquinas, roldanas, sensores, quadros, turbinas e altas tecnologias de ponta, a mão humana quase que não sai dos bolsos para nada, a não ser para reparar uma qualquer avaria ou dar um jeito a alguma peça.
É de tal maneira evidente esta constatação que tivemos o prazer de ver arrancar todo o sistema em funcionamento a partir de ordens electónicas vindas do Porto, porque, de repente, foi necessário colocar no mercado a produção de Ribeiradio. Isto é, como a energia, em geral, se não armazena, as barragens estão todas em rede e ora entra uma, ora outra, ou até todas ao mesmo tempo. Mas não trabalham em seco, como facilmente se compreende. Se não houver consumo, mais vale ter a maquinaria em repouso.
Em termos de conhecimento, em 2015, era este o panorama energético em centros produtores: 68 centrais hidroeléctricas, 3 termoeléctricas, 1 de cogeração, 4 de biomassa.
Paralelamente, também o interior da Barragem em si é digno de ser visto nos seus inúmeros e imensos corredores, escadarias e corrimões sem fim. Em matéria de som, só se ouve o barulho da água a correr.
Com esta Barragem de Ribeiradio, ganhou-se uma nova via de comunicação, a da ligação à freguesia de Couto de Esteves, no concelho de Sever do Vouga, o que é outra vantagem acrescida deste equipamento, que nasceu com várias finalidades: controlo do caudal do Rio Vouga; fornecimento de água; aproveitamento turístico e produção de energia (inicialmente sonhada para um consórcio entre a Martifer e a EDP, ficando esta sozinha logo a seguir), juntando-se-lhe agora a componente de sustentabilidade ambiental.
Com uma mudança profunda no território da região, por incapacidade dos poderes centrais, deste empreendimento ainda se não tirou todo o seu sumo, muito longe disso, aliás, e lamenta-se que assim esteja a acontecer.
Com a possibilidade de receber visitas, por marcação, esta Barragem, à beira da EN 16, bem merece que se veja e se fique a conhecer....
Carlos Rodrigues, in “Notícias de Vouzela”, 27 Fev 2020
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020
Fontes Pereira de Melo pensou também na agricultura
O estratega das vias de comunicação viu o país como um todo
Estamos habituados a ver Fontes Pereira de Melo como o político que pôs o país a mexer e a andar de um lado para outro pelas novas estradas e vias férreas, um salto enorme de modernidade e desenvolvimento acontecido em meados do século XIX. Para sempre recordaremos o primeiro comboio, que saiu de Lisboa para percorrer umas curtas dezenas de quilómetros. Mas o que talvez pouca gente se lembre é que a sua acção se estendeu, em matéria de organização, a muitos outros domínios, sendo um deles – e para nós muito relevante – o da agricultura.
Nesta área, notabilizou-se pela criação de Sociedades Agrícolas, a partir do Regulamento de 23 de Novembro de 1854, pelas suas “grandes vantagens”. Em cada distrito, seria erguida uma dessas instituições, composta pelo Governador Civil, Secretário Geral, vogais efectivos, membros das respectivas Juntas Gerais, administradores de concelho, presidentes de câmara, professores dos liceus nacionais, médicos dos partidos ( no sentido de gente dos quadros e não na moderna acepção) das câmaras municipais, juízes de direito, delegados dos procuradores régios, dez proprietários que “pagarem maior quota de décima de prédios rurais”. Para os distritos de Lisboa, Porto e Coimbra, havia um regime um tanto à parte. Estabelem-se sócios efectivos e correspondentes. A sociedade tem uma Mesa, uma Direcção Geral e um Conselho Fiscal.
Numa visão abrangente, constituem-se as secções da indústria pecuária, prados naturais e artificiais; matas e florestas; hortas, pomares e amoreiras, vinhas e oliveiras; cereais e mais culturas não especificadas. Nesta orgânica, incluem-se ainda as Comissões Filiais em cada concelho.
Com base nas várias secções criadas, nota-se que a atenção se virou para um campo alargado de domínios, que ainda hoje nos parecem essenciais. Tanto mais é de relevar esta atitude governativa quanto sabemos que Fontes Pereira de Melo era apenas Ministro das Obras Públicas, Comércio e Indústria, mas teve o engenho, a arte e o arrojo de se meter também pelos campos fora em busca da melhor maneira, a seu ver, de organizar, rentavelmente, a agricultura. Só assim age quem tem fibra de estadista e ele foi um desses, talvez um dos maiores entre os maiores.
Uma dessas Comissões em Oliveira de Frades
Para termos uma ideia do alcance desta sua legislação, olhemos para o que aconteceu no concelho de Oliveira de Frades ao criar a sua Comissão Filial Agrícola e seu auto de instalação, em 14 de Maio de 1855, sendo administrador Alexandre Soares Gomes Feijão, perante Manuel de Melo Soares Albergaria, membro da Junta Geral do Distrito, os professores do ensino prímário Ricardo Xavier da Veiga, de Caveirós de Baixo, António José Gonçalves Ferreira, de Paredes de Gravo, Luís Nunes Rodrigues, de Souto, Custódio Dias (...), de Ribeiradio, o Presidente da Câmara, José Correia da Silva Melo, os propietários José Pinto de Magalhães, José Rodrigues Ferreira, Francisco Maria Pereira de Azevedo, Francisco de Lemos Almeida Coelho, João de Almeida Lima e Lemos, José Lino Baptista da Costa.
Foram, nessa altura, nomeados como vogais efectivos, António Rodrigues, de Carvalhal de Vermilhas, Manuel Francisco Giestas, Confulcos, António Fernandes Miguel, Pés de Pontes, Francisco José dos Santos Aragão, Água Levada/S. Vivente de Lafões, Luís Manuel de Melo Bandeira e Manuel Ferreira de Almeida, Souto de Lafões, António Rodrigues Ferreira, Sequeirô, Joaquim José Ribeiro de Carvalho, Pereiras, João e José Tavares Ribeiro da Silva, Quintela, Manuel Dias Coelho, Ribeiradio, Manuel Rodrigues Ferreira, S. João da Serra, Joaquim Fernandes Garcia, Ponte/Reigoso, José Nunes Filipe, Destriz, Modesto João Borges e José Joaquim Borges, Campia, seguindo-se, depois, a lista dos membros correspondentes.
Entretanto, numa circular emanada do Governo Civil de 8 de Fevereiro de 1855, eram referenciados expressamente os seguintes produtos a considerar: cereais, ervilhas, favas, feijões, grão de bico, amêndoas, avelãs, castanhas, tubérculos, raízes, cebolas, azeitonas, vinho, azeite, mel, açucar, cera, gomas, resinas, féculas, fibras, cascas, etc.
Como notas finais, digamos que algumas das localidades que atrás aparecem como pertencentes ao concelho de Oliveira de Frades, hoje, mercê das mudanças administrativas dos anos de 1871 e outros, passaramm a fazer parte de Vouzela. Acrescente-se que, em Reigoso, chegou a haver a Banda da Sociedade Agrícola Reigosense, com referências em 1929 e 1946 já sabidas e documentadas, quando, nesse último ano, era seu regente Joaquim Marques Baeta.
Esses eram tempo em que a agricultura merecia especiais atenções e os bons exemplos deveriam ser seguidos, mas, infelizmente, nem sempre assim acontece....
Carlos Rodrigues, in “Notícias de Lafões”, 13 Fev 2020
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