quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Um poeta nascido em Manhouce, Gomes Beato

Um poeta das Beiras António Gomes Beato cantou e bem as nossas terras e gentes Carlos Rodrigues Saído da sua Manhouce, chão de tantos encantos e músicas, António Gomes Beato, professor e inspector do então ensino primário, hoje pomposamente chamado de primeiro ciclo, levou daquela terra serrana o gosto pela criação poética literária e nunca mais o deixou. Com as letras na ponta da caneta e na sua voz timbrada, em cada canto e em cada acontecimento ou personalidade via um motivo para mais uma criação. Pensamento e acção andavam, com ele, par a par. Com uma obra dispersa por muitos jornais e outras publicações, hoje pegámos em dois dos seus livros e com eles partimos à descoberta da nossa própria identidade: “Canções do Vouga”, 1990, e “ Lafões, a tradição e a lenda”, 1993. No primeiro, encontramos alusões poéticas à Madre Terra de Lafões, à Beira Alta, Lisboa, S. Pedro do Sul, Vouzela, a sua Manhouce, Oliveira de Frades, Termas, Rio de Janeiro, Serra da Gralheira, Tondela, Vilarinho, Santa Cruz da Trapa, Cambra, Valadares, Viseu e, entre outros, os seguintes temas: águas sussurrantes, bailado da neve, alegria e saudade, bodas de prata do orfeão português, serra agreste, boas festas e tocata dos Reis, amar os outros e fazer o bem, moinhos da minha terra, noite de Natal, Páscoa, Nossa Senhora de Fátima Peregrina, Rainha D. Amélia, centenário do poeta A. Correia de Oliveira, canto da despedida. Com um prefácio escrito pelo Engenheiro Mário Rodrigues do Cruzeiro, aí se podem ver partes do seu vasto curriculum, como a frequência do Liceu Alexandre Herculano do Porto, Colégio da Via Sacra, Viseu, Colégio João de Deus, também no Porto, e nesta cidade o curso do Magistério Primário (1944). Na sua carreira pedagógica, passou por funções docentes na sua aldeia, na Escola do Magistério Primário de Lisboa, pela Campanha Nacional de Educação de Adultos, avançando depois para Moçambique, para prestar serviço no Ensino das Missões na Diocese da Beira, como inspector e orientador pedagógico. Coube-lhe ainda a incumbência de fazer parte do Grupo de Estudos e Trabalhos para o Aperfeiçoamento do Ensino e na área dos Cursos de Formação de Professores. Passou também por Cabo Verde como Inspector Escolar da zona do Barlavento. A sua pessoa ficou associada à escolha de Manhouce para o concurso das Aldeias Mais Portuguesas (1938) e ao Rancho Folclórico nascido por ocasião desse evento, bem como a Tunas e Orquestras, vindo a ser também fundador do notável Grupo de Cantares de Manhouce (1977). Tornou-se sócio efectivo da Associação de Escritores de Gaia, Director da Casa da Beira Alta, Porto, cidade em que secretariou o Grupo de Estudos Brasileiros. Em “Lafões – a tradição e a lenda”, lemos os seguintes poemas e textos, além de outros: vamos à descoberta dos nossos valores, minhas Avós, orações, superstição, costumes do passado, cantares das nossas avós, canções de ninar, cantares das Romarias, cantares de Manhouce e Cambra, linguagem popular, adágios, adivinhas, parlengas, omomatopeias, usos e costumes tradicionais, contos e rimances, as lendas e Hino de Lafões. Ao estilo de jeito de apresentação, diz-nos que “ Cada povo guarda o seu próprio sinal, próprio e inalienável... São maravilhosas canções e poesias e tantas outras expressões de alma... São pias rezas e ensalmos,adágios e antifiguris, facécias e zombarias... São costumes e usos, artesanatos e trabalhos do campo, trajes e utensílios... São também as riquezas arqueológicas... (porque)... Ninguém pode amar sem conhecer... “ Por serem estes ricos espólios cheios de uma carga cultural transversal ao tempo e às nossas terras, anotemos meia dúzia de tópicos retirados dessas obras, como se segue. Em “Canções do Vouga” - “ Eis-nos aqui agora mesmo em frente/De Lafões, o torrão de mor encanto/Da nossa amada Pátria adonde, ó Anto/Queríamos ficar eternamente” - “ Da terra é que me veio quanto eu sou/O meu sangue, o meu corpo e condição:/Seiva que vem de longe em mutação/Sempre a ser renovada e me formou” - “ Minha Beira, meu altar/Minha chama de lareira/E meu berço de embalar/Minha carícia primeira” - “ Ó Casa de Lafões, nobre solar/ Da nossa gente. Ó ninho, ó lareira/Chama a aquecer a asa a acarinhar/Quem se achegar com frio à sua beira” Em “Lafões – a tradição e a lenda” - “ Daqui para minha terra/Tudo é caminho chão/Tudo são cravos e rosas/Dispostos por minha mão” - “ Quem tem filhos pequeninos/Sempre lhes há-de cantar/Quantas vezes as mães cantam/Com vontade de chorar” - “ A carta que me escreveste/Inda cá não chegou/Se me queres alguma coisa/ Fala-me qu’eu aqui estou” - “ Se choras por me aqui veres/Daqui me vou retirar/Se choras por eu te dever/Aqui estou p’ ra te pagar” Tanto, tanto mais há para por aqui ler. Isto foi apenas uma espécie de chamariz. A nossa cultura popular muito ficou a dever a António Gomes Beato, o poeta de Manhouce. Lê-lo faz-nos bem. Carlos Rodrigues, in “Notícias de Lafões”, Jan 2021

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

As Casas do Povo nos anos 50 e 60: Pinheiro de Lafões

Casas do Povo e acção social Pinheiro de Lafões na linha da frente Nos primeiros dias do ano de 1958, em Pinheiro de Lafões dava-se um passo de gigante nos caminhos da acção social, saúde, cultura, recreio e desporto, ao entrar em funções a sua Casa do Povo, ainda que em instalações provisórias, na Casa Social Católica. Aos comandos desta instituição estava (e assim continuou por muito tempo) o notável empreendedor Celestino Ferreira Martins, apoiado pelo Padre Alberto Poças de Figueiredo e António Pinheiro de Almeida. No dia 1 de Janeiro desse mesmo ano, este jornal “Notícias de Vouzela” dava nota desse acontecimento, destacando o facto de, partir de tal momento, se poder contar com assistência médica, subsídios diversos e uma série de actividades colaterais nas áreas da cultura, desporto e artes. Num universo de 350 sócios efectivos logo à partida, abrangiam-se cerca de 1000 pessoas, com um orçamento anual de 28588$00, a permitir, entre outros pontos, apoiar 16 sócios inválidos com 50$00 por cada um, distribuir 6200$00 em medicamentos e 6700$00 noutro tipo de subsídios. Tanto mais é de relevar-se este novo equipamento quanto, por essa altura, a segurança social era uma espécie de miragem e algo de absolutamente extraordinário. Avulta, por isso, aqui a figura de Celestino Ferreira Martins, que, ao leme de uma intensa vida empresarial, tinha tempo, vontade e arrojo em aventurar-se por estas andanças, vindo a ser, de 1972 a 1974, Presidente da Federação das Casas do Povo no distrito de Viseu. Homem de larga visão estratégica, fez avançar na sua terra uma série de firmas, como a Abastecedora de Mercearias Central do Vouga, a loja comercial, o café e as bombas ( com a atracção especial de um macaco que ali viveu durante uns anos), a moagem, as oficinas, o abastecimento de sal com base nas salinas de Aveiro, entre outras variadíssimas iniciativas. Não se ficou por estes interesses próprios a sua esfera de acção. A par de encarar a sério a gestão empresarial plural, diversificada e multifacetada, lançou, como vimos, uma vasta e meritória acção social, com destaque para a citada Casa do Povo, sendo pioneira por estas bandas. De notar que as que apareceram depois neste concelho de Oliveira de Frades vieram muito mais tarde, nomeadamente as de Arcozelo das Maias, Ribeiradio, Arca e Oliveira de Frades, estas duas apenas desde o ano de 1973. Um outro ponto alto da sua vida associativa teve a ver com a inauguração, em 1965, da nova sede e do Bairro das Moradias, outra inovação para a época. A presidir a este acto esteve o Presidente da República, Almirante Américo Tomás, no dia 27 de Abril, como relatou o então Correspondente deste NV, Fernando Dias. Recebido oficialmente nos Paços do Concelho pelo Presidente da Câmara Municipal, Dr. António Lopes Ferreira, e pela Banda de Música dos Bombeiros locais, chegou a Pinheiro de Lafões, onde antes tinha havido um jogo de futebol entre a equipa local e uma de Molelos, numa partida arbitrada pelo Dr. José Figueirinhas, que teve um empate a duas bolas como resultado final. As cerimónias oficiais iniciaram-se por volta das 19 horas, contando-se ainda com a presença do Ministro das Corporações e várias outras entidades oficais, assim como a Banda Marcial Ribeiradiense e a sua congénere já citada e ainda os Ranchos Folclóricos da terra em festa e o da Casa do Povo de Castelo de Paiva. Anos mais tarde, esta instituição social estendeu a sua influência às freguesias de Reigoso e Destriz, abrangendo assim esta parte ocidental do concelho de Oliveira de Frades, a fazer fronteira com Águeda e Sever do Vouga, já no distrito de Aveiro, facto que se veio a prolongar pelos anos fora. Num percurso intenso, Celestino Ferreira Martins foi ainda um dos fundadores do GDOF em 1945, presidindo ao respectivo Conselho Fiscal. Dinamizador nato, o seu nome está perpetuado no Parque Desportivo de Pinheiro de Lafões e na toponímia da sede do concelho, para que a sua memória se não esqueça. Em 2016, foi homenageado, no dia do Feriado Municipal, 7 de Outubro, a título póstumo. Com um passado em que esta freguesia pontificou nos domínios da cultura e do desporto, estão na nossa memória os jogos de futebol, as sessões de cinema, os espectáculos de teatro e outros, na altura algo de altamente importante nesta nossa região. Fruto em grande dose dessa sua meritória acção, a freguesia de Pinheiro de Lafões foi, assim, durante anos, um dos pólos mais dinâmicos a nível cultural, social, desportivo e recreativo do seu município, distando da sede poucos quilómetros. Chegou mesmo a ter energia eléctrica muito antes da povoação de Travanca, que pertencia à sede concelhia, e que constituía uma espécie de sombra negra entre a vila e Pinheiro, triste situação que manteve até aos anos setenta. Criando emprego, dando vida à sua comunidade, Celestino Ferreira Martins bem merece que se continue a recordar como bom exemplo de criatividade e cidadania, usando da sua influência para valorizar a sua terra e região. Erros e falhas também os teve. Mas a balança pende, a nosso ver e sem grandes dúvidas, para o lado mais positivo da sua vida, que deixou obra, feitos e um bom exemplo para quem veio a seguir. Carlos Rodrigues, in “Notícias de Vouzela”, Dez 2020

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Covid, Natal e Ano Novo...

Covid com Natal assim-assim E um fim de ano enclausurado pelo travão de mão Estamos quase a chegar ao triste Natal de 2020, muito provavelmente um dos mais pesados, em dor, da nossa história recente. Da alegria e boa disposição familiar de outros tempos, pouco fica, a não ser pelo uso das modernas tecnologias. As famílias, os amigos têm de o viver separadamente, sem o calor afectivo a que estamos habituados e que é uma forte e enraizada tradição da nossa civilização, ou mesmo de praticamente todas as que existem pelos quatro cantos do mundo. Este ano, por força de um vírus teimoso, ameaçador e destruidor, é a separação que comanda as nossas vidas. Sabemos que isto dói muito a quem por aqui vive. Mas é dilacerante para os emigrantes, para os familiares que estão longe, mesmo no nosso Portugal, e que tinham pelo Natal a oportunidade de darem todos os beijos e abraços que, em saudade, vão armazenando durante todo o ano. Com as restrições impostas, ainda que aligeiradas nesta quadra natalícia, mas sem a liberdade de sempre, com a possibilidade de circulação por estes dias, pede-se bom senso no número de pessoas que se reúnem em cada casa e família. Contrariamente ao que acontece noutros países, no nosso não se estabeleceu uma quota qualquer, mas sabemos que, por decisão própria assumida caso a caso, se vai tentar limitar ao máximo o número de contactos. A cautela e o medo ainda não desapareceram de todo e as precauções impõem-se. Se no Natal houve uma espécie de mão leve em sede governamental, não obstante se viver um novo estado de emergência, entre os dias 23 de Dezembro e 7 de Janeiro de 2021, quanto ao Ano Novo, o discurso e as regras são muito mais duros. No dia 31, as deslocações estão impedidas a partir das 23 horas, sendo ainda proibido circular nas vias públicas, em todo o território nacional depois das 13 horas de cada dia 1, 2 e 3, se não houver motivos oficiais para essas saídas. É ainda proibido andar de um concelho para o outro entre os dias 31 e 4 de Janeiro de 2021. Usou-se desta forma o travão de mão que tinha sido anunciado pelo Primeiro-Ministro, António Costa, agora, também ele, em quarentena pelos contactos estabelecidos em França, ao que se supõe. A zona de Lafões vive duas situações diferenciadas, com Oliveira de Frades em sistema moderado e Vouzela e S. Pedro do Sul no patamar acima (elevado), contrariamente ao que acontecia há uns tempos, mas as determinações atrás enumeradas aplicam-se em cada um destes casos. Por isso mesmo, Natal e Ano Novo, aqui, não passam por quaisquer diferenças. Entre estas duas datas essenciais na nossa cultura, neste ano de 2020, parece que vamos ter um Pai Natal de bom coração, que trará, a partir do dia 27, segundo as previsões oficiais, as desejadas e necessárias vacinas que façam espantar esta terrível Covid 19, que tantas tristezas e estragos tem trazido a todo o mundo. Numa ordem estabelecida em função das prioridades e das disponibilidades do respectivo material, será esta a marcha dos números que a Portugal vão caber: Dezembro – 9750 vacinas BioNTech/Pfizer; Janeiro -303225; Fevereiro – 42 900; Março – 487500. Ao todo, fala-se em 22 milhões de doses, para proporcionar duas tomas por pessoa, de uma forma gratuita e universal, mas com base na opção de cada um de nós. Com uma quadra festiva já meio estragada, se as famílias são as mais atingidas na sua essência, é devida uma palavra de ânimo e coragem para todo o sector económico, neste caso a restauração, a hotelaria, a cultura, que levam mais um rombo de todo o tamanho, a juntar a tantos outros desde Março até agora e não sabemos, infelizmente, por quanto tempo. Porque são complicados estes tempos, registe-se um Aviso PROCIV (que costuma ser usado em fase de tragédias ligadas a temporais ou incêndios), em que se pode ler o seguinte, recebido a 19/12/2020: “ Covid 19: use máscara, mantenha distância, areje espaços, não prolongue refeições. O Natal está à porta, não deixe o vírus entrar. Covid19estamoson.gov.pt/ANEPC”. Se o nosso desejo passa por podermos estar com todos os nossos familiares, que o sacrifício deste Natal e Ano Novo tenham a recompensa que nos pode vir a contentar em grande dose: se com o nosso comportamento evitarmos mais contágios, estará cumprida a nossa função solidária e cívica neste forte combate que nos deve mobilizar a todos. Boas festas, feliz Ano Novo, na medida do possível e apenas isso.. Carlos Rodrigues, in “Notícias de Lafões”, Dez 2020

Campanha de vacinação e alguns dados históricos

Prestes a começar uma monumental campanha de vacinação Na vida humana, dois séculos foram determinantes em várias doenças Há cerca de um ano, o mundo acordou com um perigo universal para a sua saúde. Vindo da China, o coronavírus, a Covid 19, para mais fácil entendimento, accionou todas as campainhas de alarme, em vagas sucessivas e palmo a palmo pelo mundo fora. De repente, veio ter com a Europa, caiu em nossas casas, saltou o Atlântico e o Pacífico, espalhou-se por toda a América, pela África, pela Oceania, sem deixar qualquer espaço sem a sua força destruidora. A saúde de milhões de pessoas foi afectada, a morte ceifou imensas vidas, de uma forma assustadora e cruel, sem a possibilidade, sequer, de se fazer qualquer luto. As relações humanas e sociais ficaram e estão altamente abaladas, as famílias separadas e o desânimo anda por aí à solta. Descontrolada está também a economia. Enfim, esta pandemia deixou-nos de rastos e continua a avançar por aí, em mutações sucessivas como esta que agora apareceu no Reino Unido, talvez, dizem, ainda mais perigosa. Sem medicamentos de cura, com os serviços de saúde a fazerem sacrifícios incríveis para salvarem vidas, a esperança, desde logo, veio a apontar no sentido da descoberta de uma vacina milagrosa, eficiente, credível, segura e sem efeitos secundários. A ciência mobilizou-se por todo o planeta. A comunidade sentiu, ela toda, que era por aí o caminho. Muita gente se atirou de corpo e alma para as experiências, para os laboratórios e a sua voz começou a ser ouvida, estimada e desejada, regra geral, salvo algumas excepções que nos horrorizaram a todos. Sem menosprezar ninguém, deixem que aqui se registe o nome de Henrique da Veiga Fernandes, um nosso conterrâneo de Viseu, que muito se tem destacado neste sector na Fundação Champalimaud. Finalmente, em tempo recorde, eis que, ao fundo do túnel, já vemos agora uma luz retemperadora, cremos nós. Com a BioNTech Pfizer, por um lado, a Moderna, também, e algumas outras hipóteses, as vacinas por todos ansiadas parecem estar no rasto da nossa salvação. Pelo meio, nada deste processo está isento de dúvidas, medos, incertezas e medos. Convém que se diga que todas as vacinações anteriores sofreram do mesmo mal. Se até ao século XIX, sobretudo com Pasteur e Koch, apenas as mezinhas populares e uns tantos assomos de medicamentos mais científicos eram os remédios encontrados, em campanhas de vacinas nem sequer se falava, propriamente dito. Diremos então que os séculos XIX e XX foram essenciais e determinantes em descobertas e suas aplicações, estas, muitas vezes, debaixo de críticas e mil intrigas. Para nos apercebermos de quão demorada foi a entrada em cena, com generalizada atenção e crédito, das primeiras campanhas de vacinação à escala mundial, é o ano de 1956 que faz toda a diferença, quando se tentou combater a varíola, que, na Europa, por exemplo, tinha um índice de mortalidade entre 8 a 20%. Aliás, logo nos princípios do século XIX esta doença motivara as primeiras tentativas a este propósito. Uma personalidade destacada, ainda no século XVIII, em 1768, Catarina, a Grande, na Rússia optou por ser vacinada, ela que vira o sofrimento do marido, entretanto assassinado. Retomando as referências a Pasteur, foi contra esta maleita que iniciou os seus estudos e testes em animaiais domésticos, as suas galinhas e ovelhas, mas é a anti-rábica, em 1885, que se torna a sua maior coroa de glória. Por sua vez, Koch, em 1882, isola e identifica a bactéria causador da tuberculose, um outro passo de grande importância para o mundo e mesmo assim ela continuou pelos tempos fora, como se viu no nosso Caramulo, até cerca de meados dos anos 1900. Com várias frentes nestes combates, a polimielite, de que sofria o Presidente dos EUA, F. D. Roosevelt, e mais tarde a Hepatite B (1981), o sarampo, a papeira e a rubéola, estas três doenças combatidas com uma só vacina (1987), foram outras degraus da escada que tem vindo a ser subida muito devagarinho e com todos os cuidados possíveis. O que se vem fazendo em Portugal Data do ano de 1965, o PNV – Plano Nacional de Vacinação – em Portugal, destinado a travar uma ampla frente em que se englobava a polimielite, a tosse convulsa, a difteria, o tétano e a varíola, estando, hoje, a lutar-se contra 12 agentes. Quanto ao sarampo que aparecia em surtos de dois em dois anos, lança-se a rotina da vacinação aos 15 meses de idade, a partir de 1974. Em 2006, face a um novo flagelo, passa a vacinar-se a doença do HPV, o cancro do colo do útero. Se o imperador chinês já fizera uma inoculação por volta de 1600, naquilo que ficou conhecido como a variolação, vamos agora entrar na fase da renhida batalha contra a Covid 19, dizem que a partir do próximo dia 27 deste mês, em acção coordenada em toda a União Europeia, passando, depois, no primeiro semestre de 2021, o nosso país a ter a batata quente da sua distribuição em massa, na altura em que preside ao Conselho Europeu. Como sempre tem acontecido, já se ouvem as vozes cépticas de muitos e variados movimentos anti-vacinação. Em contraposição, anuncia-se que estão a ser reforçados os mecanismos de segurança e controle, como muito bem têm vindo a alertar o novo Coordenador Nacional desse Plano, a Direcção-Geral de Saúde e todas as diversas entidades científicas e políticas que estão ligadas a estas questões. Diz-se que a resposta para a erradicação da Covid 19 está nas vacinas, mais do que nos remédios que ainda se não conhecem, sequer. Importa é que tudo aconteça com normalidade e com altos e bem definidos critérios a aplicar em cada tempo e em cada sector da sociedade, sabendo nós que há prioridades a seguir, como é lógico e humanamente aceitável. Que a sucesso nos acompanhe, que dele bem precisamos. Carlos Rodrigues, in “Noticias de Vouzela”, Dez 2020

Breve história do dinheiro em Lafões

O dinheiro e moedas em Lafões De Roma aos nossos dias Andam noventa por cento das pessoas altamente preocupadas com a falta de moeda, isto é, de meios ou dinheiro para saldar seus compromissos. As restantes, talvez, vivam na ansiedade de saber como guardar ou valorizarem a riqueza que têm. Tudo se prende com ser ou não possuidor de uma qualquer fonte de rendimentos. Sempre assim tem sido ao longo das vidas humanas, só que com graduações ou valorizações diferentes. Ter muito ou pouco, afinal, até pode ser relativo. Vamos hoje tentar perceber que dinheiro foi havendo no bolso dos nossos antepassados e nos nossos, na actualidade. Felizmente que a arqueologia nos tem dado respostas quanto a esse importante tema, por aqui, sobretudo desde o império romano. Mas a moeda, enquanto tal, já carrega muitos mais anos no seu historial e isso pode comprovar-se em várias partes do mundo, desde há milénios. Antes, porém, de existir o metal e a sua transformação em moeda propriamente dita, as trocas directas, o escambo, eram a regra geral. Dava-se isto em troca daquilo. Como se compreenderá, com a evolução dos tempos e a complexidade das transacções, esses métodos começaram a revelar-se impossíveis de pôr em prática. Enquanto se precisava de um pouco de farinha ou um naco da carne, tudo fácil. O pior foi quando se teve de adquirir um touro e na outra parte só se poderia avançar com galinhas e ovos. Quem diz isto, facilmente imaginará outros negócios.... Sendo fascinante a história do dinheiro e do seu valor, não precisamos de recuar muito tempo, talvez apenas umas décadas para ficarmos a saber, como acontecia nas nossas terras, que tudo se resumia a um bom par de notas e não eram sequer de mil escudos, mas de 100. Por um vitelo (e tinha de ser bom), 7 desses pequenos papéis já faziam uma grande festa. Por uma courela, igualmente. Hoje, aos preços actuais, com 3.5 euros, ou seja o equivalente aos tais 700$00, pouco mais se adquire que um mero jornal. Convém nunca se tirarem ilações directas. Nessa altura, os ordenados andavam na ordem dos poucos escudos por dia e, em 2020, é o que é. Só se compreende o valor do dinheiro, mais ou menos, se virmos o que com ele se pode adquirir e mesmo assim nunca se podem tirar lições muito certas ou até adequadas. Esta longa introdução tem a ver com o facto, por exemplo, de, numa obra de Jorge Adolfo M. Marques, “ Lafões – História e património, Edições Esgotadas, Viseu, 2014”, termos encontrado uma serie de moedas que se podem observar, nomeadamente, nos museus municipais de Oliveira de Frades e Vouzela. Antes de prosseguirmos com mais considerações, que as vamos fazer a propósito da evolução do dinheiro ao longo dos tempos, vamos ver as “riquezas” que então por aí se vêem: um denário de T. Carisius, 46 aC, oriunda do Castro da Coroa, Museu Municipal de Oliveira de Frades (MMOFR); um outro de Tibério (14-37), idem; um de Augusto (2aC-4aC), MMOFR; outro de Cláudio (41-45), Idem; um asse de Augusto (27-14aC), Museu Municipal de Vouzela (MMVZL); um de Tibério (14-37), Idem; um Antoniniano Galeno (266), Castro da Cárcoda; um follis de Constantino (320-324), MMVZL; um outro, série urbana (330-331), idem: dois follis do Constâncio (355-361), Castro da Coroa, MMOFR; uma moeda do Imperador Arcádio (388-392), idem. Refere-se, neste mesmo livro, que em Viseu foram cunhadas duas moedas visigóticas. Já agora, para não sairmos destas mesmas eloquentes páginas, abordemos uma curiosidade relacionada com o Foral de Lafões e com o pagamento das portagens: para uma carga maior, transportada no dorso de um cavalo ou mula era um preço, para uma menor, em burro, um valor inferior e ainda menor se fosse carga costal. Vinagre, sal, carneiros e outros animais, toucinho ou marrão, pescado ou marisco, castanhas, laranjas e outras frutas, azeite, escravos, panos, cera, mel, couros, peles, aço e metais, telhas, louças, moinhos e mós, etc, tudo era taxado. Entretanto, ficavam isentos os seguintes produtos: pão cozido, queijadas, biscoitos, farelos, ovos, leites, farinha para moer, canas, vides, carqueja, tojo, palha, vassouras, pedra, barro, lenha, erva, carne e certos panos. Importa dizer-se que tudo se pesava em quintais, arrobas e arráteis e suas respectivas porções e tudo se media em almudes (líquidos) e alqueires (cereais) com as suas divisões. Uma breve viagem pela marcha das trocas e do dinheiro Aqui chegados, vamos ter de recuar cerca de 10000 anos para nos depararmos com o gado como moeda de troca. Houve, entretanto, as conchas, os grãos, o sal (que já se usava para esses fins no império romano e os portugueses seguiram tal exemplo muito depois), a servirem também como meio credível de pagamento. Na vanguarda das inovações, a China apareceu com as suas primeiras moedas em bronze 1000 anos antes de Cristo, enquanto que, na zona da actual Turquia, surgiram em 610aC as de prata e ouro. O papel em cédulas nasceu também na citada China (618) e o primeiro banco europeu na Suécia em 1657-1661. Com a moeda a só ter interesse se tiver aceitação generalizada, ela é vista como meio de troca, de unidade de conta e reserva de valor. Nos nossos dias, já tivemos o escudo e agora o euro. Antes da república, o real e, antes deste, os morabitinos... Ontem foi de metal. Deu o salto para o papel, agora para os cartões e já se caminha para o seu desaparecimento físico, palpável, sabendo-se que há valor mas apenas quase na nossa imaginação. Pouco falta para o dinheiro ter de passar, praticamente, para um acto de fé. Ou se acredita que o há, ou não... Carlos Rodrigues, in “Notícias de Lafões”, Dez 2020

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Conterrâneo de S. Pedro do Sul com longo sofrimento na 2 GG

Sampedrense em duro sofrimento na Segunda Grande Guerra No conflito que agitou praticamente todo o mundo entre 1939 e 1945, a II Grande Guerra, não teve oficialmente Portugal presente nos teatros das operações, pelo menos em território europeu, que no então Ultramar há a registar vários confrontos, como aqueles que aconteceram em Timor, por exemplo. Com uma aparente e confessada neutralidade, a política do Estado Novo foi a de ficar de fora, mas a dar sinais às partes em confronto, aliados, por um lado, e as forças do eixo, por outro, que ora estava num ponto do campo, ora noutro, ainda que se tenha notado uma maior aproximação aos exércitos alemães, como se pode ver com a exploração mineira, sobretudo, do volfrâmio, pelo menos até 1943, ano em que acabámos por ceder a Base das Lajes aos americanos e ingleses. Uma outra área em que veio a intervir directamente foi a da permissão da estadia de espiões que se passeavam por Lisboa e Cascais às mil maravilhas. No entanto, em termos militares, o nosso país pôs-se ao lado, aliás, um pouco até como consequência do Pacto Ibérico (1939) para uma não agressão entre Portugal e a Espanha. Mas houve momentos em que a tal neutralidade esteve por um fio. Não é, porém, da história geral deste período negro que queremos hoje falar, muito embora os números e os horrores vividos sejam de, ainda hoje, nos parecerem uma coisa de outro mundo, tal a selvajaria que os caracteriza. Com base na revista “Visão História”, nº44, de Novembro 2017, onde colhemos as informações que aqui estamos a tratar, contam-se, tragicamente, 80 millhões de mortos, cerca de 20 milhões de vítimas do holocausto, milhões de prisioneiros em mais de 40 mil campos de concentração, 1 milhão e 600 mil em trabalhos forçados, dos quais 450 mil mortos. É neste último capítulo, o dos trabalhos forçados, que vamos buscar um sampedrense que viveu esses trágicos tempos. Foi essa referência, muito pessoal, que nos captou a atenção. Nessas ondas de atroz sofrimento eram rostos de pessoas que ali estavam, ainda que, à mão dos alemães, assim não fossem considerados. Num excelente trabalho de pesquisa, ainda em curso, a Universidade Nova de Lisboa já encontrou alguma dessa nossa gente que teve essa triste sorte. Entre os casos já tratados, aparece Paulo da Silva, de Valadares, S. Pedro do Sul, cortador de pedra de lava em Volvic (França), país onde trabalhava. Assim, em Março de 1944, foi preso e levado, depois, em Abril, pela GESTAPO para a Alemanha. Antes, tinha sido sido ferido numa perna. Crê-se que pertencia ao grupo dos resistentes, porque, no momento da sua prisão, vivia num Hotel da família Martinon, onde se acolhiam aqueles que lutavam pela liberdade francesa. Embarcou num comboio que tinha como destino o campo de concentração de Neuengamme, onde ficou, no bloco 11, até 25 de Maio de 1944. Passou depois por Wobellin, de onde foi libertado pelas tropas inglesas em 2 de Maio de 1945. Regressou, de novo, a Volvic. Narra-se, no destaque que a Visão dá a Paulo da Silva, que, aquando da sua prisão, o vice- Cônsul de em Vichy fizera diligências no sentido de denunciar esta situação, mas não evitou que tivesse seguido tão duro caminho na sua vida. Vivendo como que enterrados vivos, muitos foram aqueles que não resistiram à exigência dos trabalhos que tinham de executar em condições miseráveis, de fome, e de extrema agressividade, para além dos efeitos de um clima altamente adverso. Felizmente, Paulo da Silva logrou regressar ao seu ponto de partida, a França, mas não sabemos se alguma vez voltou à sua terra, Valadares. “Condenado” aos duríssimos trabalhos forçados, ou teve muita sorte, ou a sua resistência fez com que não tivesse perecido, o ponto final tantos de seus companheiros de desgraça. Se alguns desses trabalhadores estrangeiros na Alemanha aí chegavam por força de alguns engajadores, vimos já que com o nosso conterrâneo assim não aconteceu. Apanhado nas malhas da luta pela resistência, sinal da sua já notória consciência política e inserção na sociedade francesa e na comunidade onde vivia, estava naquele local na hora errada. E daí partiu para o terror dos campos alemães. Comprova-se, com este exemplo e muitos mais, que alguns portugueses, de certa forma e nalguma medida, não ficaram imunes a esta tragédia mundial, de 1939 a 1945. Com os testemunhos recolhidos nesta investigação, vê-se bem o que de trágico eles viveram. Paulo da Silva foi um desses heróis, ido de Valadares para tão negro destino. Recordar esta passagem da sua vida é relembrar um dos períodos mais dolorosos e dramáticos de toda a história (des) humana. Para memória futura, aqui deixamos esta curta descrição e a nossa humilde homenagem. Carlos Rodrigues, in “Notícias de Lafões”

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

João Ramalho, de Vouzela, marcou a história de S. Paulo, Brasil

Um lafonense nos primeiros tempos da construção do Brasil Indo de Vouzela, João Ramalho, veio a ser fundador da poderosa cidade de S. Paulo Carlos Rodrigues Numa certa altura, ninguém sabe quais as razões que levaram à sua debandada, João Ramalho arrancou de Vouzela, sua terra natal, e veio a cair no Brasil. Atracou ali para os lados de S. Vicente, perto da futura cidade e metrópole de S. Paulo de que foi um dos fundadores. Por essas terras fez vida e daquela que se escreve com um V grande, mesmo que com muitas peripécias e controvérsias pelo meio. Até hoje, a história ainda não encontrou respostas para essa sua viagem e destino, nem para a data em que tal aconteceu. Mas o certo é que os livros se encarregaram de registar o seu contributo para a construção desse imenso Brasil. Sabe-se ainda que nas primeiras décadas de 1500, logo após a chegada de Pedro Álvares Cabral, ele por ali andava e em grande azáfama, entre os índios, a estabelecer pontes, a derrubar uns muros e a construir outros. Tanto assim foi que, em 1531, quando Martim Afonso de Sousa, em Fevereiro, ali veio a iniciar funções, parando na Ilha de Cananeia, perto de S. Vicente, uma das primeiras pessoas com quem estabeleceu contactos foi com o nosso João Ramalho. Reiniciou-se então uma sua grande caminhada. Mas quem era João Ramalho? Quase sem sombra de dúvidas, nasceu em Vouzela, tendo como nome completo João Ramalho Maldonado, filho de João Maldonado e Catarina Valbode ou Valgode. Foi casado com Catarina Fernandes (das Vacas). Diz-se que dela chegou a ter um filho. Aliás, o facto de nunca dela se ter separado veio a criar-lhe altos problemas com a Igreja local e, sobretudo, com os Jesuítas que também ali se foram instalar... Atirado para um mundo diferente, com outras vivências e outros valores, cedo, porém, se adaptou e se entranhou nessa cultura local. Fruto da sua expansiva maneira de ser, tratou logo de encontrar uma família como porto de abrigo e veio a descobri-la no índio Tibiriçá, que acabou por lhe dar a sua filha Bartira (muito mais tarde, Isabel Dias), com quem passou a viver maritalmente, mas sem abandonar outras “conquistas”, tal foi a prole que deixou. A propósito deste nosso conterrâneo, Synesio Sampaio Goes Filho Martins Fontes, em “Navegantes, bandeirantes, diplomatas, S. Paulo, 1999” escreveu que “... Nos primeiros tempos da fixação dos brancos no planalto de Piratininga, estes se aproveitaram das guerras intertribais para fazer escravos. Os tupiniquins de João Ramalho, para dar o exemplo inicial, tinham frequentemente os portugueses como aliados no apresamento de índios de outras tribos. Pouco a pouco, os portugueses foram assumindo o comando das acções e estendendo suas actividades cada vez mais longe da sede... “ (p. 97). Por estas deduções, chegou a haver quem, algo impropriamente, o colocasse como um dos primeiros bandeirantes, mas esta figura histórica é um tanto mais tardia. Veio depois, mais concretamente, com a febre do ouro. Mas, em certa medida, por tudo quanto foi desbravando naquelas paragens dos arredores de S. Paulo não lhe fica mal que assim o considerem. Um notável acção política Numa longa, real e literalmente, caminhada, João Ramalho conseguiu impôr a sua força e a sua influência, nas vertentes das lutas, da diplomacia e da política. Os documentos, se são omissos quanto às suas origens e motivações na hora da partida, que pode ter sido por ambição, por acaso, ou até por questões de justiça, como o degredo, não o são, de maneira nenhuma, quanto aos seus feitos. Vivendo para os lados de S. Vicente, foi estendendo o seu domínio pelo planalto de Piratininga além, ora fundando novas terras, ora pegando noutras e nelas gravando o seu selo, como bem notou C.J. Moreira de Figueiredo, na separata da revista Beira Alta, de 1954, deixando registadas estas palavras: “ ... Bastaria a conservação do nome do povoado que fundou (Santo André da Borda do Campo) e cujo paço municipal e cujas despesas custeou de seu bolso quando foi elevada a vila, em 8 de Abril de 1553, para lhe perpetuar o nome, mas é verdade que a sua vida tem mais amplo e profundo significado. É que a personalidade de João Ramalho é como que inseparável da idiossincrasia paulista e, porventura, também da própria fundação de S. Paulo... “ Foi de tal maneira impressivo o seu trabalho, que nas comemorações do quarto centenário da “descoberta” do Brasil (1900), esta cidade, como forma de passar a ter um seu herói que, à sua maneira, fizesse esquecer a supremacia da figura de Pedro Àlvares Cabral e do Rio de Janeiro, alvitrou que essa categoria recaísse sobre os ombros do nosso ilustre lafonense que consideram a alma grande do paulismo. Para esse fim, José Luís Alves “... propôs aos membros do Instituto a realização de pesquisas em arquivos portugueses e paulistas no sentido de encontrar o testamento original de João Ramalho (... ) para mostrar a primazia de JR no episódio do respectivo “descobrimento”. Se isto pode ter algo de fantasia, não deixa, porém, de ser marcado pela importância que em S. Paulo se lhe tributa, que não se apaga com o passar dos séculos... Com o açucar como grande produto desses tempos, os engenhos iam avançando passo a passo, como o de S. Vicente em 1533. A par da economia, as suas preocupações, além da defesa, viraram-se para outras áreas, muito em especialmente a da administração, tendo sido vereador inclusivamente em algumas das terras que criou ou ajudou a erguer. Foi, assim, notável, a sua obra a todos os títulos. No mar de rosas em que por ali se foi navegando, os espinhos cravaram-se também bem fundo na vida deste nosso herói. Como estava preso pela matrimónio à sua esposa vouzelense, foi muito dificil para os Jesuítas aceitarem a mancebia, como consideravam, com Bartira. Por esse facto, fizeram-lhe a vida negra e obrigaram-no a passar por maus bocados e momentos difíceis, como o da excomunhão. É curioso mais este facto: um dos fundadores da Companhia de Jesus, com Santo Inácio de Loyola, tinha sido o Padre Simão Rodrigues de Azevedo, outro vouzelense, que chegou a ser superior na Península Ibérica e em Portugal, a quem os padres no Brasil se dirigiam com as mais variadas queixas a seu respeito. Entretanto, mais tarde, vem a cair nas graças do Padre Manuel da Nóbrega e isso reabriu-lhe muitas portas, incluindo a do casamento com Bartira( Isabel, como vimos, depois desse acto religioso). Dando algumas notas sobre o seu percurso de vida, no livro “1500 – achamento do Brasil”, referem-se vários pormenores de seu testamento que parece ser considerado bastante credível. Eis alguns tópicos: “ ... Ramalho é minha alcunha por causa da minha barba, que foi sempre ramalhuda. Maldonado é apelido de meu pai... Em Vouzela, onde nasci, despeço-me de Catarina, a minha esposa e parto para Lisboa... Abalo de Vouzela de coração apertadinho... Suponho e bem que nunca mais tornarei a ver a Catarina, pois o meu destino é o Brasil tão distante... “ Num breve resumo cronológico por nós elaborado num trabalho académico intitulado “ João Ramalho – um contributo para a mestiçagem e colonização do Brasil”, eis alguns tópicos: 1511/1513 (?) – chegada ao Brasil; 1532 – Colaboração com Martim Afonso de Sousa na fundação de S. Vicente; 1553 – Cooperação com o Padre Manuel da Nóbrega, jesuíta, na construção da povoação de S. Paulo de Piratininga; 1554 – Nomeação, após votação, para Capitão-Mor de Piratininga; 1557/1558 – Eleição para vereador da Câmara de Santo André; 1564 – Eleição e recusa do cargo de vereador em S. Paulo; 1580/1582 (?) – Possível morte. Numa vida muito recheada e muito preenchida, a figura de João Ramalho ainda hoje atrai a atenção dos historiadores e investigadores, portugueses, brasileiros e mesmo de outras nacionalidades, porque se reconhece que por onde passou se fez notado pelas mais variadas razões. Algumas delas aqui se registaram como forma de abrir o apetite pelo conhecimento mais profundo deste nosso conterrâneo, nascido em Vouzela, para terminar os seus dias lá bem longe em terras do Brasil... Carlos Rodrigues, in “Ecos da Gravia”, Dez 2020