sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021
Autor vouzelense com peças de teatro...
O teatro como forma de expressar sentimentos
“ A inauguração”, uma peça de Luís Valgode de Moraes Carvalho
CR
Com raízes em Vouzela, Luís Valgode de Moraes Carvalho, entre muitas facetas de sua vida, como a de militar, dedicou-se também à escrita de peças teatrais. Uma delas, “ O tributo das donzelas(1962)” deu brado nesta vila e ficou para sempre na memória daqueles que a levaram a palco e de quem a viu e escutou. Numa obra diversificada, anotam-se ainda “A moira do Castelo”, “O sofá encarnado”, os “Botões brancos” e “A inauguração” de que nos ocuparemos já de seguida. Tendo iniciado este seu contributo literário em 1962, passou por África, concretamente por Moçambique, ao serviço das forças armadas, mas também não deixou de viajar pela Europa e até pela Ásia.
Na contextualização da citada obra. “ A inauguração”, dela escreve no livro em questão Serafim Lobo, seu ex-colega de Liceu, que se trata da descrição de “... um ambiente rústico, com formal equilíbrio... “, numa “... intriga, bem debuxada, de linhas sóbrias, depois de aludir ao comércio interdito e vincar o triunfo amoral de um emigrante, que um remorso tardio calcina e mata, tem o desfecho próprio... “. Foi mesmo este tema da emigração que nos abriu o apetite para este comentário jornalístico.
Como que a dar o mote para o que se iria passar nesta peça de teatro, Luís Valgode de Moraes Carvalho diz-nos que tudo nasceu a partir de uma sua caçada na Serra de Monforte, à beira da Espanha, e da pernoita num lugarejo que mostrava ter pouco de tudo. Esse foi o rastilho para o que surgiu em papel. Entre a dúzia de personagens, retratemos o Manuel da Eira, o brasileiro, feito Comendador, em “vidas” que se desenrolaram em inícios do século XX.
Numa altura, então, em que a emigração para o Brasil era uma constante, levando milhares de portugueses para aquelas terras, fácil lhe foi caracterizar o papel deste cidadão que tinha ido e vindo, mais tarde, como é óbvio, com um razoável pé de meia. Foi com estes cobres que ali se tornou famoso, isto em teatro, bem se vê.
Constatado o facto de por aquelas zonas ter havido o costume de se desfazerem dos mortos de qualquer maneira, levando-os para longe, cemitério da vila, logo ali a malta da aldeia tratou de pedir ao brasileiro que os ajudasse a construir uma igreja e mesmo um cemitério. Conhecendo-o como alguém que empresta dinheiro, mas a altos juros, descobre-se que nele há massa e em barda, razão pela qual estes pedidos faziam todo o sentido...
Entra aqui o Sousa que grita para os colegas de conversa: “ O brasileiro vem aí. Já tem autorização para se construir o cemitério. O Governador Civil até lhe disse que era um lindo gesto pagar todas as despesas... “. E assim o fez: “... Deu um ror de dinheiro àquela gente toda e agora é o Senhor Comendador... “
Por entre favores e negociatas, incluindo a de abrir a porta para outros emigrantes a troco de dinheiro, o Comendador chega a ser apelidado de interesseiro e tudo isto em zona de contrabandistas. Com os trabalhos em plena marcha, adoentado, o brasileiro desabafa o seu sentimento de que, mesmo tendo pago tudo aquilo, não querer ser o primeiro a fazer a respectiva inauguração como utente. A páginas tantas, em horas de aflição, fala nos tormentos que viveu, porque “... Tive de ir trabalhar para o Amazonas, as piores terras do Brasil, para as florestas, para a selva, onde se tira a borracha das árvores, onde só há febres e muito trabalho... “. Nota: este relato encaixa que nem uma luva no livro de contos e memórias “ A selva” de Ferreira de Castro, o que torna mais verosímil todo o enredo da peça e a maestria do seu autor, o nosso conterrâneo de Vouzela.
Para se inaugurar o cemitério, andou o brasileiro às voltas para ver se se arranjava um defunto. Não tendo este aparecido, simulou-se um enterro com uma urna cheia de pedras. O certo é que, para mal dos seus pecados, brevemente o Comendador vem a falecer e vai ser dos primeiros a ir para a “casa” que ajudou a construir, num azar dos azares.
Com este poder imaginativo, este nosso autor mostra-nos a glória e a queda de um emigrante que procurou fazer vida lá longe, em Manaus e arredores. Triste sina essa, de ontem e de hoje.
O Tributo das Donzelas
Nos jornais “Notícias de Vouzela” dos dias 16 de Setembro e 1 de Outubro de 1962 fazia-se referência a esta peça, que “Constituiu assinalável êxito”, com um enorme “brilhantismo atingido por esta realização simples de amadores, ensaiada em poucas semanas e apresentada, ante grande expectativa, no sábado, 22 de Setembro”, no cenário natural do Jardim D. Duarte de Almeida.
Tendo nela participado um vasto elenco, como se pode ver na fotografia, algumas das pessoas que nela intervieram ainda estão connosco, como o Alberto Correia, o Manuel Tavares e tantos outros e outras, tudo isto fruto da imaginação e criatividade de Luís Valgode de Moraes Carvalho, que aqui se recorda, uma vez mais...
Carlos Rodrigues, in “Notícias de Vouzela”, Fev 2021
terça-feira, 2 de fevereiro de 2021
A caminho do fim do terror...
260 e 1540. Dois números, duas tragédias, a de mortes por Covid 19 e a de novos infectados, de acordo com as notícias de hoje, 2 de Fevereiro de 2021. São ainda sinais da dureza desta doença que atingiu praticamente todo o mundo, mas transportam - e é isso que desejamos acreditar - já um pouco de esperança, porque algo distantes, para baixo e para melhor, dos valores de há ainda poucos dias. Se estes dados forem consistentes, se todos formos responsáveis, isto começa de abrandar. Que assim seja. Entretanto, no meio de tudo quanto faz com que os nossos dias sejam negros, aparecem por aí exemplos de tudo quanto não deve, nem pode ser feito. O que se está a passar com as vacinas, um bem essencial para todos nós, um pão para a boca de quem dele necessita, não tem qualquer explicação plausível. Este furar do sistema a cada esquina é a face pior que podemos mostrar ao mundo e azeda mesmo o nosso bem-estar e a crença nas instituições, que assim sai minada e debilitada. Quem nos governa tem de arrepiar caminho e o Presidente da Taskforce não pode, nem deve, repito, entrar em discurso por domínios que têm de estar arredados deste combate em favor da nossa saúde. Misturar esta, que tão em baixo anda com política, é de um mau gosto atroz. Merece a minha humilde condenação. Posto isto, como diz o nosso conterrâneo de Viseu, Henrique Veiga-Fernandes, ilustre cientista da Fundação Champalimaud, vacinar, vacinar, vacinar é preciso. Mas com regras e com ética. Com muita ética...
quinta-feira, 28 de janeiro de 2021
Padre Simão Azevedo, vouzelense e fundador da Companhia de Jesus....
Gente de Vouzela que pertence à grande História
Padre Simão Rodrigues de Azevedo, fundador da Companhia de Jesus
CR
Homem da corte real, o vouzelense Simão Rodrigues de Azevedo (1510/1579) cedo evidenciou fortes dotes intelectuais e tanto assim aconteceu que, com uma bolsa da coroa portuguesa, foi estudar para o prestigiado Colégio de Santa Bárbara em Paris (1527), onde estabeleceu contactos com Santo Inácio de Loyola e com quem veio a fundar, com outros colegas, a célebre Companhia de Jesus. Esse feito colocá-lo-ia, de imediato, no pedestal da história a nível mundial. Pelo meio, teve algumas manchas, mas o seu nome não pode, nunca, desviar-se da importância que teve no percurso inicial desse poderoso esteio da Igreja a partir do século XVI.
No estabelecimento escolar francês que foi frequentar pontificava o grande mestre, Diogo de Gouveia, o Velho, que dirigia o citado Colégio. Frequentando as Artes, obteve o grau de mestre, em 1536. Estudou também Teologia e foi ordenado sacerdote, com seus colegas de caminhada em Veneza, no ano de 1537, para mais facilmente virem a ser aceites como obreiros iniciais da Companhia, que fora então fundada, em 1534, por Inácio de Loyola, o francês Pedro Fabro, os espanhóis Francisco Xavier, Alfonso Salmerón, Diego Laynez, Nicolau de Bobadilla e o nosso conterrâneo Simão Rodrigues de Azevedo.
Vivendo-se um agitado período na Igreja Católica, com a cisão Protestante, o Concílio de Trento impusera medidas duras de combate àquelas novas doutrinas e a Companhia de Jesus constituiu um seu poderoso braço forte em evangelização pura e no campo do ensino e da pedagogia, na fase da chamada Contra-Reforma.
Depois de algumas hesitações, o Papa Paulo III, no ano de 1540, confirmou esta nova Ordem religiosa pela bula “Regimini Militantis Ecclesiae”. Estava assim dado o passo decisivo em que interveio, como sua pessoa forte, Simão Rodrigues de Azevedo, que se veio a notabilizar, como veremos adiante, pelas funções directivas que veio a abraçar.
Antes, porém, entendemos que é hora de recuarmos até aos séculos XII e XIII para recordarmos um outro grande vulto da ciência (medicina) e da religião, também natural de Vouzela, S. Frei Gil. Tal como aconteceu no século XVI, também este Beato/Santo frequentara a alta roda do poder régio, vindo a obter o mesmo tipo de distinção, uma bolsa para estudar em Paris, depois de ter andado pelas escolas de Santa Cruz em Coimbra. Ligou-se aí aos Dominicanos e nessa Ordem foi elemento altamente destacado. Repetida em parte a história, o Padre Simão seguiu-lhe as pisadas alguns séculos depois, mas foi um pouco mais longe ao ter no seu curriculum o facto de ter sido um dos fundadores da Companhia de Jesus.
Nesta Instituição, calcorreou diversos degraus desde o ponto de partida inicial até às viagens por Roma e outros locais, passando, já na fase da consolidação do projecto lançado, pelo seu contributo na fundação da Província em Portugal, de que foi o primeiro responsável, a pedido expresso do Rei D. João III. No nosso país, criou a primeira Casa em 1542, o Colégio de Santo Antão o Velho, um outro em Coimbra (1542) e de novo em Lisboa (1553). Dirigiu ainda o Colégio das Artes, naquela cidade (1555) e a Universidade de Évora (1559).
Atendendo a estas datas e à futura ligação da Companhia ao Brasil, tendo esta cruzado com o nosso João Ramalho, em S. Vicente e em S. Paulo, de que foi um dos fundadores, é muito natural que as cartas enviadas pelo Padre Manuel da Nóbrega, jesuíta naquelas paragens e em choque, inicialmente, com o grande JR, tivessem alertado o Padre Simão, enquanto responsável em Portugal da nova Instituição, para essa figura vouzelense, seu conterrâneo, que tanto se notabilizava no Brasil e que tantos problemas suscitava à nova Ordem. Deve dizer-se que as queixas apresentadas tinham a ver com a sua vida pessoal e com o facto de viver com Bartira, o que era visto como algo que colidia com os princípios da Igreja, uma vez que se não sabia se sua esposa já teria morrido, ela que ficara por Vouzela quando ele partiu para o lado de lá do Atlântico.
De preceptor de D. João III aos problemas diversos
Subindo a nível muito alto na Companhia de Jesus, tendo sido seu primeiro Provincial em Portugal, em 1552, quando aqui se verificaram divisões internas, o Padre Simão foi nomeado Provincial de Aragão, Valência e Catalunha, o que enfureceu alguns de seus compatriotas. Seguiu-se uma fase negra na sua vida. Fruto de acusações de desobediência, viu-se condenado a não regessar ao seu país, penas que, em parte, Santo Inácio de Loyola vem a perdoar.
Preceptor do Rei D. João III, assim como Damião de Góis, uma outra das questões de que é objecto, em condenação pública, prende-se com o facto de ter testemunhado contra este seu amigo, quando Damião de Góis foi julgado pelo Tribunal da Inquisição. Dizem as cópias do respectivo processo que o Padre Simão, em vez de o defender, ainda o ajudou, com seus argumentos, a condenar. Sendo este um peso que nunca mais deixou de carregar, para a História ficaram os seus muitos feitos notáveis, mas também esta nódoa negra.
Importa que se diga que os pratos da sua balança de vida pendem muito mais para o lado das boas obras que para o das fraquezas que teve. Por tudo, Vouzela tem razões para se orgulhar deste seu Filho, que está sepultado na Igreja de S. Roque, em Lisboa, porque se instalou na Casa Professa da Companhia, em 1574, por alturas do seu retorno à pátria-mãe.
Quanto à Companhia que ajudou a fundar, o seu papel é sobejamente conhecido até aos tempos em que o Marquês de Pombal a condenou e nos anos, mais tarde, em que voltou a ressurgir. Nos campos da evangelização, da ciência e da educação foi um grande expoente, ainda que com muitos erros pelo meio.
O Padre Simão Rodrigues de Azevedo deixou nela páginas douradas e são essas que não podemos deixar de relevar.
Carlos Rodrigues, in “Notícias de Vouzela”, Jan 2021
Presidenciais, a vitória de um homem só, Marcelo Rebelo de Sousa...
A vitória total de um homem só
Marcelo venceu em todos os concelhos do país
Caminhava-se para o fim da jornada eleitoral presidencial do passado dia 24, alta e chuvosa noite, e, ao volante de seu carro, o que víamos era um homem solitário, vindo de Cascais, de sua casa, para a Faculdade de Direito de Lisboa, onde iria proclamar a sua vitória. Tal como fizera durante a campanha, Marcelo Rebelo de Sousa apresentou-se assim, só, sem bengalas, sem apoios visíveis, e, no entanto, era o próximo Presidente da República, em mandato renovado com mais votos e mais percentagem do que em 2016, quando alcançou, pela primeira vez, o elevado cargo do mais alto magistrado da nossa nação. Eram sinais novos, ou nem por isso, que seguiam naquela viatura. Sozinho, carregava os destinos de um país em dor e feridas sangrentas, como bem frisou nas suas primeiras palavras após a sua significativa vitória.
Como que a abrir as portas a um domingo de votação, contestado em muitos sectores por não ter sido adiado este acto eleitoral, que a Constituição (a precisar de ser revista e arejada) acabou por não permitir, o céu apresentou-se mais ou menos limpo e a chuva da véspera, forte e dura, deu lugar a um tempo mais ameno. Contrariamente ao muito que por aí se disse a respeito da possibilidade de uma abstenção monstruosa, tal, felizmente, se não veio a verificar. A afluência às urnas, sendo baixa e lastimável, não foi, no entanto, o desastre que muitos vaticinaram.
Nem as trapalhadas surgidas, por exemplo, com os boletins de voto que traziam oito nomes para sete candidatos, uma falha que cheira a desleixo e má programação, impediram que os portugueses fossem votar, no cumprimento de um dever e de um direito cívico e de cidadania. Infelizmente, no entanto, muita gente ficou impedida do exercício deste acto, porque o quadro constitucional em que vivemos, obsoleto,como dissemos, impediu a votação electrónica ou por correspondência, o que fez com que muita gente, em tempos de pandemia e confinamento, não tivesse ido às urnas.
Mais grave é ainda o facto de se dar hipótese de mais de um milhão e meio de compatriotas nossos, na diáspora, se terem inscrito nos cadernos eleitorais e, depois, se lhes tivesse praticamente negado a possibilidade de irem votar. Desta forma, até a abstenção, que reflecte toda esta gente como inscrita, fica bastante “aldrabada”, e é o termo meigo que escrevemos para não dizermos outras coisas bem piores. Saudamos, apesar de tudo, o voto em mobilidade antecipada que foi já, no meio de tudo isto, um bom passo em frente, Mas outros bem mais arrojados se impõem.
Uma análise a estas eleições presidenciais
Após este longo intróito e considerações, vamos agora, e em concreto, para uma observação mais cuidadosa e detalhada do que se passou, em votação, neste dia 24 de Janeiro de 2021. Se já dissemos que Marcelo Rebelo de Sousa ganhou em toda a linha, importa adiantar que, caso inédito, obteve a vitória em todos os concelhos do país, o que é obra e mostra quanto é aceite e estimado o candidato/Presidente. Mesmo em zonas de tradições bem diferentes, ninguém lhe levou a palma.
Com algum grau de certeza, a sua pressagiada vitória não oferecia grande constestação e essas projecções consolidaram-se, reforçando-se até.
Num quadro com sete candidaturas, três delas repetentes, Marcelo Rebelo de Sousa, Marisa Matias e Vitorino Silva (Tino das Rans), quatro eram uma novidade. Se o primeiro lugar não esteve, então, em grande discussão, outras disputas eram esperadas. Desde logo, a incógnita do segundo lugar manteve-se acesa quase até aos útimos momentos das contagens, com um forte taco a taco entre Ana Gomes (2ª) e André Ventura (3º). Como que se possa dizer, as candidaturas de João Ferreira (CDU) e Marisa Matias (BE) acabaram por desiludirem, mais estrondosamente MM. No pólo oposto, a irem para além do esperado, Tiago Mayan Gonçalves (IL) alcançou um patamar que, talvez, nem ele esperaria. Também Vitorino da Silva, um dos repetentes nestas andanças, apesar do seu último lugar, teve votações muito engraçadas em vários distritos.
Como se poderá ver parcialmente, a partir dos quadros apresentados, André Ventura veio trazer factos novos para cima da mesa. Alcançando o segundo lugar em locais impensáveis, como, por exemplo, o Alentejo, os seus resultados ficaram muito longe, para cima, daqueles que obtivera nas Legislativas de 2019. Em Lafões, essa evidência é bem notória, como se pode ver neste exercício comparativo: Oiveira de Frades – O.69 % - 2019, 14.5 – 2021; S. Pedro do Sul – 0.62/11.1; Vouzela – 0.79/13.54. Extrapolando para a generalidade do país, talvez se possa adiantar que, em muitos outros municípios, tal acontece da mesma maneira. E este fenómeno requer uma atenção muito especial, daqui para diante.
Para melhor se comprenderem estas linhas, convém que se atente aos quadros que se seguem. Nestas nossas terras, a nível concelhio, a votação mostrou este padrão comum: 1º - Marcelo Rebelo de Sousa; 2º - André Ventura; 3ª – Ana Gomes; 4º - Vitorino Silva (Tino das Rans); 5ª- Marisa Matias; 6º - João Ferreira; 7º- Tiago Mayan Gonçalves.
Com 2533799 (99.91% dos eleitores) votos obtidos, mais que nas eleições de 2016, e ainda faltam apurar os resultados dos consulados espalhados por todo o mundo, Marcelo Rebelo de Sousa é o próximo Presidente da República para um mandato de 5 cinco anos.
De seu discurso de posse, registamos estas palavras: .... “ Refazer laços desfeitos, quebrar barreiras erguidas, ultrapassar solidões multiplicadas, fazer esquecer as xenofobias, as exclusões, os medos instalados. Temos de recuperar e valorizar todos os dias as inclusões, as partilhas, os afectos, as cidadanias esvaziadas pela pobreza, pela dependência, pela distância... “
Disse.
Carlos Rodrigues, in “Notícias de Lafões”, Jan 2021
sábado, 23 de janeiro de 2021
Professor Martim Portugal, da nascimento em Oliveira de Frades à morte em Coimbra...
A morte do Professor Martim Portugal
Natural de Oliveira de Frades, faleceu em Coimbra
Com 85 anos, acabou de nos deixar, na cidade de Coimbra, o Professor Martim Ramiro Portugal Ferreira, casado com Maria Avelina Moreira e Silva Vasconcelos Ferreira e pai de Diogo, Luísa, Cláudia, Benedita, Manuel, Teresa e Mariana Ferreira. Natural da vila de Oliveira de Frades, com residência na Quinta do Couto, fez grande parte da sua vida e carreira académica naquela cidade. Doutorado em Geologia, foi nesta área que se notabilizou em Portugal e no estrangeiro, tendo sido docente de várias cadeiras, orientador de dezenas de teses de mestrado e doutoramento, presidente dos Conselhos Directivo, Pedagógico e Científico da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra entre muitas outras e diversificadas funções.
Com uma grande dedicação à sua terra natal, passou os últimos tempos a estudar o Couto de Ulveira que tanto lhe dizia pessoal e familiarmente. Logrou conhecer esse passado, ainda anterior à nacionalidade portuguesa, e várias personagens e famílias importantes desses tempos medievais e destas terras de Lafões. Se esta era uma de suas actividades como que de lazer, aqui desenvolveu ainda alguns estudos nas suas áreas da geologia e águas, nomeadamente averiguando focos e pólos de poluição mais prejudiciais ao ambiente.
Filho do Dr. Manuel Ferrreira Diogo e de Benedita Portugal e Melo, veio seu pai do Covelo de Valadares para a vizinha vila de Oliveira de Frades como Conservador do Registo Civil e Predial. Neste concelho foi Presidente da Câmara Municipal nos anos de 1908, 1911 e 1926/1928.
Retomando a vida e obra do Professor Martim Portugal, é curioso verificar-se que, em jeito de graça e brincadeira, confessou à Newsletter de 2012, publicada pelo Município de Oliveira de Frades, que a sua carreira académica nasceu ainda na escola primária em Espinho e com uma moeda de $50, cinquenta centavos, que então ali recebeu como prémio e que o veio a acompanhar pela vida fora.Um dia, ao ter de escolher entre os cursos de medicina e engenharia, atirou a moeda ao ar e lá lhe calhou este último ramo científico, tendo começado pelo curso de Engenharia de Minas antes de enveredar pela Geoologia.
Em constantes viagens pela ciência, andou pelos Estados Unidos da América, onde foi bolseiro, aluno e professor na Universidade da Califórnia em Berkeley, pela Espanha, México, desenvolvendo trabalhos vários em S. Tomé e Príncipe, Angola, Arquipélago da Madeira e vários outros locais por esse mundo fora.
Cidadão activo, foi deputado municipal em Coimbra e Presidente da respectiva Assembleia Municipal durante vários anos. Actualmente, era ainda Presidente da Assembleia Geral das Àguas de Coimbra, entidade que mostrou forte consternação com sua morte, igual atitude tomada, por exemplo, pela Associação Portuguesa de Geólogos.
Se iniciou a sua caminhada universitária no Porto, foi em Coimbra que se fixou e onde acabou a sua licenciatura, bem como o doutoramento em Geologia, com 19 valores, no ano de 1967. Seria nesta cidade que encontraria o fim de sua vida, mas com uma importante obra a fazer perpetuar o seu legado e o seu espírito de cientista de alto valor e um notável gabarito a todos os níveis.
Oliveira de Frades teve nele um de seus filhos ilustres. Coube-nos a felicidade de o termos tido como bom amigo e companheiro de acções várias, nos campos do seus saberes geológicos e, sobretudo, no seu grande apetite pela cultura e história de nossas terras.
Curvando-nos perante sua memória, recordá-lo-emos para sempre.
Carlos Rodrigues, in “Notícias de Vouzela”, Jan 2021
quinta-feira, 14 de janeiro de 2021
Rocha e Melo, Oliveira de Frades, Vouzela e a CUF...
Rocha e Melo, uma família em muitas terras
Da Casa da Cavalaria às Quintas de Torneiros e das Lamas
CR
Numa série de eixos regionais, a família Rocha e Melo cruza os seus caminhos e o seu destino por vários horizontes e altos voos. Entre os seus diversos elementos, um deles, o João Osório da Rocha e Melo, chegou a ser um pilar essencial de Alfredo da Silva, o homem e o empresário todo poderoso da CUF e outras unidades industriais. De um livro, intitulado “ Industrialização em Portugal no século XX.... “, mostra-se logo a sua ligação a Oliveira de Frades, quando aí se escreveu que por aqui passou “ em passagem... a fim de se reunir com seu pai e seu avô... “.
Vem, porém, de longe, de muito longe, esta história familiar, como nos indica Luís Alberto Castanheira Fernandes Gouveia, na sua muito recente obra “ Oliveira de Frades – A terra ... e suas gentes, 2020”. Reporta as origens da Quinta de Torneiros, berço-mor destes cidadãos, à Quinta da Cavalaria, Vouzela, uma vez que aquela Quinta e aindas as da Devesa e do Couto tinham pertencido aos Almeida daquela nobre e senhorial Casa.
Por outro lado, a certa altura, José Bento da Rocha e Melo, com o mesmo nome de seu avô, e filho de Manuel da Costa Pinto de Melo, além de ter construído a Casa dos Arcos (hoje propriedade de Armênio da Silva Florindo e que chegou a ser sede do Externato Lafonense) e uma outra, veio a adquirir a Quinta das Lamas, em Vouzela, casa onde viveu durante algum tempo de sua vida e terra em que foi Advogado. Tendo sido também Governador Civil de Santarém, foi ainda Conservador em Lisboa e Deputado por Viseu nos anos de 1906/1907. Há registos também, como o NV de 16 de Julho de 1959, que indicam que foi Deputado pelo Círculo Eleitoral de Lafões, de 1903 a 1908, o que faz alguma confusão em termos de acumulação de datas, sendo este um tema a rever.
Na sua vasta carreira pública e privada, aparece em 1885 como 1º sócio fundador dos Bombeiros Voluntários de Vouzela, de que foi também o primeiro Presidente da Direcção e Comandante. Nascido em Oliveira de Frades a 17 de Julho de 1859, faleceu no ano de 1938.
Numa ligação profunda entre os dois concelhos, Oliveira de Frades e Vouzela, esta família Rocha e Melo ramificou-se também para Arouca e, acrescenta Luís Gouveia, a própria pedra de armas da Quinta de Torneiros ali está na posse da Família Vaz Pinto.
Regressando, de novo, à Quinta de Torneiros, sabe-se que, em 1824, vindo do Brasil, José Bento da Rocha e Melo, casado com Ana Joaquina Cronwell de Guilhon e Melo, aí se fixou como seu herdeiro, depois de ter sido Juíz de Direito e de Fora, em S. Luís de Maranhão no país-irmão. Nessa propriedade notável da vila de Oliveira de Frades, nasceu seu filho, já citado, Manuel da Costa Pinto de Melo (1824-1902), que casou com Inês Armênia de Portugal e Vasconcelos, apelidos que, desde logo, fazem sobressair fortes ligações a casas importantes do nosso país desses tempos e mesmo da actualidade.
Mais tarde, José Osório da Rocha e Melo, filho de José Bento da Rocha e Melo (neto), acaba por herdar as referidas Casa dos Arcos e Quinta das Lamas, aqui tido também vivido durante algum tempo. Com Henrique Sommer, fundou a fábrica de cimentos Macieira-Liz. Falando na Família Sommer, ficou famoso o processo que nas últimas décadas do século XX a opôs a António Champalimaud, num assunto que ficou para a história como o “caso da herança Sommer”, objecto de enormes folhetins nos jornais e meios de comunicação social de então.
A tentacular CUF e os Mellos
Coube a João, casado com Maria Antónia Ottolino, outro dos filhos daquele José Bento, ficar com a Quinta de Torneiros, constituindo-se, ao mesmo tempo, “braço direito de Alfredo da Silva”, o todo poderoso fundador do Império CUF, tendo passado a integrar o seu Conselho de Administração, facto que se projectou nos seus familiares mais próximos pelos tempos fora.
Recorde-se que os tentáculos da CUF, com sede no Barreiro, abrangiam o diversificado mundo dos adubos, sulfatos, gessos, cerâmicas, sabões, azeites, tecidos de juta, enxofres, moagens, óleos, tanoaria, serração, fiação, cordoaria, ácidos, metalúrgica, transportes, seguros, tabacos, estaleiros navais, etc, etc, num universo empresarial que muito contou com o contributo do genro de Alfredo Silva, Manuel Augusto José de Melo.
Se a Quinta das Lamas é, hoje e em parte, um bom projecto turístico, a Quinta de Torneiros não passa, quanto ao edifício central e nuclear, dum monte de ruínas a ser referenciado como um “monumento desaparecido” no blogue que se tem dedicado a inventariar o património que vamos perdendo ao longo dos tempos.
Note-se ainda que uma grande parte daquele espaço acabou por ser dividido em vários blocos e em lotes para construção, processo em curso mas que tem custado a ser concretizado.
A finalizar, como salienta Luís Gouveia, cabe aqui uma palavra especial para o último Feitor desta Quinta, José Moitas, que tivemos o prazer de conhecer e com ele conviver, que foi peça importante na gestão desse vasto património, em Oliveira de Frades e mesmo em Vouzela.
Desta forma, em destinos cruzados, assim se fez parte da história de umas casas que deixaram memórias e alguns amargos de boca, porque a perda desse património é algo que dói e rói cá por dentro de todos nós...
Carlos Rodrigues, in “Notícias de Vouzela”, Jan 2021
David d'Almeida, de S. Pedro do Sul, doa espólio à FCG
David d´Almeida perpetuado em Lisboa
Família de sampedrense doa seu espólio à FCG
Carlos Rodrigues
É vastíssima e reconhecida internacionalmente a faceta artística do saudoso cidadão de S. Pedro do Sul, onde nasceu em 1945, David d’Almeida, nos domínios da gravação e litografia. Durante anos, correu mundo, levando na mala a sua arte e o seu empenho em deixar obra feita. Um dos seus pontos altos, com significado amplamente local, foi a atenção que dedicou à Pedra Escrita de Serrazes que imortalizou à sua maneira.
Com uma criação notável, morrendo prematuramente aos 65 anos, o seu espólio tornou-se algo de muito apreciado e bem digno de ser mostrado e preservado pelos tempos fora. Como herdeira desse valioso património foi a Fundação Calouste Gulbenkian, instituição que lhe deu a mão, como Bolseiro, numa fase determinante da sua vida, a quem sua família doou a documentação valiosa que deixou.
Formado na Escola António Arroio, em Lisboa, estudou ainda no Atelier 17, em Paris, e na Goldsmiths University of London, Inglaterra, porque nunca quis deixar de aperfeiçoar os dons naturais com que foi dotado, pondo-os a render amplamente, como se comprova pelo legado que foi espalhando por toda a parte.
Com colecções públicas e privadas a mostrarem-se em Portugal, França, Espanha, Suécia, Alemanha, Brasil, Macedónia, Iraque, Marrocos e outros territórios, podem ainda apreciar-se os seus trabalhos no Hotel Ritz, Lisboa, Centro de Saúde, Calheta, S. Jorge – Açores, Estação Conceição do Metro, S. Paulo – Brasil, Estação do Metro de Cabo Ruivo, Lisboa, diversos locais de Macau, Cabo Verde, Escolas Secundárias de S. Pedro do Sul, Vouzela e Oliveira de Frades, Madre da Fonte Termal, S. Pedro do Sul, Pedra Escrita de Serrazes, nesta mesma cidade, a par das suas obras na Vista Alegre e tantas mais que se podem encontrar noutros sítios e plataformas.
Galardoado com várias distinções, destaca-se o Prémio Nacional de Gravura (1980), a Comenda da Ordem de D. Henrique, 1997, e a Homenagem Pública prestada pela Câmara Municipal de S. Pedro do Sul, no ano de 2015.
Do espólio doado à FCG, são de evidenciar, por exemplo, as obras de arte, os manuscritos e anotações, desenhos e colagens, fotografias e negativos, maquetas diversas, segundo o que vem relatado por estes dias na comunicação social.
Em complemento desta notícia, queremos dizer que, há anos, este mesmo jornal pôs em evidência a figura de David d’Almeida, entre um conjunto de personalidades que se pretenderam retratar para memória futura.
Numa altura em que na cidade de Lisboa passa a ficar o seu tributo à arte, importa agora que as entidades locais estabeleçam a necessária ponte e parcerias, de modo a que a sua terra possa aceder à obra de um de seus mais notáveis criadores.
Carlos Rodrigues, in “Notícias de Lafões”, Jan 2021
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