quarta-feira, 21 de julho de 2021
Lafões e Valadares no Brasil em 1955
Valadares e Lafões no Brasil em 1955
As nossas comunidades em organizações associativas
Carlos Rodrigues
Em continuadas migrações, uma constante social portuguesa ao longo dos séculos, os nossos conterrâneos e compatriotas andaram sempre em busca de novas vidas por esse mundo além. Antes da febre europeia dos anos sessenta e seguintes, o Brasil constituiu um dos principais pólos de atracção das nossas gentes, como que por osmose familiar ou de vizinhança. Por estranho que pareça, a África entra nesta equação de uma forma muito ténue e até bastante tardia.
Em meados do século anterior, do outro lado do Atlântico, sobretudo, no caso em apreço, no Rio de Janeiro, fixaram-se muitos lafonenses, que começaram a despertar então, movidos pela saudade e pelo sentimento de se tornarem úteis aos seus recantos de origem, ou talvez até por uma certa ostentação desviante, para a formação de diversas associações ou outras fórmulas de convivência social, onde cultivavam a cultura e as práticas das regiões de origem. Finalidades filantrópicas foram, sem sombra de dúvida, também bons pontos de partida para a concretização destes fenómenos colectivos.
A partir do jornal “Notícias de Vouzela” do ano de 1955, com base, muito especialmente, nas crónicas de Afonso Campos, um vouzelense ali radicado, muito temos ficado a saber da forma como ali se vivia e se organizavam as nossas comunidades. Vincadamente, destacaram-se Santa Cruz da Trapa e Alcofra a esse respeito. Porém, antes de falarmos, concretamente, dos Centros Santacruzense e Alcofrense ali nascidos, por estarmos a escrever para um órgão de comunicação de Valadares, o “Ecos da Gravia”, é com notícias desta terra que vamos começar por hoje.
Na sua rubrica, “Daqui, Rio de Janeiro”, Afonso Campos mimou-nos , como sempre, com nacos de prosa que são excelentes momentos de leitura e verdadeiros quadros sociais das situações ou pessoas descritas. Vejamos estas linhas ( 16/6/1955):” De Valadares, aquela simpática aldeia de gente boa e simples, que já foi Couto, e teve Padres-Mestres e outras coisas mais que agora não vêm para o caso, e é terra, no dizer de meu amigo Horacius, das melhores laranjas do mundo… “, tendo-lhe chegado à secretária, conforme confessou, uma circular subscrita pelos membros da Assembleia Geral e da Direcção da Cantina Escolar de Nossa Senhora dos Remédios, em que se apelava a todos ao valadarenses espalhados pelo mundo a que viessem a contribuir com seus donativos para essa importante obra social.
Continuava assim as suas apreciações: “… Reparei, cuidadosamente, na fotografia do edifício da cantina, naquele «ninho de pequeninos», como lhe chamam, onde há uma mesa, com alva toalha e o sorriso inocente das criancinhas; notei que mais de 20000 refeições foram distribuídas gratuitamente pelos alunos necessitados de Valadares, Paradela, Pedreira e Granja, em quatro anos de labor que são quantos conta a cantina… “. Mais não precisou de dizer para pôr em destaque e no pódium das boas atitudes locais aquilo que, nas suas linhas, tão bem entendemos. Fica aqui como retrato colorido do passado desta freguesia e seus feitos…
Nesta viagem pelos “nossos portugueses-brasileiros”, queremos ainda referir os primórdios de duas instituições que muito fizeram pelos seus conterrâneos lá, tão longe, e, adivinhamo-lo, de coração bem apertado e lágrimas a despontarem sempre aos cantos dos olhos de toda aquela nossa gente, em muitas e variadas ocasiões.
Dois Centros, o de Santa Cruz da Trapa e o de Alcofra
Ao abordar dois aniversários, o 10º do Centro Santacruzense de Beneficência e Progresso do Rio de Janeiro e o 11º do Centro Alcofrense e da Região de Lafões ( sendo esta última designação do ano de 1951), Afonso Campos fala-nos de algumas das actividades ali desenvolvidas em cada uma destas colectividades.
No Santacruzense, são várias as referências aos arraiais beirões, sobretudo na sua sede que ficava mesmo à beirinha da Casa das Beiras. Num desses eventos, ainda em 1954, alude-se às barracas de prendas, aos comes e bebes, com destaque para o vinho verde de Lafões, aos balõezinhos e foguetes, sem esquecer as actuações do Rancho Regional dos Poveiros e as actuações musicais da Olivinha Carvalho, uma “aplaudida artista da rádio”, tendo sido muito apreciadas as suas canções populares portuguesas.
Quase ao acabar o ano de 1955, no dia 1 de Novembro, dá-se nota dos grandes festejos do 11º aniversário do Centro Alcofrense e da Região de Lafões, sob a presidência de Cid Lopes, mas com a tristeza, desabafa Afonso Campos, ao saber das polémicas que se passavam em Vouzela em redor do Monte Castelo, de constatar que esse local deixara de estar iluminado em virtude de uma contenda existente entre a Câmara Municipal e a respectiva Confraria.
Apesar desse contratempo que galgou o Oceano, enfatiza-se o brilho da Sessão Solene, presidida pelo Dr. Marçal de Almeida, em representação do Embaixador de Portugal, ladeado pelo presidente da Casa de Portugal, Horácio Salvador, pelo Dr. Almeida Garrett, da Universidade do Porto, por Marques da Silva, da Casa do Porto, por António Cid Lopes, por Manuel da Costa, da União Portuguesa Oliveira Salazar e José Diogo, do Centro Santacruzense.
Como que a historiar a vida desta Instituição, o seu presidente, Cid Lopes, começou por dizer que tudo partiu da ideia de “nos agruparmos para fazermos qualquer coisa pela nossa gente (isto) muito antes da fundação do Centro… (Assim)… Um grupo de alcofrenses, no desejo de estimular as crianças a irem à escola aprender a ler, tinha estabelecido uns prémios para serem entregues às mais aplicadas… Tinha-nos chocado, envergonhado mesmo, o aspecto deprimente que nos apresentava o patrício que desembarcava nesta grande cidade sem saber ler. Nâo queríamos que isso acontecesse com a gente de Alcofra!... “
E continuou: “ Desse grupo faziam parte o Comendador António Cid Loureiro, Firmino Luís de Almeida, Belmiro Lopes, Armando Marques, Dr. Júlio Pereira Ramos, João Lopes Ferreira, Firmino Lopes Frutuoso, César João de Almeida, José Lopes Couceiro Sobrinho e eu (Cid Lopes)”
Deste modo, a 6 de Agosto de 1944, foi fundado o Centro Alcofrense, com os estatutos aprovados em Maio de 1945. Porém, acontece que, em 1951, acrescenta-se uma nova designação – Centro Alcofrense E DA REGIÃO DE LAFÕES, aqui estando a semente da futura nova Casa de Lafões do Rio de Janeiro.
Entre muitas acções desenvolvidas naquela cidade brasileira, o foco esteve sempre em Alcofra, berço de toda essa gente, e na sua região, tendo, inclusivamente, participado em cortejos de oferendas para os Hospitais das Misericórdias de Vouzela e Oliveira de Frades.
Com estes embriões do associativismo da nossa zona em solo brasileiro, nunca os nossos emigrantes deixaram de cultivar as suas tradições e de recordar o chão natal. Infelizmente, com o andar dos tempos esse bairrismo como que se esvaneceu, pelo menos nesta forma tão vivamente sentida e participada.
No meio das alegrias de 1955, Alcofra veio a sofrer um rude golpe: a 13 de Dezembro desse mesmo ano, falecia o Professor Doutor Egas Moniz, com raízes maternas nesta mesma aldeia e de quem já aqui falámos numa das edições anteriores…
Hoje, dedicámos a nossa atenção ao Brasil e aos anos cinquenta do século passado, para honrarmos quem, sendo gente nossa, um dia emigrou, para, em muitos casos, muitos desses conterrâneos nunca mais voltarem. Não foram nunca os torna-viagens, de que tanto a nossa literatura muito tem faltado.
Partiram, então, para nunca mais voltarem. Que descansem em paz…
Carlos Rodrigues, in “ Ecos da Gravia”, Julho 2021
EN 16 para observar e absorver
Uma estrada para observar e absorver
A EN 16 precisa de ser interiorizada
CR
Pela EN 16 abraçamos o mar e a fronteira. De uma penada mais larga e contemplativa, em duas a três horas, se optarmos por poucas paragens, deixamos o Oceano Atlântico, em Aveiro, e abraçamos a Espanha, ali pelos lados de Fuentes de Onoro, Ciudad Rodrigo e Salamanca num abrir e fechar de olhos cheios de imagens para nunca mais deixar de lado. Para essa outra opção de andar pelas estradas sem nada ver, em corridas de outro mundo, o melhor é seguir a actual A25. Para levar emoções que nunca mais se esquecem, a opção mais ajuizada é fazer a aventura romântica de pisar os quilómetros da velha ligação de outros tempos, a já citada EN 16.
Deixada para trás a cidade das salinas, da Ria, do ar da maresia, de um certo ventinho de resfriar as orelhas, essa Aveiro que sempre nos cativou, passada a zona de Albergaria-a-Velha, que afaga os Rios Vouga e Caima, entramos no mundo fantástico e fantasioso do Vale do Vouga, que a EN 16, em cada curva, e muitas são elas, nos põe à frente dos olhos. A água corre-nos aos pés, os montes e os vales acompanham-nos sempre.
Ainda não temos percorrido muita distância e, agora, aí temos a Albufeira da Barragem de Ribeiradio/Ermida, esse lençol de água que cobre uma extensa área de um território que sempre viveu sob o barulho e a corrida do leito do Rio Vouga, ora sereno e manso, ora bravo e gigantesco na sua força, quase que levando tudo na sua frente.
Mas, antes deste novo quadro actual, olhemos para a passagem de nível, de momento sem comboios, do Carvoeiro, para a Foz do Rio Mau, para a majestosa Ponte do Caminho de Ferro, já nos arredores de Pessegueiro, o do Vouga, para que dúvidas não existam, para a tasca e restaurante que vêm marcando os tempos, outrora, com as tigelas do vinho americano e com as enguias em caldeirada ou fritas, que ainda hoje são uma delícia, e agora quase só com as iguarias que as regras permitem, porque o tempo é uma máquina devoradora do passado e nem tudo é capaz de resistir.
Subindo uns curtos quilómetros, já a chegar ao núcleo urbano acabado de citar, de um lado, e Paradela do outro, nas duas margens do Vouga, que agora alimenta uma fantástica Praia Fluvial, cruzamo-nos com os vestígios de uma Central Eléctrica que fazia correr as máquinas da Fábrica de Massas do Vouga, neste momento convertido em moderno pólo empresarial e académico, mas que tanta gente alimentou ao longo de décadas, em quantidade e qualidade de se lhe tirar o chapéu.
Neste ponto geográfico, estamos à beira da sede do concelho de Sever do Vouga, vila que se espalha pelos montes acima, deixando o Rio Vouga para se encostar às terras de Vale de Cambra, tendo pelo meio a Nossa Senhora da Saúde. No horizonte oposto, adivinham-se as freguesias de Paradela do Vouga, de Cedrim e das Talhadas, localidades que se ligam e unem também ao vizinho concelho de Águeda, mas sempre com a Santa Maria da Serra, lá no alto, como ponto de encontro cimeiro destas serras que têm o Rio Vouga como mais um de seus ícones comuns.
Passada a ponte sbre o Rio Vouga, com as bombas de gasolina à esquerda e a estrada para as Talhadas à direita,, continuamos pela nossa EN 16, que soma curvas e mais curvas a ladearem este famoso e nosso curso de água, para se abandonar o concelho de Sever do Vouga, depois do de Albergaria-a-Velha e uma pontinha de Águeda, e se entrar em plena zona de Lafões e município de Oliveira de Frades.
Com o Café do Extremo a delimitar dois concelhos, Sever do Vouga e Oliveira de Frades e dois distritos, Aveiro e Viseu, pelo que se justifica bem a designação escolhida, esta EN 16 vai continuar a dar-nos muitas e mais alegrias. Dessas, falaremos daqui a uns dias…
Com a Nossa Senhora Dolorosa lá no cimo, em Souto Maior, e a Barragem cá bem no fundo, entra-se em Ribeiradio que tem muito para nos dizer. O mesmo se dirá das muitas terras que iremos encontrar a caminho da fronteira, que esta EN 16 é de uma riqueza ímpar…
Carlos Rodrigues, in “Notícias de Vouzela”, 2021
EN 16, a estrada que une o mar e a fronteira
EN 16 a unir o mar e a Espanha
Cerca de 200 km de distância em dois mundos diferentes
CR
Andamos, nestes últimos anos, em busca de símbolos, de elos de união entre comunidades e povos, quase como que para construir identidades, pegando em estradas e outros factores que levem a esses objectivos. Aqui há uns anos, em 2013 e 2014, lançámo-nos nessa aventura quanto à EN 333, que liga Vagos e Vouzela, e encontrámos verdadeiros pontos de união e contacto. Desde logo, estabelecemos uma corda e uma rota entre a Nossa Senhora de Vagos e a Nossa Senhora do Castelo. Descobrimos que os “VV” eram a solda que unia esse mesmo cadeado.
Temos assistido às muitas iniciativas em redor da mítica EN 2, de Chaves a Faro. Vemo-la posta no pedestal dos eventos e das celebrações praticamente anuais. Sabemos que se está a converter numa marca comercial. E ainda bem. Ficamos altamente satisfeitos com esse sucesso. Mas, perdoem-nos o atrevimento, agora é da EN 16 que queremos falar e a colocar lá bem no alto. Se a EN 2 corta o país de alto a baixo, esta EN 16 divide-o ao meio na horizontal, do mar à Espanha.
Com a actual designação de EN 16 a ser uma conquista nova, aí dos anos trinta do século passado, diz-nos a história que já foi a ER 41, Estrada Real com esse número, que passou para EN de 1ª classe, com o nº 8, como bem o provam as pedras que fazem parte dos bancos na Fonte das Termas de S. Pedro do Sul, logo à entrada, no sentido Oeste/Este, e que hoje é uma memória romântica de tantas inesquecíveis viagens.
Em termos históricos, a Tabella das Estradas Reaes e districtais de 1889 já a catalogava como ER nº 41, a sair de Aveiro e a passar por Albergaria-a-Velha, Pessegueiro do Vouga, Oliveira de Frades, Vouzela e S. Pedro do Sul, prosseguindo a sua marcha por esses campos fora. Juntava-se, então, à nº 43, que ligava Viseu, Fornos de Algodres, Celorico e muito provavelmente Guarda e fronteira.
Acontece que, antes de ser conhecida como EN 16 (1930), pelo Decreto n.º 12100 de 31 de Julho /11 de Agosto de 1926, assumia a designação de EN nº 8 de 1ª classe, como já vimos nos parágrafos anteriores. Neste decreto, procedia-se à revisão do plano geral de classificação de estradas, a remeter para a lei de 22 de Fevereiro de 1913.
Assim, em 1926, a antiga EN nº 8 passava a englobar até à fronteira os troços Aveiro – EN 40-2ª – Albergaria a Velha, a EN 10-1ª, Vouzela/S. Pedro do Sul, a EN 7-1ª – Viseu, Mangualde, Celorico, Guarda (EN 15-1ª), Almeida (EN 34-2ª), Vilar Formoso/Estação. Devem contar-se ainda os ramais para a Ribeira de Ovar e para a Estação da Guarda.
Em complemento, a Tabella das estradas nacionais de 2ª classe (Decreto 12100, de 31 de Julho de 1926) anotava ainda a nº 32, da Costa da Torreira a S. Pedro do Sul, aqui então EN 8-1ª, a nº 33 de Vouzela à Foz do Rio Távora e a nº 42 de Mortágua à Ponte de Riba Má.
Pegando, de novo, na EN 16, diz-se que, por volta de 1938, chegou a Vilar Formoso, quando se reconstruiu a Ponte de S. Roque, no Rio Coa, na zona de Castelo Bom.
Com o Plano Nacional Rodoviário de 1945, esta rede ganhou uma acrescida importância que só foi posta em causa no momento em que o eixo rodoviário principal, a unir o mar e a fronteira, se deslocou para o IP5, 1988, e mais tarde, 2005, para o A25.
Havendo muito a dizer sobre esta via, com uma paisagem de sonho que cruza os Rios Vouga, Dão e Mondego, entre outros, que corre(u) passo a passo com as Linhas do Caminho de Ferro do Vale do Vouga e da Beira Alta, que acumula património sem fim desde Aveiro a Almeida, que nos faz recordar lugares míticos como o Café Quelhas, em Ribeiradio, aberto 24 horas ppr dia e que era um ponto de encontro internacional entre todos os viajantes, com balcões cheios de sandes e bebida, esta EN 16 é um poço de história e património que importa fazer renascer e divulgar.
Com a sua gastronomia e com tudo o que mais tem, é uma mercado a céu aberto e um cartaz que possui atractividade até mais não. Em termos turísticos e de desenvolvimento, é pilar que não pode, nem deve, ser desperdiçado…
Carlos Rodrigues, in “Notícias de Vouzela”, 2021
quarta-feira, 2 de junho de 2021
Recordar sempre Carmo Bica...
Carmo Bica com aniversário entre amigos
A “recordação da memória que se não perde”
A Carmo Bica, que nos deixou há uns tempos, no meio de grande dor e emoção, faria no passado dia 30, domingo, 58 anos. Para não deixar passar essa data em claro, o Município de Vouzela organizou uma sentida homenagem, a que associou uma frase lapidar: “ Um sorriso de liberdade”. Ao som das águas do Rio Zela e com as pontes por companhia, sua família, muitos amigos e grupos musicais compareceram naquele anfiteatro, ao ar livre, em dia de sol, para dar mais sentido a esta cerimónia de gratidão. Ali estiveram o Presidente da Assembleia Municipal, Telmo Antunes, o Presidente da Câmara, Rui Ladeira, vereadores da terra e, curiosamente, também a vereadora da Cultura da CM de Lisboa, Paula Marques.
Seu filho, marido, seus irmãos, cunhados, sobrinhos, primos e a Mãe se sentaram nos lugares da frente, onde também vimos Isabel Silvestre, Francisco Fanhais e outras entidades, mas, em maré de pandemia, os seus muitos amigos espalharam-se por toda a parte, alguns deles até para aproveitar fatias de sombra que já se tornavam apetecíveis. Entre toda esta gente, uma só ideia e uma só intenção: lembrar Maria do Carmo Bica e fazer evocar seus feitos e seu legado, que perdurarão para sempre entre todos nós. Com sua imagem a ultrapassar as fronteiras das serras do Caramulo e da Gralheira, já vimos que também Lisboa disse “sim” neste dia de seu aniversário e de festa. A Carmo, lá longe, ali esteve sempre no meio de todos nós.
A abrir esta homenagem, começou por desfilar a Banda Musical de sua querida aldeia, Paços de Vilharigues, que, no dizer de Pedro Soares, seu marido, era o seu centro do universo. Por onde andasse, logo vinha ter com as suas raízes, aquelas que a levaram a dar vida à ADRL e à Cooperativa Três Serras, entre muitas outras iniciativas. Era esse o motor de todo o entusiasmo que transbordava em tudo quanto fazia. Dando-se por inteiro a cada tarefa – e muitas foram ao longo da sua curta vida! – cumpriu assim o que Fernando Pessoa registou em poesia. Eva Martinho, enquanto apresentadora destas cerimónias, logo frisou o sentido desta homenagem, aludindo à “recordação da memória que se não perde”
No sentido formal, começaram por usar da palavra o Presidente da Câmara, Rui Ladeira, e Pedro Soares, que entraram lado a lado, porque, afinal, este era o dia em que o concelho e a família tinham em comum a evocação de alguém que continuará presente em cada um de nós e a “ melhor forma de a homenagearmos é seguir o seu exemplo” (Rui Ladeira) e para uma “promotora de redes” (Pedro Soares), em sofrimento, “honramos a democracia e os promotores desta forma de recordarmos Carmo Bica”. Momento solene, duro, fortemente emotivo, foi o do abraço que Rui Ladeira deu à D. Celeste Bica, mãe da homenageada, que também recebeu um ramo de flores do Grupo Vozes da Terra, entre outras sentidas referências.
Em espectáculo bem organizado e bem conduzido, durante cerca de três horas, por ali se ouviu a boa música regional e nacional, continuou-se então com o Grupo Vozes da Terra, Vouzela, com o Grupo de Trajes e Cantares de Cambra, com as Vozes da Aldeia, de Santa Cruz, Arcozelo das Maias, com as Vozes de Manhouce, com o Grupo de Cantares de Carvalhal de Vermilhas, todos estes intervenientes a evocarem o orgulho de se poderem associar a tão significativo acto de gratidão, reconhecimento e homenagem à Carmo Bica, que em todos deixou algo de si.
Memorável foi ainda a participação de Francisco Fanhais, que, em 1969, ainda jovem sacerdote, acampou com outros seus amigos em Paços de Vilharigues, em férias de Verão, em terrenos, curiosamente, da Família ali referenciada, trazidos por um de seus destacados elementos, o Dr. António Bica. Entre as canções que interpretou, uma delas teve uma história muito curiosa e o selo destas nossas terras, porque ali mesmo foi escrita pelo saudoso António Macedo e cantada pelo grupo em férias e que se tornou altamente popular na nossa cultura portuguesa: “Canta, Amigo, canta… “.
Ao dar-se por encerrado estes momentos de emoção, ouviram-se as palavras de um filho que perdeu assim tão prematura e tragicamente sua Mãe, o seu Bernardo Bica, que a todos emocionou e não era para menos.
Este foi um dia diferente nestas terras de Vouzela: fez-se uma festa a quem, não estando, nunca deixou de estar presente em cada momento. Homenageou-se a Carmo Bica, na data de seu aniversário, para que nunca mais a esqueçamos. E assim aconteceu.
Carlos Rodrigues, in “Notícias de Vouzela”, Jun 2021
A festa do Corpo de Deus desde o século XIII...
Festa do Corpo de Deus com centenas de anos
Em Portugal, desde o reinado de D. Dinis
Carlos Rodrigues
Sessenta dias depois da Páscoa, o calendário litúrgico faz notar a importância da Festa do Corpo de Deus que se comemora, anualmente, a uma quinta- feira. Esta celebração tem as suas origens no século XIII, para assinalar a solenidade do Corpo e Sangue de Cristo. Acompanhado a propagação da fé cristã, facilmente se espalhou por todas as comunidades católicas, dizendo-se que, em Portugal, começou a ser assinalada no reinado de D. Dinis, em 1282, sob a designação do “Corpus Christi”, havendo, no entanto, quem a situe em tempos mais recuados. Pelas nossas terras, é dia grande no calendário da fé cristã.
Foi rápida a sua introdução no calendário dos chamados dias santos, a ponto de, em 1403, a Confraria do Corpo de Deus da Igreja de S. João Bartolomeu (Guadalupe), Braga, contar já com a participação de uma centena de irmãos. De Portugal para o Brasil, por exemplo, a sua expansão foi deveras rápida e impressiva, de tal maneira que a tradição de enfeitar as ruas ali, do outro lado do Atlântico, ganhou fortes raízes e se converteu em prática corrente na sua religiosidade.
Numa instituição que se relaciona muito com as nossas terras lafonenses, o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, refere-se, nas palavras de Ernesto Gonçalves de Pinho (1981), que a “… Solenidade do Corpus Christi era particularmente interessante, sobretudo pela procissão, que era feita através das ruas da cidade. Era costume fazer esta procissão com todas as festas de folias, chacotas, danças, em que o povo tomava parte activa, transformando a cerimónia sagrada em verdadeira representação de carácter profano… “ (p. 49)… “ As procissões eram, por assim dizer, a parte profana das festas sagradas, mesmo quando eram realizadas no recolhimento do claustro… “. Tendo em conta a importância de Santa Cruz de Coimbra no panorama de toda a nossa cultura, estes testemunhos adquirem uma validade deveras significativa.
Esta quinta-feira é feriado nacional e festa religiosa de largo alcance. Incompreensivelmente, no desbaste dos feriados que se sucedeu à crise de 2008 e anos seguintes, veio a ser abolido, o que se verificou nos anos de 2013, 2014 e 2015. Como que a fugir dessas determinações, em muitas terras, as festividades não deixaram de se efectuar e, em muitos casos, com praticamente a mesma força dos tempos anteriores. Agora, com a reposição dos calendários em modos dos tempos anteriores a essa crise, a Festa do Corpo de Deus, tal como todas as outras, em 2020 e 2021, acabou por sofrer um novo abalo, aquele que a Covid veio a impor de uma forma severa e preocupante. O brilho das ruas, a riqueza das cerimónias religiosas viram-se afectados por essas restrições, aguardando-se, em acto de esperança, que tudo isto passe depressa.
A história a dar-nos lições
Com base nos conhecimentos, em especial, de dois dos nossos concelhos, Vouzela e Oliveira de Frades, estes têm nas comemorações do Corpo de Deus um ponto alto do calendário litúrgico, festivo e artístico de todos e de cada um dos anos de vivências sociais e religiosas. Na primeira destas vilas, a beleza das ruas, a dedicação dos seus habitantes, bairro a bairro, a imponência da Procissão são cartazes que nunca perdem o seu fulgor. Motivos turísticos também, neles se inscrevem momentos de esplendor da cultura local que passam de ano para ano, de geração em geração. Quanto a Oliveira de Frades, a tradição do sermão no edifício dos Paços do Concelho, Salão Nobre, é o testemunho de uma prática que sempre tem unido a esfera religiosa e o poder autárquico, desde há séculos. Por exemplo, em 1906, o Presidente da Câmara Municipal, Manuel Augusto Lopes Ferreira, convidava, relembrando-o, o Administrador do Concelho a participar na festa do Corpus Christi e, anos antes, em 1858, quando o governo do Bispado mandava todas as freguesias participarem nessas festividades, a de Pinheiro de Lafões acabava por solicitar a sua dispensa dessa obrigação, alegando não vir a beneficiar, naquela localidade, das habituais indulgências.
Um forte testemunho da força desta Festa colhemo-lo em Liliana Castilho, em “ A cidade de Viseu nos séculos XVII e XVIII, FLUP, 2012”, no que se refere à capital do distrito, onde “… As ruas atapetadas de junco e rosmaninho, as colchas nas varandas e as luminárias transfiguravam as ruas de vias de comunicação em paisagens de aparato… A festa do Corpo de Deus atingia o máximo de solenidade e esplendor na respectiva procissão que transportava a hóstia através da povoação permitindo a todos adorá-la… “. À semelhança do que veio a acontecer em Oliveira de Frades, por exemplo, era à Câmara que cabia um papel decisivo e central na organização de todo este cerimonial.
Desta forma, nas actas da vereação do século XVII e XVIII, que chegaram até aos nossos dias, diz-nos Liliana Castilho que “… surgem quase sempre as nomeações/eleições para as varas do pálio… “, citando-se, ano após ano, de 1705 a 1796, os nomes de quem se incumbiria dessa honrosa tarefa.
Na disposição da procissão, era a Câmara que tinha como funções escalar quem era quem e como devia desfilar, sobretudo a nível dos mesteres profissionais, em cada uma das edições anuais destas festividades. Misturando as componentes religiosas e profanas, havia ainda representações, danças e espectáculos diversos com as mais variadas figuras, que acabaram por motivar algumas proibições sempre que se detectavam alguns excessos.
Nas ruas embelezadas, com as fachadas dos edifícios alindadas, a Procissão tinha lugar da parte da manhã, ficando reservada a tarde para as touradas. Entretanto, em dia de festa, os porcos ficavam arredados de tudo isto, impedindo-se os seus donos de os deixarem vir para as ruas.
Para terminar este ambiente festivo, ou havia uma lauta refeição na Câmara, ou eram distribuídas refeições ao povo em geral.
Recordando-se uma data tão especial, este ano festejada no dia 3 de Junho, é certo e sabido que cada terra e cada paróquia fazem deste dia algo de extraordinariamente relevante. Beleza, religiosidade e imponência festiva acontecem um pouco por toda a parte.
Em 2022, talvez assim volte a ser. Este ano, infelizmente, os sinais da pandemia ainda por aqui se vão notar…
Carlos Rodrigues, in “Notícias de Lafões”, Jun 2021
Do Brasil a S. Miguel do Mato, o jornal Notícias de Vouzela a correr mundo ...
Em 1955, evocou-se em especial a visita do Presidente do Brasil
Mas muitos outros assuntos vieram ao de cima
CR
Decorria o ano de 1955, quando, como vimos já, o jornal “Notícias de Vouzela” tinha encetado uma nova caminhada. Apesar das mudanças, os seus fins e objectivos permaneciam intocáveis, pelo que os assuntos relativos à região de Lafões eram o pão nosso de cada dia, de cada edição. A dada altura, fala-se numa polémica que envolveu o Ministério da Educação e a povoação de Serrazes, do vizinho concelho de S. Pedro do Sul. Como aquele proibira a construção de uma Cantina nos terrenos da escola local, a resposta não se fez esperar: o povo juntou-se e adquiriu uma parcela por 3000$00, enquanto uma outra fora cedida por entidades particulares. Com esta boa teimosia, a obra nasceu para bem dos seus alunos. Nesta mesma altura, Fataunços procedia à cobrança de quotas e à recolha de fundos em Lisboa para o apoio à sua Cantina Escolar.
Ao que parece, um Entremez que se estava a ensaiar em Real das Donas teve uns contratempos de peso, porque os actores, a certa altura da noite, lembraram-se de alguns excessos e aquilo ia dando para o torto. Entretanto, as peças iam nascendo e o espectáculo deve mesmo ter sido apresentado, cremos nós. Ali perto, em S. Miguel do Mato, prosseguiam as obras de construção da nova Igreja Paroquial, havendo uma altura em que foi preciso decidir-se avançar para a compra dos terrenos necessários à implantação da escadaria, no momento em que nem todos os proprietários se mostravam disponíveis para ceder gratuitamente os seus espaços.
Num jornal que se dedica a pequenas e grandes causas e coisas, dedicaram-se umas linhas para evocar a figura do Dr. Alexandre Fleming, inventor da penicilina que tantos milhões de vidas salvou em todo o mundo. Outros tempos: daqui a uns anos, também haverá, por certo, quem recorde e relembre os nomes daqueles que, no meio desta devastadora pandemia, acabaram por descobrir as tão necessárias e importantes vacinas. Por outro lado, uma outra figura mundial veio a estar presente nas páginas do NV, em 1955: a de Winston Churchill, que entretanto acabara de abandonar a política, ele que fora um dos grandes vencedores da 2ª Guerra Mundial.
Em grande destaque, a merecer mesmo uma edição especial, esteve a visita a Portugal do Presidente do Brasil, Dr. João Café Filho, mobilizando uma série de depoimentos nos dois países, o que preencheu um bom número de páginas. Dava-se também atenção a uma decisão da Junta Autónoma das Estradas que passara a dedicar um cuidado especial à recuperação das alminhas que estavam junto a essas vias nacionais. Quanto às restantes, remetia-se a respectiva beneficiação para as autarquias locais e comissões fabriqueiras.
Dava-se conta da morte em Lisboa do chamado “pai dos marçanos”, Bernardino José Marques, de Ferreiros, que estivera estabelecido mais de 50 anos na Rua das Olarias e por onde tinham passado muitos rapazes em começo de actividade na capital. Por esse facto e pelo carinho com que os tratava, havia mesmo sido homenageado na Casa de Lafões.
Com Cambra a pedir a desejada electrificação, Oliveira de Frades queixava-se da péssima audição da rádio via Emissora Nacional. Neste concelho, o Hospital da Misericórdia preparava a sua parte nova, dizendo-se que um aparelho de raios X custava cerca de 100 contos, uma verba bem significativa para aquela época. Ali perto, crescia e edifício da JAE, hoje, por sinal, pertença da citada Misericórdia de Nossa Senhora dos Milagres.
Em sinal de expansão dos vinhos de Lafões, Angola passava a recebê-los através da Sociedade Agrícola e Comercial do Calumbo, para recordar aqueles que se bebiam nas adegas locais, um pouco por todo o lado.
Carlos Rodrigues, in “Notícias de Vouzela”, Jun 2021
Com as voltas por 1955, encontramos as migrações de Alcofra para o Alentejo...
Em 1955, migrar para o Alentejo era um costume anual
Da tristeza do trabalho à alegria do reencontro com os seus conterrâneos
Pela pena do Padre José João Pereira, tal como vimos no número passado, a saga dos alcofrenses, em idas sucessivas para o Alentejo e outros locais, nunca passava indiferente às gentes locais. Sem deixarmos de pensar que suas crónicas tinham uma certa grelha de leitura a que não era alheia a sua função sacerdotal, os testemunhos nelas revelado integram uma boa fonte de compreensão para este fenómeno das nossas migrações internas e dos quadros sociais de que faziam parte. Em concreto, a freguesia de Alcofra tem, no seu historial, um importante acervo do que foi a vida das nossas comunidades rurais.
Nesta segunda fase da edição do jornal “Notícias de Vouzela”, não deixa de ser significativa a importância que concederam a estes fenómenos. Todos sabemos, ontem e hoje, que o jornalismo não é um exercício isento em termos de escolhas quanto aos temas a editar. Podem omitir-se uns e optar-se por outros. Estávamos em 1955 e a emigração talvez não fosse, nas altas esferas do poder, um assunto pacífico. Decidir dar-lhe honras de primeira página, deixem que diga, é um acto de coragem e um exercício de cidadania que nos apraz louvar.
Convém ainda relevar-se a ênfase dada à forma como o Padre José João relatou os factos com um incrível realismo, bem evidente nos parágrafos que se seguem ( 1 de Março de 1955): “ De manhã, ao pontar do sol , estão no trabalho, que é diferente conforme a quadra do ano… À noite, regressam ao «quartel». Os «ruços» fazem o transporte da água e acendem o fogão. Cada qual faz a sua ceia, no mesmo género do almoço e avia alcofa para o dia imediato. Em seguida, conta-se, canta-se, dança-se até que o manajeiro mande recolher… “
No meio das durezas das tarefas diárias, nunca a alegria, até talvez como forma de amenizar aquilo que por ali viviam, ficava de fora dos corações destas nossas gentes. Estamos mesmo em crer que ampliavam o seu enriquecimento cultural, levando costumes beirões para o Alentejo, trazendo outros em sentido inverso. Tutelar, a figura do manajeiro era uma presença constante. De relógio em punho, era ele que punha e dispunha dos tempos de trabalho e de descanso.
“Fim de Junho. Quando o sol, em brasa, tudo queima, lá voltam os «galegos», airosos, e «pategos», de grande manjerico na orelha, pena no chapéu e botas brancas nos pés. Por sua vez, as moças, de saia e blusa berrante, meia cento e um e sapato de lona, dão léria aos sete ventos. É uma animação. Dinheirinho fresco que chega, tabernas que se enchem, bailes que se organizam, balbúrdias nocturnas, mocidade que se queima… “. Após quatro meses, lá voltam à mesma vida….
Olhando-se para as vivências deste concelho de Vouzela, informa o Delegado Escolar, o Prof. Antero de Almeida, em entrevista, que por aqui se assiste à menor taxa de analfabetismo do distrito de Viseu e mesmo assim anda-se pela ordem dos 33%. Acrescenta que, de 1944 para 1954, aumentou em 45% o número de crianças matriculadas, passando-se de 1200 alunos em 1944 para 1750 em 1954 e de 31 para 36 escolas. Em 7 cantinas escolares, eram beneficiados 21 estabelecimentos, fornecendo-se cerca de 400 refeições diárias.
Apoios assistenciais
Num tempo em que as políticas públicas começavam de ter um certo peso social, ainda que muito longe do desejável e do que se ia fazendo por essa Europa fora (depois de se ter saído do horror da 2ª Grande Guerra), em subsídios de cooperação, a Misericórdia de Vouzela recebera 44 contos, o Hospital de Santo António de S. Pedro do Sul – 48, o Hospital de Nossa Senhora dos Milagres de Oliveira de Frades – 30 e a Misericórdia de Viseu – 332 contos. Quanto à distribuição do Fundo de Socorro Social, a Comissão Municipal de Assistência de Vouzela arrecadara 12 contos, o Asilo/Misericórdia – 6, a Comissão de Assistência Social de S. Pedro do Sul, 15, e a Cantina dos Pobres desta mesma localidade – 3. Para a Comissão Municipal de Assistência de Oliveira de Frades foram canalizados 6 contos, para o Albergue Distrital de Mendicidade – 108 contos e para a Comissão Municipal de Assistência de Viseu, 48 contos.
Nestes tempos, anunciavam-se 301 novos encartados com cartas de condução em bicicleta, ficando 22 em espera por deficiências nas provas de sinalização. Como sinal de futuro, falava-se na criação das estações regionais dos CTT em Alcofra e Campia, mas advertia-se que se carecia de confirmação oficial, uma forma de bom jornalismo.
Numa abertura para novos horizontes turísticos, a Agência de Viagens Novo Mundo publicitava novos destinos, tais como Caracas/Venezuela (bons tempos!), Nova Iorque e Congo Belga.
E por hoje aqui nos ficamos…
Carlos Rodrigues, In “Notícias de Vouzela”, Maio 2021
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