quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

É bom recordarmos sempre Amorim Girão...

2022, um bom ano para recordar o Professor Amorim Girão Carlos Rodrigues Falar-se do Professor Amorim Girão é sempre uma forma de melhor conhecermos as nossas terras tal foi o contributo, em modo científico, que delas nos legou. Pedra a pedra, monte a monte, rio a rio, em passeios bem programados e melhor executados, este nosso conterrâneo de Fataunços, nascido em 1895, tudo fez para colocar a zona de Lafões, a sua e a nossa, nos trilhos da ciência histórico-geográfica, a área em que se formou na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Sem internet, sem as novas tecnologias que hoje nos fazem entrar todo o mundo pelos olhos dentro, de lápis ou caneta em punho, anotava com pormenor e precisão tudo quanto lhe parecesse relevante para registar em termos de memória futura. Como bom exemplo no que se refere a esta nossa zona, duas de suas obras, entre as muitas que publicou, tiveram como pano de fundo o território que habitamos: em 1921, lançou o livro “ Antiguidades pré-históricas de Lafões” e, um ano depois, em 1922, avança com a sua tese de doutoramento “ A Bacia do Vouga…. “. Para assinalar esta efeméride, na Universidade de Coimbra, a sua casa e o seu ninho de investigação por excelência, foi-lhe prestada uma homenagem no passado dia 29 de Novembro, versando o tema “ Os mapas e o mundo de Amorim Girão” para assim recordar os cem anos da tese que então escreveu e defendeu com muito brio, numa evocação do homem e do académico destacado que foi no seu tempo. Precursor das ciências geográficas em Portugal, a sua “escola” veio a ter inúmeros seguidores e também vários detractores, que, como em tudo, nunca se agrada a toda a gente. Fica a consolação de sabermos que o nosso conterrâneo lafonense, que nunca enjeitou as suas raízes, muito pelo contrário, deixou um espólio de verdadeira dimensão nacional e até internacional na carreira científica que abraçou. Hoje, tal como ontem, é impossível fazer-se qualquer trabalho em que se pretenda caracterizar esta nossa zona sem se agarrar nos escritos de Amorim Girão, quer nos seus livros, quer até nos múltiplos apontamentos, desenhos e mapas que foi criando ao longo de toda a sua vida até falecer no ano de 1960. Se, em 2022, é a sua tese que motiva uma série de sessões que o têm por base, já em 2021, aqui se realizou a 2ª Edição das Jornadas de Arqueologia de Lafões, quase apenas para se retomarem as “ Antiguidades” que nesse ano de 1921 trouxe a público e que constituem, na actualidade, uma ferramenta essencial para quem se debruça sobre o estudo deste mesmo território, assim como, deve dizer-se, a “Bacia do Vouga”. Quanto à cidade capital do nosso distrito, também não quis ficar atrás e dela escreveu “ Viseu, estudo de uma aglomeração urbana, 1925”. Incluiu ainda o “Montemuro, a Serra mais Desconhecida de Portugal, 1940”. Ou seja, num curto espaço de mais ou menos 5 anos, “fotografou”, com o seu bisturi de cientista da história e da geografia, todo este espaço beirão. Com uma vastíssima obra, que versou muitas temáticas, incluindo propostas de divisão administrativa do próprio País, também a pedagogia da ciência a que devotou grande parte de sua vida foi objecto das suas preocupações, como se pode deduzir da obra “ Compêndio de Geografia para o Ensino Primário, 1934” e “ O Ensino da Geografia nos Liceus e Universidades, 1928”. Anos antes, logo em 1915, tinha editado “ Geografia Física de Portugal”, avançando pelos tempos fora a sua marcha por outros horizontes, mais de feição nacional. O lafonense e viseense de cepa quis assim mostrar a sua costela de cidadão universal. Dessa forma, pôs a circular o “Esboço de uma Carta Regional de Portugal, 1930”, a “Divisão Regional, Agrícola e a Divisão Administrativa, 1932”, as “Condições Geográficas e Históricas da Autonomia Política de Portugal, 1935”, o “Formulário Anotado do Registo Predial, 1937” e o “ Desenvolvimento do Estudo Geográfico em Portugal, 1870/1940”. Como professor e pedagogo que sempre foi, uma outra área da sua intensa laboração científica foi a da pedagogia, deixando-nos o “ Compêndio da Geografia para o Ensino Primário, 1934”, as “Lições de Geografia Humana, 1936” e, antes, em 1928, “ O Ensino da Geografia nos Liceus e nas Universidades” e o “Atlas de Portugal, 1940”, entre uma enorme amálgama de artigos e outras publicações diversas. Com uma carreira multifacetada, fruto de um intenso labor de pesquisa e investigação, nada lhe escapava e pouco ficava para trás. Num tempo em que o acesso às fontes tinha muito de labor e suor, andando de biblioteca em biblioteca e de arquivo em arquivo, e pouco vinha a ter às pessoas de mão beijada, a Amorim Girão se deve também algo da descrição da metodologia que adoptou para chegar ao relato dos temas e pontos que tinha em vista apresentar ao público leitor, que outro não existia por aquelas alturas, com uma imprensa incipiente, uma rádio sem ondas e uma televisão que ainda não tinha saído praticamente do berço da sua gestação. Na sua obra “ Antiguidades pré-Históricas de Lafões, 1921”, recorreu mesmo ao pormenor pitoresco no relato do modo como conseguiu partir para o campo, o chão privilegiado que Amorim Girão tinha para contactar com o objecto de sua análise. Um dia, estando numa adega com um grupo de amigos e conhecidos, tudo se veio a compor, para poucos tempos depois, partir para o terreno. São suas estas palavras: … “ E, entretanto, decorria Janeiro de 1917. Estávamos a 12 do mês, na festa de anos de meu querido conterrâneo e amigo Aurélio de Sousa Melo, e essa festa proporcionou-me ocaso feliz de, momentos antes do jantar, na adega, com a primeira denunciação de dois copos de óptimo Falerno, abordar o então professor primário de Ventosa, José Manuel da Silva, que conhecia bem a Serra do Caramulo e suas dependências…”. Disse ter aproveitado esse momento para lhe falar no único monumento reconhecido em terras de Lafões – o dólmen do Espírito Santo de Arca (Oliveira de Frades) – “explicando ao mesmo tempo o que eram esses monumentos, formas de facilmente se reconhecerem no campo e designações toponímicas que a eles se ligam… Falei-lhe de uma exploração que, havia pouco, tinha levado a efeito em duas mamoas junto do Crasto de Campia… “ A resposta vinda de seu interlocutor, o Professor José Manuel da Silva ( um amigo e companheiro que o haveria de apoiar sempre e em todas as circunstâncias, sobretudo quanto a passeios e deambulações pelas nossas serras), veio de imediato: “ … Anunciou-nos que um monumento da mesma natureza existia na Malhada de Cambarinho (Vouzela), outro no Ventoso, junto da sua Póvoa Pequena (Fornelo do Monte), acrescentando a esse já grande espólio arqueológico os restos despedaçados dum cavalo de pedra, no Monte Crasto (Covas), onde fora em tempos um padre fazer umas rezas para descobrir o tesouro encantado… “ Estava dado o mote para se perceber como é que o Professor Amorim Girão, o catedrático da Universidade de Coimbra, chegava a tantos e tão inóspitos sítios. A solo ou bem acompanhado, tantas vezes mais parecendo “um foragido político”, acrescenta que “ continuámos febrilmente na ânsia de descobrir novos restos dos tempos pré-históricos e de dar a conhecer, fazendo a sua publicação, que planeávamos para breve… “ Uma outra forma de chegar às fontes é-nos relatada por J. M. Pereira de Oliveira, seu ilustre a confesso seguidor na mesma Universidade de Coimbra, em “Lições de Geografia Humana”, em reedição da Câmara Municipal de Vouzela, no ano 2000. Diz-nos a certa altura: “ … Amorim Girão (…) lia muitos jornais e tudo o mais que lhe chegasse às mãos; anotava em verbetes de ocasião ou fazia os respectivos recortes do que achava curioso e, sobretudo, do que lhe parecia importante para a sua actividade de Professor de Geografia”… Dito tudo isto, concluamos: quem não tinha cão (internet ou afim) caçava com gato. E o certo é que o nosso conterrâneo de Fataunços, Professor Amorim Girão, saiu-se extremamente bem nas tarefas em que se meteu. A homenagem que lhe foi prestada em 1960, por ocasião da sua morte e funeral, em Coimbra, em Vouzela e Fataunços, em cujo cemitério repousa, mostra quanta consideração lhe devotava toda a gente que o conheceu ou que com ele conviveu. Cidadão e académico exemplar, dele Lafões se pode bem orgulhar e nunca o esquecer pelos tempos fora… In “ Ecos da Gravia”, Dezembro, 2022

quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

Há 55 anos, chuva, centenas de mortes e destruição em Lisboa e arredores CR De sábado para domingo, isto é, de 25 para 26 de Novembro de 1967, a cidade de Lisboa e os concelhos em redor acordaram com uma noite de terror. Uma tempestade imensa, num ano que até ia seco, segundo relatos da época, fez cair uma tromba de água, que chegou a atingir os 170litros por metro quadrado e por hora (170L/m2/hora). Se toda a zona da capital foi afectada, os efeitos mais trágicos e dramáticos aconteceram em bairros da periferia, sobretudo habitados por migrantes de todo o lado que para ali tinham ido em anos anteriores que habitavam instalações precárias, muitas delas situadas, a esmo, em leitos de cheia. Oficialmente foram contados 462 corpos de vítimas mortais, mas as mais variadas fontes falam em cerca de 700 mortos. Aldeias e bairros inteiros foram literalmente varridos do mapa. Houve 20 mil casas desaparecidas De acordo com informações pessoais e memórias de descrições desses tempos, ficámos a saber que, por exemplo, nas margens dos Rios Trancão e Jamor, eram visíveis os estragos durante bastantes meses (ou mesmo anos) depois. As marcas dessas fatídicas cheias por todo o lado se notavam. Então como hoje, sempre que as catástrofes acontecem são as zonas degradadas as mais penalizadas, tese que tem estado muito em cima da mesa, quando agora se fala na problemática das alterações climáticas. E, nessa noite de 25 para 26 de Novembro de 1967, há 55 anos, assim aconteceu. Num fenómeno natural tido como o pior desde o Terramoto de 1 de Novembro de 1755, acerca de 1967, no jornal Século Ilustrado, entre muitas e dolorosas imagens e títulos de grande dureza, assim se escreveu: “ A noite em que a chuva matou… Chuva e morte no fim de semana…. Noite de pesadelo numa cidade em pânico… “. Num mar de lama e dor, até o Rio Tejo se converteu num perigo à solta, no momento em que as suas águas subiram cerca de quatro metros. Com recolha de testemunhos de sobreviventes ou de familiares dos desaparecidos, na Rádio Renascença, 50 anos depois, Dina Soares e Joana Bougard, em detalhada reportagem, relataram situações vividas em vários concelhos, incluindo o caso particular da Aldeia das Quintas, no concelho de Vila Franca de Xira, onde consta que faleceram na ordem das 100 pessoas. Evocando esta imensa tragédia, a Junta de Freguesia de Castanheira do Ribatejo ali colocou uma placa em homenagem a essas vítimas. Igual gesto teve a actual CM de Odivelas, que veio a erguer um mausoléu em memória de quem, nessa área, então a ser parte de outro concelho (Loures), ali perdeu a vida. Por sua vez, no Parlamento, em 25 de Novembro de 2017, estes tristes episódios não deixaram de ser recordados e evocados. Durante essas terríveis cinco horas caiu, em chuva, perto de 1/5 de toda a precipitação de um ano inteiro. Foi essa fustigante intensidade e a debilidade de muitas das zonas atingidas que levou àquelas dimensões catastróficas. No meio dos escombros e das lamas em massa, gerou-se uma enorme onda de solidariedade colectiva, com destaque para as camadas estudantis universitárias, como que lideradas pelo Instituto Superior Técnico e pela Juventude Universitária Católica em geral, associando-se ainda alunos do ensino secundário. Os Bombeiros, como sempre acontece nestas situações, foram também incansáveis. De Cascais a Alenquer, as ondas de destruição fizeram-se notar por todo o lado, dizendo-se que muita coisa se não soube porque as autoridades estatais não deixaram que se investigasse e comunicasse a fundo, tentando minimizar o impacto de tudo quanto, na realidade, se passou. Muito em especial, tratou-se de tentar apagar as condições habitacionais degradadas de muitas das famílias desaparecidas, que eram o espelho de uma pobreza meio esquecida. Como quer que seja, com a versão oficial, ou com os dados referidos por outros meios, aquela noite de Novembro de 1967 é uma página negra e triste na nossa vida como povo e nação. Se a natureza é, por vezes, implacável, a acção ou inacção do homem têm, nisto tudo, também uma forte palavra a dizer, sendo que o planeamento e a prevenção são essenciais… Ontem, hoje e amanhã… Carlos Rodrigues, in Notícias de Vouzela, Dezembro, 2022 Uma acção solidária para a ASSOL CR No pólo de S. Pedro do Sul da ASSOL, veio das panelas e dos tachos um gesto generoso por parte do Chef Diogo Rocha, que já leva duas estrelas Michelin no seu currículo, a que junta ainda uma outra verde, tendo-se posto à disposição desta Instituição para oferecer o melhor que sabe e gosta de fazer: cozinhar com primor e arte, tal com faz no restaurante Mesa de Lemos (Viseu), e apresentar iguarias topo de gama que fazem as delícias de todos os comensais. Foi o que ali aconteceu no passado dia 7. Meia centena de felizardos puderam tomar contacto com a sua alta gastronomia, ao mesmo tempo que comparticiparam com a verba paga o trabalho desenvolvido pela entidade premiada – a ASSOL. Como tudo tem um princípio, coube ao Presidente Gil Almeida falar desta ligação e da forma como se estabeleceu: sendo sua Tia uma das funcionárias desta Casa, deveu-se a ela a ideia de ali trazer o seu Sobrinho para, em acção solidária, mostrar tudo quanto sabe e tem conseguido mostrar ao mundo. Como que a sentir-se em sua casa, devido a esses laços familiares existentes em S. Pedro do Sul, Diogo Rocha mostrou-se, ele mesmo, grato por poder associar-se à ASSOL desta maneira. Acrescentou ainda que teve ali bons colaboradores, os funcionários daquela Colectividade, o que tornou possível a realidade desta Ceia de Natal especial. Para juntar a estes bons momentos, também a cultura se fez sentir a cargo de Kattrina Kabali, natural da Grécia, mas a viver neste concelho, que com seu cravo (instrumento musical) animou este serão a solo e a acompanhar o canto de Clara Spormann, em versão portuguesa e alemã. Enfim, uma generosa noite bem passada em saborosa companhia do Chef Diogo Rocha e suas especialidades gastronómicas, boas até mais não… Carlos Rodrigues, in Notícias de Vouzela, 2022

ASSOL a receber missão solidária

Uma acção solidária para a ASSOL CR No pólo de S. Pedro do Sul da ASSOL, veio das panelas e dos tachos um gesto generoso por parte do Chef Diogo Rocha, que já leva duas estrelas Michelin no seu currículo, a que junta ainda uma outra verde, tendo-se posto à disposição desta Instituição para oferecer o melhor que sabe e gosta de fazer: cozinhar com primor e arte, tal com faz no restaurante Mesa de Lemos (Viseu), e apresentar iguarias topo de gama que fazem as delícias de todos os comensais. Foi o que ali aconteceu no passado dia 7. Meia centena de felizardos puderam tomar contacto com a sua alta gastronomia, ao mesmo tempo que comparticiparam com a verba paga o trabalho desenvolvido pela entidade premiada – a ASSOL. Como tudo tem um princípio, coube ao Presidente Gil Almeida falar desta ligação e da forma como se estabeleceu: sendo sua Tia uma das funcionárias desta Casa, deveu-se a ela a ideia de ali trazer o seu Sobrinho para, em acção solidária, mostrar tudo quanto sabe e tem conseguido mostrar ao mundo. Como que a sentir-se em sua casa, devido a esses laços familiares existentes em S. Pedro do Sul, Diogo Rocha mostrou-se, ele mesmo, grato por poder associar-se à ASSOL desta maneira. Acrescentou ainda que teve ali bons colaboradores, os funcionários daquela Colectividade, o que tornou possível a realidade desta Ceia de Natal especial. Para juntar a estes bons momentos, também a cultura se fez sentir a cargo de Kattrina Kabali, natural da Grécia, mas a viver neste concelho, que com seu cravo (instrumento musical) animou este serão a solo e a acompanhar o canto de Clara Spormann, em versão portuguesa e alemã. Enfim, uma generosa noite bem passada em saborosa companhia do Chef Diogo Rocha e suas especialidades gastronómicas, boas até mais não… Carlos Rodrigues, in Notícias de Vouzela, 2022

terça-feira, 22 de novembro de 2022

Santuário de Nossa Senhora do Castelo em Vouzela com muro em forte perigo de derrocada

Subir à Nossa Senhora do Castelo e recuar milhares de anos A estrada que dá acesso ao Monte e à Nossa Senhora do Castelo beneficiou de grandes obras no ano de 1938, altura em que se pediu mesmo o alargamento das curvas da antiga via, como se relatou neste Notícias de Vouzela em Abril, para possibilitar a circulação de autocarros, “ a fim de se poder adorar o maravilhoso panorama”, numa visão de futuro que, pouco tempo depois, viria a ter todo o cabimento. Acontece que, milhares de anos antes, já este espaço era desejado e ocupado pelos nossos antepassados, como veremos de seguida. Pelo meio, em épocas diversas, houve contendas várias, como a que aconteceu em 1957 com o descontentamento do facto de a mata ter sido entregue aos Serviços Florestais, por deliberação da Câmara Municipal e da publicação do Diário do Governo de 22 de Março, com excepção da parcela onde se encontra a Capela. Com os tempos actuais a trazerem graves problemas de sustentabilidade, quando a queda do muro de suporte ao Santuário está a ruir e a prolongar esse estado de destruição de dia para dia, podem ser extremamente graves, no imediato, os seus efeitos se nada for feito para impedir um desastre total. Do lado da torre da televisão, cujas obras podem ter espoletado esta situação, a insegurança é total e a Capela está a pouquíssima distância da parede em ruínas. Não agir depressa pode trazer, para o futuro, altos prejuízos, incluindo a possível destruição da obra religiosa que ali se encontra. Sem panos quentes, ou se actua, ou a inércia será fatal. Estando nós em presença de um monumento de inegável interesse histórico, turístico e religioso, tudo o que agora se fizer para o salvar terá impactos imediatos de grande alcance a longo prazo. Dar-se-lhe vida hoje é preservar um património que testemunha milhares de anos do nosso passado comum. Se o Monte não será, certamente, atingido, a queda do Santuário será, sem dúvida, uma perda irreparável e é disso que se trata na altura em que ali se notam sinais de uma derrocada iminente. Sabendo que a Confraria já entregou a quem de direito um projecto para as necessárias obras e que a Câmara Municipal e a Direcção Geral do Património estão de posse dos dados em questão, urge que estas entidades dêem as mãos e avancem depressa com os trabalhos. Fazê-lo é algo que se impõe e não pode demorar muito, ou mesmo nada, que o Inverno pode continuar a ser mau conselheiro… Com uma boa conversa, também a Altice, talvez, possa – e deva – participar neste processo de recuperação, num exercício de cidadania, em termos de responsabilidade social ou de mecenato. Com os acessos vedados por precaução, a Capela arrisca-se a não poder ser contemplada e isso impede que se descubra o templo em si e a fantástica paisagem que dali se avista. Reconhecendo a sua grande posição estratégica no contexto da zona de Lafões de antanho, povos houve que escolheram este local para ali se fixarem, ou, no mínimo, para dali fazerem um posto de atalaia com o Vale do Vouga aos pés e os Castros do Banho e de Baiões à mão de semear. Tendo em conta o texto “ O povoado e fortificação de Nossa Senhora do Castelo em Vouzela”, da autoria de Manuel Luís Real e outros, apresentado por alturas das I Jornadas Arqueológicas de Lafões, a sua localização proeminente e de grande importância estratégica, bem como as jazidas mineiras dos arredores e no próprio Monte foram condições para, na Alta Idade Média, ali nascer um segundo povoamento, o que faz pressupor usos anteriores. Aliás, tendo sido um dos pilares para a reconquista de Viseu, veio, na sequência desse apoio, a sofrer represálias e até a sua destruição por essa altura, inícios do ano 1000 dC. Aliás, desde 1019, aparecem referências escritas a seu respeito e ao topónimo Alafões. Em séculos posteriores, são cada vez mais frequentes os documentos que atestam a existência deste local, das suas muralhas, da ermida inicial que, de acordo com a Vouzelar, se pode associar a Vasco de Almeida, primo de D. Duarte de Almeida e que com ele viveu uns tempos na Casa da Quinta da Cavalaria, que, mercê de um desgosto de amor, ali mandou edificar em 1456 uma pequena ermida e uma rudimentar habitação que ocupou até à sua morte em 10 de Fevereiro de 1510. Ao pegarmos hoje neste tema, a que regressaremos em breve, tanto há a dizer, fizemo-lo para deixar o ALERTA atrás citado: é preciso reparar a fundo as muralhas em redor do Santuário antes que tudo se despedace pelo Monte abaixo. Desta forma, outros pormenores históricos ficam para uma próxima ocasião… (Continua) Carlos Rodrigues, in “Notícias de Vouzela”, 17 Nov 2022

O vinho americano, PROIBIDO, em Festival na Sobreira

Do produto de contrabando ao 1º Festival do Vinho Americano Foram os lugares da Sobreira, Ponte e Feira, na freguesia de Reigoso, fortes produtores, em tempos, do vinho americano, praticamente o único que por ali se dava melhor. Sem grandes problemas e gastos com tratamentos, os cachos tintos e brancos por lá apareciam e engordavam a sério e em grande quantidade, se a meteorologia fosse de feição. Das terras saía essa riqueza natural que era muito apreciada localmente e por essas cidades fora, sobretudo nas áreas de Lisboa e Porto. Hoje, quase que não existem videiras nem a consequente produção. Recordamos bem as operações de transporte camuflado desta “pinga”. Pela calada da noite, disfarçados em camiões de palha, madeiras ou outros produtos, lá iam no meio os barris aos montes e em grande quantidade. A caminho de Lisboa, por exemplo, um ponto negro, entre muitos, a ser sempre temido era o Posto da Polícia do Carregado. Vencido esse obstáculo, lá se ia até à capital. Nesta cidade, eram muitos e sobejamente conhecidos os postos de venda, como a enorme casa Laranjeira e Pereira da Silva, de uns amigos de Ribeiradio, que vendia milhares e milhares de litros por ano. Muitos outros comerciantes lhe seguiam o exemplo. Para que estas tradições se não esqueçam, a ARCUSPOF organizou o 1º Festival do Vinho Americano, que se realizou no dia 11, com o S. Marinho por muito perto. Em sistema de bordadura ou agarradas às árvores, as videiras rodeavam as propriedades agrícolas em altura ou então espalhavam-se por ramadas. Raramente, se viam as vinhas no sentido formal do termo. Pode dizer-se, sem quaisquer dúvidas, que, na maioria das casas agrícolas, a venda (proibida) deste vinho, das vitelas, da resina, de alguns porcos, das árvores era o grande suporte económico da cada família, sobretudo até surgirem os aviários. Por isso, aquele era um produto altamente apreciado por esse factor e também pelos seus indefectíveis defensores em termos de gosto. Deve-se ao surgimento da filoxera por volta de 1870, que destruiu grande parte das vinhas, a adopção desta variedade mista com raízes na América e na Europa, que passou a ser conhecida como a origem do vinho americano ou morangueiro, sempre na mira das autoridades, talvez pela enorme concorrência que veio a constituir, ou pela dita fama negativa de possuir metanol, uma componente que se dizia que faz(ia) mal à saúde, tese ainda agora discutida. Como quer que seja, sempre a vinha americana foi objecto de severas punições, pelo que, nos anos 40, 50 e outros, ora se arrancavam as videiras, ora se taxava fortemente a sua produção. Contra tudo isso, lutavam os agricultores ou arranjavam as citadas escapadelas para dele tirarem algum lucro. Feitas estas considerações, voltemos ao referido 1º Festival do Vinho Americano. Organizado, como vimos, pela ARCUSPOF, fez juntar ao jantar mais de 100 pessoas, vindas dos lugares em causa, dos arredores e até de sítios mais distantes como Ílhavo. Ao lado do salão de festas, 800 litros estavam na cuba que agora se encontra na barraca rural bem restaurada como património a preservar, cujas uvas foram vindimadas, pisadas e armazenadas em virtude do trabalho das gentes locais. Perante um júri sabedor, compareceram mais de uma dezena de produtores, que obtiveram as seguintes classificações e distinções: Ouro excelência – Pedro Portela; ouro – Fernando Carlos; prata – Miguel Figueiredo; bronze – Mário Garcia; menções honrosas – Luís Gonçalves, Manuel Fernandes, Fernando Sousa, António Pereira, Abílio Garcia, Carlos Ribeiro e Celso Gonçalves. Em ambiente de animação e com uma ementa à base de carne de porco, castanhas, vinho americano, jeropiga, festa foi aqui festa a valer. Mas o que fica como grande recordação é este 1º Festival, numa zona onde, outrora, por exemplo, João Figueiredo chegou a ter 600 almudes de vinho e, na actualidade, nas mesmas propriedades não se colhem mais de 80. Sinais dos tempos e da perda de importância da nossa agricultura, infelizmente. Logo, estas tradições assim revividas fazem todo o sentido… Carlos Rodrigues, in “Notícias de Vouzela”, 17 Nov 2022

sábado, 12 de novembro de 2022

O clima a meter medo

Tentar travar os mortais ataques ao clima Carlos Rodrigues No Egipto, por estes dias vive-se e fala-se muito daquilo que nos aflige: os ataques que estamos a fazer à natureza e, por via disso, à nossa própria sobrevivência. Na “ Cimeira do Clima de 2022(COP 27), que ali decorre, é disto que se trata, com o alto patrocínio da ONU e de seu Secretário-Geral, o nosso compatriota António Guterres, que tem feito deste tema, honra lhe seja, um forte motivo das suas preocupações globais, não se cansando de apelar a que tudo se faça para impedir o desastre total, o que equivale a dizer-se, a possível implosão da humanidade. De cimeira em cimeira, muitos são os objectivos estabelecidos, as metas a atingir, a curto, médio e longo prazo, como, por exemplo, aconteceu há anos em Paris. Fechadas as portas desses encontros mundiais, tudo praticamente volta à estaca zero, ou recua mesmo. Depois, volta-se à discussão, às pias intenções e não se sai deste círculo vicioso. Na prática, o que é muito mau e verdadeiramente lamentável, não se ata nem desata, isto é, não se sai da cepa torta. Em Sharm-el-Sheik, já o sabemos, vão aparecer em cima das mesas muitos e bons propósitos por parte de todos os oradores, praticamente idos de todo o mundo. Infelizmente, no meio da inacção que se segue, quem vai, como sempre, pagar as favas são os povos mais desfavorecidos, que as grandes potências poluidoras lá se vão arranjando… Os países em situação de maiores vulnerabilidades, como as cheias, os tornados, por um lado, e os incêndios, as secas, por outro, são, em suma, as zonas que mais vão sentir, pela negativa, aquilo que os governantes e cada um de nós deixam (os) por fazer. Apesar deste pessimismo, que o passado não tem ajudado a dissipar, ainda nos resta um pouco de esperança: que desta vez e do Egipto saiam práticas e intenções concretas, palpáveis e prontas a entrar em acção. Tememos é que não se preste a devida atenção ao que ali se vai passar: com o Orçamento para 2023 em plena discussão, com uma mão cheia de casos e casinhos, estas grandes e magnas questões ficam quase sempre para trás. E isso é terrível para o nosso futuro… In “ Notícias de Lafões”, 10 Nov 2022

Lafões na prosa e poesia

A cantar-se Lafões desde há séculos Carlos Rodrigues Nestas terras de encantos sem fim e histórias aos montes, sobretudo a partir dos séculos XIX e XX em diante, são múltiplas as alusões em textos em prosa e em poesia que retratam esta nossa zona de Lafões, desde os píncaros das suas serras aos vales encantados de seus rios e ribeiros. Há dias, por exemplo, um amigo meu fez-me chegar a cópia das “ Auras do Vouga”, uns “Versos de José Ozório” como se lê na capa, e não resisti enquanto não folheei esta raridade de 1917. Tal como esta publicação, muitas outras há por aí espalhadas, ou mesmo algures perdidas à espera de quem as faça regressar à luz do dia. São então de José Ozório estas primeiras palavras: “… O Vale de Lafões é toda a natureza singela, amorável e doce, enternecedoramente bela, casando-se com a índole afectiva do seu povo humilde e cortejador, submisso e respeitoso, modesto e inteligente, que acolhe um estranho com um grande abraço de velha amizade. Num passeio pela estrada, em qualquer ponto que nos quedemos, a nossa vista fica maravilhada como ante um quadro de magia… Consola o viver-se no seio desta amorável região de canduras antigas ao lado da pacífica gente que, mourejando de sol a sol na sua faina rural, tem o culto especial do lar…Ó meu adorável vale de Lafões!... “ Num tom e nuns conceitos bem situados no tempo, a sua linguagem e a sua escrita são o reflexo também dessa época, como se pode deduzir da prosa que aqui transcrevemos. Passando-se agora para uns recortes poéticos, apreciemos o seguinte: “//Ó minha terra, berço abençoado/Que embalaste os meus dias de ventura/Já perdidos lá longe, na espessura/Do tempo nebuloso do passado.//… // Montes da minha terra, ó lindos montes/Cheios de cor, vestidos de arvoredos/Onde o sol a morrer nos horizontes/ Colora d`oiro as cristas dos penedos//… // Rio Vouga, meu amigo/ Onde ia desabafar/ As queixas do coração/ Em horas do meu penar//… // Eu parti, já nem sei há quantos anos/Do meu ditoso lar/E na luta cruel dos desenganos/ Fiz-me velho no longo labutar// Uns valentes anos mais tarde, em 2000, na “Terra Lusitana, nº 1”, tendo como Director o saudoso Júlio Cruz, a cantar as “Águas do aquecimento”, Luís Chaves, assim anota os seus pensamentos: //… Valha-me Deus, já não posso/Cantar como cantava/ Já bebi água da nora/ Tenho a fala derramada//… // Coitadinho de quem tem/ Amores além do rio/Que quer passar e não pode/ Do coração faz navio//… // Sentei-me à beira do rio/Para as águas ver correr/Vi correr as dos meus olhos/Para eu mais penas ter//… Falar-se de Lafões em escrita poética e não agarrarmos em António Gomes Beato será como que uma falha imperdoável. Em dois dos seus volumes, “ Lafões, a tradição e a lenda”, 1993, e “ Canções do Vouga”, 1990, é muito e bom o material ali contido praticamente todo ele centrado nas nossas terras. Nas “ Canções” e em “Madre terra de Lafões” assim se começa: // Da terra é que me veio quanto eu sou/O meu sangue, o meu corpo e condição/ Seiva que vem de longe em mutação/ Sempre a ser renovada e me formou//… // De ti eu vim e a ti hei-de voltar/Ó meu Lafões, ó meu jardim sem par/Bendita sejas, Madre Terra minha//… Para concluirmos por hoje, vamos despedir-nos com umas palavras também de alguém que já, infelizmente, nos deixou, o Cónego José Fernandes Vieira, no seu livro “ Rebuscando”, Viseu, 2020, todo ele dedicado à sua terra, Sejães. A certa altura, quase a abrir, assim escreveu: “ Uma razão afigura-se-nos com clareza: este é um lugar sossegado, de bom clima, muito saudável e fértil, algo distante de grandes e barulhentos povoados. Pode dizer-se que é um agradável e tranquilo “jardim-pomar”, onde, para além da beleza natural, abundam produções diversificadas de excelente qualidade e sabor requintado. É este o nosso familiar “torrão natal”, de que vamos oferecer-vos alguns curiosos apontamentos históricos, talvez pouco conhecidos de alguns… “ In “ Notícias de Lafões”, 10 Nov 2022