quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

Dia dos Namorados 2023

Namorar não tem dia mas a 14 de Fevereiro o encanto é maior Carlos Rodrigues Vem de há uns tempos a esta parte a comemoração do Dia de S. Valentim, 14 de Fevereiro, como sendo uma data especial para todos os namorados, essa época de todos os encantos e sonhos, quantos deles a perderem-se anos ou meses mesmo depois!... Adiante. Ramos de flores e prendas de toda a ordem são trocadas entre quem se ama perdidamente. Encontros e escapadelas sucedem-se em quantidade enorme e a toda a velocidade. Unidades hoteleiras e de restauração tudo fazem para atrair e agradar a esta clientela muito especial. As montras das lojas põem em destaque tudo quanto possa chamar a atenção de quem vive nesse mágico mundo do amor. Neste ano de 2023, o próprio Turismo Centro de Portugal lançou uma intensa campanha subordinada a este mote e com significativos slogans: “… Tanto romance. Centro de Portugal, um destino e tanto… “ e ainda outro, como exemplo apenas: “… Descubra os melhores sítios para namorar, beijar ou fazer o seu pedido de casamento… “ Se este é o mar de rosas que, a 14 de Fevereiro, se assinala, hoje (ainda que não queiramos trazer aqui e agora mau agoiro/agouro), anotemos, no entanto, o inverso desta boa moeda. Partindo dos dados da PORDATA, as taxas de divórcio são cada vez maiores de ano para ano, salvo algumas excepções. Vejamos: por cada 100 casamentos, em 2017, acabaram 64.2%; em 2018 – 58.7; em 2019 – 61.4 e, vejam-se estes valores, em 2020, subiu-se até a uma espécie de pico da montanha com 91.5%. Em tempos de confinamento, isto dá que pensar… Acresce que 76% dos divórcios acontecem em casamentos com uma duração inferior a 24 anos e, nalguns casos, não duram assim tanto tempo, havendo mesmo casos em que o desenlace se dá poucos meses depois de se ter dado o nó especial. Colocado o nosso país, a nível europeu, como o 2º com a maior taxa de divórcios nos últimos 55 anos, isto merece-nos uma profunda reflexão. Esquecendo esses dolorosos cortes, que o Dia dos Namorados seja, no entanto, vivido em cheio e com esperança no futuro. Que as flores não murchem e permaneçam cheias de vigor, brilho e cheiro. Mas que há algo a repensar-se isso há, que aqueles números não mentem. Terminemos, porém, com uma nota positiva: olhemos para os picos mais baixos e tentemos fazê-los descer ainda mais… E façamos terminar, a fundo, toda e qualquer manifestação de violência que, por estranho que pareça, aparece já na fase do enamoramento, infelizmente… In “Notícias de Lafões”, Fev 2023

Recordar um amigo e um Homem da cultura de Lafões

Recordando para sempre o Dr. António Nazaré Oliveira Carlos Rodrigues Lafões perdeu há dias, infelizmente, uma de suas notáveis figuras, que se dedicou ao ensino e à investigação durante toda a sua longa e profícua vida: o Dr. António Nazaré de Oliveira, que tivemos o prazer de conhecer e com ele conviver por diversas vezes e em várias circunstâncias, quase sempre relacionadas com estas questões da história e da cultura lafonenses. Nascido em S. Pedro do Sul no ano de 1929, deixou-nos nos inícios deste ano de 2023. Fica-nos a sua memória e riquíssimo legado. Muito obrigado, Amigo, por tudo quanto fez por Lafões. Licenciado em “ Histórico-Filosóficas”, quando estas duas áreas do saber andavam de mãos dadas, iniciou as suas funções docentes no antigo e extinto Colégio S. Tomás de Aquino, em S. Pedro do Sul, que havia sido fundado em 1949. Se nesta Casa vincou já a sua marca, mais tarde, em Viseu, viria a ser um dos fundadores e director do Colégio de Santo Agostinho durante anos. Por um e outro destes estabelecimentos de ensino passaram muitos nossos ilustres conterrâneos, sendo que no Santo Agostinho, por exemplo, estudou Fradique de Melo Bandeira de Melo e Meneses, com origens em Fataunços (cuja casa de família está hoje destinada ao turismo rural), e que veio a ser Presidente da República de S. Tomé e Príncipe. Se este foi um pormenor aqui encaixado, é do Dr. António Nazaré Oliveira que queremos falar e com todo o propósito, por seu merecidíssimo mérito e porque importa que não esqueçamos quem assim por aqui se destacou, como, aliás, o seu Município realçou em sentida nota de pesar. No seu rico curriculum, é de relevar-se ainda a sua passagem pela criação e instalação da Escola Preparatória D. João Peculiar na sua terra, que dirigiu nos primeiros tempos da sua complicada e atribulada entrada em cena, como confessou nas cerimónias dos 50 anos desta mesma escola. Como que atirado às feras, nesse ano de 1971, teve de fazer quase morcelas sem sangue. Conseguido o edifício (hoje CCAM ), faltava-lhe tudo, desde os professores ao dinheiro para o aquecimento e outros aspectos. Alegou mesmo que pagou do seu bolso a colocação do respectivo telefone. Para criar o necessário corpo docente, socorreu-se dos seus conhecimentos e foi à pesca onde sentia que poderia ser bem sucedido, tendo, inclusivamente, saído da sua área de influência e conforto para bater à porta, por exemplo, de um amigo em Oliveira de Frades, o Professor Manuel Martinho. Improvisando tudo, até a cantina passou por esse expediente bem português do “desenrascanso”. E lá se safou e bem, pelo que se sabe… Num outro cinquentenário, o do Colégio S. Tomás de Aquino, em 1999, não deixou de confessar o seu orgulho por ter pertencido ao seu corpo docente de que, nessa cerimónia, confessou com tristeza ser então o último professor ali presente de quantos com ele participaram na respectiva docência. A par destas actividades escolares, uma de suas facetas mais notáveis, para nós, foi o facto de se ter dedicado com afinco, vontade e rigor à investigação histórica e cultural de Lafões e também à produção literária com seus contos. Devemos-lhe uma série enorme de trabalhos que muito têm contribuído para que conheçamos melhor o nosso passado e os contextos em que temos vindo a viver. Começou logo com o seu “Lafões – subsídios para a sua história”, obra em que explanou muito do que descobriu de cada concelho, com mais extensão e atenção (compreensíveis ) para o seu S. Pedro do Sul. Debruçou-se a fundo ainda sobre a vida de D. Duarte de Almeida, alargando as suas lides em investigação à assistência social nesta nossa região, desde Reigoso a tantas outras localidades, incidindo, muito particularmente, nas Termas de S. Pedro do Sul, terra a que dedicou um livro inteiro com mais de 220 páginas. Sempre com uma palavra sábia, a memória do Dr. António Nazaré de Oliveira não se pode resumir a estas curtas linhas. Nunca. Tudo isto é pouco, pouquíssimo mesmo, para o evocar devidamente. Sendo um modesto contributo, ele aqui se regista com um imenso pesar e muita saudade. Até um dia, Amigo… In “Notícias de Lafões”, Fev 2023

sábado, 28 de janeiro de 2023

Dizem que Viseu vai ter comboio de alta velocidade, mas não se sabe quando...

Comboio em Viseu talvez daqui a décadas CR Se tudo correr como foi ventilado pelas últimas promessas dos finais do ano de 2022, aqui há uns dias, a nossa capital do distrito, Viseu, vai voltar a ter a vinda e a passagem de comboios até ao ano de 2050, em meados do século que estamos a viver. Que eternidade, meus Senhores! No entanto, é isso que temos em cima da mesa. Falamos, hoje, para daqui a duas gerações mais coisa, menos coisa. Dito de outro modo, registamos estas reflexões com a noção clara (Deus queira que nos enganemos!) de que não vemos ter contacto com essa realidade. Uma tristeza, meus Senhores!... No entanto, desde 1890, esta nossa cidade andou de mãos dadas com os vagões e as máquinas ferroviárias , quando a Linha do Dão, vinda de Santa Comba Dão, ali trouxe esses trambolhos dos carris de ferro. Décadas depois, no dia 5 de Setembro de 1913, uma outra via, a nossa do Vouga, ali chegou para, juntas, se unirem, anos a fio, em partidas e chegadas sem fim. Pelo meio, por ali se viveram viagens em malas de cartão para quatro guerras, duas delas mundiais, as de 1914-1918 e 1939/1945, a que temos de acrescentar a Guerra Civil Espanhola e a nossa bem portuguesa Guerra do Ultramar. Junta-se a todos estes fenómenos bélicos a triste sina do nosso êxodo para a Europa aí pelos anos 50, 60 e 70 do milénio anterior. Estação a estação, apeadeiro a apeadeiro quantas lágrimas salgadas do nosso Portugal por aqueles troços se derramaram!... Um dia, sem respeito por esta nossa história colectiva, em 1990, todos estes ciclos se fecharam. Morreram os comboios a vapor, faleceram as automotoras, quedaram-se os autocarros “ferroviários”entre as cidades de Viseu/Porto e Aveiro e tudo partiu para sempre. Das Linhas do Vouga e do Dão, apenas restam uma parte dos seus troços, agora convertidos, valha-nos isso, em ecopistas, uma nova moda de fazer turismo enquanto as vacas gordas connosco viverem. E quem dera que por muitos anos!... Com o Plano Ferroviário Nacional a contemplar uma série de melhoria das antigas vias e a construção de novas, ali se fala numa ligação em alta velocidade entre Aveiro e a Espanha, com passagens por Viseu e pela Guarda, a ponto de a distância entre as cidades de Lisboa a Madrid e Porto a essa mesma cidade ser vencida em três horas, um enorme ganho em tempo e em comodidade. Acrescenta-se que este tipo de projectos visa concorrer com a aviação e com as circulações rodoviárias. Em termos de panorama global, a dita alta velocidade vai atingir as dez maiores cidades do país com ligação ao país vizinho, o que para Fernando Ruas, Presidente da Câmara Municipal de Viseu e da nossa CIM, é um bom prenúncio porque a capital do nosso distrito está englobada nesse pacote de localidades. Daí que, quanto a este ponto, tenha manifestado a sua concordância e até um certo regozijo. Contesta é o prazo apontado para 2050. Considera – disse-nos – que podiam e deviam dar-lhe outra oportunidade mais próxima da actualidade. Se for aquele o limite estabelecido e esticado até ao fim, o comboio chegará tarde demais a Viseu, só lá para as calendas gregas. Tendo vindo a levantar a sua voz em diversas situações e contextos, pede mesmo à sociedade civil e política que se mobilize em torno desta causa fundamental para o futuro colectivo de todos nós e das gerações vindouras. A Câmara a que preside vai tomar posição pública nesse sentido e porá na CIM esse mesmo tema para uma acção em conjunto dos municípios que a constituem. Lança uma farpa a quem nos governa e a quem, no distrito, representa, de certa forma, parte da maioria que sustenta o poder executivo. Aliás – acrescentou – em diversas ocasiões ouviu das entidades governamentais que esta é uma promessa para cumprir. Como no Plano em causa há outras hipóteses, Fernando Ruas considera totalmente legítimo que, por exemplo, Trás-os- Montes se esteja a movimentar no sentido de lutar pela passagem de uma via pelo seu território. Aceita, de bom grado, que isso venha a acontecer, mas nunca à custa da solução Aveiro/Viseu/Guarda/Espanha. Isso, categoricamente, nunca. Constituindo nós um vasto território em zona desfavorecida, é mais do que justo que o comboio de alta velocidade nos venha a atingir favoravelmente e quando antes, frisou. Para mostrar quanto Viseu reclama este investimento, o PDM já lhe consagrou um espaço para estação (Repeses) e o respectivo corredor ferroviário. Com este instrumento legislativo local e outros de nível mais elevado, em termos de gestão do território, como o PNPOT, não será por falta de visão estratégica que ficaremos sem carris e sem comboio. Falta, no entanto, o melhor: ver a obra a andar… Como não podemos passar mais de 10 000 e duzentas noites a sonharmos com este meio de transporte, deseja-se que ele apareça já num amanhã bem mais próximo. Sendo um acto de justiça, é um direito das nossas gentes e uma espécie de compensação por tanto que temos perdido ao longo dos tempos… Carlos Rodrigues, in “Notícias de Vouzela”, Janeiro 2023

Lutar contra o cancro, sempre...

Dia Mundial da Luta Contra o Cancro sempre pertinente Carlos Rodrigues No ano de 2000, no dia 4 de Fevereiro, em Paris, decorreu uma importante reunião , a World Summit Against Cancer for the New Millenium, com o objectivo de alertar a humanidade para a sensibilização do combate ao cancro por todos os meios. Com 10 milhões de mortes anuais em todo o mundo, esta é uma luta que merece e tem de ser travada em todas as frentes e tudo o que se faça nesse sentido é sempre pouco. Para assinalar essa data, nasceu o Dia Mundial da Luta Contra o Cancro, a 4 de Fevereiro. Com a Comunidade Europeia e a Liga Portuguesa Contra o Cancro a tentarem agir sobre quatro pilares (prevenção, diagnóstico precoce, tratamentos e cuidados continuados), em sucessivas campanhas em todos os locais e a muitos níveis, é notória a mobilização das diversas comunidades e agentes locais, com destaque para as organizações concelhias, em acções diversas, nomeadamente peditórios. No panorama destas decisivas batalhas, importa que se fale nos Institutos e Serviços de Oncologia, onde a medicina e o humanismo, de mãos dadas, são um poderoso antídoto contra esta terrível doença que, no entanto, tantas vidas ceifa em todos os espaços do globo. Mas não são capazes de erradicar, para já, este flagelo. Porém, as notícias recentes dão conta de que mais de 1/3 dos casos de cancro pode ser evitado e outro terço até curado, se for detectado a tempo. Eis aqui um sinal de esperança, que se saúda, mas é pouco, muito pouco ainda, apesar de se poderem salvar 3.7 milhões de vidas por ano. União, trabalho colectivo, evolução dos cuidados médicos e farmacêuticos têm prosseguido um forte caminho no sentido de, quando se não pôde evitar esse mesmo cancro, se atenuar o sofrimento dos doentes e de lhes prolongar a vida com dignidade, respeito e um sentido de vida útil. Graças a todos esses factores, ter cancro, hoje, já não tem a carga destrutiva, física e psicológica, de há anos atrás. Mas, tem de ser dito, até para se não pararem as actividades em curso, que se continua a morrer e muito, infelizmente. 4 de Fevereiro, Dia Mundial da Luta Contra o Cancro. Cuidemos de nós, cuidemos dos outros e honremos a memória de quem o cancro nos levou, gente nova e mais idosa, dia a dia. Olhemos para o passado, mas, sobretudo, encaremos o futuro com a esperança possível… Para os anos de 2022 a 2024, está em vigor mais uma campanha, “ Por cuidados mais justos”, de modo a inspirar a mudança e a mobilização de todos nós. Colaboremos, então… In “ Notícias de Lafões”, Janeiro 2023

Ramalho Ortigão andou pelas Termas de S. Pedro do Sul

Ramalho Ortigão destacou a importância das águas termais Carlos Rodrigues Já lá vão mais de cem anos desde que o notável escritor Ramalho Ortigão (1836-1915) nos deixou. Porém, partiu com uma vasta obra escrita e muito pensamento e conhecimento oferecido aos seus contemporâneos e às gerações vindouras como as nossas. Um de seus importantes trabalhos tem por título “ Banhos de Caldas e Águas Minerais” e uma introdução de Júlio César Machado, onde se incluíram as “Caldas de S. Pedro do Sul”, sendo a primeira edição datada de 1875. Com uma intensa criatividade e participação cívica, a certa altura, por exemplo, em parceria com Eça de Queirós, dessa dupla saíram as Farpas, cheias de humor e crítica dura à sociedade de então. Para não divagarmos muito e irmos de encontro ao que hoje nos interessa, que é o mundo das águas termais, tão ricos delas somos aqui em Lafões, partamos para essa salutar viagem. Começa logo por nos dizer Júlio César Machado que “ Dantes o costume em Portugal, nos meses de Verão, era tomar ares. Quem fosse gente, tinha casa de campo e em Maio emigrava para a quinta, que era como se chamava a isso e ia espantar com as modas novas os habitantes tranquilos das circunvizinhanças… A vida moderna faz doenças novas, que encontram alívio no descanso e na distracção; distrair-se alguém em Lisboa de Abril a Outubro é difícil: as caldas conciliam tudo: mudança de ares, exercício ameno, banhos, copinho, peregrinação, entretenimento, “vita nuova”. Era indispensável adoptar este regime e o entusiasmo por ele está sendo sincero… As descrições estão escritas com uma elegância que faz crescer o desejo de visitar as localidades… Trata agradavelmente das nossas águas nacionais, águas portuguesas, e das paisagens, dos montes, das cascatas, dos rios, dos vales, de tudo o pode atrair, para ver se acabamos com a mania de termos maravilhas para não as , explorar, desdenhando o que é nosso… “ Declara então Ramalho Ortigão que “ Todo o banho tem sobre o organismo uma acção calmante, tónica ou sedativa… Portanto, a primeira coisa que importa fazer ao ir para as Caldas é consultar um bom médico… A obrigação do doente é aprender com o médico não só o que deve fazer, mas – principalmente – o que é preciso que não faça…“. Não esquecer que estes conselhos e considerações aqui descritos são do século XIX e revelam-se duma acuidade e pertinência actuais que chegam a espantar-nos. E continua: “ A mudança de alimentos, o exercício, a distracção são agentes poderosos para auxiliar em muitos casos o tratamento terapêutico. Por essa razão em todos os estabelecimentos de banhos se tem em vista distrair alegremente o doente… O tratamento termal compõe-se de três elementos igualmente importantes para a cura: as propriedades medicamentosas das águas minerais, os processos balneoterápicos e as condições higiénicas… “ Nesta sua análise, salta de Província em Província indicando, a seu ver, as caldas que pretende destacar. Na Beira, começa logo com as Caldas de S. Pedro do Sul e de uma forma deslumbrante, esfuziante mesmo, deste modo: “… S. Pedro do Sul, quando eu o vi, pareceu-me um verdadeiro paraíso. Foi há catorze anos. A Linha do Norte ainda não passava do Carregado para cima. Quem vinha do Porto a Viseu, ou deixava a estrada real de Lisboa em Albergaria e atravessava a Serra das Talhadas, ou cortava, em Oliveira de Azeméis pouco mais ou menos pelo Rego de Chave. Era este último caminho que eu tinha seguido… Ao chegar a S. Pedro do Sul eu descia, pois, de Manhouce. Tinha atravessado a Gralheira, a Farrapa, a Albergaria das Cabras e a Trapa, onde S. Bernardo fundara um convento de beneditinos. Dormia-se normalmente nos palheiros sobre um feixe de colmo, ou nas mesmas estrebarias, enrolado num cobrejão a um canto da manjedoura… Era em Setembro… Trazia a pele da cara dorida e os beiços gretados, quando ao cair da tarde cheguei a S. Pedro do Sul. Que refrigério! Que grande amenidade! Que brandura!... A povoação tem casas muito agradáveis e uma hospedaria, onde dormi em boa cama e em que me serviram um delicioso prato de pimentos com batatas e tomate, excelente vinho e uvas incomparáveis, as uvas de Viseu, que – para comer – são preferíveis às melhores do Douro… A água mineral rompe em grande jorro no sítio chamado o Banho… “ Fala depois na temperatura da água, nas nascentes, no sistema de resfriamento das águas, no antigo hospício militar e nas duas piscinas para enfermos abandonadas, aludindo aos banhos que ali tomou D. Afonso Henriques… Daqui partiu para o Luso, por certo, com óptimas recordações das Caldas de S. Pedro do Sul. Seja como for, as memórias que nos legou ainda hoje perduram e não mais se esquecerão… In “ Notícias de Lafões”, Janeiro 2023

quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

De um Papa português à morte do Papa Bento XVI...

Falar de um Papa português na morte de Bento XVI CR Nos tempos em que viveu S. Frei Gil, o santo vouzelense que morreu em Santarém no ano de 1265, Portugal viu ser eleito um Papa português ( com o nome deJoão XXI), o cardeal e arcebispo Pedro Julião, mais conhecido como Pedro Hispano, natural de Lisboa, onde terá nascido nos primeiros anos de 1200 (?). Acabou por morrer tragicamente a 20 de Maio de 1277, após ter sido atingido, no Vaticano, pela queda de um tecto. Nestes dias, assistimos à morte do Papa Bento XVI, pelo que aqui estamos a fazer estas associações entre estes diversos factos. Ao começarmos pelas referências ao Papa João XXI, fazemo-lo por acharmos interessante para a nossa história local esta ligação a S. Frei Gil. Um e outro, foram médicos, padres, filósofos e até alquimistas e os dois frequentaram, em diferentes anos, a Universidade de Paris e a a sua área das artes. Começaram ainda os dois pelas escolas episcopais, a de Lisboa, Pedro Hispano, e a de Coimbra, S. Frei Gil, onde também passou pelo famoso Mosteiro de Santa Cruz. Qualquer um deles se relacionou com o Rei Afonso III, ainda que motivos algo diferentes. Se S. Frei Gil foi um notável Dominicano e seu grande responsável na Península Ibérica, Pedro Julião andou mais por outras altas esferas da Igreja, o que, um dia, o levou a ascender ao Papado em conclave fortemente conturbado e cheio de polémicas. Com efeito, de 19 de Agosto de 1276 a 20 de Setembro desse mesmo ano, foram acesas as discussões e contendas em Viterbo com a disputa entre dois pólos: por um lado as facções ligadas a Orsini e ao partido de Colloni e outras ao nosso Pedro Hispano, que veio a ser eleito nesse mesmo dia 20 de Setembro, adoptando o nome de Papa João XXI. Pelo meio, sucederam-se as ameaças e agressões fazendo com que o novo Papa tenha criado um tribunal especial para julgar quem assim se comportou. È de notar-se que, durante séculos, o Papado foi objecto desse tipo de contendas a envolverem interesses que iam muito para lá do mundo religioso, como aconteceu, por exemplo, na época dos Médicis, muitos e muitos anos depois de Viterbo. Se a eleição de Pedro Hispano foi atribulada, o seu curto pontificado de apenas cerca de oito meses não o foi menos. Com uma personalidade muito própria e vincada, dizem as fontes desses dias que acabava por receber, em audiência, tanto ricos como pobres, o que não agradava muito à gente que o rodeava. Dedicou-se ainda, para agravar os problemas, à diplomacia em favor da paz na França, na Germânia e em Castela, ao mesmo tempo que tentava promover a reunião, num espírito de conciliação, entre as igrejas ocidentais e orientais. Num curtíssimo período de exercício de suas funções pontifícias, quase sempre, pode adiantar-se, lhe fizeram a vida negra e os motivos para isso também não deixavam de aparecer em cada decisão que tomava: em terreno fortemente minado, até o facto de ter entrado em conflito com os Dominicanos (curiosamente, a Ordem de S. Frei Gil) teve iguais consequências. Em vida, lá por Roma, foram assim tumultuosos os seus dias, a ponto de se dizer que o tecto que sobre ele caiu e o conduziu à morte foi um acto provocado, talvez mesmo um frio assassinato, como, mais tarde, se veio a especular. Depois da morte, também o “sossego” não foi o seu forte, como nos diz J. Boléo-Tomé,andando de um lado para outros em sucessivos túmulos até que, em 2000, por acção da Câmara Municipal de Lisboa (João Soares) e do Episcopado, foi recuperada a pedra tumular com jacente antigo e colocada, finalmente, em repouso definitivo, em Viterbo, perto de Roma. Dante, o célebre poeta da Divina Comédia, o não esqueceu, colocando a sua alma no Paraíso, o que atesta a importância que o Papa João XXI, autor, entre outras obras, do “ Thesaurus Pauperum” (Tesouro dos Pobres), veio a conseguir por entre obstáculos e sucessos que foi tendo no seu pontificado. A terminar, aludamos ao Papa Bento XVI, o célebre Cardeal Ratzinger, nascido na Alemanha em 1927, e que faleceu no Mosteiro Mater Ecclesiae, no Vaticano, em 31 de Dezembro de 2022. Tendo exercido o seu múnus papal entre Abril de 2005 e Fevereiro de 2013, tomou a iniciativa inédita na Igreja de ter abdicado. Passando por uma vida juvenil altamente complicada, tendo sido mesmo obrigado a inscrever-se no exército alemão, foi notável, muito mais tarde, o seu papel, como Cardeal e Professor, em termos teológicos e doutrinais. Viveu, em Roma, uma fase de transição entre dois Papas bem distintos: S. João Paulo II e o actual Papa Francisco. Finou-se agora de morte natural, ao contrário do português Papa João XXI, cuja causa apareceu de surpresa e envolta em mistérios sem fim… Um e outro merecem a nossa consideração e profundo respeito. Carlos Rodrigues, in “ Notícias de Vouzela” Janeiro 2023

Assistência social em Lafões e noutras paragens

Até a assistência social tem um tempo para renascer sempre CR Nesta quadra de evocações sociais mais acentuadas, que o Natal faz despontar em cada ano que passa, e quando a chuva nos convida a ficar em casa à lareira ou no remanso do lar familiar, deu-nos para vasculhar o montão de livros que por aqui andam, não se podendo falar (onde) aos tombos, mas algo colocados anarquicamente, descobrindo então um pequeno exemplar de “ A Santa Casa da Misericórdia de Viseu nos 500 anos das Misericórdias Portuguesas”, um trabalho coordenado pelo nosso saudoso Amigo, Júlio Cruz. Logo tomámos a decisão de nele pegarmos para escrevinhar umas notas para o jornal “Notícias de Vouzela”. Dito e feito. Sem quaisquer assomos de vaidade, temos de confessar, no entanto, que, neste campo, esta vila lafonense ganhou um lugar no pódio dessas Instituições centenárias bem acima da sede do nosso distrito. Deste modo, mal a Rainha D. Leonor criou a Misericórdia de Lisboa, em 1498, de imediato Vouzela, a 15 de Agosto desse mesmo ano, na respectiva Sé Catedral da capital do reino, vê ser-lhe atribuída tal distinção. Com esse passo, tornou-se uma das catorze primeiras Pias Instituições a nascerem em Portugal. Por sua vez, Viseu alcança este tipo de apoio assistencial e hospitalar vários anos depois, em 1516, iniciando as suas funções, em primeiro lugar, na área da assistência na saúde, com o Hospital das Chagas. Com efeito, rezam as crónicas que o primeiro Compromisso foi enviado para Viseu pelo próprio Rei D. Manuel I em 20 de Dezembro de 1516. Para cimentar a sua importância e vontade de se pôr em acção em favor dos mais fracos e desprotegidos, assim cumprindo as determinações das obras de Misericórdia, vem Viseu a escolher como sua sede uma casa com a designação da Capela no Soar, talvez em 1520, ali permanecendo por muitos e bons anos. De avanço em avanço, em 1842, entra em funcionamento o Hospital da Misericórdia, com o nome de S. Teotónio, que viria a durar como tal até ao ano de 1975, quando passou para a esfera do Estado, dando lugar, décadas depois, ao moderno e actual edifício com essas mesmas funções. Deve realçar-se que este pequeno livrinho não se fica por estes exemplos de assistência em tempos idos. A certa altura, elenca uma série de albergarias, onde se “acolhiam pobres, doentes, estropiados ou simplesmente viajantes”, que passamos a citar: Reigoso, 1195, Oliveira de Frades; Regueira (Viseu); Banho (Lafões); Moledo (Lamego); Aregos (Resende); Lamego; Ucanha (Tarouca); Manhouce (S. Pedro do Sul); Corga (Penalva do Castelo); Fagilde; Oliveira do Conde (Carregal do Sal); Lavradio (Lamego); Alcafache. Em termos de apoio na doença e na carência, existiam ainda as gafarias, para tratar dos leprosos, como a do Banho (Lafões), a de Viseu, a de Lamego, a de Aregos, a de Gafanhão e a da Gafanhoeira (Resende). Com fins religiosos e caritativos, tivemos ainda nesses tempos, as mercearias – não confundir com as da actualidade, que também estão em vias de desaparecimento – como a de Viseu e a da Corga atrás citada. Em hospitais, no ano de 1511, em Viseu existiam o da Rigueira e o de Cimo de Vila, desempenhando ainda essas funções a Albergaria de Reigoso, o Hospital do Moledo, o de Ucanha e o da Corga, sem esquecer o Hospital Real das Caldas de Lafões e aqueles que acabámos, em alusões anteriores, de citar. NOTA ESPECIAL – Ao falarmos destas associações de índole assistencial religiosa, apraz-nos referir que, dentro de dias, vai assinalar o seu terceiro centenário a Irmandade de PAÇOS de VILHARIGUES, em cerimónia oficial a seu tempo divulgada…. Porque isto da assistência tem sempre muito que se lhe diga, até chegarmos aos actuais sistemas, que não deixam de dar profundas inquietações e dores de cabeça, quanto à sua sustentabilidade e melhor uso possível, sabe sempre bem olharmos para aquilo que tivemos no passado e os exemplos aqui trazidos merecem-nos todo o respeito e consideração e para quem nasceu em Reigoso, onde a Albergaria reinou até aos anos de 1900, muito mais ainda. Muito mais mesmo, que isto das origens sanguíneas não se explica, sente-se e pronto… In “ Notícias de Vouzela”, 2022