sábado, 28 de março de 2020
O Papa, a oração, e tempos de total desconhecimento....
Como forma de aqui trazer mensagens de reflexão e esperança, quando o mundo vive na incerteza e na insegurança, deixo hoje a oração vinda do Papa Francisco, que impressionou tanto pelo conteúdo como pelo contexto em que foi proferida: uma Praça vazia de gente e cheia de chuva e um Homem, Francisco, a caminhar, a custo, rumo ao altar. Ficam aqui apenas três ou quatro das suas ideias: "... Desde há semanas que parece o entardecer. Parece cair a noite. Densas trevas cobriram as nossas praças,ruas e cidades (...) Revemo-nos temerosos e perdidos (...) E, neste barco, estamos todos....". Já agora, uma curiosidade e uma NOTA: antes, ia-se aos aeroportos ver partir ou chegar os amigos. Hoje, triste sina a nossa, ali se vai em busca de aviões que tragam carga para nossa segurança na saúde. Os tempos mudam mesmo. E este é dos piores que enfrentamos. Quem assim fala, andou por Moçambique mais de dois anos na Guerra do Ultramar, onde o sol castigava mais: Tete. Mas esta é uma outra guerra e total. Pior do que a guerrilha, em que nunca se sabia por onde circulava e aparecia o inimigo, neste caso os seus esconderijos e aparecimentos são ainda mais intrigantes e desconhecidos. Cuidemo-nos. Aos outros e a nós mesmo...
terça-feira, 24 de março de 2020
Em Oliveira de Frades fala-se em dois casos de Covid 19
Não pára a escalada de más notícias: desta vez, é a minha terra, Oliveira de Frades, que vê chegar a epidemia, falando a Câmara Municipal na confirmação de duas pessoas infectadas, infelizmente. É a tristeza a crescer. E a esperança a continuar connosco no sentido da sua rápida e total recuperação, que é altamente provável. Assim aqui aconteça isso mesmo. Nesta conformidade, impõe-se a necessidade de todos continuarmos a fazer o nosso papel e NÃO SAIRMOS DE CASA. Só assim se conseguirá travar a Covid 19 que se espalha por todo o mundo... Que Deus nos ajude, na medida em que as pessoas da frente da batalha, com um sacrifício incrível, estão a fazer tudo o que lhe é possível para nos salvarem!...Sejamos nós dignos dessa entrega total a esta urgente combate...
segunda-feira, 23 de março de 2020
Infelizmente, Vouzela tem um caso de Covid19...
Na sua marcha implacável, o Coronavírus/Covid19 acaba de chegar ao concelho de Vouzela com uma pessoa do Agrupamento de Escolas de Vouzela e Campia, ao que consta residente em Viseu, a acusar positivo, segundo informações recentes. Deus queira que recupere depressa e bem, para alivio de si mesma, da família, colegas, amigos e de quem com ela conviveu nos últimos dias. Acrescente-se que a Escola se encontra encerrada há mais de uma semana. Entretanto, no meio da desgraça, há novidades que nos animam, como esta de o Instituto Politécnico de Viseu, em parceria com o de Leiria, terem lançado a base de protótipos de ventiladores, com ponto de partida numa ideia do MIT - Massachusetts Institut of Technology, dos EUA. Num projecto que envolve cerca de 20 pessoas, motivando já o interesse de outros IP, espera-se agora que surjam empresas interessadas em dar-lhes seguimento e que o Infarmed dê parecer positivo. Com a ciência e a inovação a darem bons contributos, este pode ser mais um deles. Oxalá que sim, para a crise de agora e outras eventuais situações futuras....
domingo, 22 de março de 2020
Viseu, o meu distrito, também viu chegar a pandemia...
FIQUE EM CASA... As provas de que a Covid 19 anda por toda a banda são mais do que evidentes: bate a todas as portas e não pede, sequer, licença para entrar. Está nas nossas mãos parte do travão à sua entrada. Nada de andar por aí sem necessidade e, mesmo neste caso, com todas as cautelas. Aqui não há regra de três, é a simples e só com uma sabida solução: NÃO SAIR DE CASA. Ponto. Infelizmente, o nosso distrito de Viseu não está a passar ao lado desta pandemia. Como alguém que tem na educação parte da sua vida e na ideia essa área nunca desaparece, hoje quero enviar votos de melhoras para as(os) Colegas da Escola Emídio Navarro que, ao que se diz, estão contaminados (as). Que este tormento lhes passe depressa e bem. Já agora, uma palavra também muito especial para todos aqueles que estão em lares e instituições afins: que esta chaga não se junte à dor de viverem, agora, sem as visitas de seus familiares e amigos. Para todo o pessoal que deles cuida, o nosso bem haja. Que os casos em que já há problemas sejam resolvidos com sucesso, para bem de todos. Esta vida não é bem vivida, mas é a vida que se pede, para vida se ter. CUIDEMO-NOS, pelos outros e por nós...
sábado, 21 de março de 2020
Olhar para nós e para os outros...
Nestes tempos de dores e medos, incertezas e busca de respostas seguras que não aparecem, andamos preocupados com o que acontece no nosso quintal, mas, olhando para além dele, sentimos que, um tanto mais longe, mas com gente como nós, há quem sofra mais e muito mais, como a Itália, um horror, a Espanha a galgar todos os números, e tantas outras latitudes. Sabemos que por aqui a pressão é cada vez mais forte. Mas, por lá, a violência da morte com todo o cortejo de desgraças solitárias é avassaladora. E o sacrifício sem fim do pessoal da saúde, lá e cá, um hino à solidariedade sem fronteiras e sem medida. Este é um mundo de que não conhecemos nem a actualidade. Custa-nos imenso ver que se parte isoladamente sem um carinho familiar e sem a homenagem que toda a gente merece, porque não há forma de se poder contactar com quem assim nos deixa. Até na morte este vírus é devastador. Com tanta dor, importa é ser-se capaz de resistir, lutar pela vida a dos outros e a nossa, e ter-se esperança. Muita esperança. E é o que nos resta...
sexta-feira, 20 de março de 2020
Por Lafões, as orientações contra a Covid 19 estão a ser cumpridas...
Em Lafões, com três concelhos, Oliveira de Frades, Vouzela e S. Pedro do Sul, infelizmente aqui já com dois casos confirmados, o silêncio nas ruas, a falta de movimento, o encerramento de serviços vários, a permanência nas casas são, em princípio, normas e recomendações que estão a ser cumpridas. Por outro lado, as movimentações sociais despontam um pouco por todo o lado, pelo que a solidariedade tem lugar nas nossas comunidades. Pessoalmente, é com custo que vemos ter sido encerrado, ainda que temporariamente, em função da crise que vivemos e de seus efeitos, o jornal semanal "Notícias de Vouzela", que este ano assinala 85 anos de existência. Esperando que esta interrupção seja breve, desejamos que venha, de novo, visitar-nos em cada quinta-feira de cada semana. Mas o que desejamos, sobretudo, é que esta pandemia nos deixe de todo e permita que retomemos a vida na sua plenitude... Com a Primavera a chegar, que esta seja a verdadeira estação do ano que tanto ânimo nos traz...
Em tempo de pandemia, recordamos o vouzelense e pai do Instituto Ricardo Jorge...
Dr. Ricardo Jorge com origem no concelho de Vouzela
Um dos grandes cientistas da área das epidemias
Nos últimos tempos, muito se tem falado no Instituto Ricardo Jorge, a propósito das análises que têm de ser feitas para detectar a doença Covid 19. À primeira vista, aquela designação é apenas a de um serviço público de excelência. Acontece, porém, que para a região de Lafões, para o concelho de Vouzela e para Vilharigues tem um significado muito especial, por esta razão: o pai do Dr. Ricardo Jorge, ferreiro de profissão e com estabelecimento na cidade do Porto, nasceu em Vilharigues, no centro da povoação, no século XIX.
Como tantos dos seus conterrâneos, o fenómeno da emigração também lhe bateu à porta e aí foi de abalada para aquela cidade nortenha. Escreveu-se neste jornal, a 1 de Setembro de 1939, que aquele artesão era primo do Barão da Costeira e tio de João António Gonçalves de Figueiredo.
Chamava-se o pai do médico de renome universal José de Almeida Jorge ou José Jorge de Almeida, tendo casado com Ana Rita de Jesus. Instalou o seu posto de trabalho e a sua habitação na Rua Dezasseis de Maio, a partir do ano de 1857. Um ano depois, a 9 de Maio, aí nasceria então Ricardo Jorge, que veio a casar com Leonor Maria Couto dos Santos, tendo quatro filhos: Artur Ricardo Jorge (Ministro da Instrução Pública em 1926), Ricardo Joge, Leonor Jorge de Seabra e Alice Jorge Paula Rosa.
Com uma carreira que começou a ser desenhada logo nos bancos da escola e no Liceu de Santa Catarina ( e ou Colégio da Lapa?), entrou para a Escola Médica aos 16 anos, onde cursou medicina. Numa de suas obras, A Peste Bubónica no Porto, ficou registado que “ Ricardo Jorge nasceu vacinado contra a ociosidade. Trabalhar, trabalhar sempre, era o seu lema e a sua teima”. Esta viria a ser uma das marcas fundamentais de sua vida bem preenchida em ideias, actos e realizações, desde a medicina à ciência em si mesma.
Como curiosidade, o seu vasto curriculum apresenta dois aspectos como que contraditórios: por um lado, dá os seus primeiros passos profissionais na área da neurologia, apresentando as teses “ Um ensaio sobre o nervosismo” e “Localizações motrizes no cérebro”, o que, de certa forma, talvez explique a sã amizade que estabeleceu com o Professor Egas Moniz, também com origens maternais em Vouzela, Alcofra, Quinta do Carril, onde nasceu sua mãe; por outro, será no domínio da saúde pública, higiene e epidemias que virá a ficar mais conhecido e onde produziu grande parte de sua obra científica.
A sua obra
Em jeito de cronologia, vamos anotar alguns dos pontos essenciais da sua vida profissional, muito embora em linhas muito gerais, por ser enorme o manancial de missões que veio a desempenhar, desta forma: ano de 1881, criação da Revista Científica; 1883 – Passagem por Estrasburgo e Hospital Pitié-Salpêtrière, Paris, aqui num centro de investigação neurológica; 1884 – Delegado da Escola Médica-Cirúrgica do Porto ao Conselho Superior de Instrução Pública; 1889 – Publicação da “Demografia e Higiene da Cidade do Porto”; 1899 – Acção e controle da Peste Bubónica no Porto, tema que iremos desenvolver mais detalhadamente; 1892 – Director do Laboratório Municipal de Higiene; 1912 – Representante Governamental no “Office International d’ Hygiène e ainda Membro e Presidente, mais tarde, da Comissão de Higiene da Sociedade das Nacões. Foi também fundador do Laboratório Municipal de Bacteriologia e Presidente da Sociedade de Ciêncas Médicas.
Entretanto, veio a ser funcionário da Câmara Municipal da sua cidade como seu Médico, onde se notabilizou em várias funções, tais como no combate que encetou à Peste Bubónica, uma tarefa que veio a ser espoletada com a investigação que iniciou na Rua da Fonte Taurina, alertado por estranhos falecimentos. Concluiu que se estaria perante um “foco epidémico de moléstia singular e nova”. A partir desse momento, empenha-se a fundo em lançar iniciativas que levassem a minimizar os seus efeitos. Cria o posto municipal de desinfecção e o corpo de salvação pública. Toma medidas drásticas, desde o incêndio propositado de habitações contaminadas, ao encerramento de outras e ao isolameno de prédios, avançando com a imposição de um cordão sanitário e um bloqueio marítimo, recoorrendo ao apoio do exército. Ao mesmo tempo, prossegue as suas investigações nos pavilhões de isolamento do Hospital de Santo António e no Hospital do Senhor do Bomfim.
Com a publicação de relatórios, estatísticas, descrição de casos clínicos e outros contributos, nasce o seu livro “ A peste bubónica na cidade do Porto”, reeditado em 2010, com anotações diversas.
Devem-se-lhe mais de duas centenas de trabalhos científicos e os seus contributos têm merecido inúmeras obras sobre tudo quanto fez. Uma delas, “ A vida. A obra. O estilo. As lições e o prestígio de Ricardo Jorge, de Fernando da Silva Correia, edição do Instituto Superior de Higiene Dr. Ricardo Jorge, 1960” é uma entre muitas.
Em jeito de conclusão, porque “ninguém é profeta na sua terra”, como referiu amargamente, por ter actuado com firmeza e saber na luta contra a peste bubónica, veio a ser vexado, perseguido e caluniado, a ponto de ter abandonado o Porto para ir para Lisboa, onde foi, de imediato, Inspector Geral dos Serviços Sanitários e Professor na respectiva Escola Médica. Para perpetuar o nome e grandeza deste cidadão com origem em Lafões, aí temos o Instituto de que é patrono, que tão bons e relevantes serviços presta à causa da medicina e da saúde.
Em tão curtas linhas, pouco do muito que haveria a dizer sobre o Dr. Ricardo Jorge aqui fica. Aberto o apetite, parta-se à descoberta de tudo quanto ficou por dizer. Rematamos com estas palavras do Professor Egas Moniz a seu respeito, aquando da sua morte no dia 29 de Julho de 1939:” ... Ungi-o com a minha saudade e orvalhei-o com lágrimas que rolaram... Nas manhãs em que o visitava, procurava a conversa e ouvia-o. Havia sempre que aprender... Era um banho de luz....”
Carlos Rodrigues, in “Notícias de Vouzela”, 19 Mar 2020
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