quarta-feira, 8 de abril de 2026

Ormuz português e iraniano

Ormuz iraniano de hoje e ontem espaço português CR De repente, há terras e geografias que começam a invadir nossas casas e atenções e frequentemente pelos piores motivos. Acontece agora com Ormuz, lá para os lados do Irão, como consequência da guerra que por ali vem acontecendo a seguir à invasão dos EUA e de Israel. Como poderosa arma estratégica que aquele país tem ao dispor, por onde passa um quinto do petróleo mundial em rota para vários destinos do mundo, logo o Irão se serviu dessa arma, fechando o Estreito de Ormuz, como é conhecida aquela passagem. Hoje o mundo chora esta perigosa decisão, que afecta uma boa parte dos povos de mundo. Já se sentem os seus efeitos com a escalada no preço dos combustíveis e nos bens essenciais. As nossas carteiras acusam essas situações. Se hoje é de lágrimas e choro que nós vivemos, para nós, portugueses, as ruas e praças desta nossas terras, de 1507 a 1622, mais de cem anos, eram de profunda alegria e incontido orgulho porque Afonso de Albuquerque acabara de conquistar aquele ponto marítimo de uma incalculável, tal como actualidade, importância estratégica. Se de 1507 a 1515, as coisas estiveram tremidas, neste último ano tudo ficou em pratos limpos: Portugal tornara-se soberano daquele espaço, tirando-o ao domínio, pasme-se, do Irão de que hoje tanto se fala. Sem petróleo para ali passar, já nesses tempos Ormuz era desejado por muitos países para negociarem a circulação das altas mercadorias de então, desde as especiarias às cerâmicas e muitos outros valiosos produtos. Portugal quis aquele posto de controle para esses efeitos em tributos e, muito especialmente, para que as mercadorias que transportava pudessem circular sem quaisquer obstáculos. Desejando um domínio total do Oceano Índico, o que foi conseguido passo a passo, fortaleza e fortaleza, aquele local estava na primeira linha desses projectos e objectivos, delineados em Lisboa e conquistados ou negociados além-mar. Como rotas de ligação da Ásia à Europa, em que o mar era mais seguro e mais rápido que os percursos terrestres, sobretudo depois que, em 1498, o nosso Vasco da Gama descobriu o Caminho Marítimo para a Índia, para todas as forças europeias ali presentes cada palmo daqueles espaços era ouro. Por isso mesmo, a disputa por Ormuz, mesmo com Portugal e Espanha como um só reino, fez com que estes dois povos andassem anos a baterem-se pelo controle de Ormuz e outras paragens orientais. Num século de ouro, vejam-se algumas praças conquistadas pelos portugueses: Ormuz, 1507-1622, Malaca, 1511, Goa, 1510, Macau, 1527, Nagasaqui, 1542/1543, e ainda Mascate e Timor, etc. Hoje, Ormuz é uma dor. Ontem, era, para nós portugueses, um orgulho desmedido e um enorme ponto positivo pelo controle daquele mares e continente asiático. Sem vermos a História com os olhos de hoje, o que é um enorme erro de análise, nesses tempos Portugal dominava quase a seu bel-prazer meio mundo, à luz do Tratado de Tordesilhas. A outra parte pertencia a Espanha e Ormuz entrou nessas contas, lá longe. Hoje, só nos preocupa a falta do petróleo, em mais uma notória falta de estratégia na Europa como um todo… Carlos Rodrigues, in “Notícias de Vouzela”, 2026

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