quarta-feira, 8 de abril de 2026

Páscoa em Lafões

Páscoa em recordações por aqui CR São muitas e múltiplas as marcas pascais por estas nossas terras, sempre a recordarem-nos tempos idos carregados de memórias. Recordamos os sapatos novos, talvez até a fatiota a vestir pela primeira vez, tudo guardado religiosamente para o Domingo de Páscoa. Nem um dia a mais, nem um dia a menos. Evocamos as carradas de amêndoas que comíamos, a ementa festiva, as idas de casa em casa, acompanhando a Visita Pascal, que em muitos locais se chama o Compasso. Lembramo-nos de, em Queirã, ouvirmos os foguetes e os cânticos nas mudanças de aldeia em aldeia. Temos tudo isto na memória, sabendo, porém, que hoje tudo é diferente. Quase não há sacerdotes a trazerem a bênção. Esta agora está confiada aos leigos. Falar da Páscoa é ainda trazer à memória muitas outras lembranças, como as ruas de cada terra cheias de abraços a quem vem visitar as suas famílias e amigos por esta altura, é também trazer ao de cima duas iguarias de grande valor, os folares de Vouzela e de Alcofra, as chaminés das cozinhas a espalharem cheiros que avivam sabores de outrora que nunca se perdem, é também olhar para os caminhos e vê-los mais limpos e arranjados e respirar os odores das casas lavadas. Sinais de outros tempos, hoje quase não são mais que evocações de outrora que permanecem connosco, as gerações mais antigas. São desses tempos as ricas visitas pascais (ou compasso), que levavam a bênção do Senhor de casa em casa, com o Sacerdote no comando destes rituais, em que se davam prendas como ovos e outros produtos, incluindo milho, e amêndoas para a as crianças que acompanhavam com a campainha o cortejo sagrado, sem esquecer já algumas verbas em envelopes. Na mesa, cheia de iguarias doces e umas bebidas espirituosas, uma laranja tinha nela metida uma qualquer moeda. Em cada moradia, alinhadas na sala principal, as famílias beijavam a Cruz, o mesmo fazendo os amigos que se associavam a esta festa. Se no Natal, por razões de meteorologia, é o borralho que impera, na Páscoa são as ruas e as praças que se tornam o palco por excelência destes convívios familiares. Importa ainda dizer-se que o povo, por tradição, acabara de viver uma série de restrições quaresmais, como a na não existência de bailes e outras manifestações de alegria mais expansiva. Qual garrafa de champanhe, por estes dias a festança brota em grande e espalha-se por todo o lado. Sendo as celebrações da Semana Santa, momentos muito especiais, como as Endoenças em Campia e as majestosas procissões da Quinta e Sexta -Feira Santas por todo o lado e muito especialmente em Vouzela, há que relembrar também as Encomendações e as Amentações das Almas, práticas com séculos de história e que, na actualidade, as Associações e as Autarquias têm o cuidado de preservar e divulgar. Mais na vertente popular, as festas dos compadres e das comadres e os folares dados aos afilhados fazem parte de todos estes cerimoniais. Memórias para uns, novidades para outros, na Páscoa a cultura popular reaparece em que cada ano que passa. E ainda bem… Carlos Rodrigues/Andreia Mota, in “Notícias de Vouzela”, 8 Abril 2026

Sem comentários: