sexta-feira, 8 de junho de 2018

A saúde em terras de Lafões desde há milénios...

A saúde em Lafões desde há séculos Num tempo em que nos deixou o saudoso fundador do Serviço Nacional de Saúde, o Dr. António Arnaut, a quem prestamos a nossa homenagem e lhe rendemos o nosso preito de gratidão, apetece-nos dar uma volta pela história da saúde em Lafões e, de certa forma, em Portugal por inteiro. Antes dos anos setenta, tudo era diferente e épocas houve em que a distância entre a actualidade e esse passado era quase intransponível uma espécie de água e vinho. Se agora, com ameaçadoras falhas, que importa corrigir, a dimensão universal deste SNS é quase uma realidade, outrora nada disso acontecia. Precisamos de recuar aos séculos XV e XVI para encontrarmos uma pálida ideia dos cuidados médicos mais ou menos a sério, com a criação das Misericórdias e outras iniciativas tomadas por D. Manuel I, até aqui, nas Termas de S. Pedro do Sul, com a criação do Hospital Real das Caldas de Lafões. Até aí, reinavam a superstição medieval, os curandeiros, as mezinhas diversas, as rezas e outras práticas que tais, apesar de ter havido já uns assomos de ciência médica e farmacológica sobretudo com os ensinamentos que nos vieram dos árabes e que o nosso S. Frei Gil, de Vouzela, como médico, foi traduzindo ainda antes, talvez, de enveredar pela vida religiosa quase a tempo inteiro. Antes, os gregos e os romanos ensaiavam, nesses domínios, os primeiros passos e não é por acaso que Hipócrates ainda é permanentemente recordado e evocado, quer em termos daquilo que é conhecido como o seu Juramento, quer por outros ensinamentos que nos legou. Com tudo isso, os avanços eram curtos e carregados de ideias que impediam a ciência de progredir e fazer o seu caminho. Teríamos de esperar uns séculos e mesmos uns milénios para que tais efeitos viessem a ser sentidos, na prática, pela nossa sociedade e comunidades espalhadas pelos vários cantos do mundo. Mentira triste é esta, porque ainda em pleno século XXI há enormes franjas do universo onde se não saiu dos costumes e tradições que para nós são já uma mera referência histórica e não mais do que isso. Em Lafões, nos caminhos de Santiago, que utilizavam na sua grande parte as vias romanas, tivemos a sorte de ver implantadas em locais de passagem estratégica as primeiras albergarias, também ditas hospitais, onde eram ministrados alguns básicos apoios médicos, a par da fome que se mitigava, da enxerga que se proporcionava aos peregrinos e outros viandantes. Em Reigoso, ficaram famosas as instalações criadas em 1195 pelo Alcaide Cerveira e sua mulher, que tiveram uma grande longevidade, crendo nós mesmos que até aos princípios dos século XX, ainda há dias... As Caldas do Banho beneficiaram também destes primitivos equipamentos e fala-se ainda em Manhouce, sem esquecermos, aqui por perto, os de Doninhas/Talhadas do Vouga e, como é lógico, Albergaria-a-Velha, desde os tempos da Rainha D. Teresa. A par destas instituições, tínhamos ainda as gafarias, como a de Lafões “.... Junto às Caldas, fundada, diz-se, pelos leoneses no século XI. D. Afonso Henriques, quando ali permaneceu após o acidente de Badajoz, melhorou as Caldas e parece que reconstruiu a albergaria e a gafaria. Os banhos eram separados para sãos e leprosos (gafos) e leprosos eram os que faziam o serviço do banho” ( - In “ Termas de S. Pedro do Sul, A. Nazaré de Oliveira, Palimage, Viseu, 2002, p. 24”). Quanto a Reigoso, pode ainda ver-se no Museu Municipal de Oliveira de Frades o seu famoso padrão, onde se lê uma mensagem bem explícita: “ Peregrinos vinde ao hospital de Reigoso, que vos darei casa cama agoa fogo azeite e sal”. Este é um bom testemunho destes serviços de assistência básica ali existente desde há longa data. Seria, porém, necessário esperar alguns centos de anos até aparecerem uns elementares serviços de saúde a que se podem, ainda que de uma forma embrionária, associar este mesmo significado. Se em Vouzela, há referências a um primeiro hospital, construído à beira da actual Capela de S. Sebastião, depois de os doentes serem socorridos pela centenária Misericórdia em condições muito precárias, aquém e além, é sabido que, em 28 de Junho de 1842, foi assente a respectiva primeira pedra, tal como se assegura no livro do saudoso Agostinho Torres, a “ Santa Casa da Misericórdia de Vouzela, 1498-2008”. Foi inaugurado a 29 de Junho de 1848. Entretanto, fruto da oferta da Casa da Cavalaria à Miserícórdia por parte da D. Vitória Adelaide de Seixas Loureiro e Barros, umas novas instalações viram a luz do dia em 24 de Junho de 1894, em pomposa cerimónia oficail presidida pela Rainha D. Amélia, acompanhada de seus filhos. Desta forma, esta vila passava a ter um novo Hospital-Asilo, sendo que um outro, o novo, surgiu em 1 de Fevereiro de 1959, tendo estado na posse e gestão da Misericórdia até depois de 1974, quando o Estado vem a assumir estas funções. No que a S. Pedro do Sul diz respeito, o seu primeiro grande serviço desta natureza nasceu também da boa vontade e muito empenho de um benemérito local, António José de Almeida, que andou pelo Brasil, como médico dentista, onde amealhou uma riqueza substantiva, que lhe serviu, como prometeu, para mandar erguer um Hospital naquela terra (testamento de 1873 com variações posteriores), para o que chegou a adquirir a Quinta de Negrosa. Com embaraços diversos pelo meio, o local escolhido viria a ser outro, mas a obra nasceu e começou a dar os seus frutos aí entre 1900 e 1902. Em Oliveira de Frades, a criação mais tardia da sua Misericórdia, 1929/1930, foi também o meio utilizado para a criação dos serviços de saúde, pois nos seus Estatutos, logo no Capítulo I, se consagra a ideia de “praticar os actos de assistência e socorros médicos”, passando a determinar-se que terá anexo um Hospital, sendo a sua parte nova inaugurada em 20 de Maio de 1956. Com estas diversas valências a terem muitos e bons usos durante décadas, nelas se praticando mesmo pequenas e grandes cirurgias, o que foi comum aos três concelhos lafonenses, cumpriram a sua missão até meados dos anos setenta. De então para cá, criaram-se os Centros de Saúde, as Unidades de Saúde Familiar e um Serviço de Urgência Básica (desde 2008, ano do anúncio da sua criação), este em S. Pedro do Sul. Como nem tudo são rosas, apareceram no meio destas caminhadas muitos e arreliadores espinhos, nomeadamente o encerramento dos horários nocturnos e outras quebras que ainda hoje muito se lamentam, com prejuízos evidentes e lamentáveis para as nossas populações. Avanços, houve-os. Mas estes recuos não podem ser esquecidos e urge que sejam combatidos, sendo um objectivo comum a luta por melhores dias. E são esses que nós esperamos. Carlos Rodrigues, in “Notícias de Lafões”, 7 jun 18

Uma utopia para salvar um território

A utopia deve fazer o seu caminho Em cada época, geralmente, tem havido várias utopias, isto é, em linhas muito gerais, a vontade de se vir a conseguir aquilo que, à primeira vista, parece ser impossível. Área do mundo do sonho, muitas destas visões ficam pelo caminho. Mas há as que singram e isso dá-nos um toque de esperança quando abordamos algumas delas, como esta, a do Professor Marcelo Rebelo de Sousa, nosso Presidente da República, em que se defende que as desigualdades têm de ser reduzidas até 2023. E já não é sem tempo. Referindo-se, muito concretamente, às disparidades territoriais, mais vem ao encontro de um nosso velho desejo e, vamos lá, uma certa luta sem tréguas. Confessamos que, para mal de todos nós, sem grande êxito, aliás. Pondo o dedo na ferida dos Portugais desiguais, a nós, gente do Interior e das terras de baixa densidade, tem-nos cabido o Portugal dos Pequeninos, bem menor mesmo que aquele que Bissaya Barreto idealizou para a sua (e nossa) Coimbra. Postos à janela das serranias que nos rodeiam, vemos todos os comboios passar para o litoral e até o nosso, um dia, nas últimas décadas, nos levaram. Em movimento profundamente assimétrico e desnivelado, qualquer dia afundamo-nos todos e de vez. Qualquer índice que avaliemos, em matéria de desenvolvimento e distribuição de rendimentos, mostra sempre o nosso prato mais vazio, isto é, os níveis de vencimentos, de acesso aos serviços diversos, desde a saúde aos bens culturais, de benefícios vários, como transportes públicos, parcialmente pagos pelo Estado (quando se regateia o fim das portagens nas ex-SCUT), assim como outras regalias, deixam-nos quase sempre a perder. Ganhamos apenas em boa água e melhor ar. Mas faltam-nos outras riquezas que são a essência da vida dos novos tempos. É por estas carências que daqui saem carradas e carradas de gente que nunca mais volta, a não ser para umas visitas de cortesia aos seus familiares e às suas origens. Mas regressar, de vez, nunca mais. Por este e outros factos, esta vontade do Presidente Marcelo tem toda a razão de ser e é uma voz avalizada que não pode deixar de ser ouvida. Infelizmente, com tanta gente a pregar no deserto, talvez este alerta se venha também a perder. Para nossa desgraça e de nossos vindouros. Estes nossos queridos espaços tudo têm vindo a fazer para saírem da cepa torta: Oliveira de Frades lançou-se numa industrialização a todo o vapor, S. Pedro do Sul tem vindo a fazer da sua água quente uma mão-cheia de produtos de excelência, Vouzela, a partir de seu património, tem-no guindado às alturas, mas o certo é que custa a que se descole e isso pode-nos ser fatal. Logo, este grito do mais alto Magistrado da nação é mais do que necessário, é urgentíssimo ser seguido e cumprido. Propomos ao Professor Marcelo um desafio: que mude Belém por uns anos para o Interior a ver se isto dá a volta. E atrás dele que traga uma pléiade de serviços, daqueles que, como diz o nosso Movimento, tragam emprego, muito, bom e qualificado. É preciso dar murros na mesa, venham eles! NOTA – Vivendo no mundo de que vamos falar, arrepia-nos o facto de, no professorado, ter aparecido mais um Sindicato, salvo erro, o 23º . Se isto é falar a sério, vamos ali e já voltamos... Carlos Rodrigues, in “ Notícias de Lafões”, 7 jun 18

sábado, 2 de junho de 2018

Num tempo, em S. Pedro do Sul, em que se ofereciam Hospitais...

Um hospital que nasceu da oferta de António José de Almeida Vimos, na crónica anterior ( 2011/12/29), que o velho Hospital da Misericórdia de Santo António de S. Pedro do Sul partiu da generosidade de um sampedrense, um dia – e por vários anos - emigrante no Brasil, que quis deixar uma marca relevante na sua terra. Se hoje há quem parta para poder realizar o sonho de poder ter uma casa sua, nessa época chegava a pensar-se mais alto, cumprindo até uma função que caberia a outras entidades, o Estado, em primeiro lugar. Mas temos de aceitar que há práticas que decorrem de uma evolução dos tempos e das ideias e esta da saúde e segurança social, para todos, tem apenas algumas décadas de existência e de acção no quotidiano da nossa civilização. Com mãos de benemérito e uma razoável capacidade económica, conseguida num labor desenvolvido aquém e além- mar, no ofício de dentista e na gestão de um património imobiliário sempre a crescer, jamais voltou costas à sua terra: pensou nela, logo quando teve de regressar do Brasil, em virtude de uma grave doença, tal como então demos nota, continuou esse objectivo mesmo no momento em que, por força de seu casamento, montou casa e vida em Vilar, S. Miguel do Mato. Nesses tempos, poderia ter inflectido a direcção de seus investimentos sociais, mas não foi isso que aconteceu, mantendo-se fiel a S. Pedro do Sul. Haveria de ser a sua nova Quinta da Negrosa a tecer as malhas de um destino feliz para os cidadãos da Sintra da Beira. Com esta propriedade como património, com os bolsos recheados, com uma vasta área e equipamentos, o Hospital não lhe saía da memória. Na carteira de seus bens, temos terras em S. Pedro do Sul, Várzea, Baiões, Fataunços, Queirã, S. Miguel do Mato, Bodiosa e Sul, podendo ainda contarem-se foros remidos da Comenda de Ansemil e uma espécie de actividade bancária, que lhe rende chorudos proveitos. Para aquisição da citada Quinta da Negrosa, pegou em 4 contos de réis, tendo de desta quantia pagar ao Seminário de Viseu 993000 réis e à Santa Casa da Misericórdia de Vouzela um valor de 1200000, por dívidas do anterior dono, o Conselheiro e Marechal da Campo Henrique de Melo Lemos e Alvim, a fazer fé no testemunho e sábia recolha de Manuel Barros Mouro. Sobraram-lhe 1807000 réis, porque 4 contos equivalem a 4000000. Foi essa a verba com que partiu para esta generosa dádiva, acrescendo-se-lhe tudo quanto amealhara ao longo de sua vida e que era muito, segundo se deduz dos documentos compulsados e dos vazios que estes acabam por deixar. Se as linhas desses papéis são elucidativas, as entrelinhas “falam” também. Fruto deste acumular de riqueza, por testamento, um outro de 19 de Novembro de 1873, cria uma Fundação (esta para viver por si mesma e não como aquelas que hoje por aí proliferam às custas do erário público!) que tem como incumbência a manutenção de um Hospital, sob a invocação de Nossa Senhora do Amparo, a instalar na sua nova Quinta. Como responsável por esta Instituição e valências, delega na Câmara Municipal, numa primeira fase, esse mesmo quinhão, sendo testamenteiros sua mulher, o irmão Joaquim, o parente António Oliveira Queirós e a referida Câmara Municipal, por esta ordem, respectivamente, a quem eram dados proveitos de cerca de 9000000 de réis, um colosso do fortuna. Não satisfeito com estes destinatários, em 20 de Outubro de 1885, passa aquilo que pertenceria â Câmara para a Misericórdia de Santo António de S. Pedro do Sul, “única e universal herdeira com direitos e obrigações”. Entra aqui uma ideia: a de que António José de Almeida só deu este passo quando sentiu que a Misericórdia estava legalmente constituída e sólida, o que se verificou em 17 de de Janeiro de 1875, quando o projecto de reforma dos seus Estatutos veio a ser aprovado, fruto, porém, do contributo de uma Comissão, vinda do ano de 1866, de que faziam parte os Drs. Manuel Correia de Oliveira e José Rodrigues de Figueiredo. Dando-se o salto de Irmandade para Confraria, o Governo Civil dá o seu aval em 20 de Maio de 1876 e uma Breve canónica de 27 de Janeiro de 1880 acaba por considerar definitiva esta Misericórdia. A partir destas garantias, não havia razão alguma para ter a Câmara como intermediária. Aliás, é tal o seu desejo de vir a contemplar uma Misericórdia, que faz inscrever, a dada altura, uma cláusula em que se consagra a disposição de, no caso de S. Pedro do Sul não aceitar, tal herança reverter a favor das suas congéneres de Vouzela ou Viseu. António José de Almeida pede muito pouco como compensação por esta sua benévola dádiva, porque se contenta com uma Missa perpétua, ao romper da aurora, na Igreja Matriz da vila, ou Capela do futuro Hospital. Porém, por força de diligências diversas, nem este seu desejo veio a ser concretizado: de 7 de Março de 1896, essa Missa transferiu-se para a Capela de Santo António, mas, em 7 de Fevereiro de 1905, o Bispo de Viseu, comutou-a apenas para os domingos e dias santos de guarda. Como já tinha falecido em 4 de Abril de 1889, não assistiu, como é lógico e óbvio, a esta alteração, mas a sua alma deve ter dado pulos de dor e revolta, pensamos nós, claro. Em virtude de uma norma legal, após a sua morte, os bens foram arrolados para a Fazenda Nacional no dia 23 de Julho de 1889, três meses apenas depois de ter falecido. Mas este facto não retira uma vírgula à sua intenção e respectiva concretização. Também, no ano de 1890, morreria sua esposa, Maria Antónia de Jesus, que nascera em Vilar, S. Miguel do Mato, pelo que nem um nem outro puderam assistir ao momento em que se viu florescer tão significativa oferta. Com as obras a decorrerem, em termos de terraplanagem, desde 27 de Outubro de 1885, mediante uma decisão do Provedor José Correia de Oliveira, não no local que lhe estava destinado, por falta de área da Quinta da Negrosa, mas numa outra, entretanto adquirida, mediante autorizações que permitiram esta mesma permuta, em boa verdade o Hospital só começou a ter vida, como edifício, em 10 de Março de 1892. Assim, nesta mesma data, é posto a circular o projecto e planta desse edifício, sendo seu autor José Luís de Almeida, o que faz deduzir que as obras em força só nessa altura se iniciaram, mas o certo é que o Hospital nasceu e cresceu, mercê deste acto generoso de António José de Almeida. Contrariando esta informação acerca da autoria do projecto, ou ampliando-a, uma outra fonte, lida em “Lafões, terra e gente, Avis, 2008”, onde muito colaborou o saudoso amigo Júlio Cruz, vem dizer-nos que, afinal, tal documento se deve ao Eng. Francisco de Figueiredo e Silva, de 31 de Dezembro de 1891. Seja. Um novo dado aí nos é relatado: o Hospital, de invocação de Nossa Senhora do Amparo, foi aberto ao público no ano de 1900, dizem uns, alegam outros que tal aconteceu em 1902. Ficando esta dúvida, uma certeza é incontornável: S. Pedro do Sul teve um Hospital que foi pensado e oferecido por um grande benemérito – António José de Almeida. Desse gesto, nada resta, que o Centro de Saúde veio apagar tais vestígios. Mas reza a história que a sua memória não pode ser esquecida. Agora, que lá mais além, desponta uma nova Unidade de Saúde, feita com dinheiros públicos, saber que, há mais de cem anos, houve homens desta dimensão, que muito deram de si para um investimento a oferecer à sua terra, é algo que importa ter sempre presente. Perpetuar este legado é um dever de consciência e de gratidão. Divulgá-lo também. Foi isso que acabámos de fazer. Carlos Rodrigues, in “Notícias de Lafões”, já no ano de 2011

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Quem é quem na formação de Lafões

Personalidades marcantes na génese de Lafões Do Imperador Ramiro a Dom João Peculiar Cada espaço abriga as suas próprias gentes, desde que começa o seu povoamento. Porém, nem todas as pessoas conseguiram subir ao patamar do destaque que as faça perdurar na História. É sempre assim: as mãos cavadoras, os arttífices de cada terra passam a ser esquecidos e, em seu lugar, vêm ao de cima aquelas que consideramos as personalidades marcantes. A região de Lafões, até pelas suas fortes ligações aos fundadores do Condado Portucalense e aos futuros reis de Portugal, tem uma vasta e notável lista de quem se foi destacando ao longo dos tempos. Nestas crónicas gravadas no jornal “Notícias de Lafões”, vamos fazer uma longa mas agradável viagem pelas vidas desses nossos antepassados, sobretudo daqueles de que há registos e memórias. Começamos, por estranho que possa parecer, por alguém que dividiu o seu protagonismo por Lafões, por Viseu e por Léon (hoje, Espanha): trata-se do Rei e Imperador Ramiro, neto de Afonso III, que exerceu funções entre 930 (?) e 951. Apanhado nas teias de discussões familiares, vem a ser criado, durante alguns anos, pela família de Diogo Fernandes, habitando mesmo o Paço de Moçâmedes – Vouzela, talvez entre 900 a 912, imóvel que ainda ali se mantém. Supõe-se que também andou muito por Bordonhos (cujo topónimo se associa ao próprio Ordonho) e outros espaços desta nossa zona. Como é que tudo isto aconteceu e foi possível inserir na história grande da Península Ibérica estes nossos recantos? Falando por nós, o interesse por esta personagem veio-nos de um feliz encontro com o Professor Manuel Real, que, nos anos de 2014 e 2015, nos falou do Rei Ramiro e suas ligações a estas paragens. Estava dado o tom para a continuação da investigação sobre tão fascinante figura. De busca em busca, deparamo-nos, entre outras fontes, com uma importante tese de doutoramento, feita na Universidade de Coimbra, em 2016, da autoria de Paulo Manuel Quintas de Almeida Fernandes – “Matéria das Astúrias – Ritmos e realizações da expansão asturiano-leonesa no actual centro de Portugal”. Com o título a despertar a nossa atenção, o resultado obtido não poderia ser melhor, como veremos de seguida. Tudo isto acontece em pleno contexto da Reconquista, a suceder à invasão islâmica (ano de 711) que não pode ser vista como uma entrada “ fulgurante, destrutiva, sanguinária e intolerante” (p. 30), mas antes como um processo conseguido à custa de diferentes processos, ora mais bélicos, ora mais pacíficos, incuindo a concretização de pactos diversos e em diferentes zonas. Aliás, assegura Paulo Fernandes que os muçulmanos nunca ocuparam largas faixas a norte do Tejo. Sendo sabido que a Reconquista foi feita de norte para sul, no sentido inverso daquele que fora seguido pelos árabes, muito antes da fundação do Reino de Portugal já estes territórios andavam na berlinda e nas intenções de virem a ser ocupados por quem vivia e governava para lá do Douro e do Minho. Assim, durante o reinado de Afonso III (866-910), avô do nosso Ramiro, estava já em marcha a ideia de colonizar as terras situadas entre o Mondego e o Douro (p. 195). O destino veio, por fim, a ditar algo de muito especial - a entrada em cena de alguém que haveria de ser monarca num lado e noutro, nomeadamente em Léon e Viseu. Agora vamos aos pormenores e aos aspectos que levaram a este ponto: com a morte de Afonso III, os seus três filhos repartem a herança recebida. A Ordonho cabe a Galiza; a Garcia, Léon; e a Friela, as Astúrias. Mais tarde, os descendentes de Ordonho da Galiza também se não entendem e, por isso, originam-se novas divisões: Sancho recebe a Galiza, Afonso IV fica com a parcela asturiana e Ramiro, o quase lafonense, a parte ocidental com a sede em Viseu. No meio disto tudo, Afonso IV veio a abdicar e Ramiro II ( o nosso) consegue unificar o reino e governar a partir de Léon entre 926 e 950. Pergunta-se: como é que ele tinha vindo antes parar a Moçâmedes? Em linhas muito gerais, tudo se deve, para resolver várias desavenças, à ligação de Ordonho II, seu pai, com a família de Diogo Fernandes, a quem entregou, para ser criado, seu próprio filho Ramiro, tal como sustenta José Mattoso. Qualquer que seja a razão que esteve na sua vivência nestas nossas terras, o dado maior e mais relevante é que Moçâmedes e Viseu jamais se apartaram da história deste passado comum com a Galiza. Sabe-se ainda que, como irmão de leite de Mumadona Dias, o nosso Rei luso-galego, Ramiro, lhe deu um bom dote e isso revelou-se importante para a formação futura do Condado Portucalense. Diz-se também que aqui fez várias vistas, a Lorvão (933), a Celanova (942) e a Guimarães (950). Com várias arestas para limar, do Imperador Ramiro ficámos a saber mais uns detalhes. Mas não todos. Numa próxima oportunidade, vamos tentar aclarar melhor este seu Reinado e falar de um Bispo e fundador (?) do Mosteiro de S. Cristóvão de Lafões, Dom João Peculiar, que foi fulcral como estratega, como gente de alto nível, no reinado de D. Afonso Henriques. Este é o nosso propósito e lá iremos chegar, dentro em breve... Carlos Rodrigues, in “Notícias de Lafões”, 17 Maio 2018

Apresentados os apoios à agricultura pós-incêndios

Apoios aos prejuízos com os incêndios revelados pelo Ministério da Agricultura Num exercício de transparência informativa, o Ministério da Agricultura acaba de apresentar a listagem de todos os auxílios financeiros canalizados para as vítimas de perdas com os incêndios do trágico ano de 2017. Deixando de fora o fundo REVITA, por serem provenientes de outros canais, esta afectação de verbas surge-nos distribuída por quatro rubricas, que são estas, muito embora elas não reflictam a totalidade dos montantes dispendidos, como se deduz dos apoios globais que, no final, se referem: - Restabelecimento do potencial produtivo – 767 entidades, com um valor de 16.75 milhões de euros. - Sector da vinha – 413 apoios, com 5.59 ME. - Para prejuízos englobados entre mil a cinco mil euros – 7603 destinatários, num total de 4.63 ME. - Há ainda a indicar mais 1360 pessoas também a serem abrangidas pelo citado REVITA. - Resumo final – 25 073 agricultores subsidiados com 82 milhões de euros. Segundo as informações obtidas, nestas tabelas apenas se dá nota dos processos já despachados até 15 de Maio, sendo que tudo continua em aberto e em análise quanto a assuntos pendentes e outro tipo de candidaturas. Semanalmente, vão sendo revelados mais dados, no portal do IFAP. Com este passo, tudo se torna mais claro em matéria de informação, o que já é algo de positivo. Mas a essência dos apoios em si não deixa de conter um facto que muito penaliza um sector, a da agricultura e da agropecuária, que foi visto como algo de marginal em todo o sistema de auxílios estatais e europeus, quando confrontado com o restante mundo empresarial. Em percentagens, ficou sempre aquém da indústria, do comércio, do turismo e demais situações e isso é algo incompreensível e inaceitável. Sendo o mundo rural um campo em que é preciso fazer muito mais e melhor pela sua revitalização, atirar-lhe com estas discriminações negativas é tudo aquilo que se não quer, sendo mesmo uma injustiça de todo o tamanho. Nestes nossos concelhos de Oliveira de Frades e Vouzela, fortemente afectados por esta catástrofe ( S. Pedro do Sul não a sentiu tanto, nem tão extensa), estas resoluções são altamente penalizadoras para a recuperação que se deseja e se precisa. Por outro lado, a burocracia reinante levou a que muita gente, com avultados prejuízos, tivesse optado pela solução menor, aquela que ia até aos cinco mil euros, por se sentirem incapazes de responder às exigências que as respectivas candidaturas impunham. Perdeu-se assim fundo de maneio por duas vias e quem ficou muito mais debilitado foram os nossos agricultores, sempre a serem vistos de lado, para mal de todos nós e da nossa Região de Lafões. Lamentável. Carlos Rodrigues, in “ Notícias de Lafões”, 17 Maio 2018

sábado, 19 de maio de 2018

Dia Internacional dos Museus, uma conversa em Oliveira de Frades

PATRIMÓNIO, Dia dos Museus, Oliveira de Frades 18 Maio 2018 - 2018 – ANO EUROPEU DO PATRIMÓNIO CULTURAL TÓPICOS - NOTA PRÈVIA --- Sempre e sempre o primeiro e mais valioso PATRIMÓNIO são as PESSOAS. Só elas são a sua razão de existir. - PATRIMÓNIO --- De patrum, patrimonium, pater. --- Material --- Bens visíveis --- Imaterial --- Invisíveis - Natural e cultural. Paisagens naturais e humanizadas. - Se matrimónio é a união entre duas pessoas, património pode muito bem ser a ligação entre o homem e as suas heranças culturais, em função do afecto e da razão - Património – Bens vindos do passado, herança comum, um bem da comunidade, obra humana, construção social ou da natureza - Valores – Identidade, diversidade, significado, autenticidade, beleza - Cuidados – conservação, preservação, renovação, restauro, salvaguarda, valorização, divulgação - O património é um dos bons e estruturantes activos de desenvolvimento de nossos territórios. Não é deslocalizável, em princípio, apela a sentimentos de pertença e identidade, mobiliza os nossos sentimentos, atrai visitantes, faz com que cada um de nós sinta orgulho em divulgá-lo e em senti-lo como seu, com o gosto de o mostrar aos outros - Um povo que não estima as suas heranças é um povo que não pode gerar algo de valioso e marcante para deixar às gerações vindouras - O património anda por aí nas canções, nos costumes, nas tradições, na boca de coração de nossas gentes, em cada dia que passa, em que cada festividade que se assinale, tanto como nas construções, nas matas, nos rios, nos parques naturais ou criados pelo homem. Ei-lo aqui e por todo o lado. Na sua diferença na afectação a cada local e a cada cultura é que está a sua riqueza maior. - Em termos muito gerais, dividimo-lo, à nossa maneira, em duas fases/classes: - Pré-Histórico – De significado mais ou menos conhecido, passando por códigos ainda praticamente indecifráveis, ou polissémicos até mais não. Em enigmas vários, caminhamos por aí sem sabermos bem por onde andamos, tendo, porém, a consciência que estamos perante trabalhos com milhares de anos de existência. - Histórico – Da escrita, dos romanos até à actualidade, ainda que nem tudo compreendamos com a clareza necessária, mas, aqui, é mais a luz que nos ilumina que a escuridão que nos tolhe os movimentos. PERPETUAR A MEMÓRIA - Somos filhos de cada tempo - Recebemos heranças, devemos conservá-las e transmiti-las aos nossos descendentes, mas acrescentando sempre algo de novo - Se o PATRIMÓNIO é para ser observado por toda a gente, não pode, nunca, deixar de ser usufruído e estimado por quem o habita. Deste modo, importa sempre que nunca tenhamos muito para oferecer e pouca gente por aqui a viver - É preciso pôr o património, todo ele, a falar - Mas “ Só se ama o que se conhece. E conhecer é difícil. Muito pior se quem pode não faz o esforço de dar a conhecer” – In “ A floresta em Portugal – Um apelo à inquietação, Víctor Louro, Gradiva, 2017” - PATRIMÓNIO E LITERATURA --- Teixeira de Pascoaes – “ ///Vejo as terras beiroas, que recordam/ O Minho e Trás-os-Montes... / São desertos planaltos amarelos/Verdes campos de milho/Entre íngremes colinas de pinheiros/ Onde murmura o vento o seu queixume/De cor crepuscular.../Afastadas montanhas: Caramulo/E Montemuro e a Estrela/Virgem Mãe do Mondego em penitência/ Vestindo um manto de perpétua neve... /// - In “ Portugal, a terra e o homem, antologia de textos de escritores do século XX, David Mourão-Ferreira, II Volume, 1ª série, FCG, 1979” --- Trás-os-Montes, um Reino Maravilhoso... “ Um mundo! Um nunca acabar de terra grossa, fragosa, bravia, que tanto se levanta a pino num ímpeto de subir ao céu, como se afunda nuns abismos de angústia não se saber por que telúrica contrição... Não se vê por que maneira este solo é capaz de dar pão e vinho. Mas dá... “ (Idem) - “ Duas dúzias de casas construídas de pedra solta de granito, cobertas quase todas de colmo, de telha muito poucas, alcachinadas, negras, tortuosas e dispostas ao ao acaso sobre o solo, como um bando de enormes corvos petrificados. O tom escuro das suas choças e dos seus casebres casa-se tão intimamente com a cor do terreno pedregoso e tostado que, vista de algumas centenas de metros de distência, a povoação parece uma pedreira... “ – A. Botelho, Mulheres da Beira - “ Um vale, um rio, os montes/Povoados dispersos/Aqui além/Quais jóias incrustadas na verdura/De cerrados horizontes// No cimo, um céu escasso/Limitado pelas linhas das montanhas/Guardando avaramente o seu tesouro/Sem permitir um passo/ Para fora// Lafões... / A harmonia do belo/O desespero do pouco/ A ânsia ardente/Do infinito/Tentando passar além/Inutilmente// Que os montes ciosos/Recolhem o seu esplendor/Vaidosamente/Ali se impõem/ Ali são donos/Princípio e termo/ O infinito...// Lafões, quão belo!/ Lafões, quão pouco! /// - Berta Brás – Cravos roxos, Croniquetas verdes-rubras - “ A altitude, as lonjuras em que a vista se alonga, e onde aqui e além cintilam à luz do sol as casinhas coloridas dos povoados, em cujas cercanias os verdes volvem mais moços e macios graças às vinhas e milheirais, tudo isso nos surpreende, nos empolga, nos enternece, não quer afastar-se dos nossos olhos, nos diminui, nos desorganiza! “ – Mário Rodrigues Cruzeiro, Momentos, 2008 - “ As casas, os caminhos, as estradas, os canais, os túneis, a cobertura vegetal do solo, as culturas, as explorações mineiras, os portos, as pontes são manifestações do poder humano... “ – In “Aristides Amorim Girão, Lições de Geografia Humana, Coimbra, 1936, p. 5 ” - E ainda “ .... È o homem o agente modificador da superfície terrestre. Mas também sofre a influência do meio físico... “ (Id) PATRIMÓNIO ao abandono - Santa Cruz da Trapa – Solar dos Malafaias - Cambra – Casa Senhorial - Pereiras – Casa dos Melos - Ribeiradio – Fábrica de Cerâmica - S. Vicente de Lafões – Antiga estação dos caminhos de ferro do Vale do Vouga - Complexos empresariais junto à Linha do Norte em quase toda a sua extensão Bons EXEMPLOS de recuperação e novos usos - Mosteiro de S. Cristóvão de Lafões - Balneário Romano das Termas de S. Pedro do Sul - Solar, Igreja, Cambra - Casa do Aido Santo - Nespereira - Casa do Paço de Vilharigues (Cabo da Torre) - Torres de Alcofra, Cambra, Vilharigues - Redescoberta da Anta de Antelas ( com cuidados a ter no futuro) - Casa do Paço – Bordonhos - Igreja antiga de S. Miguel do Mato - Património classificado - Em princípio e em geral, temos estes sistemas de classificação: - Interesse Nacional/Monumento Nacional (em Conselho de Ministros) - Interesse Público ( No respectivo responsável ministerial ou delegação em causa) - Interesse Municipal (No município) - Lei 107/2001, de 8 de Setembro e Decreto-Lei 309/2009, de 23 de Outubro - Estipulam-se zonas gerais e específicas de protecção com limitação às construções a certa distância - Oliveira de Frades - Anta de Arca – MN – 1910 - Casa Solarenga de Fornelo – VC (em vias de Classificação) – 1998 - “ “ “ Quintela – VC – 1998 - Pedra das Ferraduras Pintadas – MN – 1993 - Pelourinho – IIP – 1933 - Anta de Antelas – MN – 1993 - Ponte Ferroviária dos Melos – VC – 1998 - Pedra do Rasto dos Mouros – MN – 1910 - Conjunto Igreja Pinheiro – VC – 2001 - Igreja de Souto - S. Pedro do Sul - Castro de Nossa Senhora da Guia – MN – 1992 - Capela e Adro no mesmo local – MN – 1992 - Castro da Cárcoda/Carvalhais – IIP – 1955 - Igreja de Nossa Senhora da Nazaré – VC – 1995 - Igreja Matriz de Carvalhais – VC – 1950 - Ponte da Barreira, Manhouce – IIP – 1990 - Ponte de Manhouce – IIP – 1982 - Solar dos Malafaias, Santa Cruz da Trapa – VC – 1997 - Convento de S. Cristóvão de Lafões – MIP – 2010 - Piscina D. Afonso Henriques/Termas- MN – 1958 - Castro do Banho – IIP – 1957 - Convento dos Franciscanos ou de S. José – IIP – 1943 - Palácio de Reriz – IIP – 1977 - Pedra da Escrita/Serrazes – IIP – 1946 - Vouzela - Casa Solar Igreja, Cambra – VC – 1984 - Idem, Corujeira – VC – 1984 - Igreja Paroquial de Cambra – IIP – 1945 - Castro Cabeço do Couço – IIP – 1995 - Igreja de Fataunços – IIP – 1996 - Castro de Paços de Vilharigues – VC - Castelo/Torre de Vilharigues – IIP – 1944 - Capela Casa de Prazias, Ventosa – IIP – 1945 - Igreja Matriz de Vouzela – MN – 1922 - Casa dos Távoras – VC – 1984 - Paços do Concelho antigos/Biblioteca Municipal – VC – 1984 - Museu Municipal – VC – 1984 - Pelourinho – IIP - 1933 - Imagens de marca em Lafões - Se o nosso património é, só por si, algo que nos distingue de todos os outros espaços territoriais, Lafões tem uma marca muito própria, um património ímpar, porque nestas terras“ ... Em pleno coração da Beira Alta, uma unidade bem característica, toda ela incluída na Bacia do Vouga, nos aparece agora: é a sub-região de Lafões (... ), uma continuação da zona que designámos pelo nome de Beira minhota e pode afinal considerar-se um prolongamento projectado até ao coração da Beira-Alta (...) Os seus campos de cultura, xadrezados pelos cômoros de divisão da propriedade, onde a vinha se abraça às árvores de fruto, e emoldurados ainda pelas matas de pinheiros, carvalhos e castanheiros que revestem as maiores elevações de terreno, oferecem, com efeito, ao turista, um surpreendente espectáculo sem dúvida interessante: um pequeno retalho do Minho perdido em plena região montanhosa da Beira Central... “ – A. Amorim Girão. - Ocupando estes espaços, o homem, ao longo de milénios, deixou a sua pegada construtiva, uma mais valiosa que outra, mas todas elas fruto da força criativa de nossos antepassados. É esse o PATRIMÒNIO que deles recebemos e que temos obrigação de por ele zelar- A par dessas obras de mão humana, a natureza tem, aqui, um papel de relevo. - Desta, herdámos as montanhas do Caramulo, da Arada, da Gralheira, de S. Macário, locais de magia e encanto. Nelas encontramos a beleza agreste das alturas, os parques frondosos, aquém e além, as reservas naturais, como os Loendros de Cambarinho, que, sujeitos à inclemência dos trágicos incêndios de Outubro de 2017, são agora uma tristeza negra que se apresenta à nossa frente, mas que vão, de certeza, voltar a renascer como fontes de património natural que tanto nos enriquecem. - Nos Rios Vouga, Sul, Zela, Alfusqueiro, Gaia, Àgueda, Teixeira, Alcofra e tantos outros, vemos outra componente paisagística e patrimonial que nos enchem a alma, o olhar e o coração. - Nestes sistemas, vivem os animais que nos caracterizam como produtores de um património gastronómico de eleição, desde a vitela ao cabrito e a outras espécies da nossa fauna e flora. - Mãos sábias, inventaram, um dia, para nos deixarem em herança a melhor doçaria e pastelaria do mundo, outra parte importantíssima do nosso património. - No campo da construção, em casas com muita memória, temos, por exemplo, a Casa do Paço, em Moçâmedes, onde, antes mesmo da nossa nacionalidade, viveu o Imperador Ramiro, que liderou parte da Galiza e dizem que Viseu; a Quinta da Cavalaria, em Vouzela, berço de tantos vultos desta terra; o Solar dos Marqueses de Reriz, em S. Pedro do Sul, que acolheu, por diversas vezes, a Rainha D. Amélia e sua Família; o Balneário Romano das Termas, porto de abrigo e de cura do Rei D. Afonso Henriques; a Casa dos Melos, em Pereiras, uma família de nossos ilustres conterrâneos; a Quinta de Torneiros, em Oliveirade Frades, hoje um grito de alerta a pedir que a salvem, por favor; o Convento de S. Cristóvão de Lafões, que foi palco de cultura e de religiosidade, desde o século XII, de toda esta nossa região. - O que tem sido feito pelo PATRIMÓNIO - Com épocas de relativos sucessos e outras de desleixo ou abandono propositado, tem havido as duas posições ao longo dos tempos e dos lugares. Proliferam, por aquém e por além, as provas do carinho que se lhes dedica e as lágrimas de dor pela sua queda abrupta rumo à sua destruição total. Muitos são os exemplos de cuidados criteriosos e com óbvio retorno a todos os níveis. Veja-se Óbidos e outras localidades. Veja-se o Parque Natural do Gerês e outros. Anotem-se os milhares de visitantes que acorrem a uns sítios e a outros. Mas também há quase fracassos como o das Aldeias Históricas, 12 ao todo, valorizadas há mais de 20 anos, e que, agora, uma tese de doutoramento de Paula Reis, FLUC, nos indica que estas se encontram numa fraca dinâmica ou praticamente estagnadas. No entanto, insvestiram nelas cerca de 60 milhões de euros. Mas o certo é que, em dez anos, uma dezena delas perdeu 683 habitantes. Contrariamente a esta visão pessimista, o Parque do Pisão em Carvalhais e a recuperação da Aldeia da Pena parecem-nos serem um bom e positivo caso de estudo. O mesmo se espera, daqui a uns anos, poder vir a dizer daquelas aldeias que fazem parte de um novo projecto a criar na Serra do Caramulo. Já agora, por razões que se prendem com relevantes conquistas no campo da saúde, anote-se o que foi esta vila até há décadas e o que é hoje: um monte de destroços do seu anterior pujante património. - O que FAZER - Manter as memórias vivas, todas elas. Sermos arautos da defesa do nosso passado e construtores de novas pontes para o futuro. Agirmos sob o lema da responsabilidade, da autenticidade e da sustentabilidade das terras em que vivemos. Definirmos prioridades, pessoais, colectivas e instituicionais. Porque abençoados somos nós com as antas, os castros, as vias romanas, as igrejas e capelas, as estelas funerárias, as sepulturas antropomórficas, os palácios, as casas simples e rurais, os cantares, as águas, os moinhos, os lavadouros, as poldras, as alminhas, os foeiros dos carros de vacas, as charruas, os arados, as enxadas, as malhadeiras, a calçada à portuguesa, a broa de milho, as tradições diversas, o venha aqui, amigo, que tem uma porta aberta, uma pinga e um naco de presunto à sua espera, o parta comigo para a romaria, as danças, o folclore, o entremês, as filarmónicas, as novas artes, hoje recentes, amanhã também memórias de um outro tempo, a gaita de beiços, a boleia no carro das vacas, a malha do centeio, o alto do Murado da Várzea, as brilhantes pinturas da anta de Antelas, a anta da Lapa da Meruje, o Castro da Cárcoda, as águas quentes das termas e o Castro do Banho, o nascer do sol no S. Macário, o mar visto de Lameiro Longo, o Santuário de Nossa Senhora Dolorosa e as abundantes águas da Barragem de Ribeiradio... Aqui, em Lafões, até o ar é bom património. Não temos grandes castelos, mas possuímos pedras e paisagens que falam e pontes que nos levam para muitas outras valiosas vertentes de um rico património. Venha, veja, desfrute. O nosso PATRIMÓNIO quer receber os seus abraços. Venha e fique por uns dias. Nós agradecemos. - QUEM É QUEM na defesa e divulgação do nosso património: a nossa homenagem - Aristides de Amorim Girão - Monsenhor Celso Tavares da Silva - José Júlio César - José Coelho - João Luís Inês Vaz - Alexandre Alves - Manuel Correia Tavares - Alberto Correia - Moreira de Figueiredo - António Nazaré de Oliveira - António Lopes Baptista - Jorge Adolfo Meneses Marques - Domingos Cruz - Etc. Etc Oliveira de Frades, 18 de Maio de 2018 Carlos Rodrigues

quarta-feira, 16 de maio de 2018

A velha e a nova vila de Vouzela

Nvouzela18jun15 Vouzela no centro de Lafões A meio da encosta do Monte Castelo e de seu irmão Lafão, que, juntos, segundo se crê, deram origem à própria designação desta Região, a de Alafões, ou Lafões, mais especificamente, fica a vila de Vouzela, a terra de Vaucella, com o Vouga aos seus pés. Com este Rio como sua marca, uma outra se lhe cola na perfeição, a da sua profunda ligação à Serra do Caramulo. Com uma grande antiguidade, a sua história está cheia de dados de extrema importância, daqui tendo saído alguns dos mais prestigiados obreiros do nosso passado nacional, local e regional e até em termos de além-mar. Sede de freguesia, por si só, desde há muitos anos, agora faz parte da União que congrega também Paços de Vilharigues, que, com sua Torre, nesta tem um bom farol, a indicar tempos de outrora, renovados recentemente, estabelecendo um bom diálogo com a Nossa Senhora do Castelo e com o Monte Gamardo. Partindo nós de uma recolha de dados que remonta a a 1889, esta terra de S. Frei Gil, D. Duarte de Almeida, João Ramalho, Padre Simão Rodrigues de Azevedo e Morais Carvalho, entre tanta outra gente de peso, distribuía-se então pela Vila, Igreja (sic), Valgode, Caritel e os casais de Linhares, Cabrela, Ribeirinha, Candeeira, Pombal, S. Paio, Foz, Crujo, Ermida, Cavada, Pinheiro, Matas e Costeira, contando ainda com as Quintas da Sarnada (?), Continha, Lamas, Costeira, Matas, Regadas, Caritel, Poldras, Portelo, Porto-Salto, Cavalaria, Valgode, Avelar e Linhares, falando-se apenas da freguesia dessa época. Na vila, duas praças, a de Cima, a Velha, e a de Baixo, a Nova, rivalizavam entre si, isto é, a Praça da República e o Largo Morais Carvalho eram os centros que aqui se distinguiam. Entre estes espaços e a Igreja Matriz, ficava o Largo da Corredoura, local da Feira de então, pensando nós de que se trata da actual Alameda. Por estes sítios, ganhavam o seu sustento alguns comerciantes, dois farmacêuticos, ferreiros, serralheiros, sapateiros, alfaiates, havendo ainda oficinas de tecelagem de panos de linho, de estopa e burel, quatro fornos de poia (pão) e pisões nos Rios Vouga, todo o ano, e no Zela, em época de fortes caudais. Com uma boa centralidade política, a associação, por exemplo, do Pai de S. Frei Gil à corte e à “Câmara” de Coimbra, de D. Duarte de Almeida aos homens do D. Afonso V, de João Ramalho à colonização do Brasil, do Padre Simão de Azevedo à fundação da Companhia de Jesus e de Morais Carvalho à fina flor do Liberalismo fazem com que todas estas evidências sejam disso um testemunho indesmentível. Num tempo em que os aspectos religiosos também andavam de mão dada com as forças políticas, justificam-se as Igrejas e Capelas que por aqui foram existindo ao longo dos tempos: Igreja Matriz, da Misericórdia, de S. Frei Gil, Capela de Nossa Senhora do Castelo, de S. Sebastião, de S. João (Casa das Ameias, em preocupantes ruínas), de S. Pedro (Valgode), de Santa Catarina (Quinta da Sarnada). Em monumentalidade, porém, há muito mais a citar: Ponte, na Rua do mesmo nome, toda ela um património incalculável, Fonte da Nogueira, edifício da Antiga Câmara (Biblioteca Municipal), Museu Municipal, Estátua de Morais Carvalho, casas senhoriais e brasonadas, sendo por isso quase lícito afirmar-se que se está perante uma Vila-Museu. Assim sendo, se é importante valorizá-la e preservá-la, não menos determinante é, para um seu futuro sustentável, rasgar-lhe outros horizontes fora de muros, se assim se pode falar. Como é reduzido o espaço a ocupar, fiquemo-nos com estas datas e respectivas evocações, extraídas de um desdobrável das Festas do Castelo: 1093 – um dos primeiros documentos escritos sobre esta vila; 1307 – criação da Feira; 1436 – concelho de Lafões, D. Duarte; 1882 – estátua Morais Carvalho; 1885 – fundação dos Bombeiros; 1904 – ponte sobre o Rio Vouga; 1926 – Mercado Municipal; 1927 – extinção da Comarca, restaurada em 1973; 1929 – iluminação eléctrica; 1929 – Associação os Vouzelenses; 1931 – em segunda fase, Sociedade Musical Vouzelense; 1935 – Notícias de Vouzela; 1959 – Hospital da Misericórdia; 1962 – Colégio de S. Frei Gil; 1964 – Cooperativa Agrícola de Lafões; 1966 – Quartel dos Bombeiros/Prédio das Colectividades. Do passado recente, muito anda por aqui escrito. E dos tempos de outrora fica quase tudo por dizer, mas não é possível ir mais longe, por agora. Carlos Rodrigues, in “ Notícias de Vouzela”, Junho, 2015