terça-feira, 9 de abril de 2019

S. Miguel do Mato com uma longa história

S. Miguel do Mato, dos imperadores de Leão a Angola Hoje, vamos falar de uma terra de que recordamos um dos pinheiros mais exóticos do mundo, aquele que escolheu para sua morada a torre de um velha Igreja, a de S. Miguel do Mato, visto da antiga linha do caminho de ferro do Vale do Vouga, nas muitas viagens feitas entre Pinheiro de Lafões e Viseu e vice-versa, em anos que se vão perdendo na nossa memória. Impávido e sereno, resistente e teimoso, por lá continuou anos a fio, uma boa cepa, assim o cremos. Com esta evocação arbórea, aproveitamos esta boa oportunidade para falarmos de uma das freguesias do concelho de Vouzela, que muito o tem engrandecido, S. Miguel do Mato. Prenhe de história, nela viveu, por exemplo, um dos mais ilustres nobres da Idade Medieval peninsular, D. Ramiro, Rei (?) de Viseu, Imperador de Leão, que residiu na Quinta do Paço nos primeiros anos de 900, ao mesmo tempo que vagueava pela citada nossa capital de distrito e pela Galiza, onde haveria de afirmar sua crescente importância. Séculos depois, na história deste território, haveria de nascer D. Isabel Almeida Ferreira (cerca de 1659), que viria a estar na origem de uma das mais notáveis casas e famílias da nossa região – os Malafaias de Serrazes e Santa Cruz da Trapa. Consta que os célebres Pastéis de Vouzela tiveram a sua doce origem em religiosas de Moçâmedes, que passaram pelos Conventos no Porto, antes de virem fixar-se na vila que tem a fama e o muito proveito de ser o berço desses mesmos Pastéis. Mas esta terra não se ficou por aqui. No século XVIII, um nosso conterrâneo, José de Almeida e Vasconcelos do Soveral de Carvalho da Maia Soares de Albergaria, um nome grande de Portugal, de Angola e do Brasil, o Barão de Moçâmedes e Visconde da Lapa, Coronel de Cavalaria, Governador de Goiás/Brasil e Capitão-General de Angola, fez surgir a cidade de MOÇÂMEDES, lá em baixo, na África, hoje designada por NAMIBE, o que é uma enorme carta de recomendação para estas povoações de S. Miguel do Mato. Senhor de alma enorme, com saudades de sua aldeia, replicou seu nome nas paisagens africanas para que nunca mais viesse a ser esquecida. Boa ideia, melhor concretização! - Mas o passado de S. Miguel do Mato é muito mais antigo Se estes são dados, por assim dizer, quase contemporâneos, S. Miguel do Mato vai buscar os seus pergaminhos a outros tempos muito anteriores a estes. Por aqui andaram povos ancestrais com milénios de vivências. Um deles, os Romanos aqui estamparam a sua força empreendedora, vincada nos vestígios de duas estradas. De acordo com “Vias romanas em Portugal – Itinerários”, esta freguesia era bafejada por duas vias, uma do Porto a Viseu, tocando estes territórios na sua passagem por Lufinha, Quinta da Comenda a caminho de Gumiei. A outra, vinda do Cabeço do Vouga/Marnel também para Viseu, saía de Vouzela por Fataunços, Figueiredo das Donas, Quinta do Paço, Carvalhal do Estanho, Caria, Bodiosa, havendo, a certa altura, uma variante de Queirã a Viseu, via Igarei e Couto de Cima. Com base numa série de fontes, incluindo o Rancho Folclórico de Vilar que, para além do bom trabalho de pesquisa etnográfica, cultural e musical, ainda nos oferece boas informações de História, sabe-se que D. Afonso Henriques, em 1133, doara a “villa” de Moçâmedes a Fernão Peres. Ao entrarmos no período agitado das guerras com Castela, em 1383/1385, esta terra surge ao lado dos castelhanos, através do Senhor de Moçâmedes e de Lafões, Dom Henrique Manuel de Vilhena. Despojado dos poderes, segue-se-lhe Martim Vasques da Cunha e Gonçalo Pires de Almeida. Com o Reis D. Duarte e D. Afonso V, aqui se notabilizaram João de Almeida, Luís de Almeida, Fernão de Almeida, Duarte de Almeida, o Decepado de Toro. Actualmente, com 924 pessoas (2011), já foram bem mais, em 1950 – 1497; 1960 – 1779; 1970 – 1315; 1981 – 1331; 1991 – 1251; 2001 – 1128, descendo a fasquia do milhar, como vimos, precisamente, em 2011 – 924, números que muito nos preocupam. Para se compreender este fenómeno, hoje há apenas um Centro Escolar para toda a freguesia, por sinal, bem moderno e atraente, com trinta e sete crianças, desde o Jardim de Infância ao 4º ano de escolaridade. Ainda há anos, em 2003/2004, tínhamos as escolas de Caria, também com JI, Lourosa e Moçâmedes. Recuando um pouco mais, descobriremos as Telescolas de Moçâmedes e Caria, o que há não passa de uma boa memória. Religiosamente, nestas terras que já pertenceram aos concelhos de Lafões e de S. Pedro do Sul e agora de Vouzela, podemos assistir às Festas de S. Sebastião, Nossa Senhora das Dores, Corpo de Deus, Espírito Santo, S. Miguel Arcanjo (Padroeiro), Santo António, nas Burgetas, Senhor da Agonia, Ermida da Frádega, apinhada de lendas, Nossa Senhora do Milagres, Caria, Sagrado Coração de Maria, Vilar. Com uma Igreja nova, ainda meio recente, a antiga por lá se mantém, dizem-nos que com algumas obras de beneficiação e conservação, o que é muito bom sinal. - Sinais de modernidade Numa breve panorâmica, são evidentes algumas boas marcas de renovação de espaços, como o da velha Estação, a albergar a Sede de Freguesia, o novo Centro Escolar, o Centro Social, nas antigas instalações da Casa do Povo, sendo que as antigas salas da Escola Primária são ocupadas pela Banda e pela Catequese. Destaca-se ainda a Banda, nascida em 1875, e o ACR/Rancho Folclórico de Vilar, com páginas brilhantes na área em que desenvolve a sua actividade, a Associação Social Cultural e Desportiva, a Associação dos Amigos do Senhor da Agonia, a Fundação Padre António de Almeida Oliveira e o Grupo Desportivo. Em matéria de dinamismo empresarial, se outrora as Minas de Volfrâmio e Estanho marcaram estas paisagens, hoje detectam-se boas experiências noutros sectores, alguns deles de ponta, como aqueles em que se fala de uma nova agricultura, sem esquecer outros planos. Importando atrair a juventude, esse é o desafio que nos deve mobilizar a todos. Neste âmbito, por feliz acaso, tivemos o grato prazer de, no passado dia 29 de Março, assistirmos a um sinal de vitalidade de seus jovens, quando o Dr. Ricardo Lopes, um natural destas povoações, fez a apresentação de seu livro “ Uma marioneta na cruz”. E com esta mensagem de esperança para o futuro, nos ficamos por aqui, sendo que S. Miguel do Mato tem muito por onde andar e um vasto caminho a percorrer. Boa viagem! Carlos Rodrigues, in “Notícias de Vouzela”, Abril, 2015

sexta-feira, 29 de março de 2019

Muita arte em Oliveira de Frades

Criativarte inundou o centro da vila Pelo segundo ano consecutivo a vila de Oliveira de Frades encheu-se de cor e magia cultural e social, ao trazer para a rua, pelas mãos do Criativarte, a música, a pintura, o cinema, os artesãos da pedra e da madeira, a pesca, os grupos musiciais, a poesia, as oficinas de culinária, as exposições, a dança e os palhaços. Durante a tarde do passado domingo, o difícil foi fazer escolhas, tanto era o encanto que vinha de todo o lado, desde a zona do Museu à Câmara Municipal. Numa espécie de correria, lá se foi conseguindo apanhar um bocadinho de cada uma das manifestações culturais que por ali iam acontecendo, acompanhando o bom tempo que se fez sentir. Por magia, tivemos mesmo um encontro com uma pescaria feita no lago do Jardim Dr. Sá Carneiro, que recebeu umas dezenas de trutas apanhadas pelos mestres da Associação de Caça e Pesca de Oliveira de Frades. A seu lado, numa louvável, iniciativa, descobrimos legumes e chouriças, em produção absolutamente caseira, uma boa forma de dinamizar a economia local. Vimos ainda frutas frescas, cebolas, bebidas diversas, pintarolas, tendas de roupa e outros artigos, numa vasta mostra do que por aqui se faz ou pode fazer. Com MimArte, descobrimos a criatividade dos nossos alunos, com a Binaural, percorremos um Arquivo Digital, topando ainda um carpinteiro em plenas funções, Nuno Nascimento, e um artista polifacetado, ali em modo de pintura, Carlos Almeida, com quem trocámos algumas palavras, assim como com João Marques, bastante empoeirado, por ali estar a esculpir a pedra ao vivo. Numa série de acções inclusivas, a ASSOL também ali marcou a sua presença, desde a abertura à confecção de biscoitos. Com a entrada na Primavera desta forma cultural, Oliveira de Frades, em mais um Criativarte, mostrou que tem pano para mangas, este e o que há-de vir noutras alturas, como se espera e se deseja. Carlos Rodrigues, in “Notícias de Vouzela”, 28mar19

Novos passes, mais discriminações negativas para o Interior

Continuam as duras assimetrias Transportes públicos com novos passes sociais A partir de 1 de Abril, o território português vai viver uma nova fase na política de transportes com a entrada em cena de passes sociais muito mais baixos nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto. Tal como vem sendo hábito em políticas públicas, a parte restante dos nossos concelhos vai ter de esperar mais uns dia, falando-se em 1 de Maio, em decisões que vão sair das respectivas Comunidades Intermunicipais. Para aquelas duas áreas vão 85% dos fundos afectos a este programa, na ordem dos 116 milhões de euros, cabendo à grande maioria dos nossos outros espaços a modesta verba de 12 milhões de euros. Pretendendo-se, como se refere na Portaria 1234-A/2019, de 2 de Abril, atingir a neutralidade carbónica e alterar padrões de mobilidade, entre outros objectivos, a parte de leão vai direitinha aos grandes centros e as migalhas espalham-se pela maior parte da área do nosso país. Se já vimos alusões a uma desproporção de 11 para 1, com os passes de Lisboa e do Porto a andarem à volta de 30 e 40 euros por mês, o Presidente da CIM (Comunidade Intermunicipal Viseu Dão Lafões), Rogério Abrantes, diz-nos que, pelas suas contas, rondam-se as nove vezes mais para aquelas urbes e arredores. Com 18 municípios na AM de Lisboa e doze zonas na do Porto a serem abrangidas por este programa, cabe às outras CIM em questão tratar dos territórios que lhes estão afectos e às Câmaras Municipais assumirem os compromissos com os seus moradores, mediante verbas a transferir no orçamento de estado. A propósito destas matérias, o Presidente da CIM Viseu, Dão Lafões, Rogério Abrantes, confessou-nos que esta entidade vai ter também “ passes sociais, andando à volta de 25% de descontos nos bilhetes comprados e 20% nos passes em questão, o que se aplica em 13 dos 14 municípios e em parte de Viseu, que tem projectos à parte”. Com a candidatura já aprovada em sede de fundos ambientais, acrescentou que “ é nossa intenção ter tudo isto no terreno ainda antes de 1 de Maio, se tudo correr bem”. Para esse efeito, decorrem negociações com as empresas transportadoras, que parecem levar a bom porto. Colocado perante a situação de virmos a receber tão baixas capitações, Rogério Abrantes disse que “isto me dói um bocadão, mas o Interior sempre assim tem sido tratado...” Entretanto, garantiu, a CIM não se vai calar, nem deixar de lutar pelos seus interesses e direitos. Quanto a transportes públicos, para já, são estes os quadros traçados. A ver vamos no que isto vai dar... Carlos Rodrigues, in “Notícias de Vouzela”, 28mar19

Nasceu em S. Pedro do Sul o maior cozinheiro do século XX

Um cozinheiro que marcou o século XX João Ribeiro, de Sul, singrou na alta gastronomia Há quem assegure que João Ribeiro, nascido em Adopisco, freguesia de Sul, no ano de 1905, foi provavelmente o melhor cozinheiro português do século XX. Assim o afirmou José Quitério, acrescentando Maria de Lourdes Modesto que foi o único a poder ser considerado Mestre. No mesmo sentido, um recente programa televisivo afinou pelo mesmo diapasão. Se estas notas são, em si, credoras da nossa admiração, o concelho de S. Pedro do Sul e a região de Lafões não podem deixar de incluir nas suas referências, em termos de personalidades, esta figura de âmbito nacional. É isso que aqui estamos a fazer: reavivar a sua memória no jornal da sua terra, o “Notícias de Lafões”. A seu respeito, o blogue “panelasemdepressão”, com base em “ O livro do Mestre João Ribeiro”, fala nas contingências que o levaram a Lisboa, a cidade-esponja que faz despovoar o resto do país, ontem e hoje. Com 13 anos, “parte, empurrado pela casa pobre dos pais para a capital em busca de mais pão. Depois de curta passagem por casa de cruel parentela, foge e procura trabalho onde pode. Carregador de carvão, empregado de tanoaria, trabalhador numa quinta e empregado em armazém de vinhos, JR começou a odisseia em 1918, que, na década seguinte, torna rumo consistente, numa aventura culinária que nunca mais pára”. Cheio de sonhos e com uma enorme vontade em trilhar outros caminhos na sua vida, à sua frente abriu-se um autêntico auto-estrada, que ele soube construir a usar. Foi na cozinha que encontrou as novas vias. Humilde e voluntarioso, absorveu todas as lições que foi recebendo, incluindo as influências francesas que encontrou durante o seu percurso de aprendizagem. Mas nunca esqueceu as iguarias portuguesas e suas delícias. Ao bacalhau, dedicou mesmo uma especial atenção. Deste modo, reza a sua biografia, no ano de 1921, entra para o Suíço Atlântico Hotel, onde pontifica a gastronomia francesa, prosseguindo a sua carreira no Tavares Rico (lidando de perto com o Chefe Clement Parceau), no Palace de Vidago, no Universal de Pedras Salgadas, mas seria o Aviz Hotel, onde entrou em 1934, a guindá-lo para a a alta roda desta arte. De suas mãos, saiu ainda o Restaurante Aviz, também de enorme nomeada, onde trabalhou até 1975. Quanto a esta casa, Alexandra Prado Coelho escreveu, um dia, no “Público”, que “ foi o melhor restaurante de Lisboa. À (sua) frente estava o mestre João Ribeiro e, por detrás dele, a família Rugeroni...”. Uma curiosidade colhemo-la nesta fonte e é esta: os ovos, ia buscá-los ao Palácio de S. Bento, onde a governanta de Salazar tratava as respectivas galinhas... Da sua lavra é ainda, na tal luta pela valorização das nossas ementas, o Bacalhau Lisbonense, um sucedâneo do “à Gomes de Sá”, com sucesso reconhecido. Na vastidão do seu legado, como alega José Quitério, um dos autores do livro atrás citado, constam 252 receitas manuscritas em dois cadernos, “Receitas práticas aprovadas” e “ Livro de receitas”. São imortais os seus seguintes pitéus: pasta de santola, o referido bacalhau, os crepes flameados e a perdiz à Convento de Alcântara e da Guarda, o salmão, o espadarte, o pato fumado, entre outros. Até nos molhos, este nosso conterrâneo escreveu boas páginas, como refere o “tugagourmet”, quando declara que”... Chegados ao século XX, temos por referência António Maria de Oliveira e João Ribeiro, incontornável chefe de cozinha do Hotel Aviz durante 25 anos... “ Devido à sua real categoria de cozinheiro de eleição, Salazar, para os grandes momentos e convívios da história do Estado Novo, não dispensava os serviços de João Ribeiro. São desses tempos algumas peripécias por ele narradas, no sentido de remediar situações de aflição, como aquela em que os perús que tinha para uma refeição no Alentejo (pensamos que em homenagem a Franco), em tempo de calor, ganharam um cheirinho, o que se resolveu com um “banho” de perfume. Isto mesmo ouvimos nós, em entrevista que lhe fizemos na sua casa de Adopisco, há uns anos, para o colega Notícias de Vouzela, onde estavam também os saudosos Fernando Pereira e o Chefe António Silva, que nutria pelo Mestre uma enorme consideração. Convivendo com as mais altas individualidades mundiais, teve em Calouste Gulbenkian um companheiro e um apreciador de sua culinária durante grande parte de sua vida. Eisenhower, Evita Péron, Maria Callas, Ava Gardner, Mastroiani, Humberto de Itália, os Windsons, a Rainha Isabel II e D. Amélia foram alguns de seus afamados clientes. Com este percurso tão rico, João Ribeiro, que aqui morreu em 1988, tem de ser uma presença obrigatória na história desta nossa região de Lafões. Já o sabíamos e agora aprofundámos essa noção, que partilhamos com os leitores deste “NL”... Carlos Rodrigues, in “Notícias de Lafões”, 28mar19

terça-feira, 19 de março de 2019

CCAM de Lafões pode aliar-se a Lamego

Possível fusão com Lamego Associados da CCAM de Lafões com decisão difícil Dentro de dias, na próxima reunião da Assembleia-Geral da Caixa de Crédito Agrícola de Lafões, os seus asssociados são chamados a apreciar e votar uma decisão com fortes impactos no futuro desta Instituição: a eventualidade de uma fusão com a congènere Beira-Douro, de Lamego, tal como propõem as respectivas Administrações. Sabendo-se que não é fácil encarar este tema e problema de ânimo leve, devido aos impactos que tal tomada de posição vai provocar, quer siga num sentido, quer noutro. Ao que temos apurado, as opiniões divergem, havendo quem defenda essa fusão por pensar que a nova Caixa será muito mais forte em termos de capitais e capacidade de acorrer às solicitações diversas, alegando que essa é uma espécie de directriz que emana da propria Caixa Central que pretende que as suas Associadas sejam robustas e capazes de resistir a todas as movimentações, algumas delas perigosas, do mundo da banca; por outro lado, os opositores a esta medida contrapõem com o facto de entenderem que assim a nossa Caixa perde a sua própria decisão e o seu peso, até porque se vai juntar a uma outra instituição com mais poder e mais influência, o que pode fazer perigar a capacidade de Lafões se afirmar e ter a sua voz própria. No historial da CCAM de Lafões há já uma outra situação similar, a de uma proposta, feita há anos, para se juntar a Viseu, que não teve a aceitação dos associados. Desta vez, veremos qual será o veredicto final, o que só se saberá depois de quem de direito se ter pronunciado. Recordamos que, até se chegar a esta actual Caixa lafonense, existiram três instituições independentes, uma em cada concelho, Oliveira de Frades, Vouzela, que se uniram há uns bons tempos, e S. Pedro do Sul, que se veio a juntar em 2006, assim se criando a actual estrutura, que conta com estes três balcões e ainda os de Ribeiradio, Campia e Santa Cruz da Trapa, ao que tudo indica que vão continuar sem ser mexidos, assim como não haverá alterações no pessoal que lhes está afecto. Este é mais um argumento de quem está a favor da fusão. Mas para a outra parte, os perigos, a esse nível, podem vir a aparecer. Em Lafões, hoje o panorama é este: a discussão entre continuar-se sozinho ou dar os braços a Lamego num futuro casamento. Como até ao lavar dos cestos é sempre vindima, o futuro, neste caso, está nas mãos dos associados. Soberanos, cabe-lhes decidir. Entretanto, como complemento, falemos um pouco do Crédito Agrícola na sua vertente histórica: na sua origem, esteve sempre uma dimensão que nos é querida, a da proximidade total. Em Portugal, depois das leis de 1866/67, oriundas do então Ministro das Obras Públicas, Andrade Corvo, com vista a transformar as Confrarias e Misericórdias em instituições de crédito, tivemos o nascimento do verdadeiro crédito agrícola já depois da implantação da República, com a decisão do Ministro do Fomento, Brito Camacho, a 1 de Março de 1911. Com a Lei 215, de 1914, e posterior regulamentação de 1919, definem-se, em definitivo, as actividades inerentes às CCAM. Em 1978, dá-se um passo gigantesco em frente, criando a FENACAM – Federação Nacional das CCAM. Em 1982, nasce o Regime Específico para o Crédito Agrícola Mútuo, deixando estas Caixas de estar sob a alçada da CGD, avançando a Caixa Central, que surge em 1984. Três anos depois, em 1987, constitui-se o Fundo de Garantia. No ano de 1991, adaptam-se as regras em vigor ao Direito Comunitário. Nesta marcha com mais de 100 anos, a tendência veio sempre a caminhar no sentido do fortalecimento do Crédito Agrícola, que respira uma certa saúde, sendo até uma exemplo de boa sobrevivência no campo da nossa banca que está ainda carregada de problemas e a reflectir-se, infelizmente, no bolso de cada um de nós. Com a Caixa Central a ter cada vez maior liderança e sendo um factor de imposição das suas ideias nas próprias Associadas, sabe-se que estes processos de fusão têm bastante da sua mão. Bem ou mal, não sabemos. Mas, à primeira vista, perde-se a essência matriz destas nossas Instituições locais: a sua proximidade. É isso que se teme. E não é pouco. Com um território a esvaziar-se de equipamentos, perder mais esta sede de autonomia e voz própria não é assim muito agradável. Não sendo peritos na matéria, apenas queremos o bem de Lafões. Qual é ele neste campo? Fica no ar esta questão... Carlos Rodrigues, Notícias de Lafões, Mar 2019

1948, a Casa de Lafões luta pela EN 333

No ano de 1948 Mais uma acção da Casa de Lafões em Lisboa a favor da nossa região Recuando nos tempos, constatamos que a Casa de Lafões, de Lisboa, nascida em 1911, inicialmente com a designação de Grémio Lafonense, teve como objectivo primeiro e, nessa altura, principal, lutar pela passagem da Linha do Vale do Vouga por estas nossas terras. Em 1913 e 1914, pôde, finalmente, abrir as garrafas de champanhe e fazer ir para os céus enormes descargas de foguetes, porque o comboio ido de Espinho e de Aveiro chegou a Viseu e cortou estes territórios de uma ponta a outra, no sentido horizontal. No meio de muitas azáfamas, sempre em favor do solo-pai e mãe, foram-se sucedendo as diligências por esta ou por aquela finalidade. Tudo servia para esta Instituição intervir, desde as Comissões de Melhoramentos às festividades e eventos locais, em cada uma de suas localidades. Oliveira de Frades, S. Pedro do Sul e Vouzela nunca foram concelhos esquecidos na grande capital pelas nossas gentes. Que o digam, por exemplo, os saudosos Hospitais das Misericórdias... A ilustrar estas afirmações, eis que, no ano de 1948, é pedida uma audiência ao Ministro das Obras Públicas com vista a fazer avançar “ o estudo e acabamento da abertura do troço da estrada de 3ª classe nº 333 entre Águeda e Cambarinho”, cujo traçado já se iniciara em Vagos. Por uma nota inscrita na cópia do ofício enviado, sabe-se que tal encontro nunca chegou a ser realizado. Entretanto, feito o bom trabalho de casa, juntava-se uma exposição enviada aos Governos Civis de Aveiro e Viseu e aos municípios de Vagos, Sever do Vouga, Oliveira de Frades e Vouzela e ainda para a Junta Autónoma das Estradas, a célebre e todo poderosa de então, JAE. Como do Ministério nada disseram, as cartas com este trabalho acabaram por ficar também na gaveta e nunca caíram na mesa dos projectados destinatários. Como documento com forte interesse histórico para o estudo desta nossa Região de Lafões e intervenção das entidades que a constituíram, ontem e hoje, dele aqui registamos alguns excertos, a saber: - “ Os adeante assinados, naturais ou habitantes da região entre Águeda e Vouzela, com os fundamentos que vão expõr, respeitosamente pedem a V. Exa se digne mandar actualizar o estudo e proceder ao acabamento da abertura do troço da estrada de 3ª classe, nº 333, entre Àgueda e Cambarinho, no concelho de Vouzela. Foi esta estrada classificada pelo decreto nº 34593 de 11 de Maio de 1945 com a designação de Vagos à Ponte de Ribamá, passando por Palhaça, Águeda, A-dos-Ferreiros, Talhadas, Cambarinho, Vouzela, etc. Primitivamente fora estudada e classificada como EN nº 13, partindo da EN nº 10, próximo de Águeda e terminando em Viseu. Isto significa que, já na época que se estudou a nossa principal rede de estradas, esta via era considerada de principal importância para a ligação da Beira Alta ao Litoral. Veja-se que tendo a estrada Lisboa-Porto o nº 10, o estudo desta veio logo a seguir com o nº 13. Assim se consagrava e reatava uma tradição milenária, posto que o seu traçado seguia, com pequenas variantes, o itinerário da Estrada Imperial Romana (...) Foram mestres na matéria os romanos... “ Como vemos por estes apontamentos e outros que lhes vamos juntar, a Casa de Lafões não brincou em serviço e quis levar ao Ministro um levantamento com cabeça, tronco e membros. Só que este boa tarefa foi abafada pela citada recusa ministerial. Curiosamente, o autor desta crónica neste “Notícias de Lafões” levou a cabo, em 2013/2014, uma pesquisa que deu origem a uma série de exposições fotográficas e documentais, que expôs na Vagueira (Vagos), Oliveira de Frades e Vouzela, onde se deu conta dos locais que serviu e dos passos dados até à sua conclusão, que, ironia do destino, também nunca podem ser considerados como completos. Teve esse “estudo” como designação a “Estrada dos VV”, por ligar Vagos a Vouzela. Voltando agora à tese da Casa de Lafões do ano de 1948, acrescentava-se que “ A estrada entre Vagos e Àgueda já existe, bem como troço de Cambarinho a Ribamá. Apenas falta a parte que, das proximidades de Àgueda vai a Cambarinho (sic) e, mesmo dentro deste lanço, já estão abertos alguns quilómetros em Talhadas e A-dos-Ferreiros(...) De Talhadas a Cambarinho, aproveitam-se uns quilómetros já abertos entre a Senhora da Graça e a Ereira. Daqui indo rente ao Pisco a ao fundo das Benfeitas, lugar da Ponte, de de aí, passando um pouco ao sul de Reigoso para ganhar Cercosa e por fim Cambarinho, num total de 10 a 12 km, atravessa-se o terreno ideal para a construção de estradas: a zona de granitos decompostos... Tem esta região (Lafões) o privilégio de, a par dos seus incomparáveis soutos e milharais, produzir a mais afamada vitela de Portugal e um dos seus vinhos mais castiços: o azal e o amaral... “ Fala-se depois das riquezas de Àgueda, do valor das pedreiras das Talhadas, do nosso riquísssimo folclore, da história, o alto valor turístico. E remata-se assim: “... Digne-se V. Exa mandar estudar as possibilidades regionais e a estrada que há 80 anos esperamos e verificará que não exageram os peticionários. Eles, como bons portugueses, apenas desejam que lhes facilitem as condições de vida da sua terra, que redunda em maior engrandecimento da nossa Pátria...” Com estas linhas, quisemos vincar quanto devemos à nossa Casa de Lafões de Lisboa. Serve apenas como nosso humilde tributo e homenagem, mais um entre tantos que a história desta Instituição regista... Carlos Rodrigues, in Notícias de Lafões, Março 2019

Ensino em Lafões

Ensino na região de Lafões com prestações aceitáveis Ensinos básico, secundário e profissional Desde o ano de 2001, o Ministério da Educação passou a adoptar a prática de publicitar o chamado ranking das escolas, pelo que é possível ir comparando a respectiva evolução ano após ano. Em linha directa, assim se poderá falar. Só que as tabelas apresentadas e vindas a público não evidenciam, de maneira nenhuma, toda a realidade educativa e seus contextos, que são muito diversos em cada uma das comunidades. Um outro dado relevante associa-se à diferença existente entre os sistemas públicos e privados, no ponto de partida e no de chegada e isso reflecte-se nos resultados finais. Nesta região de Lafões, a dicotomia atrás referida não entra nas nossas contas, por ser inexistente. Toda a educação é aqui pública e universal. Importa ainda dizer-se que são diferentes os prismas seguidos pelos órgãos de comunicação social que trabalham estas questões. Na análise que trazemos a este “Notícias de Lafões”, baseámo-nos muito no jornal o “Público” a que juntamos um cheirinho do “JN”. Não sendo gritantes as disparidades encontradas, mesmo assim os números não são bem iguais, num e noutro destes casos. Por isso, ficamos sempre com algumas dúvidas, além daquelas que vemos no próprio sistema. Apesar de tudo, porque a realidade é o que é, mais vale ter acesso a esta informação do que ficarmos calados, sem dizer água vai. Correndo um certo risco, aqui deixamos algumas tabelas, referentes a cada um dos concelhos e respetivos níveis de ensino, básico (3º ciclo) e secundário, acrescentando ainda a vertente profissional. - Básico – Em geral, Vouzela posicionou-se no 279º lugar no ranking dos exames, aqui considerando apenas os estabelecimentos que tiveram 50 provas ou mais, facto que faz excluir Campia com 42. Na posição 484 ficou S. Pedro do Sul, ficando Santa Cruz da Trapa de fora pelas razões apontadas, 42 provas. O lugar 504 calhou a Oliveira de Frades. Pormenorizando, temos: Vouzela – 106 provas; 279ª posição em ranking de exames; média de 3.15 em 2018; 3.33 em 2017; quanto ao lugar no ranking dos percursos directos de sucesso, ocupou o 562º; índice de habilitação dos pais, 8.83; percentagem de alunos sem acção escolar, 50%; taxa de retenção, 5.56 - Campia – 42 provas; média/2018 – 3.25; m/17 – 2.93; percursos, 911º lugar; habilitações pais, 8.83. - S. Pedro do Sul – 212; 484; 2.97; 3.05; 9.15; 70.70; 1.01. Nota: sem referências na nossa fonte ao lugar no ranking dos percursos directos de sucesso. - Santa Cruz da Trapa – 44; ...; 3.09; 3.07; 906; 7.42; 43.30; ... - Oliveira de Frades – 120; 504; 2.96; 3.10; 562; 9.08; 55.30; 6.38 - Ensino secundário (oito disciplinas) – Vouzela – média, 12.16; provas – 130; nº de ordem – 47; diferença entre a nota interna e a de exame – 1.60. No distrito, foi o concelho com melhor média. - S. Pedro do Sul – média, 11.28; provas, 243 ; nº de ordem, 119; diferença, 2.48. - Oliveira de Frades – m/10.59; p/174; o/234; diferença, 2.55. - Ensino Profissional/ Escolas Secundárias – S. Pedro do Sul, 97%, segundo lugar a nível nacional; Vouzela – 57% e Oliveira de Frades – 56%. - Escolas Profissionais – Vouzela – 77% de taxa de aprovação, 21º lugar nacional; Carvalhais – 72% - 26ª posição. Números são apenas números. Mas as escolas são e têm muito mais do que isso: têm alma e vida própria e esta dimensão aqui não se descortina. Nem outras variáveis bem dignas de ser analisadas e mostradas a todos nós. Deste modo, ficamos apenas com uma parte da realidade e talvez nem seja a maior, nem a mais relevante... Carlos Rodrigues, in Notícias de Lafões, 2019