quarta-feira, 1 de julho de 2015

Barragem de Ribeiradio, Jornal Público, Junho 2004, com um pingo de vaidade pessoal

O conturbado processo da Barragem de Ribeiradio, a construir entre Sever do Vouga e Oliveira de Frades, deverá conhecer novos desenvolvimentos no próximo dia 29. Isto porque os presidentes das câmaras de ambos os concelhos se deslocam a Lisboa para um encontro com o secretário adjunto do ministro da Economia. Um dos objectivos dos autarcas é tomar conhecimento do estudo financeiro encomendado pelo ex-ministro do Ambiente, Amílcar Theias, à Caixa Geral de Depósitos. Um estudo que visava apurar a viabilidade de um modelo de construção e exploração da obra assente na iniciativa privada, em substituição do investimento público inicialmente previsto. Todavia, a entrada de Arlindo Cunha para o Ministério do Ambiente reacende a esperança do financiamento governamental.Da reunião agendada para o próximo dia 29 deverão sair, pelo menos, esclarecimentos sobre o futuro do equipamento reclamado há mais de meio século pelas populações dos distritos de Aveiro e Viseu. Contudo, as expectativas dos autarcas de Sever do Vouga e Oliveira de Frades, respectivamente Manuel Soares e Carlos Tavares Rodrigues, vão mais longe e os responsáveis mantêm acesa a vontade de ver o Governo realizar a obra que visa regularizar o caudal do rio Vouga. "O novo ministro ainda não deve ter tido tempo de analisar o problema, mas acho que ele não vai ficar parado e deixar de aproveitar a Barragem de Ribeiradio", augura o social-democrata Tavares Rodrigues.No entanto, em cima da mesa mantém-se a hipótese da estrutura vir a ser construída pelo sector privado. Um modelo que implicaria, porém, uma alteração legislativa, uma vez que a actual legislação apenas permite o aproveitamento de 10 megawatts como limite máximo (uma mini-hídrica), o que ficará aquém das expectativas privadas. "Isso não dá para nenhum privado ir buscar o que investiu", confirma o socialista Manuel Soares, revelando que a barragem tem capacidade para produzir mais de 40 megawatts. "A alteração da lei para que a EDP fosse obrigada a comprar mais de 10 megawatts não me parece viável. Seria como os touros em Barrancos", argumenta o autarca de Sever do Vouga, alegando que "o processo será moroso". "Cheira a esturro", comenta.Opinião diferente tem o presidente da câmara de Oliveira de Frades. "É fácil alterar a lei, ainda mais quando é uma lei lacunar e cega como esta", defende Tavares Rodrigues, reclamando: "Estou-me marimbando para o chapéu jurídico que arranjem para a barragem. Eu quero é a obra feita". "Seja por financiamento misto, por parceria público-privada, pela alteração da lei ou pelo desdobramento em duas mini-hídricas, a obra tem que ser feita", insiste o autarca, lembrando que "a barragem é para toda a região e o país é que está a perder com isto".Igualmente determinados na defesa do projecto estão os deputados Miguel Ginestal e Afonso Candal, duas das figuras do Partido Socialista que mais se têm batido pela construção da barragem. "Uma coisa é corrigir o que está mal, mas o que este Governo fez foi abandonar uma prioridade, que era a construção da barragem. Se é por falta de verba, então que explique por que se propõe avançar com barragens novas em outros pontos do país. Não há justificação que explique esta decisão", protesta Miguel Ginestal. "A barragem de Ribeiradio é uma prioridade para os distritos de Aveiro e Viseu. Mas a verdade é que já vamos no terceiro ministro e a barragem foi esquecida", continua Ginestal, reclamando "uma posição clara dos autarcas, designadamente do de Oliveira de Frades". "Fizemos propostas para a inscrição do investimento em PIDDAC, nos orçamentos de 2003 e 2004, mas o Governo fez ouvidos de mercador e avança com outras barragens. Vamos continuar a pressionar o Governo", garante o deputado."É uma obra de grande relevância para Sever do Vouga e até para a regularização das águas da zona de Águeda", recorda, por sua vez, Afonso Candal, lamentando que "o Governo tenha abandonado a obra ao fim de dois anos, a fingir problemas". "Dois anos de atraso mostram falta de vontade política", critica Candal, considerando que uma eventual alteração legislativa "não demora dois anos". "Esta não é uma batalha perdida, a barragem não está feita, mas vamos ver. Não há passos sem retorno", conclui."A alteração da lei para que a EDP fosse obrigada a comprar mais de 10 megawatts não me parece viável. Seria como os touros em Barrancos"Manuel Soares, presidente da Câmara Municipal de Sever do Vouga"Estou-me marimbando para o chapéu jurídico que arranjem para a barragem. Eu quero é a obra feita"Carlos Tavares Rodrigues, presidente da Câmara Municipal de Oliveira de Frades

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